quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Dito no Jornal do Centro em 2015*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


9 de Janeiro 
José Sócrates vai, como disse António Costa, poder defender em tribunal a “verdade em que acredita”. E convém lembrar: os problemas de “liquidez” do ex-primeiro-ministro não fizeram dele um preso político.
Fotografia Olho de Gato

24 de Abril 
A chegada do “2020”, o dinheiro da “Europa”, fez regressar o sonho húmido preferido dos nossos políticos — as infra-estruturas.
Ele é a auto-estrada de Viseu para o sul com geografias cada vez mais estranhas.
Ele é um comboio novo-em-trinque na estação de Viseu.
Ele é um comboio recauchutado na estação de Mangualde.

29 de Maio 
Esta última indignação do Facebook sobre o problema de física que “atirava” um gato abaixo de uma varanda quererá dizer que, no próximo parlamento, vamos ter um deputado do PAN — Partido pelos Animais e pela Natureza?

5 de Junho 
Um azar, um recibo deitado ao lixo, uma via verde avariada, uma notificação perdida, e o “fascismo fiscal” em que vivemos penhora-nos o salário ou a pensão ou a casa.

31 de Julho 
Como se viu neste desgraçado meio ano syrízico, a esquerda patina quando se encerra na crítica paroquial contra o “capital financeiro” ou contra a “sra. Merkel e o sr. Schäuble” (agora mais ele que ela). Uma abordagem “patriótica” a fazer coro com a sra. dona Marine Le Pen não leva a lado nenhum.

2 de Agosto 
Depois dos milhões e milhões da “Europa” e das privatizações, as nossas elites deram-nos três bancarrotas, um estado disfuncional (só funciona o fisco) e endividado (com défices ano após ano); deram-nos um estado capturado (mal a troika saiu, logo os remédios recomeçaram a aumentar) e injusto (Ricardo Salgado destruiu a PT e as poupanças de milhares de pessoas mas continua a apanhar o sabonete no chuveiro de sua casa).

18 de Dezembro – dois dias antes do resgate do Banif 
Como se sabe, quando o governo é fraco, os lóbis fazem um festim. E isso já se vê: cheios de pressa, os homeopatas do bloco esganiçam-se no parlamento e os sindicalistas do PCP convocam greves; já os banqueiros, mulas velhas, fazem as coisas com discrição e eficácia.

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Os 52 Olhos de Gato publicados em 2015 no Jornal do Centro podem ser lidos, na sua integralidade, aqui neste blogue clicando na etiqueta Jornal do Centro.
A primeira leitura para esta selecção de fim-de-ano deu a seguinte enormidade (>21000 caracteres que depois foram devidamente tesourados para <2000):



9/Jan
José Sócrates vai, como disse António Costa, poder defender em tribunal a “verdade em que acredita”.
E convém lembrar: os problemas de “liquidez” do ex-primeiro-ministro não fizeram dele um preso político. Em democracia não há disso.


16/Jan
Gorbatchov queria reformar a URSS mas as elites soviéticas perceberam que eram elas que iam ficar com os despojos quando o regime desmoronasse e trataram do assunto. Os actuais plutocratas russos estavam próximos da cúpula soviética e conseguiram assegurar os favores do estado ou roubaram-no directamente.

23/Jan
Uma das melhores ideias surgidas no “orçamento participativo” da câmara de Viseu foi a de associar a cidade às tílias e ao chá de tília.
Ideia barata que faria muito pela imagem de Viseu. Pelo menos tanto como as festas e festinhas de António Almeida Henriques.

20/fev
As ditas "redes sociais" estão sempre à-beira-de-um-ataque-de-nervos: ora é por causa do cachecol Burberry do sr. Varoufakis (comprado há uns anos pela mulher dele por cinco euros), ora é por causa da mala Hermès da sra. Lagarde (que ela comprou por 5750 dólares na Quinta Avenida). Havemos de sobreviver desde que o Facebook continue a ter vídeos cutchi-cutchi de gatinhos e pensamentos de Fernando Pessoa que ele nunca escreveu.

27/Fevereiro
Há sempre um lobby capaz de pôr políticos a tirarem dinheiro aos cidadãos em seu benefício.


O país parece preparado para pregar um susto eleitoral aos partidos do sistema. É só aparecerem protagonistas novos credíveis


13/Março
Entre nós, a retórica da “voz grossa” contra a “Europa” e contra o “bom-aluno” totó que aceita tudo de Bruxelas é um clássico da política portuguesa. É por aqui que anda António Costa.

