sexta-feira, 30 de junho de 2017

Fazimentos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Os produtos financeiros são cada vez mais complexos e até os profissionais têm dificuldades em perceber alguns. As coisas complicam-se quando um cidadão comum é confrontado com um molho de páginas impresso em letra pequenina, cheio de jargão técnico, escrito numa língua de trapo inacessível.

Um estudo feito em 2015 por um grupo especializado em serviços financeiros e supervisionado por um professor da Universidade de Cambridge apurou que nove milhões de súbditos de sua majestade sofrem de fobia financeira. Isto é, um em cada cinco britânicos tem “sensações de ansiedade, culpa, tédio, ou descontrolo para cuidar do seu próprio dinheiro”.

Não achei nenhum estudo sobre a fobia financeira dos portugueses, mas o que aconteceu aos lesados do BES e do BANIF só deve ter aumentado o problema.

Os trabalhadores precários e os desempregados, como explica Guy Standing no seu livro “O precariado, a nova classe perigosa”, estão ainda mais desprotegidos. O seu acesso a aconselhamento financeiro é limitado, estão mais expostos a financiamentos abutres e os bancos carregam nas comissões das contas mais modestas. Esta dificuldade em “tomar decisões racionais” com o dinheiro é, também ela, um factor de desigualdade. E, para estas pessoas, uma boa ou uma má decisão pode significar “a diferença entre o conforto modesto e a miséria”.

Esta semana o PS anunciou legislação para impor transparência e travar vendas agressivas de produtos financeiros e depósitos complexos. Ontem já era tarde.


2. No concelho de Viseu, a candidatura “Fazer por Viseu” (PS) propõe-se ficar com 2,5% do nosso IRS. Já a candidatura “Viseu faz bem” (PSD), no poder, tem ficado com 4%.

Havia um anúncio de um laxante que passava nas televisões a toda a hora, até durante as refeições, que acabava em crescendo com um “E faz você muito bem!” É um slogan apropriado para os cartazes destes “fazedores” com tão pouco respeito pelo nosso dinheiro.
Fotografia Olho de Gato


Autobiografia fenómeno-F(re)udiana




fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro

só não fui é paneleiro

fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro

só não fui é paneleiro

fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro

só não fui é paneleiro

fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro

só não fui é paneleiro

trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro

só não fui é paneleiro

e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro

só não sou é paneleiro.
E. M. de Melo e Castro




quinta-feira, 29 de junho de 2017

Quando erro

Pintura de Jenny Morgan 


Quando erro — e tenho errado
muito — pergunto sempre: Poderia eu ter errado melhor?
José Rodrigues Miguéis


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Woman, snake

Daqui



Like a woman in this town
Don't crawl, you're not a dog
Make a stand, they'll understand
You're a woman, not a snake
For god's sake

Like a snake in the desert
You must bite your life
Like a snake, woman
Woman, snake
You're the queen of this tribe

Woman, snake
Woman, snake
Woman, snake

terça-feira, 27 de junho de 2017

A pele

Fotografia de Berenice Abbott


A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro

mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra

porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo

dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.
Pia Tafdrup




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Uma espécie de "A cultura em Viseu só funciona para amigos? - parte II" seguido de anticlímax — por JB

* Dois comentário de JB ao post "Amoras"  
** Ver também três notas de rodapé deste blogue






------- Comentário 1 -------



(E esta cidade, sabe a pouco...)

Eu sei.
Eu sei que sou maçador, entediante, enfadonho com este assunto.
Mas, não me calo.


Não entendo porque tenho que ir ao Teatro Aveirense para ver a fabulosa Sílvia Pérez Cruz 



— só em 2017: “consiguió el Premio Goya 2017 a la mejor canción original de la película Cerca de tu casa y fue nominada como mejor actriz revelación a los Premios Goya 2017”.




Não entendo porque tenho que ir a Albergaria-a-Velha (FESTIM) para ver o fantástico guitarrista tuaregue Bombino:






Não entendo porque tenho que ir ao Teatro Municipal da Guarda para ver um imperdível Jay-Jay Johanson:





Não entendo porque está Viseu arredada da agenda desta (e de outra) gente.


