terça-feira, 1 de novembro de 2016

o acordeonista lisboeta

Daqui


grandes maltrapilhos da europa oriental
pisam o chão de metal
dos trens do metro; carregam
e tocam acordeãos.
com pirralhos já sebosos
passando os piedosos
chapéus, os maltrapilhos vão.

não o acordeonista lisboeta
― sisudo gorducho já careca,
ginja d’óbidos, olhos em conserva:
traz no ombro um chihuahua,
patas traseiras lá, e que observa
o instrumento sonoro com presas
de onde pende a pet cortada, presa
a uma alça de metal, pra esmolas:
moedas tilintam, o cãozinho não pesa.

olha os transeuntes sem se mover
― que o ombro o adestre ―,
no equilíbrio de esfinge pra manter
a caixa dos trocados do mestre.
ele toca eu acho um velho fado,
triste, mas feito de trinados,
o acordeonista, espessa nuvem pedestre.
sai em silêncio do vagão
e ouço a melodia renovada
ao entrar peloutra porta o acordeão.
Dirceu Villa


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