quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Num monumento à aspirina

Daqui



Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
João Cabral de Melo Neto


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Acordar na rua do mundo

Daqui



madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário
Luiza Neto Jorge



Dance Me to the End of Love from dilek demirbas on Vimeo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Viseu, iluminação de Natal, uma dúvida

Rua da Paz, Viseu
Fotografia Olho de Gato




O laço é assim...

... ou assim?

contra a manhã burra

Fotografia de Françoise Huguier


o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia
Miguel-Manso




domingo, 27 de novembro de 2016

Por que tamanha judiação?

Daqui

Asa Branca


Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Depois eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Depois eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus óio
Se espaiar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Luiz Gonzaga


sábado, 26 de novembro de 2016

«I don’t feel any compulsion just to stand under the spotlight night after night unless I have something to say» — Leonard Cohen





Canadian writer, singer and artist Leonard Cohen reading his poem ‘Two Went to Sleep’:

Animation: Patrick Smith


Two went to sleep
almost every night
one dreamed of mud
one dreamed of Asia
visiting a zeppelin
visiting Nijinsky

Two went to sleep
one dreamed of ribs
one dreamed of senators

Two went to sleep
two travellers

The long marriage
in the dark

The sleep was old
the travellers were old
one dreamed of oranges
one dreamed of Carthage

Two friends asleep
years locked in travel

Good night my darling
as the dreams waved goodbye
one travelled lightly
one walked through water
visiting a chess game
visiting a booth
always returning
to wait out the day

One carried matches
one climbed a beehive
one sold an earphone
one shot a German

Two went to sleep
every sleep went together
wandering away
from an operating table
one dreamed of grass
one dreamed of spokes
one bargained nicely
one was a snowman
one counted medicine
one tasted pencils
one was a child
one was a traitor
visiting heavy industry
visiting the family

Two went to sleep
none could foretell
one went with baskets
one took a ledger
one night happy
one night in terror

Love could not bind them

Fear could not either
they went unconnected
they never knew where
always returning
to wait out the day
parting with kissing
parting with yawns
visiting Death till
they wore out their welcome
visiting Death till
the right disguise worked
Leonard Cohen ~ 1964



Delivered in Cohen’s distinctive baritone, the work wanders through a restless moonlit winter night spent imagining the dreamscapes of two nearby, sleeping companions. 







Sisters of mercy

Oh, the sisters of mercy, they are not departed or gone
They were waiting for me when I thought that I just can't go on
And they brought me their comfort and later they brought me this song
Oh, I hope you run into them, you who've been travelling so long

Yes, you who must leave everything that you cannot control
It begins with your family, but soon it comes around to your soul
Well, I've been where you're hanging, I think I can see how you're pinned
When you're not feeling holy, your loneliness says that you've sinned

Well, they lay down beside me, I made my confession to them
They touched both my eyes and I touched the dew on their hem
If your life is a leaf that the seasons tear off and condemn
They will bind you with love that is graceful and green as a stem

When I left they were sleeping, I hope you run into them soon
Don't turn on the lights, you can read their address by the moon
And you won't make me jealous if I hear that they sweetened your night
We weren't lovers like that and besides, it would still be all right
We weren't lovers like that and besides, it would still be all right
Leonard Cohen

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Melhor aluno*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. A menos de um ano das autárquicas, nada no concelho de Viseu faz abanar a tranquilidade de António Almeida Henriques.

O CDS é um vácuo chamado “falta de comparência de Hélder Amaral”. O seu vereador sobresselente bem se esforça, mas não foi nele que as pessoas votaram.

O PS nem contra o orçamento municipal do PSD para o próximo ano conseguiu votar. Apesar daquele documento manter os níveis de fiscalidade, ser tudo menos solidário com os viseenses e continuar a atirar dinheiro aos molhos para cima de uma “política de eventos” borliante que só aproveita a uma minoria da população. Perante um tão mau orçamento, os vereadores socialistas ficaram-se por uma abstenção envergonhada e afónica a ver se passavam entre os pingos da chuva.

