sábado, 31 de dezembro de 2016

Viseu — quase quase na passagem de ano

Gif Olho de Gato

Conhecer — por JB

Fotografia do graffiti a que se refere JB no comentário ao texto publicado ontem no Jornal do Centro

Figueira da Foz, Dezembro 2106
Fotografia de JB

"And Now For Something Completely Different" (#125)


Aceptación



La tristeza es un virus extraño,
aparte de un pecado capital.
Me contagio de todo por estar informado:
de espanto, de utopía, de almorranas.

Tuve una amante llamada Vanidad,
era muy buena entre las sábanas
pero siempre que nos veíamos
me pasaba ladillas, un gonococo nuevo,
sífilis, blenorragia, anticuerpos...
Vanidad era un zoo de amor.
Una tarde tuve que decirle por teléfono
como Paul Rée a Lou Andreas Salomé:
Ten compasión, no me busques.

Me acepto como soy: difícil por sencillo, vulnerable,
sonámbulo, sin chaleco antibalas.
Mi madre escribió en mis genes una canción de amor.

No escondo mi talento bajo tierra,
ni entrego mi dinero a los banqueros.
El talento se oxida cuando no se comparte,
el dinero te calla la boca.

A veces interpreto al hombre que tú me crees.
Me aburro como un guisante.
Abandonado, como tu abuelo en la gasolinera,
no llego ni al final del primer acto.

Me acepto como soy: con vida de juguete,
sabio cuando me callo y escucho la tormenta...

No estoy solo en el mundo.
La tristeza es un virus extraño
y yo vivo en la casa de la Necesidad.
Sé que el amor se parece a la muerte.
Angel Petisme


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Dito no Jornal do Centro em 2016*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro




19/Fevereiro 
Os financiadores da PPP da A25 não querem a auto-estrada para nada, querem é a renda de dois dígitos que o divino espírito santo lhes arranjou junto do poder político.

11/Março
Defendo uma lei da república que proíba o uso da burca no espaço público.

18/Março
A Paulo Portas se deve não ter medrado eleitoralmente à direita um populismo nacionalista e eurocéptico como há por essa “Europa” fora.

22/Abril
A doutrina sobre boys é fácil de enunciar: os lugares de nomeação política deviam estar listados em lei e deviam cessar automaticamente com a queda do governo nomeante.


29/Abril
Mário Centeno acaba de adiar pagamentos previstos ao FMI em 2016 e 2017 e está a aproveitar a folga para tratar bem os táxis, para prover um IVA fofinho aos restaurantes, para fazer carinhos à banca e atestar camiões com diesel “espanhol”.

1/Julho
No referendo do Reino Unido não ganhou nenhuma ideia "anti-neoliberal" ou "anti-austeritária". O Brexit não foi de esquerda, foi de direita populista e identitária, foi voto nacionalista e anti-imigração. Percebeu, Catarina Martins?

8/Julho
Dirijo-me especialmente aos leitores mais novos (...): quando a "Europa" impõe menos défice aos governos, ela está do vosso lado, está a impedir que políticos egoístas, velhos ou novos, ocupem ainda mais o vosso futuro com dívida.

22/Julho
A câmara [de Viseu], entre a continuidade sólida da acção cultural e o fogo-de-artifício do “evento”, tem preferido o segundo. É legítimo. Mas é contestável.

12/Agosto
Os presidentes de câmara deviam poder remodelar as suas equipas e as assembleias municipais deviam poder destituir o presidente da câmara.

11/Novembro
Basta ver a guerra no Facebook dos dois rebanhos — geringôncicos versus caranguejolos — para perceber que o que faz mexer as pessoas agora é tudo menos a verdade ou a troca racional de argumentos ou a procura de uma descrição ajustada da realidade. Uma maré de bílis leva tudo à frente.

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Os Olhos de Gato publicados no Jornal do Centro podem ser lidos aqui neste blogue clicando na etiqueta Jornal do Centro.

A primeira leitura para esta selecção de fim-de-ano deu a seguinte enormidade — mais de 19500 caracteres que depois foram devidamente tesourados para menos de 2000:

22/Janeiro
Em legislativas, cada voto rende €3,11 por ano ao partido que o recebe; em presidenciais, só os candidatos que obtêm mais de 5% têm subvenção pública para as despesas de campanha.

29/Janeiro

A votação de Sampaio da Nóvoa, tal como a de Fernando Nobre de há cinco anos, não vai servir para nada. Os resultados de Marisa Matias (muito bons) e Edgar Silva (péssimos), os outros candidatos da “geringonça”, também não acrescentam nada.

O emprego de António Costa nunca dependeu das presidenciais. Para já, ele depende, acima de tudo, da credibilidade que a “Europa” e os mercados vão dar à folha-de-cálculo de Mário Centeno.

