sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Ming*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Um texto, no El País, intitulado Al final, por unos condones se perdio un país, sobre camisas-de-vénus distribuídas em África que levaram um zangado estado Vaticano a “castigar” a Ordem de Malta (outro estado soberano, que emite moeda, passaporte e tem relações diplomáticas com 106 países), tinha, logo no primeiro parágrafo, um aviso sério sobre estes tempos desvairados que vivemos: “uno es nadie si no escribe 'Trump' en estos dias”.

Como não quero ser “nadie”, lá vou ter de escrever sobre Donald Trump.


Xi Jinping e mulher
Daqui
2. Daron Acemoglu e James A. Robinson descrevem no seu livro “Porque Falham as Nações” que “muitos séculos antes dos Europeus” já “a China era uma potência naval”, com “intenso comércio de longa distância”, mas, na passagem do século XIV para o século XV, “afastara-se dos oceanos” porque os imperadores Ming tiveram medo que todo aquele contacto com o exterior pusesse em causa o seu poder.

Ora, acabámos de ver o presidente chinês, em Davos, pronto a assumir o lugar dos EUA como campeão do livre-comércio, em resposta directa ao fechamento do presidente norte-americano, que quer virar costas ao mundo como fizeram os Ming.

3. É claro que o que acabo de fazer é só uma vistosa viagem no tempo de meio milénio, uma brincadeira de resposta àquele “não se é ninguém se não se escrever sobre Trump”.

Mas esta brincadeira não tem menor valor explicativo do que as comparações mais vistas nos media e nas redes sociais: “Trump igual a Hitler” (o “ad-hitlerum” aparece sempre: é a “lei de Godwin”, também conhecida como “lei das analogias nazis”) e “Trump igual a Chavez” (ou, em louro: igual a Marine Le Pen; ou, em peitorais: igual a Putin). Também há as abordagens psi — “Trump igual a louco” — que sublinham o lado egocêntrico ou infantil do homem.

“Trump igual a Ming” parece adequado para descrever o presidente cor-de-laranja em quem votou a parte mais paroquial da América que tem medo da globalização.

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