sexta-feira, 16 de junho de 2017

A doença dos aparelhos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Os motores das autárquicas estão a aquecer. O quadro de candidatos às câmaras municipais que o Jornal do Centro tem vindo a actualizar, ao longo dos últimos meses, está quase completo.

O PSD concorre a todos os concelhos do distrito de Viseu, o PS apagou-se em S. João da Pesqueira e no Sátão. Para já: Pedro Alves, 24 — António Borges, 22.

O caso do Sátão é difícil de explicar fora das lógicas pequeninas do aparelho socialista. É sabido que a ecologia dentro dos partidos tende a premiar as ovelhas que mais dizem ámen ao chefe de turno, repelindo, perseguindo, ou fazendo desistir quem pensa pela sua cabeça. Esta ecologia é hostil ao mérito e faz com que a vontade colectiva dos partidos não seja construída das bases para a cúpula, mas ao contrário: as decisões importantes tomam-se em cima e aplicam-se em baixo.

É por isso que o facto de Acácio Pinto não concorrer no Sátão com as cores do PS é da responsabilidade integral do presidente da distrital, António Borges. Quando um líder já não consegue pôr juízo nas suas tropas, em bom juízo já não é um líder.

Fotografia Olho de Gato
2. No concelho de Viseu, já há três candidatas à presidência da câmara (PS, CDS e CDU) e dois candidatos (PSD e BE). Três mulheres e dois homens. Se João Nascimento conseguir consumar a sua candidatura independente, então haverá paridade: três mulheres e três homens.

Isto é bom. Contudo, convém lembrar: aquilo a que se chama “política no feminino” é um gambozino. Não existe. Há boas e más ideias políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Há boas e más práticas políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Ponto.

Como vimos, ser homem ou ser mulher não nos diz nada acerca da qualidade de um político. Porém, há uma grelha de análise que é como o algodão, não engana. Basta aplicarmos a cada candidato, homem ou mulher, a seguinte pergunta: “esta pessoa tem ideias e acções, conhecidas e com valor, fora do aparelho partidário mais encardido?”

1 comentário:

  1. Está um calor do caraças e custa trabalhar assim.
    Num intervalo, li e apreciei muito este texto. Gosto de ler gente que pensa, mesmo quando não concordo. Esta crónica, de Joaquim Alexandre, fez-me lembrar tempos em que eu era tudo menos convencional e mais rebelde. Pena tenho de já estar gasto e saturado pois continuo convencido que, nesse tempo, em que acreditava, tinha razão! Hoje, penso que a minha geração podia (e devia...) ter mudado tudo, mas desistimos cedo demais.

    “As eleições autárquicas são um momento fundamental da nossa democracia. São as eleições com maior proximidade entre eleitos e eleitores, a elas concorrendo pessoas que são localmente conhecidas e reconhecidas (ou não), com forte personalização. Embora a partidarização seja muito forte, como em toda a vida pública portuguesa, a presença dos partidos é menor e muitas vezes diferente, visto que alguns autarcas têm muito mais independência das direcções partidárias do que os deputados, e não se coíbem de exprimir opiniões críticas, principalmente quando tem legitimidade eleitoral própria. Em Viseu, para já, encontramos um insuportável cinzentismo revelador da apropriação da política por agências de marketing e comunicação, que pululam à volta dos partidos. Exemplo, sem originalidade, sem conteúdo, usando as mesmas palavras, os mesmos slogans, dum vazio impressionante é o verbo utilizado pelos dois principais candidatos (PPD e PS), nos primeiros cartazes: fazer! “ - (adaptado de Pacheco Pereira).
    A menos de 4 meses do dia das eleições autárquicas, quem é o melhor candidato, dos já apresentados, à gestão da Câmara Municipal de Viseu? O melhor candidato à Câmara não sei. Todavia, o pior sei.

    A origem do problema está no funcionamento deficiente dos partidos. As manobras, as jogadas de bastidores, os truques, os jogos dos aparelhos partidários, foram desgostando e afastando os cidadãos e minimizando o exercício da cidadania. Cada vez menos pessoas olham para os partidos como expressão das suas preocupações. Cada vez mais pessoas deixaram de ver os deputados e os eleitos locais como representantes do Povo.
    E neste contexto, cito Ana Catarina Mendes, na Assembleia Figueirense, no decorrer da Sessão Encerramento da Reunião de Trabalho das Federações de Coimbra, Aveiro e Leiria do Partido Socialista, sobre as Autárquicas 2017, no seu discurso, teve uma pérola preciosa: "as listas de independentes, são o maior atentado à democracia e à cidadania, porque o único objectivo que os move é enfraquecer os partidos."

    Nada que não soubesse - há muito. Soube-me bem saber que estou queimado pela frontalidade. Sobretudo, por ser pela frontalidade educada. Habituado a lidar com paradoxos: este, agradou-me sobremaneira. Sou um cidadão e não desperdiço a possibilidade de ser voz, usando este espaço, por benevolência do Sr Gato. Mas, pouco a pouco, de desilusão em desilusão, vou dando conta do retrocesso dos valores de Abril.

    A terminar, uma declaração de interesses: conheço há muitos anos Acácio Pinto (PS) e a sua não integração na lista de deputados, a esta legislatura, foi uma grande injustiça. Quanto à candidatura à Câmara do Sátão, as decisões de um presidente de federação têm de ter por base a coerência e argumentos válidos e suficientes. A semelhança entre as sociedades modernas e as sociedades tribais é apenas uma: sobrevivência! E o que interessa é que o sistema oligárquico, que insiste em dar voz sempre aos mesmos, funcione. Ponto!

    Vamos seguir o conselho de Joaquim Alexandre: “basta aplicarmos a cada candidato, homem ou mulher, a seguinte pergunta: “esta pessoa tem ideias e acções, conhecidas e com valor, fora do aparelho partidário mais encardido?”

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