19/Fevereiro
O capitalismo foi sabendo adaptar-se, mudar de pele. A melhor de todas essas epidermes é a “social-democracia”, ou “estado social”, ou “New Deal”, ou... são várias as designações desta que é a maior máquina de felicidade inventada pelos humanos: um sistema com várias configurações institucionais que preserva as liberdades civis, deixa criar riqueza às empresas, ao mesmo tempo que dá uma rede de previdência às pessoas nas situações de fragilidade, seja ela doença, desemprego ou outra.
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Ora, desde Reagan e Thatcher, a “social-democracia” começou a ser erodida. Aquilo que é o “comum” — a água, o solo, o subsolo, as estradas, o vento, até a genética das plantas, ... — está a ser tomado pelo capitalismo financeiro, através de formas de propriedade cada vez mais imateriais e abstractas. Exemplifica-se: os financiadores da PPP da A25 não querem a auto-estrada para nada, querem é a renda de dois dígitos que o divino espírito santo lhes arranjou junto do poder político.

26/Fevereiro
As “entradas de leão” do sr. Centeno na “Europa” acabaram em “saídas de sendeiro”: o homem austerizou mais mil milhões de euros e, para evitar um cartão vermelho, prometeu ainda mais tesouradas. Apesar de tudo, o ministro das finanças não “alevantou” as golas como fez Varoufakis no ano passado, com os resultados que se conhecem. Não ter acontecido esse filme de terror já foi bom. Foi bom, apesar do gozo da The Economist sobre os “protestos anti-austeritários” portugueses: chamou-lhes um “ladrar” que não “morde”.
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«Habemus boy!», alegra-se o PS-Viseu de António Borges. Há, finalmente, um lugarito de nomeação política no sul do distrito. Um. Unzinho. Um membro da família Ginestal foi posto a boss no Centro de Emprego Dão-Lafões.
Entretanto,Joaquim Santos, o presidente da concelhia de Tondela do PS, ficou furioso com aquela colocação “às escondidas”.

Sobre o facto de o nomeado perceber tanto daquilo como um esquimó percebe de lagares de azeite não se pronunciou.

4/Março
O colapso de 2008 apanhou a “Europa” ainda a sofrer o impacto da entrada de dez países do leste em 2004, a que se somaram ainda mais dois em 2007. Para além da imprudência destes mega-alargamentos, os traumas históricos do “motor” europeu, a Alemanha, fazem desta um “líder recalcitrante”, que nunca age, só reage.
É por isso que a “Europa” está sempre a correr atrás do prejuízo. Têm-lhe valido duas figuras fortes:Angela Merkel, que lhe tem dado força ética perante a crise dos refugiados, e Mario Draghi, que lhe tem dado cimento financeiro.
Só agora é que Draghi está a fazer a “facilitação quantitativa” que Bernanke fez logo em 2008. Isso implica uma política de factos consumados que está a aguentar o euro mas é difícil de digerir pelos eleitorados.

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Os soberanismos populistas de extrema-esquerda e de extrema-direita estão a crescer (na Grécia governam coligados e em Portugal apoiam, pelo menos para já, o governo).

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Apesar de tudo, o estado social europeu — obra dos partidos democratas-cristãos e sociais-democratas —, que tem abanado, mantém-se em pé e pede meças a qualquer outro do mundo.

11/Março
Não podemos ceder nos avanços conseguidos na igualdade entre homens e mulheres.

Foi com muito sofrimento, coragem e determinação que se conseguiu vencer, nestas matérias, a oposição do Vaticano e dos estados do Islão que sempre se aliaram nos fóruns internacionais. “Santa aliança”, assim lhe chamou, com desagrado e conhecimento de causa, o ex-presidente da assembleia geral da ONU, Diogo Freitas do Amaral.**

Chegados a este ponto, resta dizer: defendo uma lei da república que proíba o uso da burca no espaço público.
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Aquele chapéu em Lamego a transbordar de votos em António Borges, com uns espantosos zero brancos e zero nulos, quer dizer que os socialistas lamecenses o querem como candidato à sua câmara em 2017?

18/Março
A liderança de Paulo Portas deixa, como passivo, os submarinos do Jacinto Leite Capelo Rego. Mas deixa um activo que suplanta esse passivo: a Paulo Portas se deve não ter medrado eleitoralmente à direita um populismo nacionalista e eurocéptico como há por essa “Europa” fora.
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O syrizista bloco de esquerda acaba de votar contra o apoio de 106,9 milhões de euros à Grécia. Isso mesmo: todo aquele “esganiçamento” bloquista pelo povo grego era, afinal, treta OXIdada.

25/Março
Veja-se só este melindre: será que o bloco e o PCP vão permitir o nome de que se fala para a CGD, o ex-ministro da saúde Paulo Macedo?


