segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Segundo balcão dos bombeiros

Gif daqui



Nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?

ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfado
o happy end é coisa dos cinemas
Fernando Assis Pacheco



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Os dias de Job

Selfie — Fevereiro de 2014
Fotografia Olho de Gato



Às vezes rezo
Sou um cego e vejo
as palavras o reunir das sombras

às vezes nada digo
estendo as mãos como uma concha
puro sinal da alma
a porta

queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo

pois que tempo abrigará
os anjos
e que dia erguerá todo o sol
que há nas dunas

por isso
às vezes chove quando rezo
às vezes quase neva
sobre o pão
José Tolentino Mendonça




sábado, 27 de fevereiro de 2016

I never dared to be radical when young

Fotografia de Lisette Model



I never dared to be radical when young
For fear it would make me conservative when old.
Robert Frost


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Boyices*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. António Costa já tem aprovado na generalidade o orçamento deste ano. Como tem sido costume desde que caímos no pântano, orçamento novo significa impostos novos ou aumento de impostos velhos ou as duas coisas.

As “entradas de leão” do sr. Centeno na “Europa” acabaram em “saídas de sendeiro”: o homem austerizou mais mil milhões de euros e, para evitar um cartão vermelho, prometeu ainda mais tesouradas. Apesar de tudo, o ministro das finanças não “alevantou” as golas como fez Varoufakis no ano passado, com os resultados que se conhecem. Não ter acontecido esse filme de terror já foi bom. Foi bom, apesar do gozo da The Economist sobre os “protestos anti-austeritários” portugueses: chamou-lhes um “ladrar” que não “morde”.

Vai haver agora algum teatro no debate na especialidade. O Bloco e o PCP precisam de impor uns acrescentos ao orçamento, para poderem afagar o ego das suas bases: mais despesa que a máquina de calcular de Centeno lá terá de acomodar.

Depois de todo o fogo-de-artifício orçamental, ficará uma pergunta para ser respondida pelo tempo: as “medidas adicionais” prometidas pelo sr. Centeno àquele holandês do Eurogrupo com um nome impronunciável irão pôr o IVA a 25% já em 2016? Ou só em 2017?

A que acrescentaria outra: quando é que o ministro das finanças começa mesmo a travar a pulsão despesista da geringonça? É que fazer erratas a um orçamento é fácil, mas não há errata nenhuma que consiga recuperar dinheirinho gasto.

2. «Habemus boy!», alegra-se o PS-Viseu de António Borges. Há, finalmente, um lugarito de nomeação política no sul do distrito. Um. Unzinho. Um membro da família Ginestal foi posto a boss no Centro de Emprego Dão-Lafões.


Joaquim Santos
Entretanto, Joaquim Santos, o presidente da concelhia de Tondela do PS, ficou furioso com aquela colocação “às escondidas”.

Sobre o facto de o nomeado perceber tanto daquilo como um esquimó percebe de lagares de azeite não se pronunciou. Joaquim Santos sabe o que a casa gasta.

Parte: como se tivesses de ser esquecida

Gif daqui



Parte: como se tivesses de ser esquecida,
deixando atrás uma imagem de sombra. Não
leves contigo as palavras que trocámos,
como cartas, num instante de despedida; mas
não te esqueças da luz da tarde que os teus
olhos abrigaram. Por vezes, lembrar-me-ei
de ti. É como se, ao voltar-me, ainda me
esperasses, sem um sorriso, para me dizeres
que o tempo tudo resolve. Não te ouço; e,
ao aproximar-me dos teus braços, vejo-te
desaparecer. Mais tarde, penso, isto fará
parte de um poema; mas tu insistes. O amor
chama-nos, de dentro da vida; obriga-nos a
renunciar à imobilidade da alma, a sacrificar o corpo a um desejo de memória.
Nuno Júdice



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Vouzela, a bela

Fotografia Olho de Gato (clicar para ver melhor)

A sopa e as nuvens

Fotografia Olho de Gato



A louca da minha bem-amada me dava de jantar, e pela janela aberta da sala de refeições eu contemplava as movediças arquitecturas que Deus faz com as nuvens, as maravilhosas construções do impalpável.