E mesmo o Seu Jorge há muiii….to que passou pela ACERT/Tondela!


Aqui, só temos Agir…!!!
Uma categoria!

------- Comentário 2 -------
 E para não dizerem que tenho mau feitio...

Coisa boa que vai passar por Viseu, nos Jardins Efémeros.
 

— versão de “April 14” dos Aphex Twin - (que tocaram no Porto/Primavera Sound)


ou

JB


-------
Notas do Olho de Gato:

1 — O post "A cultura em Viseu só funciona para amigos?" foi publicado aqui há quase um ano, em 18 de Julho, e teve bastante impacto nas redes sociais; 99% desse impacto foi muito interessante e cheio de sentido de humor;

2 — O 1% restante foi merdeiro, tendo havido até quem, de má-fé, tivesse querido sugerir que o JB era um pseudónimo do autor deste blogue, como se eu precisasse de me esconder atrás de alguém para dizer o que penso;

3 — Entre o post de Julho de 2016 e este surgiu em Viseu a programação cultural do Carmo'81, que é excelente, designadamente na sua programação musical.

5 049 734

Faz exactamente hoje um ano que 
5 049 734 espanhóis votaram nesta criatura:

Amoras




O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Eugénio de Andrade








domingo, 25 de junho de 2017

Na idade perfeita

Fotografia de Irving Penn


O sabor do café e o cigarro,
o pausado passeio cada tarde,
o cheiro da terra quando chove,
a grata conversa com um amigo
e uma rara página gostada
são teu amor à vida, os teus sentidos.
Aprofundam-se as feridas com o tempo
embora ele mesmo esconda as cicatrizes.
Passou a juventude e o que tens
chamam-lhe os néscios maturidade.
Fernando Ortiz


sábado, 24 de junho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#149)


Cinema's Most Disturbing Smooches from FilmDrunkDotCom on Vimeo.

Saío a noiva muito bem trajada

Daqui


A uns noivos que se foram receber, 
levando ele os vestidos emprestados, 
e indo ela muito doente e chagada


Saío a noiva muito bem trajada,
Saío o noivo muito bem trajado,
O noivo em tudo muito conchegado,
A noiva em tudo muito conchagada.

Ela uma enágoa muito bem bordada
ele um capote muito bem bordado;
Do mais do noivo tudo d'emprestado,
Do mais da noiva tudo d'emprastada.

Folgámos todos os amigos seus
De ver o noivo assim com tanto brio,
De ver a noiva assim com tantos brios.

Disse-lhe o cura então: ― Confio em Deos,
E respondeo o noivo: ― E eu confio.
E respondeo a noiva: ― E eu com fios.
D. Tomás de Noronha



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pata de galinha*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O referendo do brexit foi há exactamente um ano, em 23 de Junho.

Dois dias depois, o congresso do bloco de esquerda quis aproveitar a maré e debateu a hipótese de um referendo similar cá. Pela primeira vez, um partido com representação parlamentar punha em cima da mesa o “sim ou não” à UE. Catarina Martins não percebeu a natureza do voto brexit, um voto nacionalista e anti-imigração, um voto do passado contra o futuro — 64% dos eleitores britânicos com menos de 25 anos votaram para ficar na “Europa”.

O bloco não o percebeu mas o eleitorado espanhol percebeu-o muito bem, e, três dias depois do brexit, retirou um milhão de votos a Pablo Iglesias. Todas as eleições seguintes na UE puseram no poder partidos europeístas e foram tirando fôlego aos populistas. Em França, os populistas de esquerda e de direita acabam de ser reduzidos à insignificância no parlamento. Em Setembro, Angela Merkel vai ser reeleita pelos alemães para um quarto mandato.

Passou um ano, o panorama mudou: o eixo franco-alemão está forte outra vez, a “Europa”, viva e a crescer. Por sua vez, o Reino Unido e os EUA estão nas mãos de dois aprendizes de feiticeiro: Theresa May e Donald Trump.

Passou um ano, o “brexit-means-brexit” de May não sai do sítio. Tanto Londres, a poderosa “cidade-estado” sede da City, como o eleitorado cosmopolita e jovem tudo farão para que ele fique mesmo assim. Parado e quedo.