1/Abril
Pedro Arroja chamou-lhes “esganiçadas” (o que mostra que o homem ouve mal) e disse que não as queria “nem dadas” (o que é, com elevada probabilidade, recíproco) e agora arrisca seis meses a cinco anos de prisão.

Não, isto não é uma peta de 1 de Abril: a senhora dona Mariana Mortágua, em declarações ao JN, achou muito bem esta queixa e quer que ela sirva de exemplo “em casos semelhantes”. Digo “senhora dona Mariana Mortágua” por duas razões: porque estas linhas podem ser chibadas à CIG, e porque, pelo que se tem visto, agora as cabeças falantes do bloco de esquerda julgam-se as novas “donas-disto-tudo”.

22/Abril
A doutrina sobre boys é fácil de enunciar: os lugares de nomeação política deviam estar listados em lei e deviam cessar automaticamente com a queda do governo nomeante.

Enquanto não houver essa lei, fica mal aos “nomeados” não porem sempre os seus lugares à disposição do ministro chegante.

29/Abril
O presidente avisou que o país não pode “viver, sistematicamente, em campanha eleitoral”. Não pode, não, mas não tem acontecido outra coisa desde que a Troika se foi embora: Maria Luís Albuquerque desistiu de antecipar pagamentos ao FMI para ter folga em 2015; Mário Centeno acaba de adiar pagamentos previstos ao FMI em 2016 e 2017 e está a aproveitar a folga para tratar bem os táxis, para prover um IVA fofinho aos restaurantes, para fazer carinhos à banca e atestar camiões com diesel “espanhol”, ...

Vamos continuar em campanha eleitoral. Nada vai alterar isso enquanto as sondagens não mexerem.


6/Maio
Este primeiro mandato de António Almeida Henriques está a ser muito igual ao primeiro mandato de Fernando Ruas. Nos idos de 1990, Ruas passou os seus primeiros anos a demarcar-se da política do seu antecessor, Engrácia Carrilho. Agora, Henriques tem passado os seus primeiros anos a demarcar-se da política do seu antecessor, Fernando Ruas.

Este, que não começou com maioria absoluta, aproveitou para a alcançar no segundo mandato à custa do CDS. António Almeida Henriques vai também aproveitar o desapontamento do eleitorado do CDS.

É que, depois do absentismo e afonia do vereador Hélder Amaral, os centristas vão ter muitas dificuldades, mesmo que candidatem algum ex-membro das equipas do dr. Ruas.


13/Maio
Num hotel de Vigo, um “milionário” viseense, armado de martelo e ciumeira, quando começou a agredir a mulher na cabeça teve um enfarte. Sorte dela, sorte dele, aquele azar do enfarte.

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Achilles Brito, dizia, perdidamente apaixonado pela sua mulher, linda como uma deusa, que ele precatava em casa, sempre em casa, dos olhos cúpidos da Invicta cidade, ela, violoncelista de topo, um dia aprazou um concerto num teatro da cidade, concerto anunciado em todo o lado e, vai daí, Achilles, homem de cabedais, achegou-se à bilheteira e comprou todos os bilhetes, para ser só ele e ninguém mais do que ele a “ouver” a sua exclusiva e linda mulher.


20/Maio
A Holanda em 2010 esteve quatro meses sem governo; ao lado, a Bélgica, em 6 de Dezembro de 2011, estabeleceu um recorde mundial — foram 541 felizes dias, quase um ano e meio sem governo e tudo correu bem no país. Só quando a Standard & Poor's fez uma avaliação negativa da dívida soberana é que os partidos belgas foram obrigados a ultrapassar o impasse e chegar a um acordo de coligação.

São evidências do enfraquecimento global dos poderes. Estes limitam-se, cada vez mais, a alimentar um teatro que sobreavalia a capacidade dos políticos para resolverem problemas; teatro que, ao mesmo tempo, subavalia a habilidade dos mesmos políticos para criarem problemas.


10/Junho
Tem sido muito interessante acompanhar a reflexão que se seguiu ao lançamento, em Maio, do último livro de Timothy Garton Ash — “Free Speech: Ten Principles for a Connected World”.

Segundo o autor, a liberdade de expressão está na defensiva desde o prodigioso ano de 1989 e dos seus quatros acontecimentos “seminais”: a queda do muro de Berlim, o aparecimento da internet, o massacre de Tiananmen e a fatwa contra Salman Rushdie.


17/Junho
O papel higiénico é um clássico do desabastecimento comunista. Falha sempre.E, portanto, tinha que falhar no chavismo. Regime que, nos dezasseis anos em que governa a Venezuela, já derreteu mais de um bilião de dólares de proventos do petróleo — um balúrdio que dava para pagar bem mais do que uma dúzia de bancarrotas socráticas.