E dizia comigo, através da minha contemplação:

– “Todas estas fantasmagorias são quase tão belas quanto os olhos de minha amada, a pequena louca monstruosa de olhos verdes”.

De súbito senti um violento murro nas costas e ouvi uma voz rouca e encantadora, uma voz histérica, e como enrouquecida pela aguardente, a voz da minha querida bem-amada, que me dizia:

– Trate de tomar a sua sopa, seu maluco, mercador de nuvens!

Charles Baudelaire

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"And Now For Something Completely Different" (#117)

Aula de português para ingleses tatuados de visita a Albufeira:






Aula de português para ingleses de visita à Casa da Música, na Invicta:



Nota: este segundo vídeo é dedicado também a Miguel Fernandes e ao seu A Tribuna de Viseu.

Ponto morto

Fotografia de Erwin Blumenfeld

A minha primeira mulher
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um dos meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar o seu nome.
Por segundos, a vida parou, em ponto morto.
Augusto Massi




terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Death & fame

Gif daqui


When I die
I don't care what happens to my body
throw ashes in the air, scatter 'em in East River
bury an urn in Elizabeth New Jersey, B'nai Israel Cemetery
But l want a big funeral
St. Patrick's Cathedral, St. Mark's Church, the largest synagogue in
Manhattan
First, there's family, brother, nephews, spry aged Edith stepmother
96, Aunt Honey from old Newark,
Doctor Joel, cousin Mindy, brother Gene one eyed one ear'd, sister-
in-law blonde Connie, five nephews, stepbrothers & sisters
their grandchildren,
companion Peter Orlovsky, caretakers Rosenthal & Hale, Bill Morgan--
Next, teacher Trungpa Vajracharya's ghost mind, Gelek Rinpoche,
there Sakyong Mipham, Dalai Lama alert, chance visiting
America, Satchitananda Swami
Shivananda, Dehorahava Baba, Karmapa XVI, Dudjom Rinpoche,
Katagiri & Suzuki Roshi's phantoms
Baker, Whalen, Daido Loorie, Qwong, Frail White-haired Kapleau
Roshis, Lama Tarchen --
Then, most important, lovers over half-century
Dozens, a hundred, more, older fellows bald & rich
young boys met naked recently in bed, crowds surprised to see each
other, innumerable, intimate, exchanging memories
"He taught me to meditate, now I'm an old veteran of the thousand
day retreat --"
"I played music on subway platforms, I'm straight but loved him he
loved me"
"I felt more love from him at 19 than ever from anyone"
"We'd lie under covers gossip, read my poetry, hug & kiss belly to belly
arms round each other"
"I'd always get into his bed with underwear on & by morning my
skivvies would be on the floor"
"Japanese, always wanted take it up my bum with a master"
"We'd talk all night about Kerouac & Cassady sit Buddhalike then
sleep in his captain's bed."
"He seemed to need so much affection, a shame not to make him happy"
"I was lonely never in bed nude with anyone before, he was so gentle my
stomach
shuddered when he traced his finger along my abdomen nipple to hips-- "
"All I did was lay back eyes closed, he'd bring me to come with mouth
& fingers along my waist"
"He gave great head"
So there be gossip from loves of 1948, ghost of Neal Cassady commin-
gling with flesh and youthful blood of 1997
and surprise -- "You too? But I thought you were straight!"
"I am but Ginsberg an exception, for some reason he pleased me."
"I forgot whether I was straight gay queer or funny, was myself, tender
and affectionate to be kissed on the top of my head,
my forehead throat heart & solar plexus, mid-belly. on my prick,
tickled with his tongue my behind"
"I loved the way he'd recite 'But at my back allways hear/ time's winged
chariot hurrying near,' heads together, eye to eye, on a
pillow --"
Among lovers one handsome youth straggling the rear
"I studied his poetry class, 17 year-old kid, ran some errands to his
walk-up flat,
seduced me didn't want to, made me come, went home, never saw him
again never wanted to... "
"He couldn't get it up but loved me," "A clean old man." "He made
sure I came first"
This the crowd most surprised proud at ceremonial place of honor--
Then poets & musicians -- college boys' grunge bands -- age-old rock
star Beatles, faithful guitar accompanists, gay classical con-
ductors, unknown high Jazz music composers, funky trum-
peters, bowed bass & french horn black geniuses, folksinger
fiddlers with dobro tamborine harmonica mandolin auto-
harp pennywhistles & kazoos
Next, artist Italian romantic realists schooled in mystic 60's India,
Late fauve Tuscan painter-poets, Classic draftsman Massa-
chusets surreal jackanapes with continental wives, poverty
sketchbook gesso oil watercolor masters from American
provinces
Then highschool teachers, lonely Irish librarians, delicate biblio-
philes, sex liberation troops nay armies, ladies of either sex
"I met him dozens of times he never remembered my name I loved
him anyway, true artist"
"Nervous breakdown after menopause, his poetry humor saved me
from suicide hospitals"
"Charmant, genius with modest manners, washed sink, dishes my
studio guest a week in Budapest"
Thousands of readers, "Howl changed my life in Libertyville Illinois"
"I saw him read Montclair State Teachers College decided be a poet-- "
"He turned me on, I started with garage rock sang my songs in Kansas
City"
"Kaddish made me weep for myself & father alive in Nevada City"
"Father Death comforted me when my sister died Boston l982"
"I read what he said in a newsmagazine, blew my mind, realized
others like me out there"
Deaf & Dumb bards with hand signing quick brilliant gestures
Then Journalists, editors's secretaries, agents, portraitists & photo-
graphy aficionados, rock critics, cultured laborors, cultural
historians come to witness the historic funeral
Super-fans, poetasters, aging Beatnicks & Deadheads, autograph-
hunters, distinguished paparazzi, intelligent gawkers
Everyone knew they were part of 'History" except the deceased
who never knew exactly what was happening even when I was alive
February 22, 1997
Allen Ginsberg






segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Futuro

Fotogramas de Viagem à Lua, de Georges Méliés (1902)



As pessoas estavam sempre a preparar-se para o futuro.
Eu não acreditava nisso.
O futuro não se estava a preparar para elas.
O futuro nem sabia que elas existiam.
Cormac McCarthy



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Lembra, corpo

Fotografia de John Florea


Corpo, lembra não só quanto foste amado,
não somente os leitos em que deitaste,
mas também aqueles desejos que por ti
brilhavam nos olhos claramente,
e que tremiam na voz – e que algum
obstáculo fortuito frustrou.
Agora que tudo já está no passado,
parece, quase, que àqueles desejos também
tu te entregaste – como eles brilhavam,
lembra, nos olhos que te contemplavam;
como tremiam na voz, por ti, lembra, corpo.
Constantinos Kaváfis











sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Barro negro*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Algures na passagem do século XVIII para o século XIX, a revolução industrial lançou as bases do capitalismo. A mobilidade do capital venceu a imobilidade agrária, o lucro substituiu a renda.

Seguiu-se um progresso extraordinário: as cidades cresceram, a qualidade de vida das pessoas melhorou. O capitalismo foi sabendo adaptar-se, mudar de pele. A melhor de todas essas epidermes é a “social-democracia”, ou “estado social”, ou “New Deal”, ou... são várias as designações desta que é a maior máquina de felicidade inventada pelos humanos: um sistema com várias configurações institucionais que preserva as liberdades civis, deixa criar riqueza às empresas, ao mesmo tempo que dá uma rede de previdência às pessoas nas situações de fragilidade, seja ela doença, desemprego ou outra.

Acabada a segunda guerra mundial, foi o consenso “social-democrata” que reconstruiu a Europa. Como sempre, também a ele Portugal chegou atrasado: os primeiros alicerces do estado social devem-se a Marcelo Caetano e o edifício foi erguido depois do 25 de Abril.

