segunda-feira, 30 de novembro de 2015

não some, que eu lhe procuro

Marilyn Monroe
Selecção Bert Stern (1962)



não some, que eu lhe procuro, e lhe boto
faca à garganta, ou lhe boto
na cabeleira tanta tanto fogo que você vira incêndio
em que se não tem mão, puta,
eu sei mas não me importa, quero é te apanhar
em uma braçada como de espuma,
mas se some eu lhe dano, essa sim, a puta de sua vida,
alta criatura chegada na terra muda,
em todo lado,
o dia todo,
a noite toda,
como se vê que uma árvore tem tanta folha luzindo
em toda parte dela e do vento e do tempo
e de minha ideia,
não some não, que eu desmundo
cada sítio do mundo onde
você estava ou está ou há-de estar, e comunico só do toque
que lhe ponho num mamilo,
no umbigo,
no clitóris,
na unha mindinha do pé esquerdo,
só porque tu estremece dos estudos de meus dedos exultantes,



não some nunca, fica morrendo de meu sopro,
ou dá luz como folha contada uma por cima de outra
que é isso: puta?
pequena se for às raízes latinas,
mas tudo cresceu e tamanho, grão de cobre
esparzido pelas capitais do corpo: púbis, cabeça
porque você é tão cerrada em sua vida própria,
trigo na noite,
excessiva beleza terrestre bruxuleando um pouco adentro,
que besteira de lhe chamar de puta,
de pequena
ou mesmo se lhe chame de grande puta,
se der o fora
ai dolor!
se sabedes novas da minha amiga, socorro de minha baixa biografia.
ai Deus e u é?
vou à procura, encontro, jogo
vitríolo em teu rosto, desfiguro, ou com o calor da mão te lavro
por você acima,
casa ardendo cheia de uma estrela incalculável,
ah minha boca lhe come externa de nenhuma roupa sobre que
carne soberba!
das plantas dos pés às pálpebras,
inteira,
e outra vez dos giolhos ou joelhos, como queira, à cona, e da cona,
divertimento linguístico lato sensu,
ao rés da penugem na testa rápida, amor,
não provoque, não some, que esse
beijo que agora começo é para não
acabar nunca,
não queira que eu vá crer em Deus e pedir milagre,
fique, tão puta quanto seja, com
seu jeito de água marítima,
balançando, menininha, barca bêbeda,
mas enredada em mim como o alimento luminoso.
ah se incendeie a gente um do outro, que morte
ou vida mais total
não há, não some não, amor
da puta de minha vida indistinta,
noite onde me envolvo para sempre,
que simples, contudo, com tudo isso, que é se cruzar com o mundo,
fique, fica junto, funda fêmea, que você já me está
fundada no sangue desde que outrora, e agora, e na hora da nossa
Herberto Helder

Cinzeiro

Matosinhos, Outubro'2011
Fotografia Olho de Gato

domingo, 29 de novembro de 2015

sábado, 28 de novembro de 2015

Abismos*

* Post #4000





Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos

Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos

É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando

E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos
David Mourão-Ferreira


Tempos de suspense — por JB*

* Comentário de JB ao texto de ontem "Zandinguices"


“Por acaso foi uma ideia minha” o título do “jornal” Correio da “Manha” de 26/11/15:
Costa chama cega e cigano para o Governo.

Mas se eu fosse o director do jornal o título deveria ser algo assim:
Título: TUDO INCLUÍDO.
Subtítulo: MONHÉ CHAMA AO GOVERNO UMA ESCARUMBA, UMA ZAROLHA E UM LEL.

Mas no dia seguinte (hoje) continuam os brandos costumes com Miguel Cadete, director-adjunto do Expresso, ao escrever sobre o novo Governo:
É multicultural! O líder, António Costa, tem ascendência goesa; a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, nasceu em Angola e é a primeira negra a ocupar um lugar num Governo de Portugal. Carlos Miguel, secretário de Estado das Autarquias, é filho de pai cigano: também ele o primeiro a chegar ao Governo de Portugal. Isto sucede mais de 41 anos depois do 25 de Abril. Se este Governo for realmente uma orquestra, pode ser de world-music. Mas não é, certamente a banda do eixo Cascais-Restelo.
Esqueceu-se da secretária de Estado cega... Ah, mas depois não encaixava na piada da orquestra da Mouraria e do eixo Cascais-Restelo.

