quinta-feira, 31 de março de 2016

Arco-Íris*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Março de 2006

Chovia como num filme de Andrei Tarkovski. Água, muita água, cântaros de água, caíam dos céus. Finalmente, a tão esperada chuva caía horas seguidas sobre a cidade, limpando o ar.

Eles iam a sorrir. Um com o outro. Um para o outro. Um ele e uma ela. Rua abaixo. Eram donos da vida e do tempo. Nem viam as montras nem as pessoas. Passavam por cima da água que não vencia a estreiteza das sarjetas.

Entre eles era uma raiva brincada. “Maldito sejas!”; “maldita sejas!”; “cala-te!”; “não me calo nem me fico, quem é que julgas que és tu, meu palerma?”. Aquelas palavras soavam, nos ouvidos deles, como um carinho. Instalara-se entre eles aquela ternura estranha. Aquele paradoxo. A chuva ria-se daquela dessintonia entre as palavras deles e o gostar deles.

As pessoas olhavam e desviavam-se. Tinha que ser pois eles, como já se disse, não viam ninguém. Nem das poças de água se desviavam.

*****

Entraram numa pastelaria. Pediram o mesmo chá de tília para duas chávenas. A mesma torrada para dois. Partilharam as fatias de dentro da torrada. As fatias sem côdea, a escorrer manteiga. As melhores. Ele, desajeitado, queimou-se no bule. Deitou chá na chávena dela, na dele e no tampo da mesa. Sorriam enquanto o calor das chávenas lhes aquecia as mãos. Saíram, desatentos do mundo, sem esperarem pelo troco. Regressaram à chuva.


*****


Ele estendeu a mão para ela. Ela para ele. Olharam-se no fundo dos olhos. A chuva fria, agora, já não caía com tanta força. Podia-se dizer (se não fosse um disparate) que a chuva agora tinha clareiras.
Abraçaram-se com faíscas nos olhos. Os lábios aproximaram-se. 
Fotografia daqui

No céu acendeu-se um arco-íris.

um dizer ainda puro

Fotografia de Brassaï



imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.


dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.


diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.
Vasco Gato


quarta-feira, 30 de março de 2016

Ai meu amig'e lume destes meus olhos

Fotografia de Christer Strömholm


Ai meu amig'e lume destes meus
olhos e coita do meu coraçom,
por que tardastes, há mui gram sazom?
Nom mi o neguedes, se vos valha Deus,
............ca eu quer'end'a verdade saber,
............pero mi a vós nom ousades dizer.

Dizede-mi quem mi vos fez tardar,
ai meu amig', e gradecer-vo-lo-ei,
ca já m'end'eu o mais do preito sei
e nom vos é mester de mi o negar,
............ca eu quer'end'a verdade saber,
............pero mi a vós nom ousades dizer.

Per bõa fé, nom vos conselhou bem
quem vos esta tardada fazer fez,
e, se mi vós negardes esta vez,
perder-vos-edes comigo por en,
............ca eu quer'end'a verdade saber,
............pero mi a vós nom ousades dizer.
Martim de Caldas






terça-feira, 29 de março de 2016

Si pudiera regresar

Fotografia de Trude Fleischmann


Si pudiera regresar,
recobrar la oscuridad
que sucedió al griterío de los invitados
cuando alguien apagó de un soplo
las velas de la torta de cumpleaños.
Saber por qué sigo soñando
con esa mañana de caza
y el ruido del disparo que volteaba las perdices
se mezcla al de un puñado de tierra
lanzado a un ataúd.


Si pudiera regresar
¿te encontraría más nítida
que en mi memoria fiel?
La manera de ponerte
una cinta en el pelo,
el tren donde subíamos,
la canción que silbabas
cuando preparaste desayuno:
«I walk alone».
Si pudiera regresar.
Jorge Teillier


segunda-feira, 28 de março de 2016

Latcho Drom — escolha de José Fernandes — no "sexigenário" CCV

29 de Março, 21H30, IPDJ-Viseu

Numa altura em que se assinala o 60º ano de actividade do CINE CLUBE DE VISEU, continua em cartaz um ciclo de filmes escolhidos por directores de várias fases da vida do CCV.