2. O Jornal do Centro fez uma infografia sobre a auto-estrada Viseu-Coimbra que parecia a pata de uma galinha. A sul de Santa Comba Dão, um dos três “dedos” da pata do bicho apontava para a A1 em Trouxemil, o “dedo” meeiro apontava para Coimbra e o outro para a A13.

Confesso que antes da pata de galinha vi naquele desenho o símbolo da paz. A paz com que Sócrates lançou a obra em cerimónia luzidia em 2008, a paz com que Passos fez o mesmo em 2015, a paz com que, neste ano de autárquicas, a geringonça se embrulha em estudos empaliantes.

Saca-a

Daqui



liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
Nuno Moura


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Jardim Infantil

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Junho de 2007


1. Aconselho a leitura do Despacho de Acusação ao professor Fernando Charrua. Pode ser consultado aqui**


Daqui
De facto, o ridículo mata. Margarida Moreira, a Directora Regional, conseguiu fazer da DREN um Jardim Infantil:
“Era uma vez o Fernandinho que disse umas maldades sobre o chefe da Guida. O Rolando, o Rogério, o Manuel e o Basílio ouviram. Um queixinhas foi dizer à Guida. A Guida ficou muito zangada e pôs o Nandinho de castigo. Ele agora, como não pode brincar mais às casinhas nem no escorrega, chora muito e jura que a Guida também diz maldades do chefe dela. O queixinhas espera receber uma PlayStation Portable no Natal.”

2. O que se passa na DREN não é mais que a versão em anedota do autoritarismo da Ministra da Educação. Que o diga a Associação de Professores de Matemática “convidada a sair” dum projecto só porque tornou públicas opiniões diferentes das de Maria de Lurdes Rodrigues.

Também se percebeu claramente a pulsão autoritária da ministra no Concurso para Professores Titulares. Foi um filme de terror do início ao fim. Na primeira proposta de regulamento daquele concurso ai do professor que fosse ao funeral de um familiar. Até fazer greve era penalizado. Uma coisa do 24 de Abril. Tão, tão inconstitucional que dava dor de cabeça.

3. No sábado passado, em Abrantes, José Sócrates, confrontado com a contestação de centenas de populares, foi falar com eles. Afirmou a seguir: “o Governo precisa de crítica e de a encarar com fair-play, porque tudo faz parte da festa da democracia”. Ali, no calor dos acontecimentos, tanto nas palavras como nos actos, José Sócrates mostrou a fibra que tem e deu uma lição de democracia.

Será que esta lição chegou ao Jardim Infantil?

** O link do jornal Sol publicado há dez anos já não funciona.

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões

Fotografia de Vicente Ansola

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e outros promotores
da realidade? Eu sei que não identificas real
com verdadeiro, nem sequer com existente,
mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,
por brilhante que seja, neste mundo de gritos,
de sementes apagadas em lameiros de cimento?
Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste
falar da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te
capaz de competir com traficantes de desejos,
decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um
desempregado, de excitar um espírito impotente?
Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo
Quaresma, proteger do frio as andorinhas,
transportar as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.
José Miguel Silva

terça-feira, 20 de junho de 2017

É tarde


Fotografia de Maxim Chelak


É tarde e és tu,
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores
Nuno Júdice


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Vício

Daqui


Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Mário Cesariny de Vasconcelos




domingo, 18 de junho de 2017

Gestalt

Fotografia de Rodney Smith


In wit, as nature, what affects our hearts
Is not th'exactness of peculiar parts;
'Tis not a lip, or eye, we beauty call.
But the joint force and full result of all.
Alexander Pope
in Essay of Criticism



sábado, 17 de junho de 2017

Que o teu saber não humilhe o teu próximo

Foto Olho de Gato


Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.

Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.

Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?

Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.

É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?

O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.

O mundo gira, distraído dos cálculos dos sábios.
Renuncia à vaidade de contar os astros
e lembra-te: vais morrer, não sonharás mais,
e os vermes da terra cuidarão da tua carcaça

A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou ao nascer;
mais feliz quem não veio ao mundo.

Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.