Todos sabemos que este foi o passo mais fácil.
Todos sabemos que vai haver muito diálogo, conversa, debate, discussão, nos gabinetes da AR entre os quatro do entendimento.
Todos sabemos que, caso esta experiência não tenha sucesso (e as pressões internas e externas são diárias e serão diárias), nos esperam 40 anos de uma direita ressabiada e anti-tudo, rigorosamente tudo, o que cheire a Abril.
Todos sabemos que até dentro dos quatro não há unanimidade nesta solução; até no grupo parlamentar do PS está um “iluminado” chamado Ascenso Simões que já veio defender o fim da eleição universal do PR, que passaria a ser escolhido por um colégio eleitoral, qual Américo Tomáz…


Há divergências à esquerda? Claro, é por isso que são partidos díspares. Mas também existe convergência. E existem momentos históricos, como este, em que isso é o mais relevante. Mas pelo menos encerrou-se um ciclo de políticas equivocadas. Não tenho dúvidas que no novo ciclo haverá complicações, crises ou momentos de incompetência, mas depois de hoje o cenário político em Portugal não voltará a ser o mesmo. E isso é uma boa notícia. Cavaco acaba o reinado sem notoriedade e com a povo a desejar vê-lo pelas costas. É muito triste para uma pessoa que jurou cumprir a CONSTITUIÇÃO acabar assim!
Daqui
Todos sabemos que o último acto político relevante que ficou destinado a Cavaco, foi dar posse a um governo PS com apoio da esquerda parlamentar, curioso!
Curioso como tudo começou na diferença entre indicar e "indigitar"…!!!

Curioso como nessa personagem sempre faltou o ADN do contraditório; da síntese e antítese; do eu penso…; da herança grega que se aprendia nos liceus do pensamento filosófico pátrio.

E termino com uma citação do Prof. José Barata: Na minha terra, quando já não há mais para qualificar a falta de carácter, o narcisismo pimba, a convicção de que é chefe sem o ser, parolo, inculto, labrego, parvenue, pouco dotado, manholas, jogador vingativo e sei lá que mais... na minha terra essa pessoa é RELES.

Au revoir, HomusCavacum!

PS.: Os próximos tempos são de suspense? Claro, que sim.
Mas se este governo conseguir fazer uma mudança de paradigma, porque morreu o discurso das alternativas fechadas, e os defensores da TINA (There is no alternative) não voltarão a ter o ensejo de chorar lágrimas de crocodilo pela impossibilidade de convergências à esquerda para justificarem os seus indisfarçáveis apoios à direita.
Se Costa conseguir passar o primeiro ano (fim de Cavaco e início de…..?) teremos um governo de maioria parlamentar com a férrea vontade de se aguentar durante uma legislatura!

Violência urbana (#20)

Feira dos Santos'2015, Mangualde
Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Zandinguices*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Escrevo este texto no dia em que Cavaco Silva indigitou, perdão, no dia em que o PR decidiu “indicar” António Costa para primeiro-ministro.

Também se acabam de saber os nomes dos ministros socialistas. Sem surpresa, Maria Manuel Leitão Marques, a cabeça de lista de Viseu pelo PS, vai ser ministra “Simplex 2.0”, deixando vago o seu lugar de deputada. Vai entrar a quarta da lista.

Ora, este “descer” na lista de Viseu, que pode não ficar por aqui, vai ser um patético “cair-para-baixo”. O PS fez mal em só se ter preocupado com a qualidade dos três primeiros nomes.

Editada a partir de uma fotografia de
Enric Vives-Rubio (Público)
2. A “pergunta de um milhão de euros” agora é a seguinte: quanto tempo vai conseguir aguentar-se o governo de António Costa?

Mesmo sabendo-se que a direita vai eleger Marcelo, mesmo sabendo-se da “legitimidade” atribulada deste governo, mesmo assim Costa só deverá ter sérios problemas no outono de 2017, na discussão do orçamento para o ano seguinte.

É que o Bloco de Esquerda é pragmático como o Syriza — tanto vota primeiro na desausteridade como a seguir na austeridade; não quer é eleições já porque receia perder metade dos deputados.

É que o PCP, mesmo com a segurança dos seus fiéis 400 mil votos, cumpre a sua parte desde que seja revertida a privatização dos transportes de Lisboa e do Porto.

É que o BCE vai continuar a mesma política monetária e dar respaldo às emissões de dívida pública.

É que os portugueses são mais sensatos que os seus políticos. O pequeno ganho de poder de compra das famílias em 2016 vai para poupança e não para consumo; ele não vai comprometer as nossas contas externas nem inquietar os mercados.