A próxima sessão tem data marcada para 29 de Março, com o filme escolhido e apresentado por José Fernandes: LATCHO DROM de Tony Gatlif (1993).



Retrato lírico da cultura cigana, LATCHO DROM é um diário de viagem musical que segue o percurso migratório levado a cabo pelo povo ROM, desde a Índia para oeste, desde há mil anos. 

Filmado em vários países, com um elenco quase inteiramente cigano, na verdade, como referiu o crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum, "LATCHO DROM não tem nacionadade de todo. " 

É também um filme sem género definido, ao mesmo tempo musical, documentário, ensaio etnográfico, e manifesto apaixonado de um cinema mais livre.



LATCHO DROM é um dos filmes do mais famoso cineasta cigano do mundo, com várias obras premiadas internacionalmente, e com um Prémio de Realização em Cannes, com “Exílios” (2003). 

TONY GATLIF, que já viveu em Portugal, abordou o seu trabalho, em entrevista de 2008 ao Jornal de Notícias: 
“A cultura cigana é sempre divertida. Mesmo nos momentos mais trágicos. Os ciganos, ao longo da história, souberam sempre manter uma certa alegria de viver, mesmo se para eles a vida é dura. Faz parte da cultura cigana. Os ciganos nunca são sinistros.” 

E não esconde a defesa do seu povo: 
“O cinema que faço é um cinema de luta, que defende o meu povo, no Mundo inteiro. Faço um cinema divertido, mas empenhado. Vai contra os estereótipos, que são feitos por pessoas que não nos conhecem.”

Serei conde, marquês e deputado + uma curta de Constantine Krystalli

Cartoon de Zédalmeida
Daqui


Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.

A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.

Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”

Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
Luiz Gama

domingo, 27 de março de 2016

Corazón, Corazón, si te turban pesares

Fotografia de Orville Robertson


Corazón, Corazón, si te turban pesares
invencibles, ¡arriba!, resístele al contrario
ofreciéndole el pecho de frente, y al ardid
del enemigo oponte con firmeza. Y si sales
vencedor, disimula, corazón, no te ufanes,
ni, de salir vencido, te envilezcas llorando
en casa. No les dejes que importen demasiado
a tu dicha en los éxitos, tu pena en los fracasos.
Comprende que en la vida impera la alternancia.
Arquíloco de Paros (VII a. C.)



sábado, 26 de março de 2016

O cronista mais lido em Portugal


A tosse da noite

Fotografia de Rudolf Koppitz


ela dizia: prolongou-se o teu sono
mas em mim a noite solta-se
e sopra sobre o fogo da minha carne.
vem, oh vem.
é comigo o amor e o candeeiro de luz cor do vinho.
comigo o êxtase do momento.
se não vens és cobarde
és recipiente cuja água secou.

vem, vem!
banhei esta tarde de perfumes.
e há em meu peito segredos
que ela te confiará, se tu vieres.
meu peito é prisioneiro. lamenta-se.
vem! nada de estrelas
nos meus domínios, nem de luzes.
vem! a nossa noite é uma outra história
o cume de soberana embriaguez.

inebria-me o orvalho de uma voz
uma voz deslizante como vem a alvorada.
mas eu sou como Antar,
paciente e valoroso na hora da morte.

não concedo o meu beijo à cascata
senão no extremo ponto da sua queda.
quero ser livre.
como a vaga, viver.
como o nauta, fender o rio do silêncio.

viver no seio da tempestade
e do trovão,
errar nas selvas.
partir, quero partir
só, envolto no manto da noite
precedido dos meus pressentimentos.

