sábado, 11 de março de 2017

Luzes — por JB*

* Comentário de JB à crónica de ontem "Águas municipais"

"Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.”
Jorge de Sena


A recente polémica do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto (intitulada “Populismo ou Democracia: O Brexit, Trump e Le Pen”) deixou-me perplexo; ler o artigo de Joaquim Alexandre remeteu-me para as Luzes (Iluministas) seus valores e o meu tempo de liceu fascista (com Mocidade Portuguesa, e tudo…).


Na verdade, quando vinte e quatro alunos numa RGA (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas) votam favoravelmente uma moção que exigia o cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto, devemos questionar como pode um grupo minoritário e radical ter força suficiente para calar um conferencista, com opiniões antagónicas às minhas, que considero bafientas, mas que foi um facto que não me deixou indiferente. Não entendi! Não percebi! Não compreendo!

Felizmente que tive um excelente professor de Filosofia que muito nos “massacrou” com o Voltaire, Pascal, Montesquieu, Diderot, Rousseau…, e os seus ideais. Arriscou, pois estávamos no tempo do “Liceu do sr. Reitor”, e os valores da livre discussão e liberdade de expressão estavam proibidos. Não mais esquecemos a frase escrita no quadro negro: "Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo”, da escritora britânica Evelyn Beatrice Hall (embora atribuída a Voltaire). Não mais esquecemos a lição de John Stuart Mill: “Silenciar uma opinião é roubar a humanidade do seu mais valioso património, pois se essa opinião estiver certa perdemos uma oportunidade de corrigir a nossa própria opinião, e se essa opinião estiver errada perdemos uma oportunidade de denunciar a sua falsidade.”

Não me identifico com os ideais de Rafael Pinto Borges, um dos promotores do grupo Nova Portugalidade, responsável pela organização da conferência que assume: “Eu sinto estima pessoal, política e intelectual por Salazar” e não partilho do passado de direita radical de Jaime Nogueira Pinto. Por tudo isso, não esqueço o ambiente estudantil difícil, de Coimbra, antes do glorioso 25. Nos anos 70, a direita estudantil coimbrã tinha locais de culto e de organização, tais como a denominada Cooperativa Livreira Cidadela, na rua Alexandre Herculano, quase a chegar à Praça da República, da autoria do grupo nacional-revolucionário da Faculdade de Direito, chefiado por José Miguel Júdice. A este se juntavam mais dois organismos (Orfeon e OTUC - Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra) tradicionalmente controlados pela direita, que constituirão os três pilares de acção dos nacionalistas em Coimbra.

Com 17/18 anos, ter o baptismo político significava acompanhar e ouvir as discussões políticas dos irmãos mais velhos, com os seus amigos e amigas, na Praça da República; significava poder frequentar (sempre) o Café Tropical ou eventualmente o Moçambique, o Piolho ou a Clepsidra, na Praça da República. No Café Tropical era fácil encontrar os “duros dinossauros” resistentes Orlando de Carvalho, Joaquim Namorado (meu professor de Matemática) ou Louzã Henriques, entre outros. Todos sabíamos da presença da PIDE, e jovens ainda não comprometidos com uma verdadeira acção antifascista, receavam muito mais do que aqueles que já lutavam contra o regime.

Concluindo, o que irrita mesmo é que agora abriram as portas e os tempos de antena à extrema-direita de retórica neonazi.
E voltamos a ter na Memória que os valores da tolerância e liberdade de expressão nunca estão adquiridos, são uma luta perpétua.
JB

1 comentário:

  1. Apreciei o texto original. Tinha boas razões a suportar os pontos de vista defendidos. Li também o comentário de JB e fiquei a matutar no conteúdo que se resume a uma proposição: sou tolerante e como sou tolerante, respeito quem
    tem perspetivas diferentes da minha. Mas para proferir um juízo tão simples e vulgar, qual o percurso do autor? Faz algo típico do vazio cultural da esquerda contemporânea, refere nomes célebres como fazia a Escolástica, sugerindo
    uma pseudo autoridade vazia, para dar a ideia de profundidade intelectual. Suspeito da ignorância da obra dos citados. Exemplo simples, visto figuras como "os dinossauros de Coimbra" não passarem disso e nem merecerem perda de tempo, Pascal e Rousseau em que confluem? Se um é expoente primeiro na matemática, lógica e filosofia pelas considerações iniciais acerca da fundamentação da linguagem computacional e da aposta do jogador acerca da possibilidade de Deus, o outro é hoje uma figura menor pois a referência ao "bom selvagem" é constantemente
    refutada por toda a investigação das neurociências e dos estudos centrados na vinculação precoce. Desconfiemos destas pessoas de esquerda que desfiam nomes para impressionar o indígena, não argumentos e vejamos nos países onde alcançaram o poder, a tolerância e respeito pelas opiniões alheias. Claro que a tolerância existe enquanto estão bem e se necessário fôr, como se tem visto, para ganharem e se perpetuarem no poder não hesitam em levar os países à bancarrota ou em recorrer, não ao reitor, mas ao seu substituto atual, o Grão Mestre, para lhes colocarem a prole na função pública ou em lugares dependentes do Estado ou ultrapassarem, sempre por "mérito" oriundo das Lojas, os seus pares. Não há pachorra para aturar esta gente tão impoluta e tão culta.

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