3. Termino com um precautério, estas zandinguices que nunca nos façam esquecer o grande João Pinto: «prognósticos só no fim do jogo».

É difícil prever a dois meses quanto mais a dois anos. Quem é que podia adivinhar, em 4 de Outubro, que uma derrota nada poucochinha de António Costa ia pô-lo a primeiro-ministro?

O gesto claro



Fotografia de Martin Brogen


Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa.
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Nostalgia do presente

Fotografia de Andreas Feininger



Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.
Jorge Luis Borges


Violência urbana (#19)

Portimão, Junho'2015
Fotografia Olho de Gato

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Tempestade*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de Novembro de 2005

1. Em 19 de Agosto, escrevi aqui no Olho de Gato: “Era bom que chovesse na cabeça da Ministra da Educação a ver se ela refresca. Há risco elevado de tempestade nas nossas escolas, no próximo ano-lectivo.”

Não era difícil de prever. Aí está a tempestade. Na sexta-feira passada houve uma greve de professores com adesão recorde. Infelizmente, as coisas podem não ficar por aqui.

2. A Ministra da Educação tem tido boa imprensa, muito devido à inabilidade dos sindicalistas que falam uma língua estranha, o eduquês, que ninguém percebe.

Contudo, no dia da greve, as coisas não correram bem a Maria de Lurdes Rodrigues. Exactamente naquele dia, ela tirou de debaixo da manga um “estudo” a tentar provar que os professores são uns gazeteiros. Toda a gente percebeu a intenção e o tiro saiu pela culatra. Não foram os professores que ficaram mal no retrato.

3. Ainda no dia da greve, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues publicou um artigo no Público, intitulado “O Desafio da Educação” que merece ser lido com atenção, especialmente quando refere um “(…) défice de acompanhamento e supervisão de aulas e do respectivo controlo de qualidade do ensino.” É preciso ajudar os professores a serem melhores professores naquilo que importa: a aula na sala de aula. É na sala de aula que tudo se decide. O resto é burocracia, fogo de artifício e desperdício de recursos.

4. A Associação Nacional de Municípios Portugueses pode mandar fazer uma estátua a Maria de Lurdes Rodrigues. O Ministério da Educação vai pagar as refeições nas Escolas do 1º Ciclo; isto é, o governo vai assumir dores que deviam ser das câmaras. Estas vão poder continuar a gastar alegremente os impostos municipais em rotundas e Pavilhões Multiusos.

O extremo exercício do cansaço

Fotografia de Jonathan Leder

Li ontem a entrevista que o Herberto deu à Caras
onde, além de uns cremes de rejuvenescimento,
recomendava um produto para a queda de cabelo.
Fui comprá-lo esta tarde e sentei-me num café
a ler o folheto informativo – as contra-indicações
e possíveis efeitos secundários.

Experimenta-se tudo, desde a primária rima
e versos que trazemos da escola, até à parafernália
surrealista ou a perfuração de beleza que vem
incendiar a língua portuguesa, elevando e destruindo casas,
fazendo abrigos temporários para a saliva das horas
fundas e mais escuras onde nascemos e desaparecemos
sucessivamente, gravando com as unhas contra a parede
as memórias que criámos para os homens todos
que podíamos vir a ser.




Mas deixando-me agora de águas em que não tenho pé,
retomo o meu pequeno charco: minutos mais certos
e plausíveis, sem grande voz ou talento para cantar
aos ouvidos do futuro.

Já chove a sério lá fora, e nós aqui, noutro serão
demolhado, a comermos hambúrgueres
e a combatermos por um orgasmo
no intervalo do CSI Miami. (Que série tão
estúpida.) Espero que não leves a mal,
digamos que o romantismo no fim se reduz
a pouco mais que isto: uma flor degenerada de vez
em quando, a eventual partilha de leituras ou apenas
a rapidez com que atingimos o ponto de rebuçado
para nos desmancharmos nas margens
de um coração recidivo, vestígio animal
que só o tempo poderá domesticar.

