quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Acordar

Fotografia de Diana Quintela




Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Álvaro de Campos


terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Polegar do Viriato mexe outra vez em 11 de Setembro, não perca!

Gif Olho de Gato 


Teatro de rua --- VIVER VIRIATO 
Concepção e Direção Artística do projeto: Trigo Limpo teatro ACERT

Promotores: Câmara Municipal de Viseu e Viseu Marca

Projeto criado em Parceria Artística com: Cine Clube de Viseu | Conservatório Regional de Música Dr. José de Azeredo Perdigão | Companhia De Mente | Gira Sol Azul | Grupo Tribal | Teatro Viriato (Companhia Erva Daninha) | Teatro Regional da Serra de Montemuro | Zunzum Associação Cultural

Dramaturgia e encenação: José Rui Martins e Pompeu José;

Cenografia e imagem: ZéTavares;

Escultura de cena: Nico Nubiola;

Direção de Produção: Miguel Torres;

Participação Artística Especial: Zunzum Associação Cultural;

Direção Técnica: Luís Viegas e Paulo Neto;

Produção Executiva: Marta Costa;

Interpretação teatral e musical e coordenação cénica: Ana Rita Silva, António Gonçalves, António Rebelo, Bruna Cardoso, Daniela Silva, Fábio Saraiva, Gustavo Cunha, Gustavo Dinis, Ilda Teixeira, Jéssica Pires, João Silva, José Rui Martins, Leonel Rosa, Lee Fragoso, Marco Silva, Mariana Rochinha, Miguel Cordeiro, Mike Mortágua, Natália Rodrigues, Paula Santos, Paulo Nuno Martins, Pedro Sousa, Raquel Costa, Sandra Santos, Telma Lopes, Tiago Pereira;

Assistência de Produção: Rui Coimbra

Secretariado: Rui Vale e Paula Pereira

Participação Especial: Mais de 250 elementos das comunidades de Tondela e Viseu e das Freguesias de Calde, Farminhão, Lamela, Montemuro, Mundão,
Silgueiros, Torredeita, Viseu, União de Freguesias de Boa Aldeia
e do Lar Escola Santo António

Devastação

Fotografia de Junku Nishimura


Vêm os jovens
e escrevem nas árvores seus nomes entrelaçados;
voltam adultos
e destroem esses corações apaixonados.
Leila Míccolis



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Favores, favores, partidos à parte

Daqui

Só depois de pagar o IMI, tenha ele uma bela vista ou uma má vista, só então, caro Jerónimo, poderá dizer que não deve "favores ao estado". 


O mesmo se aplica ao património dos outros partidos, seja ele património "okupado", seja ele adquirido, com ou sem favores.


Daqui





Redoble fúnebre a los escombros de Durango

Fotografia de Edward Steichen 



Padre polvo que subes de España,
Dios te salve, libere y corone,
padre polvo que asciendes del alma.

Padre polvo que subes del fuego,
Dios te salve, te calce y dé un trono,
padre polvo que estás en los cielos.

Padre polvo, biznieto del humo,
Dios te salve y ascienda a infinito,
padre polvo, biznieto del humo.

Padre polvo en que acaban los justos,
Dios te salve y devuelva a la tierra,
padre polvo en que acaban los justos.

Padre polvo que creces en palmas;
Dios te salve y revista de pecho,
padre polvo, terror de la nada.

Padre polvo, compuesto de hierro,
Dios te salve y te dé forma de hombre,
padre polvo que marchas ardiendo.

Padre polvo, sandalia del paria,
Dios te salve y jamás te desate,
padre polvo, sandalia del paria.

Padre polvo que avientan los bárbaros,
Dios te salve y te ciña de dioses,
padre polvo que escoltan los átomos.

Padre polvo, sudario del pueblo,
Dios te salve del mal para siempre,
padre polvo español, padre nuestro.

Padre polvo que vas al futuro,
Dios te salve, te guíe y te dé alas,
padre polvo que vas al futuro.
César Vallejo





domingo, 28 de agosto de 2016

ficas melhor assim vestida de não

Fotografia de Roswell Angier


ficas melhor assim vestida de não,
ficas mais quieta na minha memória.
a solidão é deste modo: a coragem
de escrever sozinho o final da nossa história.
adiciono pontos finais ao final da nossa história:
estás quieta na minha memória, os gestos
sem cor, um enorme não cerceando a tua boca.
estás também nua. aproximo-me de ti com o que de mais
humano consigo invocar: ensina-me o final
da nossa história! ficas mais quieta vestida de não,
completamente nua na minha memória.
onde se desenha a tua sombra recolho
estes versos: quando traí a nossa história?
Rui Tinoco


sábado, 27 de agosto de 2016

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

Daqui



Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Linha vermelha*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Obama ainda não se foi embora e já deixa saudades. São assim as democracias: é bom a limitação de mandatos mandar Obama embora, faz-nos lembrar os patéticos Putins e Zedus a caruncharem grudados à cadeira do poder.

