domingo, 31 de janeiro de 2016

Deja vu

Fotografia de Francesca Woodman


Vuelve a soñar
que en tus pies
te caben mis zapatos.

No le temas al tiempo
que has pasado
sin rozarte con mi sombra.

Tu cárcel de palabras
no me importa,
mis zapatos
están llenos de ti,
me perteneces cada vez que camino
por tu memoria suicida
de amante condenado
al desamor perpetuo.

Vuelve a soñar
que soy yo la que te mira
en el espejo del baño,
y tu abrazo me hace ser
idéntica a ti.

No le temas al tiempo
que dejaste pasar
cada vez que mis labios
evocaban tu rastro
de pequeño secreto
guardado en un reloj
con forma de juguete.

Vuelve a soñar
que nos cruzamos
en un desierto lleno
de lagartijas y aguacates,
y las mañanitas se transforman
en nuestro último baile.

Vuelve a soñarme ahora
que ya eres viejo
y me atrevo a buscarte
sin pedirte permiso
porque fuiste mi cuerpo
y a mi también me duelen tus cadenas.
Ana Merino


sábado, 30 de janeiro de 2016

O Mistress mine, where are you roaming?


Fotograma do videoclip 




Twelfth Night, Act II, Scene III

The Clown, singing


O Mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! your true-love’s coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journeys end in lovers’ meeting—
Every wise man’s son doth know.

What is love? ’tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What’s to come is still unsure:
In delay there lies no plenty,—
Then come kiss me, Sweet-and-twenty,
Youth’s a stuff will not endure.
William Shakespeare


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Presidenciais — 2011 e 2016*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 24 de Janeiro de 2011, no dia a seguir à segunda vitória de Cavaco, José Sócrates, muito bem-disposto, chamou Mário Soares a S. Bento:

«Ó Mário, acabámos com aquele &ß#Ω$§!»

«Eh pá, não gosto disso. Palavra que não gosto disso, não é bonito, não diga isso.»

«Eh pá, mas ele estava na merda, eu nunca o vi assim.»

«Pode ter estado, mas não se esqueça que o Alegre pode ter defeitos mas também tem os seus méritos.»

Mário Soares contou isto numa entrevista a Joaquim Vieira, autor da biografia “Mário Soares, Uma Vida”. Passaram cinco anos. Não precisamos da transcrição de nenhum diálogo entre António Costa e Carlos César ou Ana Catarina Mendes para intuirmos que o primeiro-ministro ficou muito contente com o colapso eleitoral de Maria de Belém.

Portanto: em duas presidenciais seguidas, tivemos dois secretários-gerais socialistas satisfeitos com o afundanço eleitoral de dois seus destacados militantes. Esta esquizofrenia do PS tem-lhe dado derrotas eleitorais nada “poucochinhas”, ora um pouco acima ora um pouco abaixo dos 30%. Nenhuma “geringonça” consegue esconder esta fragilidade política. E ética.

Fotografia daqui
2. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou à primeira volta. Sem surpresa. Estas eleições foram civilizadas, ao contrário das de há cinco anos.

Desta vez, até o voto anti-sistema foi para um candidato amável: Vitorino Silva. Tino de Rans ficou em sexto a nível nacional e foi quarto no distrito de Viseu. Em Cinfães e S. João da Pesqueira, o grande Tino arrebatou 8,5% e a medalha de bronze.

A votação de Sampaio da Nóvoa, tal como a de Fernando Nobre de há cinco anos, não vai servir para nada. Os resultados de Marisa Matias (muito bons) e Edgar Silva (péssimos), os outros candidatos da “geringonça”, também não acrescentam nada.

O emprego de António Costa nunca dependeu das presidenciais. Para já, ele depende, acima de tudo, da credibilidade que a “Europa” e os mercados vão dar à folha-de-cálculo de Mário Centeno.