Um dia ainda vou dar-te filhos, se é mesmo
isso o que tu queres – eu já estou por tudo. O mundo
ganha-nos todos os dias, infiltra-se no sangue
e nos espelhos da casa, cose-nos a sombra a prazos,
recados e listas de compras, estraga a nossa vontade
e dá-a a telenovelas e programas de rádio no caminho
para um trabalho que diz tudo sobre o que
não atingimos. Talvez mais tarde nos ataque o arrependimento
e lamentemos não termos perdido tudo ainda jovens,
com uma morte infantil numa brincadeira qualquer,
a dançar com algum sonho ou fugindo para muito longe
com outro alguém.
Diogo Vaz Pinto




terça-feira, 24 de novembro de 2015

António Costa vinha pela esquerda*

... e pela esquerda vai continuar

* Este post estava feito há duas semanas, desde isto, e à espera disto

Moral da história

Fotografia de Leon Levinstein


Deixamos passar o outono, o inverno,
a primavera, o verão,
e fazemos de conta que lhes sobrevivemos
como se tudo não passasse
de inofensiva e reversível
sucessão.

Passeamos de mãos dadas,
temos filhos e casamos,
pedimos a reforma,
partilhamos o gelado na praia
junto à rebentação,
apertamos o casaco na gola
quando as folhas se deitam,
pisamos papoilas em caminhos
de aldeias abandonadas,
olhamos a água no tanque
quando levamos o cão à rua
de madrugada,
e dizemos: é isto a vida, é isto
o real
(e assim nos enganamos)
como meninos
livres para brincar junto do poço
enquanto a mãe não está a olhar
ou fala ao telefone,
ou prepara o almoço.
Rui Lage


Directed by Jim Jarmusch
Based on footage from the film "Only Lovers Left Alive"

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Violência urbana (#18)

Feira dos Santos — Mangualde, 2011
Fotografia Olho de Gato




Feira dos Santos — Mangualde, 2015
Fotografia Olho de Gato


domingo, 22 de novembro de 2015

José de novo

Vagueira'2015
Fotografia Olho de Gato

"Mais de 400 pessoas" estiveram presentes no almoço de apoio a José Sócrates, diz o Público que a organização disse.

 Estiveram presentes "mais de 400 pessoas" e uns quantos jornalistas.


 Tanta gente presente, tanto jornalista, e ninguém perguntou ao homem quanto é pediu emprestado ao amigo e se, por acaso, já lhe cravava também umas coroas no tempo das casas na Venezuela e no tempo do "poço sem fundo da Parque Escolar".

A seguir ao sadismo de Eanes, o de Cavaco?

Já fiz aqui em Junho um balanço da presidência de Cavaco Silva num texto intitulado “Poder Moderador”. Para quem não quiser clicar no título para rever aquele texto repito alguns dos argumentos.

Cavaco Silva esteve muito bem na crise “irrevogável” de Julho de 2013: “fritou” Paulo Portas, impediu que o país se tornasse numa nova Grécia e ainda deu uma mão a Seguro. Este, coitado, não a soube ou não pôde aproveitar, se tivesse sabido era hoje primeiro-ministro.

Contudo, tendo estado bem naquela crise de há dois anos, tem que se fazer um balanço negativo dos dois mandatos de Cavaco Silva porque falhou nas duas principais funções da presidência da república:

(i) não foi a “válvula de escape” do regime, nem no primeiro mandato durante o socratismo, nem no segundo durante o passismo;

(ii) falhou no segundo mandato como factor de unidade nacional por se ter deixado cegar pelo ódio, depois das campanhas sujas do poeta Alegre e do madeirense Coelho.

Chegados aqui, e para não alongar muito este post, vamos agora ao caso que Cavaco tem entre mãos — a indigitação ou não do derrotado líder socialista para primeiro-ministro.

Cavaco está a arrastar os pés. Não tenho a certeza se ele se está a divertir com o caso. Ele divertiu-se quando lançou os discursos amassadores de vento de Sampaio da Nóvoa num 10 de Junho (para os mais esquecidos, Cavaco é o criador de Nóvoa), ele divertiu-se a "fritar" o antigo director de “O Independente” (Cavaco, como se sabe, não perdoa nunca).

Pode haver agora um pouco de diversão: a nossa situação não é tão grave como em 2013 em que estávamos com um terço do plano de resgate por fazer e não havia ainda a ajuda do “quantitative easing” do BCE para o financiamento do estado. Agora a emergência não é tão grande e o sr. Centeno, com a sua elástica folha de cálculo, não alevantará as golas a Dijsselbloem, nem acachecolará Lagarde, nem fará tremer os joelhos da Merkel, para desgosto da sra dona Catarina Martins, que se julga a nova dona-disto-tudo", e para infelicidade dos “jovens turcos” socialistas que já se sonham sentados em BMWs pretos do estado, para alegria do blogue “Ladrões de Bicicletas”.

