domingo, 24 de abril de 2016

Fascismo nunca mais! Bancarrota nunca menos! *





* Há dois anos, o hmbf publicou o poema que se segue no blogue Antologia do Esquecimento mas, depois, apagou-o.
Que não caia no esquecimento.


FASCISMO NUNCA MAIS
Eu na minha vida só de revoluções adiadas
levo já uma catrefa
e se for a ponderar a aritmética
do desperdício
tempo me valha
que estou velho aos quarenta

Cresci a ver o país nas mãos de cata-ventos
ora soprados a jusante
ora bufados a jazente
com o futuro dos filhos dependurado
em tratados europeus parafraseando
estatutos de condomínios fechados
e nós dentro deles
como caseiros, mulheres a dias
já com o passado todo no ralo dos mercados
e nenhuma história para contar
às filhas

Os heróis que nunca tivemos foram-se todos
com as putas
ficaram nevoeiros onde repousar a imaginação
e 1 Prémio Nobel para assoprar a pirose
um neurocirurgião de primeira safra
o melhor futebolista do mundo
encanto para olhos de multidões cegas d'indiferença
a Paula Rego muito ao largo
e mais adiante Maria João
teclando nas pretas os sustenidos da nação

Temos igualmente imensíssimos cérebros emigrados
de que é bom orgulharmo-nos
não vá o sol queimar-nos a testa
Constipados de turismo, servis
e resplandecentes
somos, como sói dizer-se, bons anfitriões
passamos a vida em filas
onde contamos os tostões
podíamos ser excêntricos
passaríamos a vida em filas
a contar os cêntimos

Temos entre os poetas dos melhores
escrevem mais do que lêem
lêem mais do que vivem
vivem menos do que morrem
e já nem de tenças sobrevivem
simplesmente porque não podem

Os recursos naturais vêm sendo investidos
na confecção de obras
em obras tão seminais
como
as sinapses da Fundação Champalimaud
as artroses da Fundação Mário Soares
o alzheimer da Fundação Francisco Manuel dos Santos
os recessos da Fundação Calouste Gulbenkian
a dislexia do Museu Berardo
passepartouts para o colecção Miró do BPN
e BPNs para os mirós dos passepartouts
Convenhamos meu amor que não sobra muito
a Festa do Telhal, talvez
e pelo meio gado e comezainas de norte a sul
interior e litoral
com vivas à independência, à reconquista, à república
e ao FMIntegral

O país no seu melhor
são quarenta anos de cavacas sem açúcar, ou quase,
prescrições várias e um acréscimo considerável
tanto no uso de antidepressivos
como no comércio de corda para enforcamentos
Para o suicídio ainda não inventaram dietas
Vamos indo como sempre fomentos
Vamos estando como sempre investimentos
Vamos sendo como sempre barlaventos
feios, pigs e bonzinhos
alunos bem comportados de uma mise-en-scène
com indignações várias
dignas do tesão de mijo que assola o bêbado
das carbonárias

Ainda assim, trazemos na carteira expressões latinas
estrangeirismos, anglicismos
fartos e bastantes para embelezar decretos
e códigos, processos e procedimentos
Actio nondum nata non praescribitur
dizem os poetas de batina
como el matador ao toiro revogado
Comment dit-on motherfucking en français?

Na praça pública somos todos cavalos cansados
burros mansos
lobos amestrados com dentes caninos
para carnes tenras, ossos podres
nós próprios o povo
comendo-se uns aos outros
num canibalismo tal que enrubesceria as faces
dos indígenas da floresta
há muito atirados para as minas
onde fomos descobrir o pão nosso de cada dia
jamais seremos vencidos porque unidos nunca estivemos
jamais seremos derrotados
porque vencedores nunca seremos

Trepamos cimentadas carreiras
descalços e desprotegidos
na esperança de solas cozidas a duas linhas
(um dois esquerda direita centro consenso
extremamente central)
por outros que como nós trepam
mais abaixo de nós
e sempre a olhar para cima
na direcção de poleiros inalcançáveis
desviamos a testa das poias largadas
por quem bate asas de voos constritos

Triste sina ser-se assim
adiado aos quarenta
a fome de sentir e de amar e de ver
que não sai do mesmo lugar
onde nasceu e
tudo leva a crer
há-de vir a naufragar
hmbf



Sem comentários:

Enviar um comentário