O maior falhanço de Barack Obama foi não ter conseguido encerrar Guantánamo, esse offshore judicial vergonhoso que chegou a ter 779 prisioneiros e ainda tem 61. Os seus maiores sucessos foram a criação de um serviço de saúde para todos os norte-americanos e o crescimento económico pujante que colocou a taxa de desemprego abaixo dos 5%.

2. Vejamos a seguinte linha de tempo: (i) 20 de Agosto de 2012: Obama avisa Bashar al-Assad para não usar armas químicas, que isso era uma “linha vermelha”; (ii) 21 de Agosto de 2013: Assad bombardeia Ghouta com gás sarin (1400 mortos, muitos deles crianças); 
Fotografia daqui
(iii) 30 de Agosto de 2013: Obama, contra a opinião da quase totalidade dos seus conselheiros políticos e militares, decide não bombardear a Síria; (iv) 6 de Setembro de 2013: na reunião do G20 em S. Petersburgo, o presidente norte-americano chama Putin de lado e explica-lhe que havia um só caminho para Assad: destruir as suas armas químicas; (v) 14 de Outubro de 2013: a Síria reconhece ter armas químicas e aceita a sua destruição; (vi) 5 de Janeiro de 2016: confirmação oficial do fim daquele arsenal químico.

Desde aquele Agosto de há três anos, há uma enorme controvérsia nos EUA por Obama não ter usado o músculo militar. É afirmado que um “comandante-em-chefe” quando traça uma “linha vermelha” não pode, depois, ficar-se nas covas sob pena de perder credibilidade.

Penso que Barack Obama fez bem, conseguiu evitar que parte daquele arsenal químico tivesse ido parar às gadunhas do Estado Islâmico, com tudo o que isso significa.

E, claro, há-de chegar o tempo para sentar Bashar al-Assad, assassino do seu próprio povo, no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional.

Um ofício que fosse de intensidade e calma

Tempo Modernos, Charlie Chaplin, 1936


Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios
António Ramos Rosa


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A modo de trégua

Fotografia de Louise Dahl-Wolfe

Tienes mi cuerpo para el desquite
Mis dedos astillados acarician tu soledad
Mi orfandad te refeja
A modo de tregua, Alejandra
Recuéstate en mí
Mientras te invento.
Martha Carolina Dávila



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Siren Song

Daqui



This is the one song everyone
would like to learn: the song
that is irresistible:

the song that forces men
to leap overboard in squadrons
even though they see the beached skulls

the song nobody knows
because anyone who has heard it
is dead, and the others can't remember.

Shall I tell you the secret
and if I do, will you get me
out of this bird suit?

I don't enjoy it here
squatting on this island
looking picturesque and mythical

with these two feathery maniacs,
I don't enjoy singing
this trio, fatal and valuable.

I will tell the secret to you,
to you, only to you.
Come closer. This song

is a cry for help: Help me!
Only you, only you can,
you are unique

at last. Alas
it is a boring song
but it works every time.
Margaret Atwood


domingo, 21 de agosto de 2016

Maldita matemática!

Aqui





Lust is a force

Valentine de Saint-Point


A reply to those dishonest journalists who twist phrases to make the Idea seem ridiculous;
to those women who only think what I have dared to say;
to those for whom Lust is still nothing but a sin;
to all those who in Lust can only see Vice, just as in Pride they see only vanity.

Lust, when viewed without moral preconceptions and as an essential part of life’s dynamism, is a force.

Lust is not, any more than pride, a mortal sin for the race that is strong. Lust, like pride, is a virtue that urges one on, a powerful source of energy.

Lust is the expression of a being projected beyond itself. It is the painful joy of wounded flesh, the joyous pain of a flowering. And whatever secrets unite these beings, it is a union of flesh. It is the sensory and sensual synthesis that leads to the greatest liberation of spirit. It is the communion of a particle of humanity with all the sensuality of the earth.

Lust is the quest of the flesh for the unknown, just as Celebration is the spirit’s quest for the unknown. Lust is the act of creating, it is Creation.