Indo ao ponto: Cavaco foi um mau presidente da república mas já tivemos um pior que ele — Ramalho Eanes que se entretinha a derrubar governos e até fundou um partido aproveitando o descontentamento dos eleitores durante a nossa segunda bancarrota.


Fotografia daqui

Nos dez anos de presidência de Ramalho Eanes houve nove governos. Quando eles não caíam no parlamento, era Eanes que os deitava abaixo.

Recordo uma comunicação especialmente sádica de Ramalho Eanes em que ele se alongou, parágrafo após parágrafo, a listar os convenientes e os inconvenientes de manter ou não um determinado governo, não me lembro de qual, foram tantos e já passaram tantos anos...

Lembro-me que foi um discurso cubista, em que Eanes se atardou a descrever todas as perspectivas do problema: “se por um lado o senhor primeiro-ministro é bom, por outro lado o senhor primeiro-ministro é mau”. Isto longos e longos minutos, de forma que o povo e as elites que o ouviam, naquele longos minutos se perguntavam, “afinal, o governo cai ou não cai?”, e Eanes, sádico, hitchcockiano, lá prosseguia “se por um lado blá blá blá... branco, por outro lado blá blá blá... preto”, e o povo a mexer-se nas cadeiras e os jantares a arrefecerem. Até que por fim e na última frase do último parágrafo — o grande Eanes lá disse: “decidi dissolver a assembleia da república e convocar eleições antecipadas”.

Não sei se Cavaco se está a divertir, repito. Talvez não esteja, pelo menos não está tanto como em 2013. Para a próxima semana ele vai fazer uma comunicação ao país. Na altura, a direita terá mais razões para tremer do que a esquerda. Tudo o que Cavaco disser ou fizer tem potencial para ser tóxico para a direita e dar cimento à esquerda.

Cavaco não vai fazer um discurso cubista nem uma eanice tipo “por um lado... branco, por outro lado... preto”. Mas tem matéria entre mãos para ser sádico: basta-lhe descrever com algum detalhe as fragilidades e inconsistências dos “papéis” assinados pelas esquerdas, que são de facto uma vergonha — ficam-se por uma lista de medidas para aumentar a despesa e diminuir a receita e não têm nem uma única palavra sobre as nossas responsabilidades na “Europa”.

Sou nómada

Imagem Olho de Gato


Sou nómada e basta-me
Beber a água que vem da montanha
E olhar a mica do céu onde se reflectem
As mutações da Coisa — o pó
Que nela pousa. A teia do conhecimento
Está podre e não vou
Deitar-me nela. Escrevo porque sou um arco
Que vai acumulando alguns restos
Alguma dor algum vento perfumado
E subitamente dispara. Cinza. Palavras
Que não têm deuses nem brilho nem nada.
Casimiro de Brito



sábado, 21 de novembro de 2015

O saibro do Mercado 2 de Maio de Viseu*

* O texto que se segue foi publicado no Jornal do Centro há exactamente 12 anos, em 21 de Novembro de 2003



Manda quem pode

1. No domingo passado, foi inaugurado o Estádio do Dragão. Nessa noite, Luís de Matos derrotou o Barcelona por dois a zero. Custa-me, mas a verdade tem que ser dita: este estádio é mais bonito que o Alvalade XXI, do meu Sporting. O arquitecto Manuel Salgado desenhou um estádio magnífico para o Futebol Clube do Porto. Linhas puras, equilíbrio, harmonia.

Manuel Salgado desenhou também o Multiusos de Viseu, mas neste caso não esteve na sua melhor forma. O Pavilhão Multiusos de Viseu é um volume sem graça e paquidérmico. Para tornar as coisas piores, a esquina poente do edifício está amolgada pelo que há meses que o Pavilhão Multiusos parece um contentor esbarrado.

2. Foi pavimentada a Praça das Magnólias, no Antigo Mercado 2 de Maio. Onde havia saibro há, agora, paralelos de granito. 


Fotografia Olho de Gato
Tanto devem ter chagado a cabeça de Siza Vieira que o homem cedeu. Foi pena. O problema deste espaço do nosso Centro Histórico, como repetidamente tenho afirmado, não é de hardware, é de software. Estar lá saibro, ou estarem lá paralelos, no ponto de vista de apelo às pessoas, é igual.

