sexta-feira, 24 de junho de 2016

Banif*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Faltavam apenas onze desluminosos dias para acabar 2015. Esteve frio na Ibéria naquele domingo, 20 de Dezembro, em que, no lado de lá de Vilar Formoso, o eleitorado acabou com décadas de hegemonia do PP e do PSOE e, no lado de cá, o Santander comprou em saldo o Banif.
Fotografia de Guilherme Marques  (daqui)

Daquele negócio sobrou um buraco de 2.255 milhões de euros para tapar: 489 milhões pelo Fundo de Resolução e 1.766 milhões por nós, pagadores de impostos. Esta segunda verba foi logo aviada em Fevereiro através de uma emissão fechada de dívida pública, sem consulta ao mercado, junto do... Santander.

A partir de então, a geringonça tem atirado as culpas para cima da caranguejola e a caranguejola para cima da geringonça. Ambas estão cheias de razão: esta longa campanha eleitoral de 2015, 2016 e 2017 vai custar-nos os olhos da cara. E aqueles 1766 milhões de euros vão ser pagos por nós, os nossos filhos e os nossos netos.

Pedro Passos Coelho podia ter feito melhor? Sim, podia e devia. Cuidou do buraco do estado, descuidou do buraco dos bancos. No Banif, arrastou os pés. Fez mal.

António Costa podia ter feito melhor? Sim, podia e devia. Faltavam só onze desluminosos dias para a entrada em vigor da nova regulamentação europeia para resgates bancários que poupa os contribuintes. Desde 1 de Janeiro, são os depositantes acima de 100 mil euros, os obrigacionistas seniores e o sistema financeiro europeu a tapar os buracos dos bancos.

O governo português diz que foi obrigado a esta solução pela "inquietude e pressão" da Comissão. Esta lava as mãos da asneira dizendo que a operação foi "da total responsabilidade das autoridades portuguesas". Um deles está a mentir.

Ricardo Cabral, bloguista do Público, aconselhou o governo a interpor uma acção no Tribunal Europeu contra a Comissão e o BCE. Só o anúncio desta acção podia aumentar o nosso "poder negocial" na UE. Mas, como muito bem observou a The Economist, a geringonça ladra muito em Lisboa, mas, quando chega a Bruxelas, não morde.

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