quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Como dançar sem par

Daqui



1.
bailarina, não
vista os tubos.

bailarinos são
antisoldados

de chumbo.

2.
queria que você fosse
você, e dançasse em mim

— mas não pisasse os olhos.

se assim pedir
é pouco, o que

pedir que não
o mais um pouco?

assim queria você — sim;
talvez até dançasse. até.

fica a fim?

3.
suponha que eu fosse
você — pua. íntegra
nos pés. dançarinos.

quando eu bailarino,
não posso levar
a água mais limpa,

que te sirva a boca,
que te lamba os dedos
e a rija panturrilha.

4.
consigo me desapego
das armas. cuido o perigo
sem fazer nenhum alarme.

respiro, mas não sem medo,
que não me entenda o suave.

assim que você for —
e com você meus ritmos
e tons — arrancarei,

não a óbvia tinta das unhas,
nem a cutícula em ruínas,

mas os últimos sorrisos
do nosso teatro nô
e o que consigo não dancei.

5.
quando postos a dançar os quadris,
balanço tal de corpos sem encontro,
tanto mais procuro e mais me perco.

mas bem no centro do tráfego
eu paro. e teu corpo me acerta.
é certo, não me embriago.

estando não me duvido —
dividido ao entrar — entre tu,
uma cóccix, outra umbigo.
André Capilé


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