Flesh creates in the way that the spirit creates. In the eyes of the Universe their creation is equal. One is not superior to the other and creation of the spirit depends on that of the flesh.

We possess body and spirit. To curb one and develop the other shows weakness and is wrong. A strong man must realize his full carnal and spiritual potentiality. The satisfaction of their lust is the conquerors’ due. After a battle in which men have died, it is normal for the victors, proven in war, to turn to rape in the conquered land, so that life may be re-created.

When they have fought their battles, soldiers seek sensual pleasures, in which their constantly battling energies can be unwound and renewed. The modern hero, the hero in any field, experiences the same desire and the same pleasure. The artist, that great universal medium, has the same need. And the exaltation of the initiates of those religions still sufficiently new to contain a tempting element of the unknown, is no more than sensuality diverted spiritually towards a sacred female image.

Art and war are the great manifestations of sensuality; lust is their flower. A people exclusively spiritual or a people exclusively carnal would be condemned to the same decadence—sterility.

Lust excites energy and releases strength. Pitilessly it drove primitive man to victory, for the pride of bearing back a woman the spoils of the defeated. Today it drives the great men of business who run the banks, the press and international trade to increase their wealth by creating centers, harnessing energies and exalting the crowds, to worship and glorify with it the object of their lust. These men, tired but strong, find time for lust, the principal motive force of their action and of the reactions caused by their actions affecting multitudes and worlds.

Even among the new peoples where sensuality has not yet been released or acknowledged, and who are neither primitive brutes nor the sophisticated representatives of the old civilizations, woman is equally the great galvanizing principle to which all is offered. The secret cult that man has for her is only the unconscious drive of a lust as yet barely woken. Amongst these peoples as amongst the peoples of the north, but for different reasons, lust is almost exclusively concerned with procreation. But lust, under whatever aspects it shows itself, whether they are considered normal or abnormal, is always the supreme spur.

The animal life, the life of energy, the life of the spirit, sometimes demand a respite. And effort for effort’s sake calls inevitably for effort for pleasure’s sake. These efforts are not mutually harmful but complementary, and realize fully the total being.

For heroes, for those who create with the spirit, for dominators of all fields, lust is the magnificent exaltation of their strength. For every being it is a motive to surpass oneself with the simple aim of self-selection, of being noticed, chosen, picked out.

Christian morality alone, following on from pagan morality, was fatally drawn to consider lust as a weakness. Out of the healthy joy which is the flowering of the flesh in all its power it has made something shameful and to be hidden, a vice to be denied. It has covered it with hypocrisy, and this has made a sin of it.

We must stop despising Desire, this attraction at once delicate and brutal between two bodies, of whatever sex, two bodies that want each other, striving for unity. We must stop despising Desire, disguising it in the pitiful clothes of old and sterile sentimentality.

It is not lust that disunites, dissolves and annihilates. It is rather the mesmerizing complications of sentimentality, artificial jealousies, words that inebriate and deceive, the rhetoric of parting and eternal fidelities, literary nostalgia—all the histrionics of love.

We must get rid of all the ill-omened debris of romanticism, counting daisy petals, moonlight duets, heavy endearments, false hypocritical modesty. When beings are drawn together by a physical attraction, let them—instead of talking only of the fragility of their hearts—dare to express their desires, the inclinations of their bodies, and to anticipate the possibilities of joy and disappointment in their future carnal union.

Physical modesty, which varies according to time and place, has only the ephemeral value of a social virtue.

We must face up to lust in full conciousness. We must make of it what a sophisticated and intelligent being makes of himself and of his life; we must make lust into a work of art. To allege unwariness or bewilderment in order to explain an act of love is hypocrisy, weakness and stupidity.

We should desire a body consciously, like any other thing.

Love at first sight, passion or failure to think, must not prompt us to be constantly giving ourselves, nor to take beings, as we are usually inclined to do so due to our inability to see into the future. We must choose intelligently. Directed by our intuition and will, we should compare the feelings and desires of the two partners and avoid uniting and satisfying any that are unable to complement and exalt each other.

Equally conciously and with the same guiding will, the joys of this coupling should lead to the climax, should develop its full potential, and should permit to flower all the seeds sown by the merging of two bodies. Lust should be made into a work of art, formed like every work of art, both instinctively and consciously.

We must strip lust of all the sentimental veils that disfigure it. These veils were thrown over it out of mere cowardice, because smug sentimentality is so satisfying. Sentimentality is comfortable and therefore demeaning.