Ora, desde Reagan e Thatcher, a “social-democracia” começou a ser erodida. Aquilo que é o “comum” — a água, o solo, o subsolo, as estradas, o vento, até a genética das plantas, ... — está a ser tomado pelo capitalismo financeiro, através de formas de propriedade cada vez mais imateriais e abstractas. Exemplifica-se: os financiadores da PPP da A25 não querem a auto-estrada para nada, querem é a renda de dois dígitos que o divino espírito santo lhes arranjou junto do poder político.

A partir da Inglaterra, o capital movido à velocidade das locomotivas a vapor substituiu a renda pelo lucro; agora o capital financeiro, que flui à velocidade da luz nos mercados hiperconectados, está a regressar outra vez às rendas — podem ser as rendas de uma escola, de um hospital, de um sistema de comunicação de polícias e bombeiros.
Fotografia daqui
Ou as controversas rendas do relvado sintético de Molelos, a simpática terra do barro negro.

Dantes

Fotografia de Saul Leiter


(...)
Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.
Francisco Roïz Lobo


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

An epilogue

Fotografia de Francesca Woodman



I have seen flowers come in stony places
And kind things done by men with ugly faces
And the gold cup won by the worst horse at the races,
So I trust, too.
John Masefield


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

“Olhos de Gato”*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 17 de Fevereiro de 2006


1. Os eurocratas regulamentam tudo, desde o calibre dos kiwis à resiliência do látex. A Comissão Europeia - agora superiormente dirigida por Durão Barroso – entretém-se a produzir regulamentos e directivas que tentam domesticar, ordenar e classificar o mundo. Tudo o que existe, ou que há-de existir, é previsto e regulamentado, em Bruxelas, para nosso proveito e das gerações que hão-de vir.

O Anexo II, da Decisão da Comissão n.º 96/579/CE, de 24-06-1996, define "olhos de gato" como “retrorreflectores de pavimento”. Aquela directiva, no que diz respeito ao controle de qualidade destes elementos de segurança rodoviária, impõe “(…) a intervenção de um organismo de certificação aprovado (…)”.

Os “olhos de gato”, os simpáticos cravos que alumiam as noites escuras das nossas viagens, devem reflectir bem a luz dos nossos faróis. 




No caso daqueles mais recentes, que têm luz fotovoltaica própria, quais estrelas sinalizadoras do nosso ir, os “olhos de gato” hão-de brilhar sete noites por cada dia de sol, avisando os automobilistas que se aproximam duma passadeira.

2. Esta coluna de opinião, Olho de Gato no nome e no método, gosta dos “olhos de gato” das nossas estradas e das nossas ruas e solidariza-se com eles que tão maltratados são pelos automobilistas distraídos e com falta de pontaria.

3. O Dr. Ruas, no ano passado, pôs, na precaução das nossas passadeiras, uns “olhos de gato” muito ruins. O “organismo de certificação” daquilo distraiu-se. Aquelas protuberâncias no asfalto eram um tropeço à circulação. Os automobilistas tinham que fazer trajectórias erráticas para as evitar. Ainda por cima, aqueles “olhos de gato” do Dr. Ruas perderam logo a luz, exactaqualmente uns pirilampos fundidos.

Estão agora a ser substituídos. Por uns bons, espera-se.

Vista de um pátio seguido de desordem

Fotografia de Rennie Ellis




Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
José Miguel Silva





terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Quem ora soubesse

Fotografia de Johan van der Keuken 



Chiste
Quem ora soubesse
onde o amor nace,
que o semeasse.


Voltas
D'Amor e seus danos
me fiz lavrador;
semeava amor
e colhia enganos.
Não vi, em meus anos,
homem que apanhasse
o que semeasse.

Vi terra florida
de lindos abrolhos:
lindos para os olhos,
duros para a vida.
Mas a rês perdida
que tal erva pace
em forte hora nace.

Com quanto perdi,
trabalhava em vão;
se semeei grão,
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.
Luís de Camões



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Um outro poema de amor

Fotografia de Andreas Feininger 



No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.
Nuno Júdice







domingo, 14 de fevereiro de 2016

JB quis assinalar este dia*

* O gif escolhi eu, o JB o resto

Daqui


"Something Is...!"