minha bela, em ti
a violência da água
a humidade do camaleão.
eu, alguns lampejos.
diante do odre de vinho, eu era o desejo,
desejo, doces colóquios, à noite, sob a chuva.
mas em minha alma, matei a noite.
a chispa dos meus sonhos foi-se
sobre o cadáver dos meus sentidos.
deixa-me no sono de inverno
falando à toa como um ébrio morto.
eu fico, deixa-me, na infância do meu sonho ido.
deixa-me detrás da porta aferrolhada.
não, não, não abras.
fugirei se abrires a porta,
fugindo à deriva em imensas florestas.
Hassan Abdullah al-Quraishi

sexta-feira, 25 de março de 2016

Pactos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Como a política portuguesa está, outra vez, cheia de apelos a “pactos” de regime, repito um que fiz aqui há uns anos a Pedro Passos Coelho e ao então líder do PS, António José Seguro.

O actual primeiro-ministro, em todas as entrevistas, diz desejar acordos com o líder da oposição. Quando Passos Coelho era o chefe do governo dizia o mesmo e até conseguiu chegar a acordo com Seguro numa fiscalidade mais amiga das empresas, logo abandonada por António Costa mal chegou à liderança do PS.

Entendamo-nos: só um pato acredita num pacto tratado nos media. Essas coisas fazem-se em segredo, com tempo e com cedências entre as partes.

Entre nós, os pactos que contam implicam dois terços de votos, isto é, precisam do PS e do PSD. Tem sido sempre assim e ainda é. Só que agora é mais complicado.

Vai ser necessário designar novos nomes para o Tribunal Constitucional, Conselho Económico e Social, Conselho Superior da Magistratura e Provedoria da Justiça. Essas nomeações precisam dos votos do PSD, mas o poliamoroso António Costa tem agora que as acertar também com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Veja-se só este melindre: será que o bloco e o PCP vão permitir o nome de que se fala para a CGD, o ex-ministro da saúde Paulo Macedo?

Das últimas eleições resultou um governo fraco. A “geringonça” é fraca. Se estivesse lá a “caranguejola”, fraca era. Pode haver uma crise política a qualquer momento. Em Abril, decorridos os seis meses de defeso constitucional, já poderão ser convocadas eleições antecipadas.

Ora, enquanto a Grécia resolve crises governamentais em três semanas, cá são quatro longos meses de impasse. Regras más adoecem as democracias. Há uma patologia no funcionamento das instituições a necessitar de um urgente pacto de regime.

Caros António Costa e Pedro Passos Coelho, ...
Fotografia daqui
... não digam nada aos jornais, reúnam-se em segredo, e, por favor, encurtem os prazos caracólicos das nossas leis eleitorais.

um tal troço sem fim e sem início

Fotografia de Man Ray

um tal troço sem fim e sem início
invisível que a gente nunca pega
mesmo assim dentro dele se navega
como o ar vagueando em precipício
urubus a voar em rebuliço
pelos céus internautas do nordeste
onde quem manda é cabra da peste
pula de um blogue a outro em prosa e verso
faz desse quarto e sala um universo
e não tem megabyte que o conteste.
Márcia Maia

quinta-feira, 24 de março de 2016

A matéria das palavras

Fotografia de Harry Peccinotti

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
Ana Hatherly


quarta-feira, 23 de março de 2016

falhámos tudo

Fotografia de Graciela Iturbide


falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor
demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.
já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.
Renata Correia Botelho

terça-feira, 22 de março de 2016

Tudo o que vês chega de longe

Fotograma do vídeo


Tudo o que vês chega de longe: apenas um contorno
ou uma sombra que se desloca devagar. Há gestos
semelhantes a folhas que não caem. Principia agora
a luz a espalhar-se à nossa volta e a verdade torna-se
mais simples. É como um rosto que reconhece a sua idade.
Fernando Guimarães



segunda-feira, 21 de março de 2016

The quiet world

Gif daqui



In an effort to get people to look
into each other's eyes more,
and also to appease the mutes,
the government has decided
to allot each person exactly one hundred
and sixty-seven words, per day.