In one who is young and healthy, when lust clashes with sentimentality, lust is victorious. Sentiment is a creature of fashion, lust is eternal. Lust triumphs, because it is the joyous exaltation that drives one beyond oneself, the delight in posession and domination, the perpetual victory from which the perpetual battle is born anew, the headiest and surest intoxication of conquest. And as this certain conquest is temporary, it must be constantly won anew.

Lust is a force, in that it refines the spirit by bringing to white heat the excitement of the flesh. The spirit burns bright and clear from a healthy, strong flesh, purified in the embrace. Only the weak and sick sink into the mire and are diminished. And lust is a force in that it kills the weak and exalts the strong, aiding natural selection.

Lust is a force, finally, in that it never leads to the insipidity of the definite and the secure, doled out by soothing sentimentality. Lust is the eternal battle, never finally won. After the fleeting triumph, even during the ephemeral triumph itself, reawakening dissatisfaction spurs a human being, driven by an orgiastic will, to expand and surpass himself.

Lust is for the body what an ideal is for the spirit—the magnificent Chimaera, that one ever clutches at but never captures, and which the young and the avid, intoxicated with the vision, pursue without rest.

Lust is a force.
Futurist Manifesto of Lust
11 January 1913


sábado, 20 de agosto de 2016

Traçado urbanístico

Fotografia de Jacques Dequeker



Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho - primoroso e com laço -
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam - como vulgares comerciantes -
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.
Silvia Ugidos

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Oxalá*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 19 de Agosto de 2003, faz hoje exactamente 13 anos, um camião-bomba destruiu o quartel-general das Nações Unidas em Bagdade, causando vinte e três mortos, entre eles o chefe da missão de paz, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Dez dias depois, segundo golpe no triunfalismo do sr. George W. Bush: um carro-bomba atingiu a mesquita do aiatola Mohammed Bakir al-Haqim, líder espiritual xiita e defensor de um Iraque democrático. Morreu o clérigo e mais 124 fiéis.

Ninguém no ocidente percebeu o que se estava a passar. Estes dois ataques suicidas foram atribuídos a gente leal a Saddam Hussein que, nesta altura, já estava confinado a um buraco.

O ocidente não percebeu, mas, como explica Loretta Napoleoni, no seu livro “A Fénix Isâmica, O Estado Islâmico e a Reconfiguração do Médio Oriente”, o movimento jiadista percebeu o recado: havia dois alvos a flagelar — o ocidente e os xiitas. Abu al-Zarqawi era o autor desta estratégia que desagradava a Osama bin Laden cuja mãe era xiita.

O carro-bomba de 29 de Agosto, por curiosidade, foi guiado por Yassim Jarrad, pai da segunda mulher de al-Zarqawi. Nos dois anos seguintes, o líder jiadista foi aumentando a sua capacidade militar e, em 2006, já ocupava largo território em volta de Bagdade, obrigando a uma mobilização de 130 mil tropas norte-americanas para a reconquista do “chamado «triângulo da morte» a sul da capital”. Em 8 de Junho de 2006, al-Zarqawi foi abatido pelos americanos que tinham a sua cabeça com um prémio igual à de Osama: 25 milhões de dólares.

O líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, tem procurado continuar a “obra” de al-Zarkawi. Aproveitou o caos no Iraque e na Síria para dar território à jiade sunita. O seu “califado” parece estar a encolher agora. Oxalá.

2. No segundo trimestre, a CGD perdeu 1,4 mil milhões de euros de depósitos. 


A secar
Fotografia Olho de Gato

É o que dá a conversa mal parida sobre imparidades e buracos no banco público e meses atrás de meses sem nenhuma decisão.

I wake up and I see the face of the devil

Fotografia de Gary Isaacs



I wake up and I see the face of the devil

and I ask him «What time is it?»

And he says,
«How much time do you want?»
Diamanda Galás


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Selos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Agosto de 2006


1. A Guerra do Líbano mostrou, mais uma vez, que quando os canhões começam a vomitar fogo, a primeira vítima é a verdade.

A Reuters despediu o fotógrafo Adnan Hajj depois deste, numa fotografia, ... 
... ter criado em computador uma nuvem de fumo virtual a pairar sobre Beirute.

Nalgumas fotografias de Ben Curtis, da Associated Press, e de Issam Kobeisi e Sharif Karim, da Reuters, ...


sobressaem brinquedos luzidios e imaculados, no meio do pó e dos destroços das casas bombardeadas.

Numa merecida homenagem à capacidade reconstrutiva libanesa, duas fotografias, uma da Reuters e outra da AP, “documentam” que o prédio bombardeado pelos israelitas em 22 de Julho foi destruído outra vez, duas semanas depois, em 5 de Agosto.

