terça-feira, 26 de julho de 2016

Summertime

Fotografia de Erwin Blumenfeld 



Fonte


IV

Mal se empina a cabra com suas patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os cascos de demónio —
ágeis, frágeis.
E o sonâmbulo desejo do nosso coração
tudo absorve ao alto, como uma tenebrosa
vertigem.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas — patético, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias, suspensas, mudam a conjunção
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela tremenda queima a fronte de apolo.
E a mandíbula, os pés, a invenção, a loucura, e o sono
secreto:
— Terrível, a beleza espalha sobre nós
a branca luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra ao alto, fremente, no flanco
com uma flecha casta.
Lentamente cantamos o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o nosso amor — ardente, infeliz,
misterioso. Porque a cabra
é qualquer coisa de materno e antigo —
e o nosso coração a rodeia,
e bate. Durante a noite irrompe o trigo.

— Subtil, a sombra das flautas subindo pelas mãos.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e quente. Na penumbra das casas, as mulheres
respiram — surdas, cegas e loucas
de beleza. E no sono aberto as palavras são
mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma doce e terrível da nossa melancolia.
Herberto Helder



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