segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Agora

Fotografia de Mark Olich



Desobedece
traça e sega
sob um coração
a nudez das coisas
agora. As coisas que só tu habitas
deflagram sem, a rigor, nada de ti
te obrigar a entregá-las
puras
agora. Há um riso
clandestino
deduz os olhos
embriaga o amor
agora. Reconheceste só
os olhos apodrecem-te
pássaros em metal
asas de cinza
agora. Ultrajadas as coisas habitam-te
tu dentro delas conflagras
poeira e sol
agora. O breve amor
ainda te pendura
no vento
gomos de sangue
agora. Faz uma lotaria
nos sentidos que dás
às coisas
armadilhas
a tua língua
agora. Dói beijar respirar
a boca sobre as coisas
útero de mel
agora. Não morras
sem me desprezar
remo na face
inundada
agora. Ninguém sabe
os nossos olhos
no corpo o desejo
do sexo
agora. Lavras os olhos
no fio a que atas as coisas
a cicatriz é varanda
molhada delas
agora. Sentir ciúme é fácil
nos olhos
perco o pranto mergulho
na piscina de pulgas
agora. Espesso das coisas
admito o coração
no salto
da carne
agora. Não há aquilo
a amizade um bem uma coisa
é uma coisa um bem a amizade
agora. Para não perder
as coisas mais pequenas nos olhos
vejo melhor
agora. Amo-te só
só te amo
aqui
só a morte
chega
amar-te
agora. Um disparate a lembrança
no coração
dilacera-te
agora. Lado a lado
sem esquecer
todas as coisas
prolongam-nos uma distância
agora. O amor sempre
doente
eu amei sempre
a imperfeição
agora. Sou simples
complico-te
tal como és
agora. Agora mesmo passa
por aqui entra fica,
guarda
os olhos
blindados
agora. Brinca com as pedrinhas
azambrado sob a lua
a concha na mão
o vazio a suster
agora. O frio delicadamente
revira dentro das camisolas
o corpo só isso
agora. Faço amor
dou contigo
corpo adentro
persigo-te
agora. Ajeito as lágrimas
ligeiramente feridas
ficam a jeito
agora. Tudo
dorme comigo
antes despenhando-se
contigo
agora. Apanho tudo
o fundo a pé-coxinho
cabra-cega a infância
agora. O véu cicatriza
a ignorância a justiça
o teu sexo crescendo
cerejeira
agora. Ultrapassa a loucura
escreve a vaidade
ultra-light
agora. Perdi o medo
custa-me andar
por aí
onde estás?
agora. Um desprazer
o elmo durando face
anagrama o ódio
gorila
agora. Desvio até
os olhos
que te viram dentro
segredos
agora. Passas tempo
sei aí
beber
para saciar
dói
agora. Faz o desespero
absoluto
não voltes
volta
agora. Essa densa apoderação
alarga a presença das coisas
os olhos HI-FI
recuperam-se
agora. Se a morte fosse uma flor
seria buganvília –
folha denuncia a delicadeza
em que dissimulas a vida
agora. Um sentido
partilha e esconde
a colheita a identidade
só o lume pulsa intacto
agora. Funâmbulo
no débil leme onde embriagas
a noite – escreves: antes pétala
embrumada num final perplexo.
Glória Martins

Sem comentários:

Enviar um comentário