Poderão ser vistos estes e outros prodígios informativos no vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=4RxK9r4MESY&mode=related&search=. São quatro minutos que valem a pena. *

2. Há já uns bons meses, recebi um telefonema duma simpática funcionária das Finanças a perguntar-me se eu tinha comprado o dístico do automóvel numa determinada papelaria de Viseu. De facto tinha. Perguntou-me a matrícula do carro. Dei-lha. «A matrícula escrita no Modelo 11 é de um Mercedes.», disse ela. Havia um algarismo enganado. Em vez dum nove, um sete. «O meu carro não é um Mercedes. É um Ford.», confessei eu. Com pena.

Pelo decorrer da conversa, percebi que as Finanças estavam a gastar energia com eventuais fugas ao pagamento do selo e desconfiavam do trabalho dos revendedores. Percebi que o fisco estava preocupado com ninharias. Com amendoins. Para ser mais exacto: com a casca dos amendoins.

O resultado está à vista: este ano, a cobrança dos selos dos automóveis pifou. Depois de duas prorrogações, termina hoje o prazo para a compra do selo. Quando é que o responsável por esta vergonha é demitido?

* Infelizmente, este vídeo já não está disponível no YouTube

Mistérios




Uma vez que estes mistérios nos ultrapassam, 
finjamos ser os seus organizadores.
Jean Cocteau






terça-feira, 16 de agosto de 2016

White lily



What Fassbinder film is it?
The one-armed man walks into a flower shop
And says: What flower expresses
Days go by
And they just keep going by endlessly
Pulling you Into the future
Days go by
Endlessly
Endlessly pulling you
Into the future?
And the florist says: White Lily.
Laurie Anderson






segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Reconciliação

Gif daqui



Há-de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se
Porque hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.
Else Lasker-Schüler



domingo, 14 de agosto de 2016

Escoriación

Fotografia de Lee Jeffries 

Herida que queda, luego del amor, al costado del cuerpo.
Tajo profundo, lleno de peces y bocas rojas,
donde la sal duele, y arde el yodo,
que corre todo a lo largo del buque,
que deja pasar la espuma,
que tiene un ojo triste en el centro.
En la actividad de navegar,
como en el ejercicio del amor,
ningún marino, ningún capitán,
ningún armador, ningún amante,
han podido evitar esa suerte de heridas,
escoriaciones profundas, que tienen el largo del cuerpo
y la profundidad del mar,
cuya cicatriz no desaparece nunca,
y llevamos como estigmas de pasadas navegaciones,
de otras travesías. Por el número de escoriaciones
del buque, conocemos la cantidad de sus viajes;
por las escoriaciones de nuestra piel,
cuántas veces hemos amado.
Cristina Peri-Rossi


sábado, 13 de agosto de 2016

A lo mejor eres tú mismo el tren que pita y se mete bajo

Fotografia de Carlo Mollino




A lo mejor eres tú mismo el tren que pita y se mete bajo
tierra rumbo al infierno o la estrella de chatarra que te
lleva frente a otro muro lleno de espejos y de gestos,
endiablados gestos sin dueño y tú tras ellos, solo, feliz
propietario de una boca escarlata que muge.
Pega el oído a la tierra que insiste en levantarse y respirar.
Acaríciala como si fuera carne, piel humana capaz de
conmoverte, capaz de rechazarte.
Acepta la espera que no siempre hay lugar en el caos.
Acepta la puerta cerrada, el muro cada vez más alto, el
saltito, la imagen que te saca la lengua.
No te trepes sobre los hombros de los fantasmas que es
ridículo caerse de trasero with music in your soul.
Blanca Varela



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Poder local*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. As primeiras eleições autárquicas, em 1976, deram início ao poder local, o maior sucesso da nossa democracia. É que, enquanto o poder central já nos levou três vezes à bancarrota, o poder local conseguiu mudar a face do país usando somente 10% dos recursos públicos.

Houve e há erros, houve e há abusos, mas o balanço é mais que positivo. E não há eleitos mais próximos das populações e mais escrutinados e escrutináveis por elas do que os autarcas, especialmente os presidentes de câmara.

Daqui

A tendência destas quatro décadas, quer na evolução legal quer na prática, tem sido de reforço da visibilidade e dos poderes dos presidentes, o que faz sentido: as pessoas votam no presidente da câmara e é a ele que pedem contas, não é aos vereadores.