When the phone rings, I put it to my ear
without saying hello. In the restaurant
I point at chicken noodle soup.
I am adjusting well to the new way.

Late at night, I call my long distance lover,
proudly say I only used fifty-nine today.
I saved the rest for you.

When she doesn't respond,
I know she's used up all her words,
so I slowly whisper I love you
thirty-two and a third times.
After that, we just sit on the line
and listen to each other breathe.
Jeffrey McDaniel


domingo, 20 de março de 2016

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada pelas vozes*

Gif daqui




Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça —
e as palavras nascem.
— Límpidas e amargas.




Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria —
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? Onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. — É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
Herberto Helder

sábado, 19 de março de 2016

Espinho no pé

Rapaz que tira um espinho do pé — por Fidel Évora

Avenida Capitão Silva Pereira — Viseu
Gif Olho de Gato

Nunca Deus quis nulha cousa gram bem

Hugues Merle - Maria Madalena na Gruta
Gif de Stefano Tagiafierro



Nunca Deus quis nulha cousa gram bem
nem de coitado nunca se doeu,
pero dizem que coitado viveu;
ca, se s'El del doesse, doer-s'-ia
de mi, que faz mui coitado viver,
a meu pesar, pois que me foi tolher
quanto bem eu eno mund'atendia.

Mais enquant'eu já vivo for, por en
nom creerei que o Judas vendeu
nem que por nós na cruz morte prendeu
nem que filh'est de Santa Maria;
e outra cousa vos quero dizer:
ca foi coitado nom quero creer,
ca do coitad'a doer-s'haveria.

Ainda vos d'El direi outra rem:
pois quanto bem havia me tolheu
e quant'El sempre no mund'entendeu
de que eu mui gram pesar prenderia,
per bõa fé, dali mi o fez prender;
por esto nom quer'eu per El creer,
e quanto per El crive, fiz folia.

E se El aqui houvess'a viver
e lh'eu por en podesse mal fazer,
per bõa fé, de grado lho faria!

Mais - mal pecado! - nom hei en poder
e nom Lhi poss'outra guerra fazer;
mais por torpe tenh'eu quem per El fia!
Pero Garcia Burgalês


sexta-feira, 18 de março de 2016

Ferrugem*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Ao contrário do que aconteceu em 2005, quando Paulo Portas queria Telmo Correia como seu sucessor e lhe saiu na rifa José Ribeiro e Castro, desta vez as coisas correram sem sobressaltos: Paulo Portas “entregou”, no passado fim-de-semana, a liderança do CDS a Assunção Cristas.

Por enquanto, ainda só tivemos dois “Matusaléns” à frente de partidos: Álvaro Cunhal e Paulo Portas. Este dirigiu o CDS de 1998 a 2016, com um intervalo de 2005 a 2007. A sua chegada à chefia do CDS foi memorável. Essa “primeira vez” foi descrita aqui, num Olho de Gato, da seguinte maneira:

De súbito, irrompem aplausos no fundo da sala. O povo do CDS vira a cabeça. Sorrisos no ar. Cenhos franzidos nas elites. Palmas. Metronicamente, Ele entra. Ele. O Messias. Paulo Portas, saudado pela sala em pé, caminha enérgico a olhar para Manuel Monteiro. A turba agita-se. As televisões seguem a cena. Paulo Portas mais próximo. A sala paroxiza-se. As meninas jotas ruborescem. As madames têm princípios de delíquios. Os cabos de votos do Minho acenam que sim com a cabeça.

Paulo chega à mesa. Aperta energicamente a mão a Manuel. No tempo de um aperto de mão, Paulo “é”, Manuel “era”.

Este foi o mais cinemático “homicídio” político da nossa terceira república. Só podia ter sido protagonizado pelo cinéfilo Paulo Portas.