Além da terra, além do infinito,
eu procurava em vão o céu e o inferno.
Mas uma voz interior me disse:
O céu e o inferno estão em ti mesmo.
Omar Khayyam


"And Now For Something Completely Different" (#148)


sexta-feira, 16 de junho de 2017

A doença dos aparelhos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Os motores das autárquicas estão a aquecer. O quadro de candidatos às câmaras municipais que o Jornal do Centro tem vindo a actualizar, ao longo dos últimos meses, está quase completo.

O PSD concorre a todos os concelhos do distrito de Viseu, o PS apagou-se em S. João da Pesqueira e no Sátão. Para já: Pedro Alves, 24 — António Borges, 22.

O caso do Sátão é difícil de explicar fora das lógicas pequeninas do aparelho socialista. É sabido que a ecologia dentro dos partidos tende a premiar as ovelhas que mais dizem ámen ao chefe de turno, repelindo, perseguindo, ou fazendo desistir quem pensa pela sua cabeça. Esta ecologia é hostil ao mérito e faz com que a vontade colectiva dos partidos não seja construída das bases para a cúpula, mas ao contrário: as decisões importantes tomam-se em cima e aplicam-se em baixo.

É por isso que o facto de Acácio Pinto não concorrer no Sátão com as cores do PS é da responsabilidade integral do presidente da distrital, António Borges. Quando um líder já não consegue pôr juízo nas suas tropas, em bom juízo já não é um líder.

Fotografia Olho de Gato
2. No concelho de Viseu, já há três candidatas à presidência da câmara (PS, CDS e CDU) e dois candidatos (PSD e BE). Três mulheres e dois homens. Se João Nascimento conseguir consumar a sua candidatura independente, então haverá paridade: três mulheres e três homens.

Isto é bom. Contudo, convém lembrar: aquilo a que se chama “política no feminino” é um gambozino. Não existe. Há boas e más ideias políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Há boas e más práticas políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Ponto.

Como vimos, ser homem ou ser mulher não nos diz nada acerca da qualidade de um político. Porém, há uma grelha de análise que é como o algodão, não engana. Basta aplicarmos a cada candidato, homem ou mulher, a seguinte pergunta: “esta pessoa tem ideias e acções, conhecidas e com valor, fora do aparelho partidário mais encardido?”

Promessa

Fotografia de Gorka Lejarcegi

ofereço-te esta tarde de desvento.
as flores agarradas aos ramos das árvores
e os ramos seguros à seiva do tempo.

o pátio lá fora num silêncio de sesta,
o gato que se estende sobre o calor das pedras
e a imobilidade mágica do sol que resta.

a luz que se aninha nos meus pés descalços,
o lençol; cada um dos eivos do seu vasto deserto
e os espelhos onde se desfazem medos falsos.

nuances de sombra azul que me habitam
um ou outro grito arrancado à carne
penas que compõem as asas ou as imitam.

Ofereço-te o que não pode perdurar:
o olhar líquido que inventa a tarde,
a insídia de um veneno que não arde,
a abstrata, vã, promessa de te amar.







quinta-feira, 15 de junho de 2017

Bad romance

O romance pode não ser grande coisa,
o guarda-roupa é duvidosíssimo,
os artistas têm o charme de um candeeiro de rua apagado,
mas:



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Barca bêbeda

Daqui

fique, tão puta quanto seja, com
seu jeito de água marítima,
balançando, menininha, barca bêbeda,
mas enredada em mim como o alimento luminoso
Herberto Helder

terça-feira, 13 de junho de 2017

Com um espinho no pé era muito melhor

Avenida Capitão Silva Pereira — Viseu

2015:
Rapaz que tira o espinho do pé — por Fidel Évora
Gif Olho de Gato

2017:
Autoria desconhecida

Os olhos luciferinos dos anjos

Der Himmel über Berlin, de Wim Wenders (1987)


Os olhos luciferinos dos anjos.

Quero dizer: têm uma luz — possuem a qualidade
veemente mas fria da espera, da promessa: sim?, da anunciação.

Penso nas estátuas brancas,
com seus olhos desprovidos de pupilas.
Colocadas assim nas trevas, essas estátuas
ressaltam com uma doçura dolorosa e intempestiva
e parecem indicar outro tempo: a luz, ou a treva maior,
aquela que nem somos capazes de presumir.