24/Junho
Daquele negócio [Banif ] sobrou um buraco de 2.255 milhões de euros para tapar: 489 milhões pelo Fundo de Resolução e 1.766 milhões por nós, pagadores de impostos. Esta segunda verba foi logo aviada em Fevereiro através de uma emissão fechada de dívida pública, sem consulta ao mercado, junto do... Santander.

A partir de então, a geringonça tem atirado as culpas para cima da caranguejola e a caranguejola para cima da geringonça. Ambas estão cheias de razão: esta longa campanha eleitoral de 2015, 2016 e 2017 vai custar-nos os olhos da cara. E aqueles 1766 milhões de euros vão ser pagos por nós, os nossos filhos e os nossos netos.


1/Julho
O ensino superior público é percepcionado pelas pessoas como melhor do que o ensino superior privado. Pelo contrário, o ensino não superior público é, em geral, visto como pior do que o ensino não superior privado. Acabar com exames e meter provas de aferição faz-de-conta, como foi feito pelo infelizmente ainda "ministro" da educação, só veio agravar ainda mais esta percepção.

Quem pode põe os meninos nos colégios para, depois, mais facilmente eles entrarem nas melhores universidades públicas. Quem não pode, sujeita-se ao eduquês facilitista das escolas públicas.

Esta polémica dos contratos de associação não serviu, nem um bocadinho, para resolver o problema da má imagem das escolas públicas. E resolver isso é que é essencial.

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No referendo do Reino Unido não ganhou nenhuma ideia "anti-neoliberal" ou "anti-austeritária". O Brexit não foi de esquerda, foi de direita populista e identitária, foi voto nacionalista e anti-imigração.

Percebeu, Catarina Martins?
Evite brincar com fósforos junto da gasolina referendária. Deixe esses incêndios para Marine Le Pen.


8/Julho
Dirijo-me especialmente aos leitores mais novos, lembrando o aviso de Daniel Innerarity: "dívida é ocupação do futuro", do vosso futuro, dívida é impostos que vocês vão pagar, com o vosso trabalho. Leiam o livro daquele filósofo basco* de esquerda: "O Futuro e os seus Inimigos".

Meus caros, não se esqueçam: quando a "Europa" impõe menos défice aos governos, ela está do vosso lado, está a impedir que políticos egoístas, velhos ou novos, ocupem ainda mais o vosso futuro com dívida.

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No Reino Unido, 64% dos eleitores com menos de 25 anos votaram pela permanência do país na União Europeia. Por sua vez, os eleitores de 65 ou mais anos votaram maioritariamente Brexit (58%).

Esta fractura geracional é feia de ver.

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Em Portugal, a fractura entre os interesses dos jovens e dos velhos não é na questão europeia, é na dívida.

E há ainda outra fractura pronta para ser explorada por políticos novos que queiram correr com os instalados: a que se vai agravando entre quem vive do orçamento de estado (com ou sem horário de 35 horas) e quem o paga (com desemprego ou trabalhando 40 ou mais horas).

22/Julho
O “Viseu Terceiro” não contempla projectos plurianuais. A câmara, entre a continuidade sólida da acção cultural e o fogo-de-artifício do “evento”, tem preferido o segundo. É legítimo. Mas é contestável. Ficará para o debate eleitoral autárquico do próximo ano, se os partidos acharem por bem.


29/Julho
Em democracia a mudança do pessoal político faz-se através do voto, em ditadura faz-se com um golpe de estado, com maior ou menor derramamento de sangue.

Os democratas temem eleições, os ditadores, não. Mas temem tudo o resto. Com o passar do tempo, os autocratas ficam com medo até da própria sombra.
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Dos 250 milhões de euros gastos por ano em livros escolares, 200 milhões é dinheiro estragado.

Quando é que o ministério deixa de dificultar a vida a quem quer fazer reutilização dos livros usados? Quando é que se começam a usar mais os suportes electrónicos e a internet? Quando é que se acaba com esta irracionalidade financeira e ecológica, este peso estúpido no orçamento das famílias e nas mochilas dos alunos?

5/Agosto
Todos os dias saem nomes para a Caixa Geral de Depósitos. Entre administradores executivos e não-executivos, aquilo já dá para duas equipas de futebol. Quando é que eles entram em campo? Mário Centeno dá conta do recado ou é preciso chamar Jorge Mendes?

12/Agosto
A tendência destas quatro décadas, quer na evolução legal quer na prática, tem sido de reforço da visibilidade e dos poderes dos presidentes, o que faz sentido: as pessoas votam no presidente da câmara e é a ele que pedem contas, não é aos vereadores.

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Os presidentes de câmara deviam poder remodelar as suas equipas e as assembleias municipais deviam poder destituir o presidente da câmara.



19/Agosto
No segundo trimestre, a CGD perdeu 1,4 mil milhões de euros de depósitos.
É o que dá a conversa mal parida sobre imparidades e buracos no banco público e meses atrás de meses sem nenhuma decisão.