2. As câmaras municipais de Lamego (PSD) e de Nelas (PS) estão com problemas. Os seus presidentes perderam a maioria no colégio de vereadores. Tem havido propostas de deliberação chumbadas, pelouros retirados, maldades várias.

Sempre que acontecem casos assim, as legitimidades eleitorais do presidente e dos vereadores entram em colisão e a governabilidade da câmara avaria.

É que os vereadores são inamovíveis, a que se deve somar o facto bizarro de uma câmara municipal, um órgão executivo, ter, dentro dele, a situação e a oposição. Ser vereador da oposição é estar no mais ingrato dos lugares eleitos da nossa democracia.

Os presidentes de câmara deviam poder remodelar as suas equipas e as assembleias municipais deviam poder destituir o presidente da câmara.

3. Avanço já dois prognósticos para as autárquicas do próximo ano:

(i) O candidato do PSD-Lamego - seja ele Melchior Moreira ou uma segunda escolha - vai rejeitar a "herança" do actual presidente laranja.

(ii) Em Nelas, o presidente Borges da Silva vai ter uma vitória bem mais confortável do que a de 2013, em que ganhou por treze votos.

Carta

Fotografia de Michael Ackerman



Rei de muitos reis, se um dia,
Se uma hora só mal me atrevo
Ocupar-vos, mal faria,
E ao bem comum não teria
Os respeitos que ter devo.


Que em outras partes da esfera,
Em outros céus diferentes,
Que Deus até agora escondera,
Tanta multidão de gentes
Vossos mandados espera.


Que sois vós tal, que eles sós,
justo e poderoso rei,
Ou lhe desdais os seus nós,
Ou cortais; porque entre nós
Vós sois nossa viva lei.


Onde há homens há cobiça,
Cá e lá, tudo ela empeça,
Se a santa, se a igual justiça
Não corta, ou não desempena
O que a má malícia enliça.



Senhor, que é muito atrevida,
E onde ela nós cegos deu,
Cortar é coisa devida;
Exemplo o justo de Mida,
Que el-rei vosso avô fez seu.


Ora eu, que respeito havendo
Ao tempo, mais que ao estilo,
Irei fugindo ao que entendo;
Farei como os cães do Nilo,
Que correm, e vão bebendo.


A dignidade real,
Que o mundo a direito tem,
Sem ela ter-se-ia mal,
É sagrada, e não leal
quem limpo ante ela não vem.


Não falemos nos tiranos,
Falemos nos reis ungidos;
Remedeiam nossos danos;
Socorrem os afligidos;
Cortam pelos maus enganos.


As vossas velas, que vão,
Dando quase ó mundo volta,
Raramente contarão
Gente doutro algum rei solta;
Sem cabeça o corpo é vão.


Dignidade alta e suprema,
Que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco António tema
De pôr real diadema
A César sobre a cabeça.


Que nome de imperador
Dantes a César se dera
Sem suspeita, e sem temor;
Que inda então muito mais era
Ser cônsul, ser ditador.


Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém:
Certa a queda, e o fim tem
O reino onde há rei segundo.


Não ao sabor das orelhas,
Arenga estudada e branda;
Abastam as razões velhas:
A cabeça os membros manda;
Seu rei seguem as abelhas.


A tempo o bom rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
De sua grei montezinha.


Às aves, tamanho bando
Doutra liga, e doutra lei,
Por vencer todas voando,
A águia foi dada por rei,
Que o sol claro atura olhando.


Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
A Saul, quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
Aos montes de Gelboé!


Onde caíra o escudo
De seu rei, inda que inimigo,
Inda que já mal sisudo
Saindo de tal perigo,
E subindo a mandar tudo.


O senhor da natureza,
De quem céu e terra é cheia,
Vindo a esta nossa baixeza,
Do real sangue se preza:
Por rei na cruz se nomeia.


Sobre obrigações tamanhas
Velem-se contudo os reis
Dos rostos falsos, das manhas
Com que lhe querem das leis,
Fazer teias das aranhas.


Oue se não pode fazer
Por arte, por força ou graça,
Salvo o que a justiça quer;
Senhor, não chamam valer,
Salvo ao que lhes val na praça.


E por muito que os reis olhem,
Vão por fora mil inchaços,
Que ante vós, senhor, se encolhem
Duns gigantes de cem braços
Com que dão, e com que tolhem.


Quem graça ante el-rei alcança,
E lhe fala o que não deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra breve.


Quem joga, onde engano vai,
Em vão corre e torna atrás;
Em vão sobre a face cai:
Mal hajam as manhas más
Donde tanto dano sai!


Homem de um só parecer,
Dum só rosto, uma só fé,
Dantes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é.