É caso para perguntar: o PS-Viseu existe? Se existe, convém que se comece a mexer. Para que esse movimento tenha alguma eficácia, era bom que o aparelho deixasse de olhar tanto para o umbigo e percebesse um facto básico: ganhar uma concelhia ou um departamento de mulheres não é o mesmo que ganhar umas eleições fora do partido. Muito pelo contrário.

2. A retórica da “voz grossa” e do “bater o pé” à UE é um clássico das oposições. O primeiro-ministro Cavaco e todos os outros primeiros-ministros que se lhe seguiram foram acusados pelas oposições de serem uns totós incapazes de defenderem Portugal.

António Costa, no início, não podia correr o risco de fazer a mesma figura, por causa dos seus parceiros da geringonça. Foi por isso que em Bruxelas, essencialmente para consumo interno, optou por “ladrar sem morder” (expressão da The Economist).

Agora as coisas estão pacíficas. O comissário Pierre Moscovici, em pleno parlamento português, acaba de afirmar que Portugal é o seu “melhor aluno”. Nem Catarina Martins nem Jerónimo de Sousa rasgaram as vestes perante aquela sobranceria eurocrata.

A geringonça na “Europa” agora já não ladra, nem morde, nem engrossa a voz, nem bate o pé.
Daqui

John Coltrane




I would like to bring to people something like happiness.
John Coltrane






quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Loiça*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Novembro de 2006


1. Durante a Guerra Fria o mundo organizou-se em dois pólos: o mundo comunista, liderado pela União Soviética, e o mundo capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América. Ou se era de um lado ou se era do outro. Até o Dr. Cunhal, que via em Moscovo o “sol da Terra”, tinha apontado à cabeça mísseis soviéticos e não mísseis americanos. Com um ou outro percalço, assim funcionaram as coisas até à queda do Muro de Berlim, em 1989.

Naqueles anos, as duas grandes potências também tiveram os seus dissabores militares: a derrota no Vietnam traumatizou a América e o Afeganistão mostrou que a União Soviética já não podia com uma “gata pelo rabo”.

Confortável, debaixo do guarda-chuva de segurança americano, a Europa perdeu os seus impérios coloniais e perdeu músculo político-militar. Quando a barbárie regressou à Europa, na ex-Jugoslávia, foi preciso virem os americanos resolver o problema.

2. Robert Kagan, um académico neo-conservador, escreveu, ainda antes da Guerra do Iraque, “O Paraíso e o Poder, A América e a Europa na Nova Ordem Internacional”, onde defendeu que há uma divergência estratégica permanente entre a política externa dos Estados Unidos e a da Europa. O livro está editado em Portugal, pela Gradiva e nele, a certa altura, lê-se que: «(…) a verdadeira divisão de tarefas [militares] processa-se do seguinte modo: os Estados Unidos “fazem o jantar” e os europeus “lavam a louça”.»

Na Bósnia e no Kosovo foi assim. Os americanos fizeram com muita eficácia o trabalho “sujo” da guerra e os europeus fizeram o trabalho de manutenção da paz, isto é, “lavaram a loiça”.

Infelizmente, no Iraque, tal já não é possível. É que George W. Bush “fez o jantar” mas partiu a loiça toda. Já não há loiça para lavar. Só cacos para colar.



Primeiros anos

Fotografia de Diane Arbus



Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
Ferreira Gullar

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Lost weekend

Fotografia de Burt Glinn



Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.
Rui Pires Cabral




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"And Now For Something Completely Different" (#121)