26/Agosto
Obama ainda não se foi embora e já deixa saudades. São assim as democracias: é bom a limitação de mandatos mandar Obama embora, faz-nos lembrar os patéticos Putins e Zedus a caruncharem grudados à cadeira do poder.

O maior falhanço de Barack Obama foi não ter conseguido encerrar Guantánamo, esse offshore judicial vergonhoso que chegou a ter 779 prisioneiros e ainda tem 61. Os seus maiores sucessos foram a criação de um serviço de saúde para todos os norte-americanos e o crescimento económico pujante que colocou a taxa de desemprego abaixo dos 5%.
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Há-de chegar o tempo para sentar Bashar al-Assad, assassino do seu próprio povo, no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional.



2/Setembro
A Feira de S. Mateus soube reinventar-se, está melhor, tem uma programação civilizada, há mais espaço para as pessoas. O regresso do Picadeiro merece aplauso.

Já a velha conversa que corre por aí do“vamos-chegar-ao-milhão-de-visitantes” só interessa mesmo aos torniquetes das entradas.

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Proibir o burquini é ridículo. Proibir a burca e o niqab, que tapam a cara, é necessário. Defendi-o aqui em 23 de Março, num texto difícil que continua a fazer doer o meu espírito liberal e avesso a proibições.


9/Setembro
Como as coisas estão [no Mercado 2 de Maio], a câmara tem duas alternativas:
(i) convencer Siza Vieira a mudar o pavimento e utilizar árvores de crescimento rápido que assombrem aquela praça no Verão e a desassombrem no Inverno;
(ii) lançar um novo concurso de ideias com cabeça, tronco e membros, inatacável em termos jurídicos e conceptuais.

Era bom para Viseu que António Almeida Henriques tentasse com determinação a primeira alternativa junto do bom-senso do mestre.


23/Setembro
“Fase do nervoso miudinho”: começa agora e irá em crescendo até ao dia das eleições; maiores dores-de-cabeça dos líderes distritais: o social-democrata Pedro Alves vai ter pesadelos terríveis com Lamego e o socialista António Borges, insónias com o periclitante presidente que pôs à frente da “sua” Resende.



30/Setembro
A malta que estava sempre com o paleio da sinergia na boca deixou-se disso e vende agora, com o mesmo entusiasmo, “start-ups” e “empreendedorismo”.


21/Outubro
As nossas alegres casinhas, tão modestas e longe do mar, agora já não têm o bem-bom da isenção de IMI e estão à mercê dos xutos e pontapésde um estado sem pilim nem vergonha na cara, que, em vez de diminuir despesa, todos os anos aumenta os impostos.

Mais 47% de IMI. Em quatro anos.


4/Novembro
Numa iniciativa da campanha do PS das últimas autárquicas defendi que toda a actividade cultural do município devia ser pensada e integrada no lema “Viseu, cidade das histórias”.

Quando, no seu discurso, referiu “Cidade de Estórias” parecia apontar nessa direcção. Penso que esta ideia — “Viseu, cidade das histórias” — tem pernas para andar e pode ser uma nossa marca distintiva, tornando-nos conhecidos no país e no mundo, se as coisas forem feitas com profissionalismo, competência e talento.

Por duas razões:
(i) porque é original, não conheço nenhum município com essa visão global para a sua oferta cultural;
(ii) porque toda a gente, de todas as idades e condições sociais, gosta de histórias, e todas as actividades culturais contam histórias.

11/Novembro
Basta ver a guerra no Facebook dos dois rebanhos — geringôncicos versus caranguejolos — para perceber que o que faz mexer as pessoas agora é tudo menos a verdade ou a troca racional de argumentos ou a procura de uma descrição ajustada da realidade. Uma maré de bílis leva tudo à frente.

Há quem ganhe muito dinheiro com a política da pós-verdade. Mesmo em Portugal. Entre 2005 e 2015, o autor do blogue socratista Câmara Corporativa recebeu 426 mil euros (3550 euros por mês).

18/Novembro
Trump, além de ter derrotado o poder mediático, derrotou também o poder académico armado em guru do que é permitido e do que é proibido dizer. O milionário conquistou milhões de votos de gente intimidada pelos “chuis da linguagem” do politicamente correcto que vão queimando as pessoas que não sabem dizer as palavras certas — gente que Hillary chicoteou como “deploráveis”, durante a sua desastrosa campanha.

25/Novembro
A menos de um ano das autárquicas, nada no concelho de Viseu faz abanar a tranquilidade de António Almeida Henriques.

O CDS é um vácuo chamado “falta de comparência de Hélder Amaral”. O seu vereador sobresselente bem se esforça, mas não foi nele que as pessoas votaram.

O PS nem contra o orçamento municipal do PSD para o próximo ano conseguiu votar.