20/Mar
Uma coisa é certa: nesta matéria todos os contribuintes têm que ser “VIP”. O sistema informático do fisco tem que estar preparado para registar o “quem”, o “a quem”, o “quando” e o “quê” de todas as pesquisas. Se um funcionário de Arronches de Baixo, no dia 20 de Março, pelas 11H15, espreitar a situação fiscal do sr. António Costa de Lisboa, ou da sra. Antonieta Francisca de Portimão, esse funcionário tem de estar preparado para explicar porque fez isso.
E, se essa informação for parar a um órgão de comunicação social, o mínimo que se espera é que lhe seja levantado um inquérito e demais arsenal disciplinar da função pública.

3/Abril
Isto, a que se chama “condição de recursos”, tem um duplo efeito negativo:
(i) esburaca a rede de segurança da classe média — por exemplo, o abono de família já foi universal, agora não é, e fomos convencidos que assim é que está bem; na saúde e na educação está a trilhar-se o mesmo caminho;
(ii) é a bem conhecida “armadilha da pobreza” — só depois de completamente pobre a pessoa poderá, então, receber um apoio que a mantém pobre.

24/Abril
Recordemos: todos os quatro presidentes — Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco — tiveram dois mandatos. Os presidentes foram sempre reeleitos e isso não foi por acaso. É que, nos primeiros cinco anos, todos eles foram umas nulidades só preocupadas com uma coisa: a sua reeleição. Recordo os dois casos mais danosos — o presidente Soares aplanou a vida ao primeiro-ministro Cavaco até 1991 e o presidente Cavaco aplanou a vida ao primeiro-ministro Sócrates até 2011.
É por isso que seria desejável um mandato presidencial não renovável de sete anos, para evitar os decorativos cinco anos iniciais da função presidencial.

A chegada do "2020", o dinheiro da "Europa", fez regressar o sonho húmido preferido dos nossos políticos — as infra-estruturas.
Ele é a auto-estrada de Viseu para o sul com geografias cada vez mais estranhas. Ele é um comboio novo-em-trinque na estação de Viseu. Ele é um comboio recauchutado na estação de Mangualde.


1/Maio
A metapolítica — a decisão dos eleitos está a ser escondida ou empaliada. A ferramenta mais na moda é a dos orçamentos participativos (OP). Todos os presidentes de câmara e de junta querem um “participativo”. Onde a “situação” não avança para um OP, a “oposição” propõe um. Onde a “situação” toma a iniciativa, a “oposição” brada que é pouco.

Valha a verdade, o presidente da câmara de Viseu é um especialista em metapolítica. Para além do OP, ele usa todos os instrumentos que pode para empaliar ou lançar nevoeiro sobre a decisão política e respectiva responsabilidade. As únicas obras do seu mandato são comissões de “estratégia”, são “júris”, são “fóruns”, são concursos de “ideias”.
A oposição socialista percebeu-o e decidiu metapoliticar também: acaba de propor um referendo sobre o Mercado 2 de Maio, a ensombrada obra de Siza Vieira onde este, há 15 anos, plantou umas magnólias que nem assombram nem desassombram, antes pelo contrário.


8/Maio
O “arco da corrupção” — PS, PSD e CDS — está capturado pelo negocismo e o rentismo. As nossas elites não produzem riqueza, só sabem viver aconichadas ao estado.
O “arco do protesto” — Bloco e PCP — é formado por virgens que, para não pecarem, são sempre do contra e nunca querem ir para o governo.
Ora, este bloqueio ainda não vai ser resolvido nas próximas legislativas.

A nossa Segurança Social, para além de um fundo de reserva de 11 mil milhões de euros, tem 14 mil milhões de receitas por ano e gasta 13 mil milhões em pensões. Está, portanto, equilibrada e é sustentável.
Entretanto, apareceram uns “macroeconomistas” do PS de António Costa a quererem cortar 1,7 mil milhões de euros de receitas anuais da Segurança Social.
E se fossem antes mexer na herança da vovó deles e deixassem o futuro das pensões em paz?

15/Maio
Tremam, editores da Visão! Arreceiem, jornalistas da Sábado! Paniquem, homens da The New Yorker! António Almeida Henriques vai entrar no negócio. Vai editar uma revista municipal.
E registe-se: esta revista trimestral de distribuição gratuita vai só custar mais sete mil euros que o último orçamento participativo. Uma ninharia. Vão ser 82 mil euros supimpamente aplicados.
Perante tanta ligeireza, tanta festa e festinha a que agora se vem acrescentar o "papel-couché" revisteiro, o dr. Ruas só pode andar muito divertido.


22/Maio
Em “A Arte de Pensar Com Clareza”, Dobelli recenseia 52 erros comuns de raciocínio e, entre eles, o da “falácia do custo irreparável”: a pulsão que nos faz agarrar às coisas só porque nelas já investimos muito tempo, energia, dinheiro, amor, …
Ficar a ver até ao fim um filme intragável não adianta nada, o dinheiro do bilhete já foi gasto em vão. O avião supersónico Concord nunca seria rentável mas a Inglaterra e a França continuaram, ano após ano após ano, a enterrar dinheiro nele, incapazes de acabarem com o projecto. Não é por acaso que a “falácia do custo irreparável” também é conhecida por “efeito Concord”.
Mais situações: «já percorremos um caminho tão longo....», «já li tantas páginas deste livro...», «já dediquei dois anos a este curso...»
Explica Dobelli: “há bons motivos, e são muitos, para investir na conclusão do que foi iniciado. E há um mau motivo: pensar no que foi investido. (...) O que conta é o presente e a avaliação que somos capazes de fazer quanto ao futuro.”

