quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Generais*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Dezembro de 2006


1. O desgaste da imagem dos professores junto da opinião pública feito pela Ministra da Educação é um boomerang que vai cair na cabeça do PS e do governo. É só deixar passar a água debaixo das pontes.

Temos agora aí o novo Estatuto da Carreira Docente (ECD) que cria duas categorias de docentes: o professor e o professor titular. Os professores titulares vão ganhar mais e vão ser a elite. É suposto ser a eles que vão ser entregues as tarefas mais complexas e que exigem mais experiência.

Depois da manifestação de 25 mil professores em Lisboa, a 5 de Outubro, a ministra teve que ficar calada mais de um mês e foi José Sócrates que veio para o terreno defender o novo ECD.

O primeiro-ministro usou então repetidamente a metáfora da tropa: as escolas são como a tropa e na tropa só poucos e os melhores é que chegam a generais.

2. O novo Estatuto da Carreira Docente reserva em exclusivo aos professores titulares sete funções: (i) coordenação pedagógica; (ii) direcção dos centros de formação; (iii) coordenação de departamentos; (iv) supervisão da prática pedagógica; (v) acompanhamento do período probatório; (vi) elaboração e correcção de provas nacionais; (vii) participação em júri de provas para professores titulares.

Como se vê, afinal, para pertencer ou presidir a um Conselho Executivo, não é necessário ser professor titular. Isto faz algum sentido? Haverá, numa escola, função mais importante do que dirigi-la?

Para quê tanta conversa sobre hierarquia do mérito, ...
Daqui
... se vamos ter nas escolas “sargentos” a mandar em “generais”?

3. Ao fundo da Avenida da Europa, o tiquetaque do relógio do POLIS não engana: faltam 24 dias para as obras ficarem prontas. O Dr. Ruas vai ter muito trabalho até ao fim do ano…

2 comentários:

  1. Regresso ao Passado (parte DANTESCA)

    Recordo perfeitamente este texto. Tenho ideia que até escrevi um comentário...

    Sócrates tinha um ambiente de abertura e expectativa de mudança no sistema de avaliação dos docentes; tinha um ambiente de abertura e expectativa na generalidade das questões da educação. Bem ao seu jeito “entrou de pés juntos”! Tratou de levar ”tudo à sua frente” e de se incompatibilizar com os professores. A escolha da “inqualificável” equipa ministerial e de alguns delegados regionais (quem esqueceu a srª Drª do Norte?) E o sr. da CONFAP?

    Lurdes Rodrigues é hoje reabilitada como “senadora” e “grata figura” da educação, mas o clima de competição desgovernada em que assentava o modelo de avaliação arrasava quaisquer valores de partilha de conhecimentos ou de trabalho colaborativo entre pares que pudesse ainda subsistir. A forma descoordenada, confusa e brutal como foi imposto o processo de avaliação só prejudicou a escola pública. Nas escolas houve prejuízos irreversíveis na organização, no ambiente e nos milhares de professores que decidiram aposentar-se, quando ainda tanto tinham para dar ao sistema educativo. A senhora que agora diz que “ninguém é dono da verdade, ninguém é dono da razão total. Devemos ter essa disponibilidade para encontrar consensos”. Vá recuperar a memória em primeiro lugar…

    O titular/não titular foi o fumo para esconder o essencial: dar o KO ao funcionamento democrático das Escolas.
    Em conclusão, parabéns a Sócrates/Lurdes Rodrigues e à corrente “pedagógica” dos “filhos dos sociólogos (e outros cientistas sociais) do isctezessss…). Podem vir recolher os cacos…

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  2. "O titular/não titular foi o fumo para esconder o essencial: dar o KO ao funcionamento democrático das Escolas". Há muito que penso o mesmo. Uma verdade que o tempo só tem confirmado.
    Falam muito do Mário Nogueira não dar aulas há muitos anos, o que é verdade, mas ninguém pergunta há quantos anos 99,9% dos diretores não dão aulas?
    A maior parte teve passagem direta dos diretivos para diretor,ou não é verdade?

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