Padre nuestro

Fotografia de Marino Parisotto

Padre nuestro
Padre mío
que estuviste en mi cama
porque mis sábanas fueron nubes
y en ellas ondeaba la sangre
de mi penetrante genealogía
que jamás ensuciado sea tu nombre
ni mi apellido
me llevaste a tu reino púbico
con tu cetro de sándalo condecoraste mi indecencia
hiciste mi voluntad la tuya
mis piernas y mi boca
me diste mi origen cada noche
sobre mi espalda
perdonaste mi estupidez
y no me dejaste caer en otras manos
que fueran ajenas
mi violador amado
mi rompedor de la piel
me liberaste de la infancia dolorosa
Padre nuestro
señor mío
a la edad de trece años me hiciste parte del Amanecer
Héctor Hernández Montecinos


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contrariedades

A Engomadeira, Pablo Picasso (1904)


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa de um jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a reclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!
Cesário Verde

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Short note on the sparseness of the language

Dita Von Teese a desintegrar-se, realizador do clip: Roy Raz



wow man I said
when you tipped my chin and fed
on headlong spit my tongue´s libation fluid

and wow I said when we hit the mattressrags
and wow was the dawn: we boiled the coffeegrounds
in an unkempt pot

wow man I said the day you put me down
(only the tone was different)
wow man oh wow I took my comb
and my two books and cut and that was that
Diane di Prima



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sonhei contigo

Fotografia de Chanh Chao-tang



Sonhei contigo
embora nenhum sonho possa ter habitantes
tu, a quem chamo amor,
cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção
a esta palavra.

É verdade
o sonho poderá ter feito com que,
nesta rarefacção de ambos,
a tua presença se impusesse
como se cada gesto do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus lábios
com o rebordo desta chávena de café já frio…

Então, bebo-o de um trago.

O mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
— terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência das fontes.

É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda
quando, uma vez mais te chamo.
Nuno Júdice


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Descrição do acontecido à candidatura de Maria de Belém Roseira


Um poema tenrinho pode ser

Por Smug, em Bristol, GB
Fotografia de Sam Lane


Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.
Nuno Moura





domingo, 24 de janeiro de 2016

A estrada branca

 Irène Jacob, fotografia de Krzysztof Kieslowski
A dupla vida de Véronique (1991)



Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate
José Tolentino Mendonça





sábado, 23 de janeiro de 2016

O gajo tem piada

João Soares podia ter feito um «alô! alô!, Centeno, tá lá?», podia ter mandado um "e-mail" a lembrar a célebre e esquecida reivindicação de 1% do orçamento para a cultura, mas, népias...


João Soares, ministro da cultura, 8.1.2016
Fotografia Museu Nacional Grão Vasco — Viseu
... em vez disso, o novo ministro da cultura preferiu aproveitar um microfone à sua frente no Museu Nacional de Grão Vasco de Viseu, e pediu a "ajuda divina" para que o seu orçamento fosse reforçado.

Este pedido de intercessão do altíssimo só pode ter uma interpretação: João Soares conta que Ele, o altíssimo, a seguir, faça um forward para o Terreiro do Paço, para o gabinete do ministro da fazenda e dos cabedais. Uma espécie de cunha. 

Para já, não se sabe se o altíssimo ajudou. No rascunho do orçamento só se sabe que a "gasosa" sobe cinco cêntimos, o "gasóil" quatro e que fumar continua a matar, mas mais caro. Não se sabe se, naquele draft — é assim que se deverá dizer em europês —, o livro de cheques do ministro João Soares engrossa ou não engrossa. 

Passemos dos entretantos aos finalmentes, e cheguemo-nos ao que importa: aquele pedido de intercedência da providência serviu de tema a Rui Macário, na edição de 15 de Janeiro do Jornal do Centro, num excelente texto intitulado: "O GAJO TEM PIADA" [OUVE-SE DE ALGUÉM ENTREDENTES]

Transcrevem-se os parágrafos finais:
"(...)
Posso incorrer num engano mas a "piada" do sr. "gajo" indicia três grandes linhas orientadoras quanto ao que esperar do Ministério da Cultura e sua acção:

Rui Macário
(fotografia abduzida do FB do autor
e sem a sua prévia permissão)
1. O desafio da pasta foi entregue não a um "agente cultural" mas sobretudo a um político; sem desvarios de Vogue (como Gabriela Canavilhas) ou estrépitos de economicidade da língua portuguesa (como Pinto Ribeiro). JS vem com peso político e tarimba q.b.