29/Maio
As redes sociais estão sempre à-beira-de-um-ataque-de-nervos, com o pessoal indignado a “malhar” em alguém.
O alvo preferido do nosso Facebook é Isabel Jonet, do Banco Alimentar. Ela na logística da comida é boa, mas nas televisões é uma desgraça. É razoável pensar que é melhor assim que ao contrário. Mas ai de quem a defenda no Facebook.

(…) o bem-estar animal é um adquirido civilizacional que vê com maus olhos, até, animais nos circos.
Esta última indignação do Facebook sobre o problema de física que “atirava” um gato abaixo de uma varanda quererá dizer que, no próximo parlamento, vamos ter um deputado do PAN — Partido pelos Animais e pela Natureza?


5/Junho
Um azar, um recibo deitado ao lixo, uma via verde avariada, uma notificação perdida, e o “fascismo fiscal” em que vivemos penhora-nos o salário ou a pensão ou a casa. O sr. Paulo Campos, o homem que instalou a ladroagem dos pórticos, é um Rutger Hauer, o vilão do excelente filme que correu em Portugal com o mesmo título desta crónica.

12/Junho
a concessão em 2008 das novas barragens à EDP por 700 milhões de euros para "compor" o défice daquele ano foi uma irracionalidade económica e ecológica; ainda por cima, destruiu a beleza única do vale do Tua; poucos anos depois, aquela operação desastrosa — feita por um terço do seu valor de mercado — escorregou pelas três gargantas chinesas abaixo;
— a migração da televisão analógica para a TDT, levada a cabo pela PT, mais bem dito, levada a cabo pelo divino espírito santo que era quem mandava na PT, obrigou os portugueses a gastar dinheiro para ficarem com... os mesmos quatro canais que já tinham. Até a TDT grega tem 17 canais. Foi um golpe inqualificável nos portugueses mais pobres, mais sós e mais velhos.


26/Junho
Contudo, o balanço global dos dois mandatos de Cavaco Silva é negativo porque falhou nas duas funções principais do poder moderador: 
(i) um PR deve ser a válvula de escape do "vapor" acumulado pela conflitualidade política; um PR deve ouvir e dar voz aos "perseguidos" e aos "vencidos" pelos governos. Ora, Cavaco ao "mata" de Sócrates disse sempre "esfola" (que o digam os professores no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues); ora, Cavaco ao "mata" de Passos "esfolou" ainda mais depressa;
(ii) um PR deve ser um símbolo e um factor de unidade nacional e Cavaco Silva não o conseguiu ser no seu segundo mandato; tudo começou logo na noite da segunda vitória quando ele não teve grandeza para ultrapassar a campanha sujinha feita pelo poeta Alegre e o tiririca Coelho da Madeira.

17/Julho
Em poucos meses, a dupla Tsipras-Kamménos conseguiu duas coisas: secar os bancos gregos e duplicar o número de eurocépticos e anti-europeus.
Marine Le Pen, Nigel Farage, Pablo Iglésias, e demais nacionalistas europeus, aplaudem os seus congéneres de Atenas. O sr. Putin esfrega as mãos. A máquina de simplificação populista que ele teleguia está mais eficaz do que nunca.
Depois do espalhanço syrízico, os papagaios nas televisões repetem agora um novo mantra: «a 'Europa' morreu». Claro que a UE não morreu, mas precisa de ser retirada do seu labirinto antidemocrático e autoritário.
Os cidadãos têm que poder eleger directamente o “sr. Europa" ou a "sra. Europa", um eleito que trate do interesse europeu pelo menos tão bem como Angela Merkel trata do interesse alemão.

Mas a humilhação não é só para quem recebe. A humilhação também é para quem é recebido. A primeira pergunta a fazer à cabeça de lista do PS é esta: «Maria Manuel Leitão Marques, por que razão o PS-Coimbra não a quis?»

24/Julho
No último Olho de Gato chamei a atenção para a mania que há na “Europa” de decidir tudo em grandes maratonas negociais que se prolongam até altas horas da madrugada. E lembrei: “grupos grandes tendem a decidir mal, grupos grandes e com sono é asneira certa.”

