quinta-feira, 21 de julho de 2016

Luísa Barbosa*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Julho de 2006


Caricatura de Jorge Rosa
1. Luísa Barbosa fez teatro, cinema, publicidade e televisão. 
Antes de se ter tornado famosa na primeira telenovela portuguesa, a actriz viveu em Viseu. 

Na altura conheci-a e falámos muito. Luísa era uma grande contadora de histórias. 

Vou contar uma delas aqui, no Olho de Gato, em sua homenagem e à sua memória:

2. Nos anos 60, Luísa Barbosa viveu em Paris com um músico de jazz brasileiro. Ao saberem dum concerto de Miles Davis no Olympia, compraram logo dois lugares na primeira fila. Gastaram uma fortuna.

O concerto começou. Um pianista, um baixista e um baterista começaram a tocar. A audiência, cheia de cool, ficou à espera do som mágico e inigualável do trompete de Miles Davis.

Da parte direita do palco surgiu ele, o mago do sopro, com o trompete debaixo do braço. Chegado ao meio do palco, Miles Davis bufou uma gaitada, pôs o trompete debaixo do braço outra vez, e saiu pelo lado esquerdo. Os músicos olharam-se. 

Continuaram a tocar. Nada de Miles Davis. O homem do baixo pousou o instrumento e saiu. O pianista, passados uns minutos, hesitou uns acordes e pirou-se. O baterista continuou a bater no prato de choque e na tarola. A certa altura, já só apoiava o peso numa nádega, meio sentado, meio levantado. Olhou para os bastidores. Nada. Aturdido, sem saber o que fazer, o homem lá acabou por sair.

Miles Davis andava com más vibrações nas veias. Quando as pessoas deram conta que não ia haver concerto nenhum, houve uma “guerra civil”. As cadeiras voaram pelo ar. A Luísa e o marido, para se safarem da confusão, fugiram pelo palco. O Olympia ficou três meses fechado para obras.

3. O baterista desta história da Luísa Barbosa lembra George W. Bush, no Iraque. Bush está lá a tocar bateria. Foram todos embora e deixaram-no lá sozinho. Atolado e aturdido. Sem saber o que fazer.

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