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O comissário Pierre Moscovici, em pleno parlamento português, acaba de afirmar que Portugal é o seu “melhor aluno”. Nem Catarina Martins nem Jerónimo de Sousa rasgaram as vestes perante aquela sobranceria eurocrata.

A geringonça na “Europa” agora já não ladra, nem morde, nem engrossa a voz, nem bate o pé.


2/Dezembro
Durante a discussão do orçamento, quem se atreveu nas redes sociais a criticar Mariana Mortágua, para além do trivial carimbo de “machista”, levou também com o de “idadista”.

“Idadismo” equivale, em bloquês, ao direitolas “peste grisalha”.



9/Dezembro
O ex-dono-disto-tudo faliu a PT, esfandingou as poupanças de milhares de fregueses, pôs o espírito santo numa fossa funda, mas, apesar disso, a nossa “justiça” acaba de decidir que ele já pode ir flautear-se para fora do país.

Estes fffff todos são para não escrever a palavra começada por éfe em que o leitor está a pensar. 

Queria que me acompanhasses



queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Carvalho-Frida-Kahlo

Fotografia Olho de Gato



Fotografia Olho de Gato


Luz e sombras de amor resucitado

Fotograma do vídeo — Pina Baush

Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
Lois Pereiro



quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Sorte





Eu acredito na sorte: de que outra maneira podia explicar o sucesso dos meus inimigos?
Jean Cocteau


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

No

Fotografia de Patrick Demarchelier


no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?
Alejandra Pizarnik



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Três da madrugada

Fotografia de Hervé Guibert



Três da madrugada
Quase nada
Na cidade abandonada
Nessa rua que não tem mais fim
três da madrugada
tudo é nada
a cidade abandonada
e essa rua não tem mais
nada de mim...
nada
noite alta madrugada
na cidade que me guarda
e esta cidade me mata
de saudade
é sempre assim...
triste madrugada
tudo é nada
minha alegria cansada
e a mão fria mão gelada
toca bem leve em mim
saiba:
meu pobre coração não vale nada
pelas três da madrugada
toda palavra calada
nesta rua da cidade
que não tem mais fim
que não tem mais fim
Torquato Neto


v

domingo, 25 de dezembro de 2016

Deixem para 2017

Sugestão deste modesto estabelecimento a todos os seus clientes e amigos: 
não subam à balança enquanto durar este ano prodigioso.


No ano passado

Rossio — Viseu, Natal de 2015
Fotografia Olho de Gato



No ano passado, tive um Natal dos diabos.
Saíra do emprego uma hora mais cedo
para ter tempo de tomar um bom banho,
para ter tempo de decidir
as recordações que devia evocar em família
e as que não devia.
Os cartões de boas-festas tinham partido a tempo,
a caminho da estação comprei bolos.
Mas fazia um tempo claro, sem gelo,
um tempo que não suporta peso algum,
no elétrico para casa pareceu-me
haver esquecido em qualquer lado a partitura
que devia ter tocado à noite.
Pendurei o sobretudo no vestíbulo
e entrei no salão, onde estava mais quente
mas o serão transtornava-se,
virando para o céu um ventre branco
de uma brancura de estrelas na noite de Natal;
faltava-lhe o ar, não percebia nada.
Algumas velas iluminavam a árvore
mas já não se entendia porquê.
Um mito chegava ao fim
e o outro, novo, continuava à espera debaixo do horizonte.
À entrada, a secar o sobretudo
ia-se retorcendo aos poucos
como a pele arrancada a um animal há muito tempo.
A um canto, o cano da água
entoava cânticos antigos,
a solteira soltava um bramido,
voz do novo povo, o povo de baixo,
das trevas surgido.
Josef Kainar
Trad.: Ernesto Sampaio



Isabel Silvestre e Vozes de Manhouce - "Ao meu menino Jesus" from MPAGDP on Vimeo.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Feliz Natal

... deseja este modesto estabelecimento
a todos os clientes e amigos.

Gif Olho de Gato

"And Now For Something Completely Different" (#124)

Com o alto patrocínio da Aki e da Izi e demais empresas de bricolagem...

A invenção do fogo

Prometeu acorrentado, de Jacob Jordaens (1593 - 1678)



Foi lá,
tirou
com luva de asbesto, carregou
em recipiente de quartzo
através da escuridão indiferente.

Mostrou-lhes,
exibiu-lhes a chama
arroxeada
e alegre,
profundamente preocupado
porque poderia não funcionar,
poderia não ser aquilo.

Era aquilo,
e o primeiro
bife
já exalava o seu cheiro,
e a perna do primeiro herético
já se queimava.

Zeus era indiferente,
Hera até que
apreciava.

Prometeu
retornou
para inventar
a solda.