Regressemos ao tema: porque é que grupos grandes tendem a decidir mal? Rolf Dobelli, em 'A Arte de Pensar Com Clareza' chama a este fenómeno “preguiça social”. Acontece em grupos em que o esforço individual possa ficar diluído no colectivo. Quanto maior o grupo, mais ronha tenderá a fazer cada elemento. Se os resultados forem bons — “por acaso foi ideia minha”. Se forem maus — “por acaso foi ideia do grupo”; a isto os especialistas chamam «difusão de responsabilidade».

31/Julho
Como se viu neste desgraçado meio ano syrízico, a esquerda patina quando se encerra na crítica paroquial contra o “capital financeiro” ou contra a “sra. Merkel e o sr. Schäuble” (agora mais ele que ela). Uma abordagem “patriótica” a fazer coro com a sra. dona Marine Le Pen não leva a lado nenhum.
Tal como é necessária democracia com a eleição do “sr. Europa”, também as lutas dos trabalhadores têm que se tornar supranacionais, com sindicatos europeus.

Taxas moderadoras na interrupção voluntária da gravidez, muito bem. Nem se percebe por que razão elas ainda não são cobradas.
Consultas psicológicas compulsivas, como querem o PSD e o CDS, muito mal. E anti-deontológico. Profissional que as faça contra a vontade da mulher, alegando o clássico “estou a cumprir ordens”, deve ser posto a limpar retretes em Nuremberga.

7/Agosto
Depois do líder António Costa ter sido eleito em primárias por um selectorado de 178 mil pessoas, o PS regressou às reuniões de sótão e às missas maçónicas para fazer as listas de deputados. A coisa deu barraca e não só em Viseu.

Os nomes das listas não contam para o resultado, o que conta é a tendência nacional de voto. Em ano de maré da direita, esta faz seis deputados no distrito (chegou aos sete no apogeu cavaquista). Em ano de maré rosa, o PS chega aos quatro e a direita fica-se pelos cinco.

Pondo nomes e não chapéus-de-palha: os viseenses elegem Isaura Pedro que perdeu a câmara de Nelas depois de ter levado aquele município à falência ou elegem Marisabel Moutela, a anónima aparelhista que António Borges trouxe da folha de pagamentos da câmara de Resende?
Em resumo é isto. Isto vai dar muita conversa nos jornais, blogues e redes sociais. Mesmo sendo só isto.

14/Agosto
Estes dias de chanatos e calções pedem crónicas light. Dias descomplicados, dias de fartura com os nossos queridos emigrantes a comerem farturas, e nós com eles, nas festas das nossas aldeias. Dias de Feira de S. Mateus com um rancho no palco e outro no prato mas com parágrafos sem colesterol. Nem do bom nem do mau.

O simpático governante brasileiro tanto desejou acentuar o lado material da nossa querida língua que até escreveu que ela “deposita know how" [sic].
Caro Juca Ferreira, é tão bom quando cê escreve "midialivrista". Quando escreve "know-how" não é tanto, acredite, embora não faça mal nenhum. A gente por cá, embora menos tecno-anglicista, alcança tudo. Percebe todo os imeios que nos enviar, acredite. Não tenha medo da diferença lexical, sintáCtica e ortográfica, homem. Acredite: quanto mais diversas e mais criativas forem as várias variantes da nossa língua comum, mais impacto ela terá no, como diz, "contexto global".
Mermão, repare na língua de negócios do mundo: o inglês tem dezoito grafias diferentes. Vê alguém a querer que os australianos escrevam da mesma maneira que os canadianos? Sabe porque é que eles não perdem tempo com esse tipo de projeCtos, meu caro? Porque eles têm know-how.


28/Agosto
Depois dos milhões e milhões da “Europa” e das privatizações, as nossas elites deram-nos três bancarrotas, um estado disfuncional (só funciona o fisco) e endividado (com défices ano após ano); deram-nos um estado capturado (mal a troika saiu, logo os remédios recomeçaram a aumentar) e injusto (Ricardo Salgado destruiu a PT e as poupanças de milhares de pessoas mas continua a apanhar o sabonete no chuveiro de sua casa).
As nossas elites não criam riqueza, vivem aconichadas ao estado e compram a decisão política. E, com Barroso e Sócrates, habituaram-se a consegui-la barata. Veja-se o caso dos submarinos ou das PPP ou da Parque Escolar.

4/Setembro
Agora, a esfera pública é feita de clivagens entre um «nós» e um «eles», sendo este «eles» o que der mais jeito: os “funcionários” no tempo do barrosismo, os “professores” no socratismo, os “alemães” no syrizismo luso, os “grisalhos” no dizer sem cabeça de um cabeça-de-lista do PàF.
Esta “construção do inimigo” (expressão de Umberto Eco) é levada ao extremo nas “democracias populistas”, à moda da Hungria ou da Grécia, em que a maioria arrasa tudo. São políticas avessas ao compromisso e ao consenso, valores primeiros das sociedades liberais e os valores com que se fez a “Europa”.