Gracejar ouço de cá
De quem vai inteiro e são,
Nem se contrafaz mais lá;
Como este vem aldeão,
Que cortesão tornará?


As santidades da praça,
Aqueles rostos tristonhos,
Cos quais este, e aquele caça;
Para Deus, senhor, é graça;
Para nós tudo são sonhos.


E os discursos que fazemos,
Pode ser, não pode ser,
Mais diante o entenderemos:
Agora mortos por ver;
Então todos nós veremos.


Senhor, hei-vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Claro o que posso alcançar;
Andam para vos tomar
Por manhas, que não por força.


Por minas trazem suas azes
Os rostos de tintureiros,
Falsas guerras, falsas pazes;
De fora mansos cordeiros;
De dentro lobos roazes.


Tudo seu remédio tem
E que assim bem o sabeis,
E ao remédio também;
Querei-los conhecer bem,
No fruto os conhecereis.


Obras, que palavras não:
Porém, senhor, somos muitos,
E entre tanta multidão
Tresmalham-se-vos os frutos,
Que não sabeis cujos são.


Um que por outro se vende,
Lança a pedra, e a mão esconde;
O dano longe se estende;
Aquele a quem dói e entende,
Com só suspiros responde.


A vida desaparece,
E entretanto geme e jaz
O que caiu: e acontece,
Que dum mal, que se lhe faz,
Outro mor se lhe recresce.


Pena e galardão igual
O mundo a direito tem,
A uma regra geral;
Que a pena se deve ao mal,
E o galardão ao bem.


Se alguma hora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que a balança mais pendeu,
Faz-se engano às leis da terra;
Nunca se faz às do céu.


Entre os lombardos havia
Lei escrita, e lei usada,
Como se sabe hoje em dia;
Que onde a prova falecia,
Que o provasse a espada.


Ali no campo às singelas,
Enfim morrer ou vencer,
Fosse qual quisesse delas:
Não era melhor morrer
A ferro, que de cautelas?


Ao nosso alto e excelente
Dom Dinis, rei tão louvado,
Tão justo, a Deus tão temente,
Falsa e maliciosamente,
Foi grande aleive assacado.


Ele posto em tal perigo,
Rei que rei fez e desfez;
Contra o malicioso inimigo,
Foi-lhe forçado esta vez
Chamar-se a esta lei que digo.


E juntamente às cidades
A quem cumpriu de acudir,
Pelas suas lealdades:
Que tão más são as verdades
Às vezes de descobrir!


Neste tempo quem mal cai,
Mal jaz; e dizem que à luz
Por tempo a verdade sai;
Entretanto põem na cruz
O justo, o ladrão se vai.


Da mesma casa real,
Em verdade um grande infante
Tratado às escuras mal,
Bradava por campo igual,
E inimigos claros diante.


Enfim vendo a indústria e arte
Quanto que podem, chamou
Um leal conde de parte;
Só com ele se apartou;
Foi viver a melhor parte.


Onde tudo é certo e claro,
Onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro,
Sobre tanto desamparo
Foram três seus filhos reis.


Ó senhor! quantos suores
Passa o corpo e alma em vão
Em poder de envolvedores!
Enfim, batalhas que são?
Salvo desafios mores.


Com a mão sobre um ouvido
Ouvia Alexandre as partes,
Como quem tinha entendido,
Por fazer certo o fingido,
Quantas que se buscam d'artes.


Guardava ele o outro inteiro
A parte não inda ouvida:
Não vai nada em ser primeiro:
Quem muito sabe duvida;
Só Deus é o verdadeiro.


A tudo dão novas cores
Com que enleiam os sentidos:
Ah maus! ah enliçadores!
Ante os reis vossos senhores,
Andais com rostos fingidos!


Contais, gabais, estendeis
Serviços e lealdades:
olhai que não os daneis:
Falai em tudo verdades
A quem em tudo as deveis.


Senhor, nosso padre Adão
Pecou, chamou-o o juiz,
Tenha que dizer ou não;
E sua fraca razão,
Porém livremente diz.


Sempre foi, sempre há de ser,
Que onde uma só parte fala,
Que a outra haja de gemer:
Se um jogo a todos iguala,
As leis que devem fazer?


Vidas e honras guardais
Debaixo de vosso amparo
De estranhos e naturais;
Suspiram, não podem mais,
E às vezes não muito claro.



Também após aquela arde
A cobiça da fazenda
Por mais que se vele e guarde;
Tinha ela melhor emenda
Se não fosse mal e tarde.