I'm going away now sweetness, don't be sad
Though tonight was the best night that we've had
I'll put away my old suit and say goodbye
Cause something is with us tonight

Oh come on now sweetness don't you cry
The living here hasn't been easy for a while
I'll put away my old shoes and say goodbye
'Cos something is with us tonight

Yeah I'm leaving on the next train that's blowing round the bend
And I'll be there by the morning and I won't be back again
'Cos I've just seen the ending to our story
Well something is
Yeah something is
Yeah something is with us tonight

I'm going away to the station in the rain
I'm sorry sweetness but there's nothing more to say
I've put away all my old things, this is goodbye
'Cos something is with us tonight

Yeah I'm leaving on the next train that's blowing round the bend
And I'll be there by the morning and I won't be back again
'Cos I've just seen the ending to our story
Well something is
Yeah something is
Yeah something is With us tonight




Se o tempo

Fotografia de Martin Bogen

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.
Albano Martins


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Love apart

Fotografia de Sarah Moon

The moon has
ascended between us,
Between two pines
That bow to each other;

Love with the moon has ascended,
Has fed on our solitary stems;

And we are now shadows
That cling to each other,
But kiss the air only.
Christopher Okigbo




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

NA CIDADE DE SYLVIA — Pedro Mexia amanhã à tarde no teatro Viriato

Sábado 13 de Fevereiro, Teatro Viriato — Viseu, 16H00
60.º aniversário do sexigenário (perdoe-se-me a redundância) 
CINE CLUBE DE VISEU





NA CIDADE DE SYLVIA
filme de JOSÉ LUIS GUERÍN (2007) 
Com Pilar López de Ayala e Xavier Lafitte
Escolha de PEDRO MEXIA 

Depois da seleção de João Botelho, o Cine Clube de Viseu volta a promover uma sessão especial inserida no seu 60.º aniversário e que resulta de um convite lançado a Pedro Mexia, que escolheu o filme Na cidade de Sylvia.

Filme realizado em 2007, Na cidade de Sylvia evidencia a atenção dada ao quotidiano que distingue os documentários de Guerín. 

Com uma nitidez narrativa e de personagens a lembrar Rohmer, esta história poética da procura pela mulher idealizada leva um jovem até Estrasburgo em busca de Sylvia, que conheceu anos antes.

José Luis Guérin conquistou a atenção do mundo do cinema com a realização de Comboio de Sombras, em 1997 e de En Construcción, em 2000.

Pedro Mexia partilha com o público a escolha do filme.

Falado em francês e espanhol
Legendas em espanhol

Dor #2*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O “Dor #1” foi publicado aqui em 6 de Março de 2009 e tratou do dilema ético da eutanásia, quando uma doença irreversível torna a vida insuportável e desprovida de perspectivas.

Na altura, lembrei que, na Holanda, “a eutanásia só é possível:
i) se for efectuada por um médico a pedido explícito do paciente (pedido que não deixe nenhuma dúvida sobre a sua vontade de morrer);
ii) se a decisão do paciente for informada, livre e persistente;
iii) se o paciente estiver numa condição irreversível que lhe cause sofrimento que ele considere insuportável:
iv) se não existir alternativa razoável para lhe aliviar o sofrimento;
v) se o médico tiver consultado outro profissional independente que concorda com o seu juízo.”

Daqui

Terminei aquele texto de 2009 cheio de cuidado: “a eutanásia não pode nem deve ser aplicada já. Primeiro há que debater de uma forma alargada e serena este tema que encerra em si todas as angústias do mundo.

Para já o país precisa de uma rede nacional de cuidados paliativos, com equipas multidisciplinares, capazes de diminuir o mais possível a dor dos doentes e das suas famílias porque diminuir o sofrimento é obrigação de uma sociedade decente.”

2. Passaram sete anos. Diz a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos que temos uma rede com grandes assimetrias, há distritos com “razoáveis índices de cobertura” e outros sem nada.