2. Garante que há um Ministério da Cultura (a esquerda a isso obriga); e um ministro que consiga ir por esse país fora, dizer aos municípios que têm feito pela vida sem o Estado que o continuem a fazer — verdade seja dita, Viseu tem por onde recolher os benefícios de uma boa comunicação e algumas boas apostas neste domínio (falta, ainda e ainda, uma estratégia para a Cultura e para o Património).

3. Não negociará políticas culturais — leia-se o programa eleitoral do PS e a imagem não esmorece — antes políticas locais de valência cultural. Ou seja, vem aí uma legislatura de "Patrocínios Morais" sem comparticipação financeira, para lá da mínima obrigatória (em Óbidos disse que a nova Cidade Criativa da UNESCO pode esperar tudo menos dinheiro).

Se o supra indicado estiver correcto, JS vai ficar a conhecer o país como ninguém e terá começado a Nova Vaga de municipalização do que poderia ser um sector de referência."

Este modesto estabelecimento encontra-se em refle-chão

Fotografia de Michael Pistono

Mamografia de mármore

Ishtar — deusa da Mesopotâmia





Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.

Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
Inês Lourenço


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Presidenciais*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


A campanha das presidenciais foi frugal e decente. E curta: enquanto a geringonça de António Costa não tomou posse, ninguém quis saber dos candidatos presidenciais. Depois o interesse pouco aumentou, deva-se dizer.

As eleições presidenciais de ano par (1976, 1986, 1996, 2006) têm posto um novo inquilino em Belém (Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco). As eleições de ano ímpar (1981, 1991, 2001, 2011) têm reeleito o PR no cargo. As primeiras costumam ser animadas: em 1986 até houve uma segunda volta que elegeu Mário Soares. Já as eleições de anos ímpares têm sido sempre uma chateza — o incumbente passeou-se para uma fácil reeleição.

Ora, estamos em ano par — 2016. Porque é que, contra o costume, esta eleição presidencial está a ser tão desinteressante?


Imagem daqui onde pode encontrar mais detalhes
sobre os candidatos num trabalho feito pelo jornal Público


A resposta é óbvia: Guterres não quis ser PR e Marcelo quis. Se Guterres tivesse querido, Marcelo mantinha a vontade? Nunca se vai saber nem interessa. Nem tão pouco interessa especular agora sobre a provável segunda volta entre Marcelo e Rui Rio, se este se tivesse apresentado. Marcelo aproveitou a falta de comparência do PS e tem feito o papel de incumbente, mesmo não o sendo.

Maria de Belém está em perda. Sampaio da Nóvoa, com a sua retórica vazia a anunciar um evangélico “tempo novo”, deverá ter um resultado parecido com o de Manuel Alegre há cinco anos.

Henrique Neto foi o único candidato capaz de dizer o que pensa sem medo de perder votos; e o homem pensa bem. Esperava-se de Vitorino Silva (“Tino de Rans”) uma campanha histriónica e, pelo contrário, ele fez uma campanha com uma densidade humana que merece aplauso.

Em legislativas, cada voto rende €3,11 por ano ao partido que o recebe; em presidenciais, só os candidatos que obtêm mais de 5% têm subvenção pública para as despesas de campanha. Henrique Neto, Vitorino Silva, Marisa Matias e Edgar Silva mereciam chegar, pelo menos, aos 5%. Infelizmente, mesmo para estes dois últimos isso não parece assegurado.

pensamento (feições)

Fotografia de F. C. Gundlach

e fazer a coisa
e pensar a coisa
e pensar é fazer a coisa
e a coisa se faz pensando
e fazendo a coisa se pensa
e pensando a coisa se faz
e pensar a coisa é fazer
e fazer pensar é a coisa
e pensar fazer é quase
a mesma coisa
Evando Nascimento


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O fim da arte

Fotografia de Gianni Berengo Gardin



O fim da arte inferior é agradar,
o fim da arte média é elevar
o fim da arte superior é libertar



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Cassete*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Janeiro de 2006


1. As eleições presidenciais têm sido muito interessantes. Há três perguntas cujas respostas têm que ficar para a noite eleitoral: (i) vai haver segunda volta?; (ii) quem vai ficar em segundo lugar, Soares ou Alegre?; (iii) quem vai ficar em quarto, Jerónimo ou Louçã?**

Não sei responder a nenhuma delas. Muitas pessoas decidem o seu sentido de voto muito tarde e - dizem os especialistas - há mesmo eleitores que só decidem quando já estão na cabine de voto.