A liderança de Paulo Portas deixa, como passivo, os submarinos do Jacinto Leite Capelo Rego. Mas deixa um activo que suplanta esse passivo: a Paulo Portas se deve não ter medrado eleitoralmente à direita um populismo nacionalista e eurocéptico como há por essa “Europa” fora.

Resta ver o que os seus “jovens” 53 anos querem fazer no futuro.

2. O syrizista bloco de esquerda acaba de votar contra o apoio de 106,9 milhões de euros à Grécia. Isso mesmo: todo aquele “esganiçamento” bloquista pelo povo grego era, afinal, treta OXIdada.

Há ferrugem nos apoios parlamentares da “geringonça”. Esta já teve que ser salva duas vezes pela "caranguejola" da direita.

tu nunca foste um anúncio

Fotografia de Letizia Battaglia


tu nunca foste um anúncio
nunca vendeste nada
nem sequer o teu amor

tu nunca tiveste qualquer pequena coisa
à prova de bala
tu nunca escreveste coisas simples
{coisas como eu gosto de ti
ou és especial}

tu nunca foste uma resposta
e talvez por isso te perguntei
tanta coisa.
Sylvia Beirute


quinta-feira, 17 de março de 2016

Serviço Público*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Março de 2006



1. Em Maio de 1995, uma Comissão presidida por Lord Nolan apresentou um Relatório sobre “Padrões de Conduta na Vida Pública”. Vale a pena recordar os “Sete Princípios da Vida Pública” que a Comissão Nolan publicou:

Lord Nolan
i) Altruísmo: todas as decisões dos políticos devem ter em conta o interesse público e nunca o ganho pessoal.

ii) Integridade: os dirigentes não podem ficar dependentes de pessoas ou organizações que possam influenciar o seu desempenho.

iii) Objectividade: as escolhas devem ser feitas pelo mérito.

iv) Responsabilidade: os dirigentes são responsáveis pelas suas acções e devem-nas submeter ao escrutínio do público.

v) Abertura: as decisões e acções dos políticos devem ser explicadas e o acesso à informação só pode ser restringido em casos em que o interesse público claramente o exija.

vi) Honestidade: devem ser declarados todos os interesses privados e os responsáveis devem resolver qualquer conflito de interesses a favor do interesse público.

vii) Liderança: os responsáveis devem promover e apoiar estes princípios através do exemplo e da capacidade de liderança.

2. Há uns anos, Freitas do Amaral alertou para o facto do Vaticano e os países muçulmanos terem uma “Santa Aliança” para impedirem qualquer forma de compromisso na ONU em temas de natureza moral, dos costumes, da educação sexual ou dos direitos da mulher. [Público, 16.07.99]

Ao contrário da Espanha de Zapatero, a situação em Portugal ainda é pior que na ONU: nada mexe nestes temas civilizacionais. Há uma “Santa Aliança” que emperra as coisas. Até a despenalização do aborto teve que ser posta no congelador, depois das asneiras feitas pelos Grupos Parlamentares do PS e do Bloco de Esquerda.

Nem mesmo a ciência é uma vaca sagrada

Daqui

intrigado pela muralha da china
dediquei grande parte de minha vida
..........à sua pesquisa
no princípio
..........pareceu-me impossível
que pudesse existir
..........pois com seu material
poder-se-ia haver edificado uma cidade
..........para dez milhões de chineses
Assim motivado por minhas congeminações
..........indagatórias
estudei engenharia civil
..........obtive mestrado em construções
dei palestras
sobre projetos de pontes
conferências sobre
..........a arquitetura greco-romana
mas a muralha da china
continuava acordando-me no meio da noite
..........até que decidi
..........realizar uma expedição ao tibete
para colher informação
sobre as rochas usadas na construção
..........ao meu regresso
a alemanha
quis contratar-me
para que reconstruísse o muro de berlim
..........mafiosos de todas as partes do mundo
.................faziam fila em meu escritório
..........com esperanças de que assinasse
contratos
..........para a edificação de seus bunkers
...............mas hoje quando já decifrei
....................os mistérios da grande
muralha
acordo
intrigado pelos castelos de areia
..........que meu neto
..........constrói na praia.
Edwin Madrid
Trad.: Ricardo Domeneck


quarta-feira, 16 de março de 2016

Sin palabras

Marilyn Monroe
Fotografia de Andre de Dienes (1946)


O silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.
Eugénio de Andrade







Rumor

Que rumor consegue ainda magoar-te,
deixar-te inquieto e só à volta das palavras?
Que rumor pode levar-te a escrever assim,
circunspecto e árido,
escassos versos?
Luís Filipe Castro Mendes


terça-feira, 15 de março de 2016

Sobre direitos e privilégios ou esta raiva a crescer-nos nos dentes

Fotografia de Ewa-Marie Rundquist


O mundo não é feito de pessoas, nem de casas, nem de coisas.
O mundo é feito com palavras perfiladas
como pedras
sobre pedra e
em cima de outra pedra, ainda.

São de palavras de pedra, as paredes do mundo:
direitas e exactas como um fio de prumo.

Se nos tiram a língua,
as várias línguas que tem a nossa língua:
esta língua com que te falo,
a língua com que te beijo,
esta mesma língua com que digo esse nome que tu és,
roubam-nos mais mundo ao nosso mundo.

E um mundo rente, sem paredes, raso ao chão,
que não se tenha de pé e num pé direito
tão alto que lhe caibam todas as palavras empilhadas
é um mundo do reverso e do regresso
em que ao privilégio absurdo de viver se segue
o direito adquirido de sofrer.
Rita Taborda Duarte


segunda-feira, 14 de março de 2016

Rega automática

Gif daqui



Na esquerda, uma luva grossa
protege-me dos acentos agudos.
A direita, despida e guardada,
receio que se transforme em água,
ainda não foi urgente abri-la.
Tornou-se uma evidência que estas
mãos podiam um dia ficar
mais longe do prolongamento
dos ouvidos.
Deixei, nessa mesma tarde,
no colo as agulhas
e os fios, espessuras e números incompatíveis.
Nunca fui capaz de ensaiar
as dobras
meticulosas na folha branca.
Um só vinco geométrico, em papel
de máquina, podia disciplinar-me
todos os gestos (mesmo os
que afinal não foram).
Se fosse hábil de tacto,
rendia-me ao origami.
Margarida Ferra


domingo, 13 de março de 2016

Chopin: um inventário

 Frédéric Chopin (1.3.1810 — 17.10-1849)
A única fotografia conhecida de Chopin, 
provavelmente feita por Louis-Auguste Bissone,
no ano da morte do músico, em 1849


Quase sessenta mazurcas; cerca de trinta estudos;
duas dúzias de prelúdios; uma vintena de nocturnos;
umas quinze valsas; mais de uma dúzia de “polonaises”;
“scherzos”, improvisos, e baladas, quatro de cada;
três sonatas para piano; e dois concertos para piano e orquestra,
uma “berceuse”, uma barcarola, uma fantasia, uma tarantela, etc.,
além de umas dezassete canções para canto e piano; uma tuberculose mortal;
um talento de concertista; muitos sucessos mundanos; uma paixão infeliz;
uma ligação célebre com mulher ilustre; outras ligações sortidas;
uma pátria sem fronteiras seguras nem independência concreta;
a Europa francesa do Romantismo; várias amizades com homens eminentes;
e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos, escreveram mais,
comeram mais amargo o classicamente amargo pão do exílio, foram ignorados
ou combatidos, morreram abandonados, não se passearam nas alcovas
ou nos salões da glória, confinaram-se menos ao instrumento que melhor dominavam,
e mesmo foram mais apátridas sofrendo de uma pátria que não haja.
Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade repelente
de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,
requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos,
e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade, como ele não. Ou de ser
prato de não-resistência para os concertistas que tocam para as pessoas que julgam
que gostam de música mas não gostam. Ainda por cima
era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que não tinha,
um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem as oligarquias
da Polónia, coitadinhas, e outras. E, para cúmulo,
a gente começa a desconfiar de que não era sequer um romântico,
pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender que era.
Uma arte de compor a música como quem escreve um poema,
a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração
ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre
a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos
usada para esconder o pensamento – e escondê-lo tanto,
que ainda passa por burro de génio este homem que tinha o pensamento nos dedos,
e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das formas livres
para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que pode servir-se
morno, às horas da saudade e da amargura,
quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,
e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo
de ser-se piano e nada mais no mundo.
Jorge de Sena