25/Setembro
O primeiro-ministro grego está também encalhado. Não é num dia mas é num ano — 2015. O seu despertador já tocou três vezes: em Janeiro numas legislativas, em Julho num referendo e agora em Setembro em mais umas legislativas. Já teve três oportunidades para acordar e acertar o tiro.
E não têm sido poucos os fiascos de Alexis: apostou no contágio grego ao sul da “Europa”, e Hollande, Renzi, Rajoy e Passos deixaram-no a falar sozinho; apostou na aproximação à Rússia mas Putin pouco mais lhe pôde dar do que umas palmadas amigas nas costas; apostou no confronto com os credores e, quanto mais soltou a sua xenofobia anti-germânica, mais os gregos levaram os euros para debaixo do colchão, até que ele teve que fazer um “corralito” às contas bancárias e aceitar as duras condições de um terceiro resgate.


2/Outubro
Há um facto que não é suficientemente explicado às pessoas — cada voto rende ao partido que o recebe €3,11 por ano. Desde que um partido obtenha pelo menos cinquenta mil votos numas legislativas, ele recebe essa subvenção pública quer eleja deputados quer não.
É importante que o eleitor saiba isso para dar a utilidade que achar melhor ao seu voto: votar para eleger deputados ou votar meramente para dar os €12,44 de uma legislatura ao partido de que gosta, mesmo que ele não eleja nenhum deputado no seu distrito ou no país. Ou para, caso não queira entregar esse dinheiro a ninguém, inutilizar o voto.
A abstenção, essa, deve ser evitada.

9/Outubro
Mesmo depois de quatro anos duros, a direita viseense conseguiu ganhar em todos os concelhos e manter os mesmos seis deputados. Mérito de Mota Faria, demérito de António Borges, o líder distrital do PS.

16/Outubro
Nunca na nossa terceira república houve querela sobre regras ou sobre quem ganhou e quem perdeu umas eleições. Mas agora há: se ficar a governar a direita, a esquerda achará ilegítimo; se ficar a governar a esquerda, a direita achará ilegítimo.
Este sarilho enfraquece o próximo governo e vai levar a eleições antecipadas. Quanto mais elas demorarem mais o país vai apodrecer. Podem ser já na próxima primavera, professor Marcelo Rebelo de Sousa?

23/Outubro
Entretanto, a coligação de direita já “dá” mais de mil milhões de euros em concessões ao PS. O que Costa está a conceder ao bloco e à CDU para se manter ao de cima da água não se conhece mas adivinha-se.
É o nosso fado: ir de bancarrota em bancarrota.

6/Novembro
Tudo à espera. Os candidatos presidenciais fingem-se de mortos quando lhe perguntam sobre o assunto mais quente que vai sobrar para o próximo inquilino do Palácio de Belém — quando vamos ter eleições legislativas antecipadas?
Maria de Belém vai visitando santas casas da misericórdia enquanto Sampaio “Diapasão” da Nóvoa, sem nada para dizer como de costume, elabora sobre o “tom de desafio” (sic) ou o “tom certo” (sic) dos discursos de Cavaco.
Já Marcelo Rebelo de Sousa tanto se adentra na Festa do Avante como fala na Voz do Operário, enquanto o PSD e o CDS — quais Nanni Moretti no filme “Abril” — baralham as mãos e imploram: «diga qualquer coisa de direita, professor!»
Está tudo à espera.

13/Novembro
Afinal, em vez de um, foram três os “papéis” assinados entre o PS e o Bloco, o PCP e o PEV, numa cerimónia à porta fechada.
Neles, há muitas coisas boas. A melhor de todas é o abandono da ideia de Centeno de reduzir a TSU que ia causar um rombo estúpido na segurança social, como foi aqui explicado antes das eleições. Contudo, em nenhum daqueles “papéis” se encontra uma ideia de projecto, de futuro.
Neles, só há um objectivo: o regresso ao Portugal anterior à bancarrota de 2011. Ora, isso é impossível. E indesejável.
Neles, os partidos de esquerda nada dizem sobre a “Europa” e as nossas obrigações orçamentais — devem julgar que podem evitar o pingamento do nariz nos dias frios só por não falarem em “constipação”.
Quanto tempo esta construção em esferovite de António Costa vai resistir aos abanões cruzados do comité central e do eurogrupo?

O professor tem a sorte de não haver à esquerda nenhum candidato forte, mas, depois desta semana, e vou usar uma expressão à Marcelo-comentador, a sua eleição já não é "trigo-limpo-farinha-Amparo".

20/Novembro
Na economia o mesmo: as grandes corporações estão cada vez mais sujeitas a desastres reputacionais ou tecnológicos — vejam-se os casos da VW ou da Kodak. E, acossadas, elas precisam de adoptar estratégias comerciais de nicho para darem resposta aos pequenos.