Geralmente é presunçosa
Espanha, e disso se preza,
Gente ousada e belicosa,
Culpam-na de cobiçosa:
Tudo sabe vossa alteza.


Pensamentos nunca cheios,
Não têm fundo aqueles sacos;
Inda mal, porque têm meios
Para viver dos mais fracos,
E dos suores alheios.


Que eu vejo nos povoados
Muitos dos salteadores,
Com nome e rosto de honrados?
Andar quentes e forrados
Das peles dos lavradores.


E, senhor, não me creiais
Se as não acham mais finas,
Que as de lobos cervais,
Que arminhos, que zebelinas,
Custam menos, cobrem mais.


Ah senhor! que vos direi
Que acode mais vento às velas;
Nunca se descuide o rei;
Que inda não é feita a lei,
Já lhe são feitas cautelas.


Então tristes das mulheres,
Tristes dos órfãos coitados,
E a pobreza dos misteres,
Quem nem falar são ousados
Diante os mores poderes.


Os quais quem os assim quer,
Quem os negocia assim,
Que fará quando os tiver?
Nossos houveram de ser;
Tomaram-nos para si.


Ora já que as consciências
O tempo as levou consigo,
Venhamos às penitências,
Senhor, se eu vira castigo
Boas são as residências.


Mas eu vejo cá na aldeia
Nos enterros abastados,
Muito padre que passeia,
Enfim, ventre e bolsa cheia
Absoltos de seus pecados.



Se se hão de reconciliar,
Uns cos outros têm seu trato;
Basta-lhes só acenar:
Não nos fazem tão barato
Ao tempo de confessar


Senhor, esta vossa vara
Em quais mãos anda, tal é:
A boa é ave mui rara;
Sabei que esta nunca é cara,
Que seja muita a mercê.


Livre de toda cobiça,
A Deus temente, e a vós,
Sem respeito, e sem preguiça,
Vara direita sem nós,
Se quereis que haja justiça.


Tomai, senhor, o conselho
Do bom Getro ao genro amigo:
É verdade, é evangelho,
(Como disse aquele velho)
Humildemente vos digo.


Que estas leis justinianas,
Se não há quem as bem reja,
Fora de paixões humanas,
São um campo de peleja
Com razões francas e ufanas.


Morre o nobre Conradino
Co parceiro em tudo igual:
Cada um de morte indino,
Pelo pesado ou malino
Doutor, que interpreta mal.


Diz o texto: "O sangue cesse;
Por batalha a guerra finda."
Vem com grosa outro interesse;
Diz que ande o cutelo, ainda
Que em prisão certo o tivesse.


Mas, senhor, melhor o temos
Sendo vós o que mandais:
Todos nós revolveremos,
Os que tanto não podemos,
E aqueles que podem mais.


Que por amor se encadeia,
(Não é nome errado ou novo)
Se por livre se nomeia;
Não tem rei amor de povo
Tanto, em quanto o mar rodeia.


Aqui não vemos soldados;
Aqui não soa o tambor;
Outros reis, os seus estados
Guardam de armas rodeados,
Vós rodeado de amor.


Achar-nos-ão as divinas
No meio dos corações
Entalhadas vossas Quinas:
Estas são as guarnições
De vós, e dos vossos dinas.


Tem na verdade o francês
A seu rei amor aceso;
Não lho nega o português;
Porém traz guarda escocês,
Que não é de pouco peso.


O padre-santo assim faz,
A quem certo se devia
Alto assossego, alta paz;
Mas tem guarda, todavia,
Com que vai seguro e jaz.


Que se pode ir mais avante,
Com quanto alcança o sentido
Sem ferro, ou fogo que espante:
Com duas canas diante
És amado, e és temido.


Uns sobre os outros corremos
A morrer por vós com gosto:
Grandes testemunhas temos
Com que mãos, e com que rosto
Por Deus, e por vós morremos.


Outrossim para os reveses
(Queira Deus que não releve)
Em vós têm os portugueses
O bom rei de atenienses
Codro, que outrem algum não teve.


Do vosso nome um grão rei
Neste reino lusitano,
Se pôs esta mesma lei,
Que diz o seu pelicano:
Pola lei, e pola grei.


Mas eu sou duns guarda-cabras
Que se vão de ponto em ponto;
Querem só duas palavras;
Que dos gados, que das lavras
Depois não tem fim, nem conto.


Assim que seja aqui fim;
Tornem as práticas vivas;
Perdestes meia hora em mim,
Das que chamam sucessivas
Estes que sabem latim.
Sá de Miranda