sábado, 12 de março de 2016

Dos olhos de Rubliev

in Andrey Rubliev, de Andrei Tarkovsky (1966)




1.
Quando em Hilander-Athos surgiram
os primeiros tocadores de címbalos
e o seu cortejo foi saudado
com pétalas perfumadas
e grinaldas
na Porta Alta do Templo
Já lá vivia o monge Rubliev
o que chamavam pintor


2.
Creio
que ele só via


3.
pois
ver não é habitar
o espanto de as coisas serem?


Ver
não é a assombrosa revelação
da nossa cumplicidade
com o lume?


4. 
Amo a luz profunda
dos olhos de Rubliev
o misterioso despertar desse brilho
tão real
amo os seus olhos
José Tolentino Mendonça





sexta-feira, 11 de março de 2016

Procusto*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Procusto tinha em sua casa uma cama de ferro para receber viajantes. Essa cama era uma bitola: o hóspede tinha de ser do exacto tamanho da cama. Se ele fosse maior, Procusto serrava-lhe as pernas, se ele fosse mais pequeno, Procusto esticava-o.

Este mito grego representa a intolerância perante a diferença. É uma parábola sobre a igualitarização compulsiva de tudo. Não faz mal nenhum lembrá-lo agora quando começam a chegar a Portugal refugiados, a quem é decente ajudar e a quem não é decente “serrar” ou “esticar” para encaixar à força na nossa “cama” de valores.

Esta interdição é, evidentemente, metafórica e bi-direccional — nem nós a eles, nem eles a nós. Principal melindre: a condição da mulher. Não podemos ceder nos avanços conseguidos na igualdade entre homens e mulheres.

Foi com muito sofrimento, coragem e determinação que se conseguiu vencer, nestas matérias, a oposição do Vaticano e dos estados do Islão que sempre se aliaram nos fóruns internacionais. “Santa aliança”, assim lhe chamou, com desagrado e conhecimento de causa, o ex-presidente da assembleia geral da ONU, Diogo Freitas do Amaral.**

Chegados a este ponto, resta dizer: defendo uma lei da república que proíba o uso da burca no espaço público. 
Fotografia daqui
E não, não acho que esta seja uma “lei de Procusto”. 
Ela não “serra” nem “estica” ninguém.

Fotografia daqui 
Só não tolera o intolerável. 
E vestuário para esconder o rosto é intolerável.

2. A reeleição de António Borges como líder distrital do PS teve resultados “norte-coreanos”: 94,71% no mapa distrital, 92% no site nacional do PS. 

Como a informação do partido não bate certo e é opaca, resta-nos fazer perguntas. Quantos eram os militantes com capacidade eleitoral no país, nos distritos e nos concelhos? Qual foi a abstenção nacional, distrital e concelhia?

Aquele chapéu em Lamego a transbordar de votos em António Borges, com uns espantosos zero brancos e zero nulos, quer dizer que os socialistas lamecenses o querem como candidato à sua câmara em 2017?

** Edição do Jornal Público, 16.07.1999