domingo, 1 de maio de 2016

Fossa comum

Imagem do documentário Li Ké Terra — A Nossa Terra (2010)



Portugal, dia um de Maio de dois mil e oito.
As nossas janelas têm vista para o Mediterrâneo.
Os nossos turistas são ingleses. As nossas cozinheiras angolanas.
As nossas empregadas brasileiras. Os nossos pedreiros ucranianos.
Os nossos comerciantes chineses e indianos. As nossas amantes baratas.
As nossas putas romenas, disponíveis – agora, se faz favor.
Os nossos sonhos transatlânticos.
Os nossos hábitos light, soft, ecológicos, se possível.
Os nossos medos hoje são negros. Os nossos dias contados.
Trezentos e sessenta e um, trezentos e sessenta e dois, trezentos e sessenta e três,
trezentos e sessenta e três, trezentos e sessenta e quatro, trezentos e sessenta e cinco, (agora podem dizer todos em coro) trezentos e sessenta e... Este ano é bissexto
e um dia antes do fim, trezentos e sessenta e (em coro, mas mais alto desta vez)..., precisamente um dia antes, oitenta por cento da população do planeta usará apenas dezassete por cento das palavras com equivalência no Standard English,
alguns só se limitarão a poucas vogais, mais precisamente: Oh!
Não acreditamos no pecado original nem na culpabilidade colectiva – dirão os árabes.
Nós, sim, replicarão os americanos no talk show das vinte horas
enquanto alguns judeus gritarão numa Jerusalém já palestina,
os crimes não se herdam. Os crimes não se herdam, nem se pagam duas vezes.
Sobejará alguma caixa de Pandora,
com dentes de ouro guardados lá dentro,
dentes que vamos apanhando qual frutos maduros
nos esgotos das câmaras de gás da nossa consciência.
A nossa mente que não acredita, que ainda não pode, nem quer magicar que...
os nossos pais, as nossas mães, as modelos dos clipes publicitários da colgate, os bushes e as torres gémeas, o sarkozy e as carlas bruni etc.,
não é possível que estejam todos a sonhar os nossos sonhos
desde uma margem da história que não vinha nos manuais,
desde um depois que não existe,
desde o outro lado do ecrã dos nossos plasmas Philips,
desde o real socialismo que falhou, falhou, falhou tantas vezes no sonho da sua realidade,
desde uma união aduaneira cada vez mais integrada,
do banco europeu onde o próprio presidente nos sonha
na fossa comum da política agrícola (PAC)
desde a altura do seu bigode,
desde a fofura da sua almofada,
com fantasias em seda bordadas nas margens
e uma palavra com letras pequeninas,
preto sobre branco,
a-r-m-a-n-i.
Golgona Anghel






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