Pavimentar a Praça das Magnólias foi um triplo erro: 
(i) um erro técnico porque aumentou a aridez do espaço ao perder-se a plasticidade e o comportamento térmico do saibro; 
(ii) um erro estético porque acentuou a artificialidade daquele polígono; 
(iii) um erro financeiro já que isentou o anterior empreiteiro das suas responsabilidades contratuais: se o saibro que lá estava era uma porcaria devia ter sido lá posto um em condições.

O facto das pessoas não irem ao Antigo Mercado 2 de Maio não é, nem nunca foi, da responsabilidade de Siza Vieira mas sim da Câmara. A Câmara fez aquela obra sem nenhuma ideia comercial e de lazer para aquele espaço. Pensou em pedras, não pensou em pessoas. Foi como comprar um computador multimedia de última geração e design arrojado (o hardware) e durante dois anos, durante mais de setecentos dias, não ter conseguido abrir sequer um ficheiro (o tal software). Incompetências.

Agora, depois desta pavimentação a granito da Praça das Magnólias, as coisas ficaram piores. Temos agora um espaço menos equilibrado e mais árido. E sem gente na mesma.

Assim se desbarata dinheiro. A ordem é rica e os frades são poucos.

3. O Artº 21º da Proposta de Lei do Orçamento para 2004 prevê uma nova taxa para os municípios: taxa de “instalação de antenas parabólicas”. Se não houver vergonha, temos mais um pretexto para as câmaras irem ao nosso bolso. Para já, conforme informação recolhida em http://jumento.blogdrive.com, ainda não está previsto o regresso das licenças dos isqueiros e respectivos fiscais. Pelo andar da carruagem, lá chegaremos. Talvez para o ano.

4. Este ano, José Maria Aznar veio a Portugal duas vezes. A primeira foi em 16 de Março, na Cimeira dos Açores, a Cimeira que deu origem à Guerra do Iraque. Durão Barroso, Bush, Blair e Aznar fizeram aquele encontro pateta e patético, em que aldrabaram o mundo com as armas de destruição maciça no Iraque. Que não há maneira de aparecerem, as desgramadas.

Já este mês, no dia 8, Aznar esteve outra vez em Portugal, na Figueira da Foz, na Cimeira Ibérica. Aí foram decididas as linhas de TGV. Vejamos um extracto do Comunicado do Governo Espanhol sobre esta Cimeira: “En el año 2010 se pondrá en marcha la conexión Madrid-Lisboa, que atravesará Badajoz, algo que reivindicó el Ejecutivo español. En 2009 estará en funcionamiento la línea que unirá Vigo y Oporto, mientras que para 2015 se cree que será posible que esté en marcha la conexión Salamanca-Aveiro.”

Percebe-se que o TGV vai por Badajoz porque pode quem manda – e quem manda é o senhor Aznar; percebe-se também que a ligação a Vigo é prioritária porque manda quem pode – e quem pode é o senhor Aznar; e percebe-se ainda que vai acontecer à linha Aveiro-Salamanca o mesmo que aconteceu às armas de destruição maciça do Iraque: não vão aparecer nem os carris.

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Notas:
Concurso de Ideias para o Mercado 2 de Maio (detalhes aqui)
Consulta pública a decorrer (pode e deve dar o seu contributo aqui)

Textos sobre este assunto neste blogue:
"Os arquitectos super-estrelas", texto de 8/Maio/2002
"Os arquitectos super-estrelas #2texto de 30/Outubro/2015

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O fim do poder*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Nas guerras assimétricas ocorridas entre 1800 e 1849, o lado que tinha menos homens e menos armas só atingiu os seus objectivos em 12% das vezes; já entre 1950 e 1999 a taxa de sucesso do lado mais fraco subiu para 55%. Cada vez mais são os Davids que derrotam os Golias. Esta “lei do mais pequeno” confirmou-se, na sua crueza terrível, nos acontecimentos de Paris da última sexta-feira.

Este processo de erosão do poder e de perda da vantagem da grande escala não se verifica só no universo militar, mas em todos os campos, desde a religião, à economia ou à política.

O “mercado das almas” está a ser ganho por pequenas igrejas que vão tirando fiéis aos milhões às grandes religiões. Mesmo o Islão está a fragmentar-se em milhares de interpretações antagónicas do Corão, feitas em madrassas e plataformas electrónicas.

Na economia o mesmo: as grandes corporações estão cada vez mais sujeitas a desastres reputacionais ou tecnológicos — vejam-se os casos da VW ou da Kodak. E, acossadas, elas precisam de adoptar estratégias comerciais de nicho para darem resposta aos pequenos.