Temos um governo em gestão há 47 dias e o país está a funcionar. A Bélgica teve um 541 dias e tudo correu na perfeição. O impasse só acabou quando a Standard & Poor's decidiu baixar a notação da dívida belga.
Os políticos, coitados, dividem-se em dois grupos: os que sabem que agora podem cada vez menos e os que não sabem. Os primeiros fingem que podem, os segundos, à moda de Varoufakis, são um perigo.

27/Novembro
Quem é que podia adivinhar, em 4 de Outubro, que uma derrota nada poucochinha de António Costa ia pô-lo a primeiro-ministro?

11/Dez
Do obreirismo das últimas décadas temos em Viseu arquitectura muito má como o Pavilhão Multiusos, de Manuel Salgado, arquitectura mediana como o Mercado 2 de Maio, de Siza Vieira, e arquitectura excelente, sendo a melhor de todas o Forum Viseu, do catalão Joan Busquets; a intervenção de Souto Moura no Museu Grão Vasco é também muito boa.


18/Dezembro
Como se sabe, quando o governo é fraco, os lóbis fazem um festim. E isso já se vê: cheios de pressa, os homeopatas do bloco esganiçam-se no parlamento e os sindicalistas do PCP convocam greves; já os banqueiros, mulas velhas, fazem as coisas com discrição e eficácia. Enquanto a “Europa” fechar os olhos, a todos o governo atenderá cheio de bondade.

Passagem de ano em Viseu - o DJ é bom

Fotografia Olho de Gato

Nirvana

Fotografia daqui


not much chance,
completely cut loose from
purpose,
he was a young man
riding a bus
through North Carolina
on the wat to somewhere
and it began to snow
and the bus stopped
at a little cafe
in the hills
and the passengers
entered.
he sat at the counter
with the others,
he ordered and the
food arived.
the meal was
particularly
good
and the
coffee.
the waitress was
unlike the women
he had
known.
she was unaffected,
there was a natural
humor which came
from her.
the fry cook said
crazy things.
the dishwasher.
in back,
laughed, a good
clean
pleasant
laugh.
the young man watched
the snow through the
windows.
he wanted to stay
in that cafe
forever.
the curious feeling
swam through him
that everything
was
beautiful
there,
that it would always
stay beautiful
there.
then the bus driver
told the passengers
that it was time
to board.
the young man
thought, I'll just sit
here, I'll just stay
here.
but then
he rose and followed
the others into the
bus.
he found his seat
and looked at the cafe
through the bus
window.
then the bus moved
off, down a curve,
downward, out of
the hills.
the young man
looked straight
foreward.
he heard the other
passengers
speaking
of other things,
or they were
reading
or
attempting to
sleep.
they had not
noticed
the
magic.
the young man
put his head to
one side,
closed his
eyes,
pretended to
sleep.
there was nothing
else to do-
just to listen to the
sound of the
engine,
the sound of the
tires
in the
snow.
Charles Bukowski

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

a faca não corta o fogo

Fotografia de Albert Watson



a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca.
que língua,
que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita
e la poésie, c'est quand le quotidien devient extraordinaire, e que
música
que despropósito, que língua língua,
disse Maurice Lefèvre, e como rebenta na boca!
queria-a toda
Herberto Helder

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Rapaz a tirar o espinho do pé — de Fidel Évora


Avenida Capitão Silva Pereira — Viseu
Fotografia Olho de Gato




Avenida Capitão Silva Pereira — Viseu
Fotografia Olho de Gato





Avenida Capitão Silva Pereira
Gif Olho de Gato

You are welcome to Elsinore

Fotografia de Erwin Blummenfeld



Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte         violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas         portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny






segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Vouzela — Natal'2015

Fotografia Olho de Gato




Fotografia Olho de Gato



Fotografia Olho de Gato



Fotografia Olho de Gato

Pede o desejo, Dama, que vos veja

Fotografia de André Kertèsz



Pede o desejo, Dama, que vos veja:
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,
Que não queira perpétuo o seu estado.
Não quer logo o desejo o desejado,
Só por que nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana:
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,

Assim meu pensamento, pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre e humana,
Foi, Senhora, pedir esta baixeza.
Luís Vaz de Camões

domingo, 27 de dezembro de 2015

Uma história

Fotografia de Angèle Etoundi Essamba


Fui rendido por um jovem negro.
Eu só tinha dez reais então
fomos ao banco tirar duzentos
olhando um para o pé do outro.
Eu era assistente de electricista.
E agora, vai assaltar para sempre?
Só por um tempo, ajudar minha avó,
fazer curso de electricista.
Estávamos chegando perto do banco.
Qual é seu nome?
Manuel.
Ó pá! (rimos) Manuel, pago um curso
desses pra você, que tal?
Então paguei o curso de dois anos
e ficamos em contacto.
Sua avó morreu. Ele se formou
e se mudou para um subúrbio mais
calmo, casou com uma negra linda
chamada Irene que trabalha
em telecomunicações, fui ao casamento.
Ela enchia o rosto de maquiagem
como quem mergulha em adjectivos.
Manuel e Irene tiveram dois filhos
e sou padrinho de ambos,
o menino é Sílvio.
Manuel comprou um carro,
na avenida Brasil foi assaltado,
reagiu, morreu.
Dei ajuda financeira para Irene.
Eu e Irene chorávamos pelo Manuel
transando loucamente.
Sylvio Fraga