A diferença de projecções é de tal amplitude que, não sei se algum Instituto de Sondagens vai ficar bem no retrato, mas sei que alguns vão ficar muito mal. Aconselho a consulta do blogue de Pedro Magalhães, http://margensdeerro.blogspot.com. Neste blogue faz-se serviço público, ao explicar as sondagens com rigor técnico e numa linguagem acessível.

2. Cavaco Silva fez uma campanha em que repetiu as mesmas ideias, com quase as mesmas palavras, terra a seguir a terra, discurso a seguir a discurso. Costuma-se dizer e aqui tem plena aplicação: Cavaco usou sempre a mesma “cassete”.

É uma sua característica pessoal: Cavaco não gosta de improvisar e não quer nunca ser surpreendido pelos acontecimentos.

Ora, se a vida a vir fosse toda adivinhável, perdia a graça. Nunca se pode prever tudo e tem que se estar preparado para problemas inesperados.

É aqui que Cavaco Silva falha. Basta haver um incidente fora do programado – como, por exemplo, uma pequena provocação de Santana Lopes - e Cavaco fica logo em stress, bloqueado, incapaz de achar uma saída. Perante o inesperado ou o difícil, Cavaco fica aflito e transmite aflição ao país.

3. Penso que Mário Soares é muito mais seguro em situações difíceis. Mas que penso isso já os leitores do Olho de Gato estão cheios de saber.


Daqui

** Conferir os resultados de todas as presidenciais de 1976 a 2011 aqui

Sou como uma peça de seda cor-de-rosa

Fotografia de Antoine Verglas




Sou como uma peça de seda cor-de-rosa,
ondulando no mercado.
Não sei em que mãos irei cair.
Poema indochinês, versão de Herberto Helder


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Psicanálise




E se algum dia um psicanalista
me acusar de egocentrismo
e disser que finjo ser poeta
para fugir à realidade
e que cada verso
é uma tentativa absurda
de superar um desejo recalcado
direi que sim!

Direi que sim
porque quis escrever estes versos
enquanto não fazia outras coisas.

Depois desenharei ao psicanalista, uma mulher
redonda, uma mulher prenhe e redonda
tão redonda como a terra
mas talvez menos achatada no pólo sul
e com um fosso Índico onde nadam os peixes
dentro da vagina para rebentarem cabeças de alfinete
ou girinos à espreita de uma oportunidade
cirúrgica para dilacerar a sua fonte.

Desenharei sim!
Uma mulher prenhe e redonda
com dois relevos a norte donde nascem
rios de leite para matar a minha sede.

Desenharei sim!
E concluirei que não sou egocêntrico
mas um geocêntrico disfarçado de charuto
sentado à secretária de um consultório de psicanálise.
José Miguel de Oliveira

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Bicicleta robada secuestrada

Fotografia de Robert Doisneau



Quizás la revolución está en sus cuerpos y yo no la vea

Esta es la historia de una bicicleta robada
Sólo sé que cerca del canal está el dueño
o la dueña
Cerca del canal,
cerca de un canal
Pero he olvidado el nombre de las calles

Una madrugada salimos de beber de un bar revolucionario
y mi bicicleta estaba atada accidentalmente a otra,
una cadena se enredaba por entre los cables del freno y
la mantenía
sujeta a un poste
Todos se iban
en taxis,
en colectivos,
en autos que estaban llenos
y a mi bicicleta, yo no la podía sacar
tuve que dejarla ahí

Si alguien la encuentra
rompe el candado
y se la lleva
pero de todas formas era robada,
comprada a muy bajo precio
en el mercado de pulgas
o en un patio de atrás sospechoso
a una mujer inmigrante
a quien que no se le entendia muy bien lo que decía,
pero de todos modos decía:
“esta ser bicicleta mia vieja”
“esta no ser robô”

Son las tres de la tarde de un día de verano con viento
Los árboles que hasta ahora había visto secos
se mueven demasiado cargados
de hojas rebosantes de vida
En lugar de nieve, hebras de pólen alargadas que vuelan
como insectos
Alguien ató su bicicleta accidentalmente a la mia
no sé si es un accidente o es un robô
no sé si es un robo o es la verdadera dueña
que sé que existe porque un día se me acerco en un parque