Mas isso não deu certo
e somente
grilhões
acabaram crescendo em seus tornozelos
e nos pulsos.
De sua cabeça grisalha
uma águia saiu voando para bicar.
E continua bicando.
Miroslav Holub
Trad.: Aleksandar Jovanovic 




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Apanhados*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Peguei no post-it amarelo com a lista de compras, colei-o no carrinho e comecei a correr as prateleiras do hipermercado.


Fotografia daqui

À medida que aviava as compras, riscava na lista. Lâminas da barba, corta. Resma de papel, corta. Detergente da loiça, corta. Por aí fora.


Quando cheguei junto aos iogurtes magros com sabor a frutos vermelhos tinha o carrinho ainda meio vazio, na perspectiva do sr. Belmiro de Azevedo, mas, no ponto de vista da minha depauperada conta bancária, ele já estava cheio. A lista fluorescente quase toda riscada. Deixei, por momentos, o carro ali junto à frescura iogurtal enquanto fui buscar guardanapos. Quando regressei, compras viste-las.

Olhei à volta. Perscrutei na secção das manteigas. Olhei para as pessoas que compravam maçãs reinetas. Sondei os gulosos das tabletes. Em desespero fui à secção dos chás. Cadê o meu carro? Quem ficou com as minhas compras? Nicles. O carro tinha-se evaporado. Nunca mais o vi. Fui buscar outro e recomecei tudo de novo, furioso.

Confesso que me veio ao espírito a suspeita: e se esta coisa que me está a acontecer é para os “apanhados”?

2. Uma rapariga muito bonita e escultural pôs uma câmara de vídeo no bolso de trás de umas jeans provocantes, veio para a rua filmar a reacção dos transeuntes e prantou o filme na internet.

Perguntei por ele ao sr. YouTube e surgiu-me um título expressivo embora com má gramática — “camera na bunda uma mulher”. São dois minutos e seis segundos, em que se vê o pessoal “apanhado” de todo, a olhar, a olhar, a basbacar. Procure o vídeo e veja quem é “apanhado” ao 1'53”.



3. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa pegou nas televisões, aladeou-se ao actor Luís Miguel Cintra da Cornucópia e fez um programa de “apanhados” ao ministro da cultura.

4. Não deixe que ninguém o filme a comer bolo-rei.

En un solo deseo

Fotografia de Olexiy Bardadym

Los años que se perdieron están aquí, ahora.
Los sueños que he vivido crecen entre mis manos.
Siento cómo han pasado tantos días y seres,
tantas cosas a mi lado sin que las viera.
Pero de pronto todo regresa y se reúne en la memoria,
y tantas vidas
en un solo deseo hoy he encontrado.
Alfonso Costafreda


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Área de serviço*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Dezembro de 2006     

Pôs-se a ver a iluminação de Natal de Viseu, mais pobre e sem a “árvore” do Adro da Sé que, no ano passado, servia de farol à cidade.

Fotografia Olho de Gato
Andava ele, mãos nos bolsos e orelhas geladas, na Rua Formosa, fria, virada para os ventos de Espanha, quando lhe veio à ideia um conto de Natal que tinha lido, há uns quatro ou cinco anos. Era um conto de Francisco José Viegas cuja acção se passava em Viseu.
     
Como toda a gente, ele guardava recortes de jornal. Papéis para depois. Para ler depois. Ou deitar fora. Quando chegou a casa, procurou o texto de Francisco José Viegas. Achou-o. Chamava-se “A Noite de Natal”. Pouco mais de uma página e meia.
     
A história passa-se na Área de Serviço da IP5, a 10 quilómetros de Viseu. É uma história de amor, de gente de carne e osso, gente de pouco dinheiro e poucas palavras. Um pouco mais que este pouco é o “combustível” daquela história de FJV que não se vai contar aqui, evidentemente…

     
No dia seguinte, ele pegou no carro e foi lá. O sol oblíquo de Dezembro iluminava a Área de Serviço. Passara o tempo dos muitos camiões a abastecer. Agora a Área de Serviço estava calma.** Adivinhava-se o rumor dos motores, mais a sul, na nova A25.
     
Quando regressou ao IP5, ligou os médios. Ainda era obrigatório ligar as luzes. Restos desnecessários da “tolerância zero” na que foi, e já não é, “estrada da morte”.
     
Fez a viagem a cismar. Agora cismava mais do que magicava. Estava a acabar um ano que, para ele, tinha sido sem magia. Ano mau. Entrou na cidade pela estrada do Sátão. Ao lado das torres da Sé, acima delas, a grua que se via não era uma árvore de Natal.
     
Pôs a tocar uma música chamada “Calling All Angels”. Alto. Muito alto.
     