2046 — o eterno problema dos "timings"

Diz o editor deste vídeo:

"No sirve de nada encontrar a la persona indicada si el momento no es el adecuado"

"El amor es una cuestión de tiempo".





Edição de cenas de 2046, obra-prima com argumento e realização de Wong Kar-wai.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Boo, Forever

Fotografia de Jeanloup Sieff


Spinning like a ghost
on the bottom of a
top,
I'm haunted by all
the space that I
will live without
you.
Richard Brautigan


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Se ao menos nevasse

Fotografia Olho de Gato


Nesse tempo chegávamos ao natal
isto é um modo de dizer por carreiros de cabras
num labirinto de curvas e obras no pavimento que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e de outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê dava-se como exemplo a dinamarca.

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonhos fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam posto e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo.

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus se tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços.

A verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão dos pinheirinhos de plástico com
o logótipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será tão reciclado que
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não fodem nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo.

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã.
José Carlos Barros




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Noite de Natal (#3)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


No Natal de 2009, contou-se aqui o conflito interior de um pai perante a emigração da filha:

(…) «Merda de país! Forma doutores para os pôr nas caixas dos supermercados…»

Rua fora, ao fundo, viu a praça, o Rossio, as casinhas do Rossio. Estava lindo o Rossio, de presépio e de charrete, luzes de Natal a pingarem das tílias, táxis à espera, brasileiros ao telemóvel, ucranianos de camisa aberta, africanos de gorro na cabeça.

Não lhe passou a neura. Em cada uma daquelas caras, em cada um daqueles estrangeiros, em cada um daqueles olhos tristes, ele via a sua filha, sozinha, num Rossio qualquer de Sydney, do outro lado do mundo. (...)

*****

Três anos depois, na noite de Natal de 2012:

(…) «Pouco frio. Já não é só a política avariada, aqui o inverno avariou também... Passei há bocado no Rossio, nem um “craniano”, nem um brasileiro, até os imigrantes nos emigraram...»

«É triste... aqui as coisas estão bem, em Janeiro vou ser promovida.»

«Filha, ando há uns tempos para te dizer uma coisa...»

«Então? Que se passa?»

«Sabes, eu fui despedido... há uns meses... não te disse porque não te queria preocupar... mas já corri tudo... não consigo trabalho... vê lá se me arranjas qualquer coisa aí na Austrália...»



*****

Fotografia Olho de Gato
Passaram mais três anos — noite de Natal deste ano:

«Pai, é tão bom passarmos cá o Natal...»

«Não há nada que chegue à consoada na nossa casa...»

«Já foi ao Rossio?»

«Passei lá hoje à tarde, está lá uma gaiola grande, mas sem pássaros...»

«De dia não tem graça, de noite fica uma bola vermelha gira, já vi fotografias... Não gostou destes anos na Austrália, pois não?»

«Gostei, querida filha. Tu casaste e tens lá uma vida boa. Eu fiz bom dinheiro lá nas obras. Até já falo inglês.»

«Sim, mas não quer voltar connosco para Sydney...»

«Esta é a minha cidade. E a minha cidade tem muita casa velha no centro a precisar de obras...»

Not to touch the earth

Fotografia de Isa Leshko



Not to touch the earth
Not to see the sun
Nothing left to do, but
Run, run, run
Let's run
Let's run

House upon the hill
Moon is lying still
Shadows of the trees
Witnessing the wild breeze
C'mon baby run with me
Let's run

Run with me
Run with me
Run with me
Let's run

The mansion is warm, at the top of the hill
Rich are the rooms and the comforts there
Red are the arms of luxuriant chairs
And you won't know a thing till you get inside

Dead president's corpse in the driver's car
The engine runs on glue and tar
Come on along, not goin' very far
To the East to meet the Czar

Run with me
Run with me
Run with me
Let's run

Whoa!

Some outlaws lived by the side of a lake
The minister's daughter's in love with the snake
Who lives in a well by the side of the road
Wake up, girl, we're almost home

Ya, c'mon!

We should see the gates by mornin'
We should be inside the evenin'

Sun, sun, sun
Burn, burn, burn
Soon, soon, soon
Moon, moon, moon
I will get you
Soon!
Soon!
Soon!