Na política, a vantagem da dimensão também está em perda. Os micropoderes adiam, vetam, sabotam, ou torneiam a decisão política dos grandes. O sr. Costa, para manter o seu emprego, teve de ceder na TSU a Catarina e teve que devolver as greves nos transportes ao sr. Arménio da CGTP.

Todas estas ideias são desenvolvidas em “O Fim do Poder”, um livro de Moisés Naím. Quem o leu não liga nada ao especioso arrastar de pés que Cavaco está a fazer.

Temos um governo em gestão há 47 dias e o país está a funcionar. A Bélgica teve um 541 dias e tudo correu na perfeição. O impasse só acabou quando a Standard & Poor's decidiu baixar a notação da dívida belga.

Os políticos, coitados, dividem-se em dois grupos: os que sabem que agora podem cada vez menos e os que não sabem. Os primeiros fingem que podem, os segundos, à moda de Varoufakis, são um perigo.

Violência urbana (#17)

Rua da Paz, Viseu
Fotografia Olho de Gato

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Orvalho




Não esqueças nunca
O gosto solitário
Do orvalho
Matsuo Basho




A manhã dá aos gatos
sapatinhos
de orvalho
Hans Jürgen Heise


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

"And Now For Something Completely Different" (#115)


Primeiras moradas

Gif daqui



dá-me a alegria, a sem razão nenhuma que se veja,
dou-te alegria, a sem caminhos na clareira,
a de nenhum sinal em terra nua.
dá-me a tristeza, a toda certa sem fronteiras.
dou-te tristeza, a cinza em cinza devastada,
a oiro no silêncio debruada.

por águas me verti, por rios, sementes.
de terra me vestes, a sombra do dia,
o sítio das flechas no corpo, na árvore.
no sossego das chuvas me reparto.
ficas no escuro, nos ramos nos frutos,
embrulho novelo a desajeito.

a porta quase aberta diz que me recebes,
quase fechada diz que me visitas.
assim te visite, assim te receba.
nenhuma palavra que o gesto não faça.
de águas me vista, em terra me vertas.
no corpo das flechas o sítio, nos rios.
António Franco Alexandre

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Um rio de luzes

Fotografia Olho de Gato — Outubro'2011


Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca

No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta

Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
Ana Hatherly






domingo, 15 de novembro de 2015

Neurolinguística



Quando ele me disse
oh linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
Adélia Prado


sábado, 14 de novembro de 2015

One art



The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elisabeth Bishop


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Esferovite *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Este é o Olho de Gato número 555 e sai a uma sexta-feira, dia treze. Se fosse o #666, o bíblico “número da besta”, o azar era certo. Assim, pode ser que se safe sem azares de maior.


Daqui
Tinha guardado como tema para esta semana o “papel” assinado pelas esquerdas. Afinal, em vez de um, foram três os “papéis” assinados entre o PS e o Bloco, o PCP e o PEV, numa cerimónia à porta fechada.

Neles, há muitas coisas boas. A melhor de todas é o abandono da ideia de Centeno de reduzir a TSU que ia causar um rombo estúpido na segurança social, como foi aqui explicado antes das eleições. Contudo, em nenhum daqueles “papéis” se encontra uma ideia de projecto, de futuro.

Neles, só há um objectivo: o regresso ao Portugal anterior à bancarrota de 2011. Ora, isso é impossível. E indesejável.

Neles, os partidos de esquerda nada dizem sobre a “Europa” e as nossas obrigações orçamentais — devem julgar que podem evitar o pingamento do nariz nos dias frios só por não falarem em “constipação”.

Quanto tempo esta construção em esferovite de António Costa vai resistir aos abanões cruzados do comité central e do eurogrupo?

2. Defenestrada do poder e ainda aturdida, o que vai fazer a direita?

Em primeiro lugar, não vai aceitar a legitimidade do primeiro-ministro António Costa. É sabido: governo com legitimidade aceite por vencedores e perdedores só depois de novas legislativas.

Em segundo lugar, a direita vai reaprender a usar a “rua”, de que anda ausente desde a campanha presidencial de Freitas do Amaral há 30 anos, quando o país também esteve dividido ao meio como está agora.

Ou o professor Marcelo Rebelo de Sousa incorpora na sua candidatura esta energia revoltada ou aparece-lhe alguém no seu campo a obrigá-lo a uma segunda volta. O professor tem a sorte de não haver à esquerda nenhum candidato forte, mas, depois desta semana, e vou usar uma expressão à Marcelo-comentador, a sua eleição já não é “trigo-limpo-farinha-Amparo”.