«Para o ano vai ser melhor!», determinou ele…



** Esta área de serviço entretanto foi desactivada , demolida e  o acesso ao sítio foi vedado.

Everness

Fotografia de Lewis Hine



Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en Su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.
Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.
Y todo es una parte del diverso
cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores
y las puertas se cierra tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores.
Jorge Luis Borges

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Ciclope*

Calçada da Escola do Magistério Primário de Viseu (actual ESEV)
Fotografia Olho de Gato


De um querer bruto e fero

Fotografia de Werner Bokelberg


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mulher, casa e gato

Daqui


Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.
Herberto Helder


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ao tempo, esse patife

Daqui



Se fosses só um tiquetaque, meu parvalhão
Se fosses só ferrugem, meu estupor
Se fosses só entropia, meu cabrão
Mas não, tinhas que ser mesmo uma certeza, meu merdas
A. Khimm


domingo, 18 de dezembro de 2016

Fábula

Fotografia de Mikhael Subotzky

Gostaria que pudéssemos chamá-lo
um habitat
irrefreável
mas como? Se todo
habitat é
senão
as evidências de sangue
sobre o desenho seco
das pegadas
O tempo desaparecendo
em grandes sorvos as alamedas
perseguindo as escaras
          –— Nunca
          o espaço mas sim
          o momento pontiagudo
          onde toda topografia é húmida
          e encerra
          uma revoada de malícias
Te escrevo para contar:
linguagens
são os humores
de quando existe água
          (intempéries não são
          envenenamentos?)
Não há mais
escrituras
frestas para envelopes ou
alheamentos
          –— nenhum
          recinto
          onde se derramem
          as luzes do golfo as pedras
          do belvedere
Sob a superfície do sono
o arame farpado reclama
os rastros das paisagens a memória
de açúcares
tão extravagantes quanto os refúgios
Juliana Krapp


sábado, 17 de dezembro de 2016

"And Now For Something Completely Different" (#123)


A certain lady

Fotografia de Louis Faurer



Oh, I can smile for you, and tilt my head,
And drink your rushing words with eager lips,
And paint my mouth for you a fragrant red,
And trace your brows with tutored finger-tips.
When you rehearse your list of loves to me,
Oh, I can laugh and marvel, rapturous-eyed.
And you laugh back, nor can you ever see
The thousand little deaths my heart has died.
And you believe, so well I know my part,
That I am gay as morning, light as snow,
And all the straining things within my heart
You'll never know.

Oh, I can laugh and listen, when we meet,
And you bring tales of fresh adventurings, --
Of ladies delicately indiscreet,
Of lingering hands, and gently whispered things.
And you are pleased with me, and strive anew
To sing me sagas of your late delights.
Thus do you want me -- marveling, gay, and true,
Nor do you see my staring eyes of nights.
And when, in search of novelty, you stray,
Oh, I can kiss you blithely as you go ...
And what goes on, my love, while you're away,
You'll never know.
Dorothy Parker


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

“Justiça” *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A vida está a correr bem a Ricardo Salgado: se for levado a tribunal, vai poder usar para sua defesa uma declaração recente de António Costa a atirar o ónus do colapso do BES para cima de Pedro Pedro Passos Coelho.

Mas há mais: o ex-dono-disto-tudo faliu a PT, esfandingou as poupanças de milhares de fregueses, pôs o espírito santo numa fossa funda, mas, apesar disso, a nossa “justiça” acaba de decidir que ele já pode ir flautear-se para fora do país.

Estes fffff todos são para não escrever a palavra começada por éfe em que o leitor está a pensar.

2. Guillermo Fariñas é um homem prematuramente envelhecido. Tem no corpo as marcas de onze anos nas masmorras cubanas e de 24 greves de fome.

Aquele dissidente — que em 2010 foi Prémio Sakharov do Parlamento Europeu — veio cá há um ano dar uma conferência no Dia Internacional dos Direitos Humanos (11 de Dezembro), um acto que teve pouco impacto nos media e foi ignorado pelo governo e pelo presidente da assembleia da república.
Eram os primeiros dias da geringonça e faltou coragem ao PS para afrontar a esquerda. É de crer que, se fosse agora, com o bloco e o PCP domesticados, António Costa e Ferro Rodrigues, homens da liberdade como são, não repetiam aquela vergonha.

Lembro aqui Guillermo Fariñas porque heróis como ele merecem ser homenageados, especialmente depois da lixiviação a que se assistiu no parlamento e na comunicação social ao torcionário Fidel.

E porque, em entrevista ao Público, ele explicou como funciona aquela monarquia comunista: o filho de Raúl Castro, Alejandro Castro Espín, “manda em todos os ministérios” e o genro, Rodríguez López-Calleja, está “à frente de toda a economia”. Fariñas disse ainda que está tudo preparado para as eleições de 2018 serem ganhas por Miguel Diáz-Canel, marido de uma neta do líder cubano.

Esta previsão eleitoral sombria pode não acontecer se Trump concluir o que Obama iniciou. O fim do bloqueio americano é o fim dos Castros.