Deste modo é que ela surgira no pórtico,
e havia os pequenos e fortes cornos
que irrompiam ao cimo da testa,
acompanhando com maligna e rápida subtileza
o movimento da cabeleira.

Aérea, a cabeleira.
Existia ainda uma boca para todo o silêncio.
Porque se tratava de silêncio, evidentemente.
Era esse o tema — é esse o tema das aparições.

Além do longo vestido, o tema branco — que obliquamente se insinuava,
como se insinuam os múltiplos planos — no tema das trevas.

Ah, sim: era o tema branco,
e as mãos não traziam nenhum lírio pictórico,
a haste comprida, a corola consagrada à alta e luminosa
representação do angelismo.

Os braços caíam ao longo do vestido
e as mãos estavam coladas às pernas.

Era quase um emblema ambíguo — sê-lo-ia,
se o tempo houvesse parado antes,
e eu apenas tivesse ali chegado
como se chega à história antiga, ao facto de pedra:
um monumento, uma capela, um túmulo,
a casa do príncipe que criara a concentração dos seus mitos tumultuosos
na matéria adormecida.

Porque andava, eu, andava de um lado para outro,
na penumbra em que se erguia a sobreposição de cilindros,
de diâmetro cada vez menor,
conforme se levantava a vista até ao cimo — e no cimo,
no último pequeno cilindro, estava um longo mastro nu,
sem bandeira de cidade ou nação.

Era difícil pôr-se a imaginar o serviço de todos os pórticos
abertos à roda de cada cilindro — não se esperasse,
como seria possível, que em cada pórtico surgisse uma árvore
assim direita, uma figura, aquela mensagem silenciosa e vibrante
coisa mineral, vegetal: o coração dos dias desabitados.

Uma diferente figura em cada pórtico,
ou a proliferação, numa momento inflacionista,
de imagens todas iguais, como múltiplos avisos,
múltiplos sinais da trepidação interior?

Por quantos lados ressuscita a vida enterrada?

É apenas para que se saiba:
há muitos pórticos,
e em cada pórtico tu próprio podes aparecer,
para o primeiro passo em direcção ao teu lugar de trevas
ou à cidade de Deus.

Mas ela era só uma e tinha para si um só pórtico,
e ali estava, e a sua beleza contraditória e veloz
acabava agora mesmo de ferir-me no que eu andava:
por que eu andava de cá para lá, à frente do edifício.

Acorda-se, há um dia em que se acorda
— e então a gente põe-se a andar.
Herberto Helder

segunda-feira, 12 de junho de 2017

“I don‘t know what the ‘big time‘ is.” — Tom Waits

Tom Waits talks moles under Stonehenge, 24-karat transvestites, and laughing at church.



Rare interview recorded on cassette tape, in 1988, at a recording studio; you can hear various tunes playing in the background.

domingo, 11 de junho de 2017

Recado aos corvos

Daqui


Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.
A. M. Pires Cabral

sábado, 10 de junho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#147)

Sabias?
Em 2049, é previsível que um computador de 1000 US$ exceda a capacidade computacional de toda a espécie humana.

Paleta

Fotografia Olho de Gato

Tens uma paleta
a que faltam
algumas cores. Talvez
porque há substâncias
a que não soubeste
dar expressão. Ou porque elas
são incolores. Ou porque
em toda a realidade
há fendas
que nem pela palavra
nem pela cor
alguma vez
saberás preencher.
Albano Martins


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um acima*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. José Manuel Fernandes, na qualidade de director do jornal Público, escreveu, em 2006, um artigo de opinião intitulado “A Estratégia da Aranha” muito crítico para com Noronha de Nascimento, acabadinho de chegar à presidência do Supremo Tribunal de Justiça. O texto é achável na internet e merece leitura porque tem uma contundência que não é comum em Portugal.

O #1 dos juízes não gostou do que leu, sentiu-se atingido no seu bom nome e pôs o jornalista em tribunal. A seguir, nunca mais parou, multiplicou-se em alusões públicas ao caso, chegou a ir assistir, até, a audiências “do julgamento da 1ª instância, condicionando, inevitavelmente, as sessões”, como descreveu, em texto recente, o advogado Francisco Teixeira da Mota.