Passaram sete anos. As decisões sobre a eutanásia estão a acontecer em todo o mundo. Por exemplo, o Supremo Tribunal canadiano sentenciou que negar aos pacientes acesso à eutanásia é uma violação dos seus direitos humanos e deu um ano às autoridades para a operacionalizarem. Em Portugal, o assunto acaba de ser posto na agenda por um grupo de cidadãos e até já se fala em referendo.

Passaram sete anos. Haja um debate sereno que leve a decisões. Não é preciso estar a “inventar a roda”. Uma legislação como a holandesa é decente. Este assunto não é de esquerda nem de direita. É de decência.

A exaltação da pele

Fotografia de Emmet Gowin


Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
Natália Correia


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Se tanta pena tenho merecida

Fotografia de Pierre Gonnord



Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes ũa alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vosso olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque, em tão dura e áspera contenda,
É bem que, pois não acho defensão,
Com me meter nas lanças me defenda.
Luís de Camões

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Entardecer

Fotografia de Gina Zacharias



Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.

À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.
Catarina Nunes de Almeida





terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mas que sei eu

Fotografia de Mona Kuhn



Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Fim de missão

Fotografia de Gérald Bloncourt



Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.

Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?...)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros que passa fomeca
mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O'Neill


domingo, 7 de fevereiro de 2016

Se existe uma chave

Fotografia de Marie Šechtlová



Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.
Vasco Gato


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Debaixo do crânio



Isso que não pára, pulsa
e dispara, isso sou eu?
Mas como? É só
a massa cinzenta de dentro.
Ela me observa,
eu a observo.
Um surpreende o outro.
Nem sempre meu cérebro faz
o que eu quero. Mal-entendidos,
conflitos não faltam.
Quando cai a noite,
eu tento, simplesmente,
desligá-lo. Em vão.
Ele segue a trabalhar, a produzir,
invenções de própria lavra,
e delas nada sei,
por elas mal respondo.
Volta e meia, sem consultá-lo,
eu também faço das minhas.
E só muito tarde paramos
de espreitar um ao outro
e deixamos estar.
Então se faz, por fim, a paz.
Hans Magnus Enzensberger





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ca-martelo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



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1. A Estrada Nacional 2 (N2) é a coluna vertebral do país, atravessa-o de Chaves a Faro. São 738,5 quilómetros de rectas, curvas, subidas, descidas, planuras, paisagens belíssimas.

Depois de 8 de Dezembro de 2011, data em que foram accionados os pórticos da A24, a N2 reganhou trânsito. Sempre que posso é por lá que circulo.


Ora, no início daquele fatídico ano da bancarrota, na descida de Vale de Azia para a Ponte Pedrinha de Castro Daire, houve uma parte da N2 que colapsou talqualmente o país. Metade da estrada desapareceu. Um perigo: numa zona de curvas e pouca visibilidade, sobraram uma faixa de rodagem e um abismo.

Passou 2011. Passou 2012. Passou 2013. Passou 2014. Vários acidentes aconteceram ali. Felizmente, não morreu lá ninguém. Foi só no passado Verão, quatro anos depois, que a “Estradas de Portugal” (será este o nome? estão sempre a mudar o nome às instituições, nem vale a pena fixá-los...) avançou o concurso para acabar com aquela armadilha. Quatro anos. O caso foi contado na altura por este jornal. Sabe qual foi o custo daquilo? Um “balúrdio”. Trinta mil euros. Aquelas criaturas precisaram de quatro anos para fazer uma obra de... trinta mil euros.

2. Entretanto, em 14 de Outubro, saiu a portaria nº 357/2015 a fixar as taxas a pagar pelos “usos privativos do domínio público rodoviário do Estado”.

Precisa de compor um muro à beira de uma estrada nacional? Prepare 500 euros para abertura do processo, mais €146,50 para autorização da obra e mais cinco euros por cada metro de muro. Tem um acesso de garagem para a N2 ou para a N222? Prepare duzentos euros por ano para a “autoridade pública” das estradas.


Ó ministro Mário Centeno, o senhor que tem sido um campeão a martelar contas mude agora de ferramenta. 

Largue o martelo e pegue num camartelo. 

Faça o favor de demolir esta desvairada portaria da sua predecessora, a “sodona” Maria Luís Albuquerque.