No ciclo eterno das mudáveis coisas

Fotografia de Ikkö Narahara



No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me fiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Ricardo Reis

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Fontelo, a agonia continua — por JB*

* Fotografias de JB, Novembro de 2015





Vida de lagartija

Fotografia de Gérard Musy



Yo quise ser animal casero
con vistas a la playa
pero soy lagartija y habito entre las grietas
de una roca volcánica en medio del desierto.

A veces alguien corta el final de mi cola
y allí quedan mis sueños moviéndose nerviosos
creyendo que están vivos.

Yo soy como las horas que pierden los domingos
acaricio el descanso metido entre las sábanas
y espero a que amanezcan los días de diario.

La vida es un enigma del que sólo descifro
un trozo de esperanza
lo miro de reojo y nunca me detengo
porque temo al acecho de los tirachinas
o la sombra de un gato.
Ana Merino

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Soares*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Novembro de 2005


Mário Soares,
 pintado por Júlio Pomar
1. Não tivemos ainda outro Presidente da República que chegasse aos calcanhares de Mário Soares. Ele nunca teve medo de tomar posição sobre os problemas nem nunca usou o tabu ou o silêncio para criar a imagem de “salvador da Pátria”.

Mário Soares podia estar em último nas sondagens que o apoiava na mesma. É um apoio sem reservas. Não gosto de cálculos tipo: “ele é o melhor colocado para…” Soares é homem de coragem inteira. Para mim, ele é o melhor. Ponto final.

2. A Lei de Limitação de Mandatos aprovada este ano só vai ter efeitos práticos em 2013 e aplica-se só a Presidentes da Câmara e Presidentes da Junta. Eu acho isto insuficiente. O princípio da renovação dos cargos políticos devia ser universal.

Os deputados da Assembleia da República deviam ter começado pela própria casa e aplicado a limitação de mandatos a si próprios. Não conheço instituição da nossa democracia que tenha mais dinossauros que o parlamento.

Se a limitação de mandatos dos deputados tivesse sido incluída logo na Constituição de 1976, Manuel Alegre não teria passado 30 anos enclausurado no parlamento. O resultado teria sido bom. Manuel Alegre teria agora uma biografia política mais interessante para apresentar.

3. Eduardo Prado Coelho, membro da Comissão Política de Manuel Alegre, escreveu no Público de 28 de Outubro que “(…) a candidatura [de Mário Soares] entusiasma alguns bonzos do PS (…)”.

É claro que Manuel Alegre é apoiado por gente respeitável. Embora nem toda, como se vê.

4. Portugal, 2008: Cavaco Silva, Presidente; Manuela Ferreira Leite, Primeira-ministra. Pode acontecer. Basta só a esquerda continuar a dar tiros nos pés.

Los sofistas

Fotografia de Erwin Blumenfeld



La sinfónica nada:
ensayos leves sobre la idea del placer.
Datos del texto en las estrías de la arena,
la "mano de dios" apoyada
sobre este futuro.
Poetas, alienados, dictadores,
antiguos amigos con sus botellas,
jamás dejan de reír su pena
en ocasión de la penumbra.
Los sofistas sabían
que la verdad era una cuestión de poder,
no de filosofía.
Cristian Aliaga


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Os caminhos da noite

Fotografia de Pavel Banka



Atravessa os caminhos da noite
e vem.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
Atravessa os campos da noite
e vem.
Luisa Dacosta


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

É tão suave a fuga deste dia

Fotografia de Yoshishiro Tatsuki



É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece, que vivemos.
Sem dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora,

Em paga nobre desta fé que temos
Na exilada verdade dos seus corpos
Nos dão o alto prémio
De nos deixarem ser

Convivas lúcidos da sua calma,
Herdeiros um momento do seu jeito
De viver toda a vida
Dentro dum só momento,

Dum só momento, Lídia, em que afastados
Das terrenas angústias recebemos
Olímpicas delícias
Dentro das nossas almas.

E um só momento nos sentimos deuses
Imortais pela calma que vestimos
E a altiva indiferença
Às coisas passageiras

Como quem guarda a c'roa da vitória
Estes fanados louros de um só dia
Guardemos para termos,
No futuro enrugado,

Perene à nossa vista a certa prova
De que um momento os deuses nos amaram
E nos deram uma hora
Não nossa, mas do Olimpo.
Ricardo Reis