quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Leituras*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Agosto de 2006

1. Acabo de ler dois pequenos livros viciantes, daqueles que, quando se começam, só se param na última página.

Um deles, “Diário de Um Killer Sentimental”, é um policial negro de Luís Sepúlveda. A minha edição tem menos de oitenta páginas e é uma boa tradução de Pedro Tamen. Eis uma amostra:

“«Quantos anos tens?», perguntei.
«Vinte e quatro», respondeu ela com uma boca pequena e vermelha.
«Eu tenho quarenta e dois», confessei-lhe contemplando os seus olhos de amêndoa.
«És um homem novo», mentiu ela (…)”

Quarenta e dois anos é uma boa idade para dar uma volta à vida. Ele, o killer, perdeu a prudência e pôs-se a ensiná-la e a fazê-la. Ela “deu um grande salto de garota para gata.” O killer ficou preso às suas ancas florescidas. Um dia, um maldito dia, chegou um fax da gata a dizer-lhe que gostava doutro. (Se fosse agora, em vez do fax, iluminava-se uma sms no telemóvel.) Acontece. Até a assassinos profissionais no meio duma “encomenda”.

Corri o Google e a Imdb e não achei nenhum filme feito a partir desta história. Tem que haver. Só pode ter sido falhanço na minha pesquisa.

2. O outro livro que li foi “Morreste-me”, de José Luís Peixoto, e é uma longa carta do autor ao seu pai: “E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.” 

Palavras sofridas. De adeus. De choro. Palavras por meu pai que se foi em Novembro. E o pai do Carlos. E, depois, o do Miguel. E agora o do Paulo. E por todos os pais de todos os filhos.

Benditas palavras bem ditas de José Luís Peixoto. Vou ler todos os seus livros.

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