sábado, 18 de junho de 2016

Requiem

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As relações afectivas deviam ter funerais
Poríamos dentro de uma caixa o que
correspondesse à dita - livros, cartas,
sapatos, ramos de flores secas, fotografias
de férias, os recados deixados na cozinha
as roupas de ocasiões especiais

convidaríamos os amigos mais próximos
testemunhas da sua existência e do seu fim
seguiriamos pelas ruas atrás da caixa levada
por um coveiro distante de pormenores
num silêncio, ou entre as palavras próprias de
quem segue um finado

chegados ao sítio do enterro, nada de muito diferente
abrir-se-ia a terra, talvez não fossem necessários os
sete palmos
duas ou três carpideiras para tornar o momento mais sério e credível
porque já se sabe que as relações não são materiais
punha-se a caixa na cova, atirava-se-lhe a terra para cima
quem quisesse podia deixar flores, talvez os que mais
tivessem acreditado na defunta

apenas uma placa com o nome dos que a constituiram
e lhe deram uma realidade palpável
"aqui jaz a relação de fulana e fulano tal" acrescido da
data de início e fim

posto isto poderia ir embora quem quisesse, poderiam
chorar os mais sensíveis
as carpideiras demorariam ainda mais uns minutos, devendo
ser as últimas a ir embora para que ninguém duvidasse do
triste final
há relações que não ficam bem enterradas
que se desenterram, que voltam para confundir

ao cair da tarde, ficaria a relação sozinha na cova
a largar o fogo-fátuo de imagens a preto e branco
Cláudia R. Sampaio

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