Yo no soy la verdadera dueña, y ola compré
por ese precio tan bajo
en ese patio
de atrás
o mercado de pulgas
a una mujer con acento extranjero
de pelo largo y jeans gastados
que decía
“no peligro, esta ser bicicleta mía pasado”

Luego de conocer la felicidade de la bicicleta
estar sin ella es como vivir sin alas

Pasaban los días y la bicicleta seguía ahí en el Puente
el dueño no la venía a desatar, era verano, volava el polen
manchado de sol
yo pedía bebidas que me hacían mal
como espresso
café
negro
sin leche
miraba la bicicleta desde el otro lado del Puente, y lloraba

La bicicleta rosada atada
a través del cable del freno
por error
a la bicicleta celeste, oxidada, de un desconocido

El secuestro de la bicicleta robada sucede
durante la única semana de sol del año

Las grandes cosas
las cosas raras
sucedem en momentos de decisión o de locura
por ejemplo:
dejar su país,
cortar el cable del freno
con una pinza para liberar a la bicicleta,
disfrutar,
gozar
con el crimen,
romperle la rueda a la otra bicicleta o
tirarle ácido al asiento
Algo así.

La bicicleta era mi única fuente de diversion
Ahora que está llegando el verano
y hay pocas horas de verdadera noche
la bicicleta era mi mejor,
mi única amiga
Es tonto decirlo
es hasta tan simple
pero con la bicicleta paseando por la ciudad
me sentía libre
la ciudad era como un paisaje
que yo podía ver gratis
pasando a toda velocidad
por la ventana de un tren inter-city
sólo que la ventana no tenía marcos
era una ventana sin límite
y rosada
una ventana con forma de bicicleta rosada
robada
comprada a una chica
que decía “no ser peligro, no robado, mía antes bicicleta”

Yo sabía que era robada
igual la compré
Un día en un parque se acercó
la verdadera dueña
una mujer de unos treinta años
y dijo que esa sería su bicicleta
pero yo la defendí con uñas y dientes
inventé una historia extrañísima
complicada
con muchas etapas
de cómo esa bicicleta había
venido de Paris en barco
en correo, desarmada
en una caja de carton
enviada como obsequio por un ex-amante

¿Si me quitan la bicicleta
qué más me queda acá?
Sí,
están los Cafés Revolucionarios
donde se discute el futuro del mundo
Pero nada,
nada
puede compararse
con ella.

Cecilia Pavón


domingo, 17 de janeiro de 2016

"Não é preciso inventar a roda…" — um texto de JB*

* Comentário de JB ao post de ontem "O corpo místico de Sampaio da Nóvoa":




(...)
I need a crowd of people, but I can't face them day to day
I need a crowd of people, but I can't face them day to day
Though my problems are meaningless, that don't make them go away
I need a crowd of people, but I can't face them day to day
(…)
Neil Young - On The Beach

Não é preciso inventar a roda… Ou estarmos diariamente a levantar as eternas questões: De onde viemos? Para onde vamos ? O que podemos fazer ? Que é o Homem?

Francisco de Goya, 1797
Os "programas" utópicos não se destinam essencialmente a tornar possível uma mudança efectiva da História. Servem sobretudo para criar a "ilusão" de que não existem obstáculos invencíveis à megalomania do desejo. Não é por acaso que nunca se sabe nem o lugar nem a hora da realização desses mundos irrigados pela paz e pela abundância.

O próprio "admirável mundo novo" (A. Huxley) tornou-se obsoleto. A irrestrita "vontade de poder" (Nietzsche) é o único dono da vida e da morte. Desistiu-se da interrogação kantiana: "O que é o homem?" O ser humano já não se considera a si próprio como um "fim". Tornou-se um puro "meio" pronto a sacrificar-se na tirania dos objectos que constrói.