I am the Lizard King
I can do anything
Jim Morrison




Rodado em 16 e 17 de Março de 1968 e lançado em Maio desse ano

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mensagem natalícia da presidente do Santander à classe média contribuinte portuguesa*


* Classe média contribuinte, já que os ricos, em Portugal, não pagam impostos, logo não pagam resgastes a bancos

CCV *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 23 de Dezembro de 2005



1. Em 16 de Dezembro de 1955, foi feita a primeira sessão do Cine Clube de Viseu (CCV), com a projecção do filme “Passaporte para o Paraíso”.


Meio século depois, em 16.12.2005, no Teatro Viriato, foi a vez do filme de F. W. Murnau, “Aurora”.

“O mais belo filme do mundo”, disse, de “Aurora”, François Truffaut. A projecção foi acompanhada por um concerto da Orquestra Láudano, com uma partitura excelente, feita para este evento, pelo compositor Luís Pedro Madeira.

O ministro Augusto Santos Silva, que esteve presente, lembrou um verso da Ilíada, que fala do amarelo açafrão da aurora. Eu lembrei-me de Jim Morrison em “Uma Oração Americana” a cantar: 
“Eu digo-vos que nenhuma recompensa eterna nos perdoará agora por desperdiçarmos a aurora.”

Aurora, hora mágica, hora em que o amor emerge da água, renascido.

Foi linda a festa dos 50 anos do Cine Clube de Viseu!

2. Nesta campanha eleitoral, Mário Soares tem corrido os riscos todos. Ele carrega aos ombros um PS aburguesado, já em perca no contacto e na compreensão do país, como se viu nas autárquicas de Outubro.

Mário Soares é um velho leão combativo e sábio. Só Soares tem feito a pedagogia dos poderes presidenciais e da democracia, explicando que um presidente não é um primeiro-ministro. Só Mário Soares pode travar Cavaco Silva.

Este tem cavalgado o populismo fácil do “nojo da política e dos partidos”. Cavaco varreu o PSD e o CDS para debaixo do tapete. Sem estados de alma, Cavaco vai querer sobrepor a sua “legitimidade presidencial” a qualquer outra.

Este eanismo serôdio, inscrito no código genético da candidatura de Cavaco, pode vir a ser uma má notícia para a direita portuguesa, especialmente para o PSD de Marques Mendes. É preciso lembrar o que Cavaco fez a Fernando Nogueira, em 1995?

Mãos imaginantes

Fotografia de George Platt Lynes




Com o seu espanto
Vêm as coisas às mãos imaginantes
Manuel Gusmão


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Jogo

Daqui



Abro a caixa do inverno. Tiro os ventos,
as rajadas da chuva, os bancos de neve de onde
fugiram todos os pássaros. Desenrolo à minha
frente os pântanos do inverno, Ando à volta
deles para desentorpecer as pernas; sacudo
o frio das mãos, limpo a chuva que se me colou
aos cabelos. Depois volto a lançar os dados
— e avanço até à primavera.
Nuno Júdice

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Festas XXL

Rua do Comércio, Viseu, 21/12/2015
Fotografia Olho de Gato
Este modesto estabelecimento deseja a todos os seus clientes e amigos umas festas XXL, quer em quantidade quer em qualidade.

ideocabograma

Fotografia de Francisco Mata Rosas

pound attention !
joyce a minute !
finnegans wait !
don't go beckett !
anoholzwege :
i'm cummings !


mallaimé
...
Haroldo de Campos

domingo, 20 de dezembro de 2015

Boas Festas! — por JB

Caro Sr. Gato:

Servem estas curtas linhas para lhe desejar um BOM NATAL.
Servem estas curtas linhas para lhe agradecer o espaço de liberdade e cultura que tem produzido, diariamente, para esta cidade e para o público.

Cito, Fábio Monteiro, vencedor do prémio Gazeta Revelação 2014:
"É imperativo ter a coragem de dizer não. Essa é a minha única esperança. Porque há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Os que resistem, os que dizem não, os que estão aqui presentes, esses são os jornalistas."
O Sr Gato é “primo” de jornalista (há muito que colabora com a imprensa local), eu sou um cidadão banal que apenas tem uma certeza: em democracia há sempre alternativas!

Não existem assuntos perigosos! Perigoso é não termos acesso à informação. Perigoso é não conhecermos o que se passa à nossa volta. Na verdade, o ano termina com a “má notícia” do fim da PAF...E agora o que vai ser de nós...?

Fotografia de JB
E a foto ilustra precisamente esse tema tão intenso dos últimos meses: direita ou esquerda, eis a questão? Que caminho seguir? Que futuro construir?

Um FUTURO e que se inscreva na tradição humanista das forças democráticas de esquerda, onde o respeito escrupuloso pelos Direitos Humanos e pela liberdade dos povos, seja e continue a ser, o motor ideológico dessa causa comum.

Felicidades e um bom Ano Novo 2016!