Indiana Jones, ocelote, caranguejo

Na janela do tempo

Fotografia de Miwa Yanagi



A mulher que escutas na janela do tempo
lavra a dor com um vibrante sorriso interior
cantando a melodia do não dito
com a língua dos silêncios encontrada
a chama desse corpo aceitou o infinito azul
e renasceu com a magia de um templo antigo
quebrando os muros com a subtil harmonia dos anjos
e se nos seus dedos vislumbras o azul e em seus olhos uma ferida viva
dir-te-ei que o sorriso transmutou a dor ao encontrar-te
na unidade originária dos poemas
na bondade nua que nutres com as mãos
e a janela solitária entreaberta revelando o ar
é agora uma porta aberta para o mar
descobrindo a magia do tempo horizontal
Gisela Ramos Rosa

domingo, 20 de novembro de 2016

Paisagem aquática

Fotografia de Francisco Mata Rosas



Violinos de água, cavalos, veados de música,
florestas nocturnas de água e ciprestes.
E a lua, sempre.
Passa nos olhos, no cume da montanha,
a sombra que torna as palavras lentas

e os olhos turvos de espuma,
no silêncio espasmódico de beber gota a gota
o espaço que é assim,
lacustre nos olhos do assombro.

Porque falta o sol.
E um girassol de palavras que o possa abrir,
na noite, para cobrir a nudez, o vazio,
um esqueleto de nuvens em busca do oiro,

da vertigem,
desperto na erupção da bruma, do sangue,

a língua por dentro movendo o besouro negro
(antigo), onde tudo é intolerável,
entre paisagens aquáticas, dunas febris,

côndilos esfacelados, fragmentos de música,
magnólias, constelações,
linhas repassadas,

entre retalhos meniscais.
Maria do Sameiro Barroso


sábado, 19 de novembro de 2016

Forgetting someone

Daqui


Forgetting someone is like
forgetting to turn off the light in the backyard
so it stays lit all the next day.

But then it’s the light
that makes you remember.
Yehuda Amichai

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Fim de um mundo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. No artigo da semana passada, escrito quando ainda pensava que Hillary Clinton ia ganhar, fiquei-me pela descrição do golpe infligido ao poder mediático pela campanha de Donald Trump e constatei a chegada, também aos EUA, da política da pós-verdade à moda de Putin.

A poderosa comunicação social norte-americana, que nos seus tempos heróicos conseguiu até destituir o presidente Richard Nixon, foi humilhada em toda a linha. O seu corpo tem uma ferida aberta por dois torniquetes implacáveis: (i) os media de maior influência foram sendo comprados por milionários que retiraram a autonomia editorial aos jornalistas ao mesmo tempo que os proletarizavam; (ii) por sua vez, a internet tirou aos jornais, rádios e televisões primeiro o monopólio na produção e difusão de informação e depois receita.

Trump, além de ter derrotado o poder mediático, derrotou também o poder académico armado em guru do que é permitido e do que é proibido dizer. O milionário conquistou milhões de votos de gente intimidada pelos “chuis da linguagem” do politicamente correcto que vão queimando as pessoas que não sabem dizer as palavras certas — gente que Hillary chicoteou como “deploráveis”, durante a sua desastrosa campanha.


Daqui
2. Há uma velha história da dupla Piesiewicz / Kieslowski sobre um homem que marinhava muito bem de bicicleta, ziguezagueando por entre a confusão dos carros da cidade, até que foi ao oculista acertar as dioptrias. Quando passou a ver bem toda a confusão do tráfego, o homem largou a bicicleta. Perdera a coragem de fazer as tangentes aos carros que fazia antes.

Para além dos colunistas e papagaios do costume, os jornais e as televisões estão agora cheios de académicos a anunciarem o fim do mundo.

Todos eles precisam, também, de manter as dioptrias erradas. Para não verem que o único mundo que está a chegar ao fim é o deles.