«Sonho que sou um cavaleiro andante
Por desertos, por sóis, por noite escura.
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!»
Antero de Quental

Desculpem a rudeza: já dei para estes misticismos transcendentais, etc e tal…

Diz-me o teu nome

Fotografia de Acey Harper




Diz-me o teu nome – agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos – como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro – assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo – um nome sim.
Maria do Rosário Pedreira



sábado, 16 de janeiro de 2016

O corpo místico de Sampaio da Nóvoa*

* Este texto pode e deve ser lido na sua integralidade aqui, no blogue Vias de Facto, um dos poucos blogues de esquerda não paroquial


Fotografia daqui


"(...) o ex-reitor é, até ao momento, o campeão dos "afectos": propõe-se "proteger" os que espera ver dispostos a serem seus protegidos e, para esse efeito, não recua perante a transubstanciação e faz-se anunciar — por exemplo, no clip que serve de exergo a este post — como corpo místico de "todos nós" — ou faz com que o "todos nós" se transubstancie no corpo místico de Sampaio da Nóvoa."
Miguel Serras Pereira


As musas cegas — V

Fotografia de Gérard Rancinan 


Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre,
com suas lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
— E nós estamos dentro, subtis, e tensos na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
— Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira.
— Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto -
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trémulas
da carne,
tudo o que húmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado.
- E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me, multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder




sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

É já a 24?*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A avaliação nas escolas mudou mais uma vez. Mudou sem nenhuma reflexão séria, apenas pelo palpite e preconceito ideológico do poder de turno. O costume.

Depois de Catarina Martins ter acabado com o “exame” do quarto ano, António Costa ainda garantiu no parlamento, em 16 de Dezembro, que as provas finais do 6º e 9º ano iam continuar. Só que o que o primeiro-ministro diz agora conta pouco. O PCP não podia ficar atrás do bloco e o PS acabou por ceder.

A meio do ano lectivo, as escolas e as famílias são confrontadas com novas regras, novos prazos. Sem quê nem para quê, é interrompida uma década e meia de recolha de informação sobre as aprendizagens no final do 1º e do 2º ciclo.

Ao mesmo tempo, o ministro decidiu parir uma ridícula “aferição” nos 2º, 5º e 8º anos, umas provas que os alunos vão fazer sabendo que não contam para nada.

Aliás, é importante que seja dito aos alunos que a aferição não conta para nada. Por ser verdade e para seguir a doutrina dos novos “donos-disto-tudo”: se não podíamos “traumatizar-para-toda-a-vida” as meninas e os meninos de dez anos do 4º ano, muito menos podemos traumatizar as meninas e os meninos de oito anos.


2.  Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu dois objectivos estratégicos que lhe permitem sonhar com a vitória à primeira volta: não tem concorrência à direita e apresenta-se como o seguro de vida da “geringonça” de António Costa.

Marcelo soube apresentar-se como o “ajudador” número um do governo e mudou de pele: em vez do Marcelo buliçoso e hiper-cinético a que nos habituámos, temos agora um homem calmo e até, aqui e ali, com uma quietude que chega a ser chata. Este Marcelo do “novo tempo” respira, por todos os poros, a gravitas do poder.


Fotografia daqui
Depois de ter abanado nos debates com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, Marcelo reza agora para que apareçam sondagens a dar-lhe menos de 50%. É que ele precisa mobilizar o voto à direita que, de tão confiante, conta abster-se.

Poema para o Doutor Trimbos

Fotografia de Helmut Newton



"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.
Gerard Reve


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Branco no branco

Fotografia de Mario Testino



Branco no branco, cantou
Bashô. Despes o vestido,
dispo o teu corpo.
A tua sombra na parede
branca. Sorris.
Apagas a luz.
Sabes que a tela da tua pele
me vai iluminar.
Debruças-te no meu peito:
sabes que o teu hálito me vai
acender. Branco
no branco.
Derramados
um no outro. Quem é luz?
Quem é sombra?
A cotovia
começa a cantar.
Casimiro de Brito


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Todo aquele que morre por amor de sua amada

Fotografia de Michael Ackerman


— Todo aquele que morre por amor de sua amada
é um pequeno caimão que a própria mãe devora,
e que regressa ao ventre de que tem toda a ciência.
Poema de Madagáscar
Versão de Herberto Helder


A humanidade não tem o relógio certo


«É que o percurso de uma década no século XXI em nada é comparável ao seu aparente homólogo do século XVII — quando aliás a palavra «década» não existia (e sem 'nome' não há 'coisa').


A história não tem, definitivamente, o mesmo tempo em todo o lado, os calendários de referência são diversos; enfim a humanidade não tem o relógio certo...»


João Luis Oliva,