sábado, 4 de março de 2017

Vivemos num tempo aguado — um texto de JB*

* Comentário de JB à crónica "Moscas" publicada ontem no Jornal do Centro



«Saiu-me um político nos corn-flakes. Um político que eu já tinha.
Perguntei aos colegas lá na cantina se não tinham nenhum político repetido para a troca, mas descobri que todos eles já tinham governo formado.»
António Pocinho


Com a funda impressão que vivemos num tempo aguado, isto é, sem nervo, uma época sem nenhuma utopia de redenção, aproximamo-nos de Outubro e das eleições autárquicas.
O pensamento moderno assenta na ideia de que as crises são oportunidades para novas soluções. Quando a crise deixa de ter de ser explicada e passa ela própria a explicar tudo, não há qualquer possibilidade de pensar em alternativas, em saídas que impliquem a superação da crise, porque esta passou a ser uma constante e como tal o limite máximo do que pode ser pensado.
Assim, como as palavras dão para tudo: para fazer luz ou para fazer noite. Tudo depende de quem as usa e de como as usa, aqui ficam umas breves notas.

Fotografia Olho de Gato

Com o PSD, comodamente instalado, haverá lugar à reparação de “erros de casting” ou “figuras impostas”, na anterior lista, e irá apresentar-se revigorado e com um slogan à volta de “Viseu século XXI”, com um sentimento de “progresso e festa sem limites“.

No CDS, há um óbvio retrocesso, na dificuldade de apresentar um candidato que ocupe o seu espaço ideológico e que relance o partido para um papel relevante, a nível local. Quem recorda a candidatura inovadora de Francisco Mendes da Silva consegue rever-se numa, eventual, candidatura de Américo Nunes? Apoiar um candidato de “outros tempos”, cheira a mofo!

Com o PS, deve ter havido uma aposta interna, do género: ”Vamos lá a ver qual é o nosso núcleo duro de votantes. Qual é o mínimo que conseguiremos?”. Certamente haverá algum acordo para um study case, com a “veneranda isczé” Lurdes Rodrigues ou algum engenheiro social.

Democraticamente escolhida e, perante um putativo candidato que “existiu/não existiu” (ou só vamos a votos quando temos a certeza de que ganhamos?), fui ouvir a entrevista que a candidata deu ao RJC – Rádio Jornal do Centro. Concluí que escutei uma abordagem politicamente desconexa em vários temas: as críticas a Almeida Henriques (tem cabimento dar enfoque à estória do torniquete que conta as entradas na Feira de S. Mateus?) procura-se uma crítica “fresquinha” mas que tudo soa muito a uma “revolução de linguagem”, sem sentido. Inquietante é elogiar Fernando Ruas, que diz “esquecido pelo actual executivo municipal” (e cabe ao PS recuperá-lo?), onde tropeça a cada passo, no contrassenso ou na adjectivação forçada ou absurda. Terminamos com o supremo da “metáfora mal amanhada” ao admitir que pondera a possibilidade da coligação PS / CDU / BE para a Câmara de Viseu. Então, elogiamos Ruas e a seguir vamos pedir votos ao eleitorado BE/CDU? Uma dedução claudicante, no mínimo! Óbvio que se anteveem divisões dentro do PS no concelho, pois ficou patente que falta um pensamento autónomo sobre a cidade. Se calhar, para mudar as coisas era preciso bastante mais…

E assim, continuará a estória do MAS (ou seja o “povo” pode ou não participar na escolha de candidatos?) já que a democracia não está isenta de riscos e sempre foi, e ainda é, um tema polissémico. Assim, a “malta” do MAS continuará a parasitar o sistema democrático, corrompendo-o e desacreditando-o até à medula, aquela malta que receia qualquer ideia democrática mais firme, porque “radical”. Esse centrão pastoso, sem crença que não a da aparência democrática, sem projecto que não o da conversão de todos a essa ausência de tudo o que não sejam instrumental para os seus interesses, honrarias e lugarzinhos, pois a utopia tornou-se essencialmente utilitarista e pragmática.

O BE tem uma excelente oportunidade de conseguir eleger um vereador, caso consiga ultrapassar a questão umbiguista do “eu e os meus amigos”. Ou seja, recordando um dos principais teóricos dos novos movimentos de esquerda no sul da Europa, Ernesto Laclau, que o BE e Cª tanto apreciam, quando uma parte da sociedade e não se sente representada e considera as instituições ineficazes e comprometidas, isso favorece o surgimento do chamado “vazio significativo”, à espera de ser preenchido com ideias políticas. Ora, basta o BE conseguir apresentar um(a) candidato(a) que sabia colocar esse "frémito de esperança" no meio da névoa, como diria o Carlos de Oliveira.

A CDU será fiel aos seus princípios de constituição de listas e ao discurso do desejo. Manter a deputada Municipal seria um muito bom resultado.

No fim, fica a certeza da desoladora frase de Bernardim Ribeiro, de que me lembro sempre: Esta é a grande mágoa que tenho contra o corpo: que não há nada a que, com o tempo, se não habitue”.

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