3. Barack Obama tem ainda 62 dias para fazer uma coisa decente: fechar Guantánamo.

Poema aos homens constipados

Daqui


Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
António Lobo Antunes


Para casos especialmente graves:



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Ainda que mal pergunte

Fotografia de Bernard Plossu

Ainda que mal te pergunte,
Ainda que mal respondas;
Ainda que mal te entenda,
Ainda que mal repitas;
Ainda que mal insistas,
Ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
Ainda que mal me julgues;
Ainda que mal me mostre,
Ainda que mal te encare,
Ainda que mal te furtes;
Ainda que mal te siga,
Ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
Ainda que mal o saibas;
Ainda que mal te agarre,
Ainda que mal te mates;
Ainda assim, pergunto: Me amas?
E me queimando em teu peito
Me salvo e me dano...
...de AMOR!!!
Carlos Drummond de Andrade





quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Minh’alma quer-te com paixão

Daqui



Minh’alma quer-te com paixão
Ainda que haja nisso uma tortura
E alegre vai na ânsia da procura.
Que estranho ser difícil nossa ligação
Se os desejos d’ambos concordaram!
Que quereria mais meu coração,
Ao desejoso te buscar em vão,
Se meus olhos te viram e amaram?
Allah bem sabe que não há razão
De vir aqui senão para te ver.
Que o vigia não nos possa achar
Se o nosso reencontro acontecer
P’ra os teus lábios doces eu provar.
Folgarei no jardim da tua face,
Beberei desses olhos o langor,
E mesmo que um terno ramo imitasse
O teu talhe grácil, sedutor,
Valerias mais que o imitador.
Não te ocultes, oh jardim secreto:
Quero colher meu fruto predilecto!
Ibn ‘Amar




terça-feira, 15 de novembro de 2016

Cantas

Fotografia de Frank Horvat



Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.
Eugénio de Andrade




segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Ma Nuit chez Maud



It would be hard to imagine an American or English director making a film like Éric Rohmer’s Ma Nuit chez Maud (1969), in which Jean-Louis Trintignant agonizes for nearly two hours over whether or not to sleep with Françoise Fabian, in the process invoking everything from Pascal’s bet on the existence of God to the dialectics of Leninist revolution. 

Here, as in so many French films of that era, indecision rather than action drives forward the plot. 

An Italian director would have added sex. A German director would have added politics. For the French, ideas sufficed.
in Paris Was Yesterday 
Tony Judt 


Chiclete




— dá voltas sobre si sem chegar
a consumir-se
— de era da simulação
— pausa entre
o vermelho e verde do semáforo

— inflexão sonora
você mastiga-e-mastiga
sem saber
onde vai parar de barriga vazia
se pergunta
o que
vim fazer aqui
ao embarcar no metro
por volta das 15 de quarta feira
— caos organizado

nem faz questão da resposta

— senta com a cabeça
na janela vendo seu
reflexo
uma viagem que se faz no corpo
aqueles sóis seriam longos

— vira uma foto quase
ao sair no degradê da escada

pisa no chiclete

e pensa

o melhor seria jogá-los
no chão mesmo
de cimento
depois de serem achatados
sem
problemas

— acabam virando chão
Lucas Miyazaki Brancucci



domingo, 13 de novembro de 2016

Translating is sexy



la poésie est un baiser
entre deux langues
a french kiss
ou
un baiser amérîcain

chercher le point
où les deux langues se rencontrent
tout au fond
de la bouche
ou alors en surface
la pointe de la langue
contre la pointe de l’autre langue
how do you say that in english ?
I love you
that’s all
and
hold me tight
and
give it another try
baby

quel est le point de rencontre
the meeting point
mais là on pense à de la viande
I can’t meet you here
dear meat

let’s play
a game
oui, jouons un peu

translating
is sexy

I know that

so

la bouche the mouth
la langue the tongue

décrivez la sensation
ooh ooh ooh
décrivez vraiment

the tip of my tongue
dear love
will touch yours
dear love
and we will sing
dear love
together

the tip
of my tongue
will touch
yours

we won’t sing
my love
we will breath
my love in silence

we won’t sing
we will breath
in silence

we will live
and touch
slowly

does the tongue
have a skin?
the soft skin
of the tongue
will rape me
not rape
wrap
not wrap
une langue douce
un peu
rapeuse

et nous ne parlerons pas
de la salive
cette substance molle
et douce
dans la bouche

on peut l’échanger

ou peut-être
elle vous échange
comme un vieux pont mou

on s’enfonce dedans
elle vous fait passer
c’est une langue une salive un vieux pont mou
il vous porte
il vous fait passer