Depois dos recursos, o Tribunal da Relação de Lisboa condenou o jornalista e a sua mulher, fixando o valor da indemnização em 60.000 euros.

Sim, caro leitor, leu bem: o valor da indemnização foi aquele balúrdio e a mulher do jornalista foi também condenada, por solicitação expressa de Noronha de Nascimento, que argumentou que Gabriela Fernandes teria também responsabilidades já que era casada em regime de comunhão de bens adquiridos.

E assim foi fechado o caso em Portugal. 


Daqui
Só que, onze anos depois, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) veio repor justiça neste caso repugnante onde, mais uma vez, o estado português violou grosseiramente a liberdade de expressão e, por isso, vai ter que devolver os 60.000 euros mais as despesas processuais.

Como é possível uma mulher ser responsabilizada por um texto escrito pelo marido? Que raio de país é este?

2. É por estas e por outras que é bom haver “um acima” das autoridades nacionais. Se não tivéssemos o TEDH, os usos e costumes dos nossos tribunais danificavam a liberdade de expressão, o oxigénio de qualquer democracia.

Se não tivéssemos o tratado orçamental, os governos gastavam sem rei nem roque, roubando, ainda mais, futuro aos nossos filhos e aos nossos netos.

Drops in the bucket

Daqui

At first
each drop
makes its
own pock
against the tin.
In time
there is a
thin lacquer
which is
layered and
relayered
till there’s
a quantity
of water
with its
own skin
and sense
of purpose,
shocked at
each new violation
of its surface.
Kay Ryan


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Felicidade*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 8 de Junho de 2007


À Espera da Felicidade
Paulo Medeiros
Achada aqui
1. Chama-se “À Espera da Felicidade” e é uma exposição de pintura de Paulo Medeiros. A Galeria onde podem ser apreciados os nove quadros de Paulo Medeiros tem uma porta de vidro que se abre automaticamente para entrarmos. Ao meio, numa mesa redonda, temos acesso ao desdobrável e podemos assinar o Livro de Visitas. A um canto, uma mesa rectangular oferece-nos um Dão Pedra Cancela. Nas paredes, nove quadros que dizem: “se estás à espera da felicidade, espera sentado”. Para o efeito, o artista pintou várias cadeiras multiformes e coloridas. O que faz sentido já que a felicidade é a cores.

Esta Galeria só existe na net. “À Espera da Felicidade” é visitável em http://pmedeiros.no.sapo.pt e, o mínimo que se pode dizer, é que este sítio tem um webdesign feliz. [Dez anos depois, o sapo descontinuou este serviço, pode contudo ver as obras em vídeo aqui.]

2. O professor da Universidade de Harvard, Daniel Gilbert, escreveu “Tropeçar na Felicidade” que acaba de ser editado pela Oficina do Livro. Em 26 de Maio, David Gilbert afirmou, numa entrevista ao Público, que os seus estudos provam que:

- A felicidade (e a infelicidade) não duram tanto como pensamos.

- Dinheiro pode dar felicidade mas, para o efeito, ganhar 50 mil ou cinco milhões por ano não faz grande diferença.

- Os filhos não fazem aumentar a felicidade.

- As pessoas são mais felizes aos 50 que aos 20.

- Os casados são mais felizes (têm mais saúde, mais dinheiro, mais sexo).

- É possível aprender-se a ser feliz.

Leitor(a), mesmo que ainda esteja longe dos 50 anos, não stresse. Faça o favor de ser feliz. Se possível sem Prozac.

3. Podermos rir dos poderosos é uma felicidade. Para desopilar, na DREN, continuam a ser contadas anedotas. De certeza. Apesar da Directora Regional e do seu bufo.

Avé, trigueira!

Monica Bellucci e Isabella Rosellini
Daqui















quarta-feira, 7 de junho de 2017

Tragam-me um homem

Milla Jovovich por Ellen Von Unwerth


Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.
Cláudia R. Sampaio


terça-feira, 6 de junho de 2017

Não é tarde

Fotografia de Rodney Smith 

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despe
vai perdendo o nosso número de telefone.
José Miguel Silva