but say it again
the soft skin of the tongue

some thing soft
and pointed

how is that possible

it is

say it
and do it

you do it to me
I’ll do it to you

again
and again
till silence
how is silence possible
the soft skin of silence

it is

soft silence
pointed silence

can silence be a bridge ?
it can
it is

and here we are
welcome

little word
little word

dites-moi un mot
juste un mot
she didn’t like men with poney tails
elle n’aimait pas les hommes avec des queues
de cheval

coupures
nuances
attention

I told you
about translating

give me
one word
just one word
that would open up
open up
explode
and multiply

oui
allez-y
cassez-moi

a word
un mot

a word from you
my love
breaks me up
my love
and makes its way
my love
far inside me

oui
mais oui

she always gave him
a lot of trouble
c’était
une emmerdeuse
shut up
stupid
embrasse-moi
idiot

there was this awful american
woman
who would say
she wanted to have sex

c’est dégoûtant
vraiment

but they do
they say that

those terrible
american
women
ces terribles
femmes
américaines

oh
oh

Mais le ciel, ses stries. Rien ne nous protège de sa beauté. Tout vouloir. Le ciel, le vin, les livres, l’amour. Et la pensée. Si on n’a pas la pensée, on n’a rien. Rien de sa vie. Rien. Mais la pensée, on ne l’a pas. On la pense.

all the words
from all the times
from all the lives
you have lived
and will live
tous les mots sont là
disponibles
ils attendent

all the words
and all the worlds
from all the lives
and all the loves
chaque mot
est là
pas demain
aujourd’hui
NOW
Leslie Kaplan



sábado, 12 de novembro de 2016

O que você está falando, menina?

Daqui


O que você está falando, menina?
Estou falando que.
Que o quê?
Que.
Vamos dizer que a menina, minha amiga
Pretenderia o quê?
Que.
Patrícia "Pagu" Galvão



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Política da pós-verdade*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Fotografia de Scott Olson
1. As presidenciais norte-americanas são uma duríssima maratona de mais de um ano e as suas campanhas costumam ter processos inovadores, exportados depois para todo o mundo. O “sim, nós podemos” de Obama foi repetido até à náusea, em todas as latitudes e longitudes.

Nesta campanha foi ao contrário, Trump importou de Moscovo os métodos de guerrilha política não-linear de Vadislav Surkov e cilindrou o establishment republicano nas primárias. Depois conseguiu manter Hillary na defensiva e deixou atarantado o poder mediático.

Pela primeira vez nos EUA um candidato de topo esteve-se nas tintas para a comunicação social, os jornalistas foram directamente hostilizados nos seus comícios, e nem por isso a avalanche noticiosa contra a sua candidatura danificou Trump nas sondagens ou fez diminuir o seu rebanho de fiéis.

Trump defendeu ora branco ora preto, ora quente ora frio, ora alto ora baixo, mentiu com toda a tranquilidade do mundo, indiferente à “verificação-de-factos” dos media tradicionais.

Bem-vindos à política da pós-verdade!**

2. A guerra política agora é travada na internet por trolls” (pagos ou não) que desinformam, rebaixam os adversários, publicam notícias falsas, fazem “memes” letais, material que depois é partilhado nas cada vez mais tribalizadas redes sociais.

Basta ver a guerra no Facebook dos dois rebanhos — geringôncicos versus caranguejolos — para perceber que o que faz mexer as pessoas agora é tudo menos a verdade ou a troca racional de argumentos ou a procura de uma descrição ajustada da realidade. Uma maré de bílis leva tudo à frente.

Há quem ganhe muito dinheiro com a política da pós-verdade. Mesmo em Portugal. Entre 2005 e 2015, o autor do blogue socratista Câmara Corporativa recebeu 426 mil euros (3550 euros por mês).

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Adenda em 18/11/2016
Na semana seguinte à publicação deste texto,  os dicionários Oxford nomearam "post-truth" como palavra do ano.