sábado, 31 de outubro de 2015

Lost weekend

Fotografia de Philippe Halsman



Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.
Rui Pires Cabral

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os arquitectos super-estrelas #2*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Este texto é um número dois. O primeiro foi publicado neste jornal em 2002. Ambos tratam do Mercado 2 de Maio, a obra mal-amada de Siza Vieira em Viseu.


Fotografia Olho de Gato

Nestes treze anos, Siza Vieira fez lá apenas duas alterações: substituiu o saibro inicial da Praça das Magnólias por um granito horroroso e protegeu os “regos” de água, umas armadilhas sádicas onde as pessoas molhavam os pés e se aleijavam.

Deva-se dizer que as coisas não correram bem naquele espaço porque nunca houve para lá um bom projecto comercial e de animação. Aquele “hardware” funciona mal e tem uma estética baça e banal, mas foi, acima de tudo, o “software” que falhou ali.

No texto de 2002 critiquei a mania dos autarcas em se armarem em mecenas com os dinheiros públicos e fazerem convites sem nenhuma espécie de escrutínio a arquitectos de renome. Recordo um parágrafo dessa crónica: “perdeu-se o hábito de lançar concursos de ideias, abertos a todos os arquitectos, nacionais e internacionais, e é pena. É nessa fase que a participação pública democrática, dos especialistas e dos cidadãos, faz o máximo sentido e não quando tudo o que é relevante já está decidido.”

Chegados aqui, importa cumprimentar António Almeida Henriques por ter lançado este ano um concurso de ideias para o Mercado 2 de Maio e pela consulta pública que está a decorrer.

Estive na apresentação dos três projectos premiados e gostei especialmente do primeiro classificado, da autoria de João Pedro Coelho Loureiro: (i) é abrasivo: mexe sem complexos nem reverências no instalado; (ii) é paradoxal: apesar da cobertura, não fecha, pelo contrário, deixa respirar a praça para a Rua Formosa e a Rua Chão do Mestre; (iii) é unificador: de duas áreas a cotas diferentes faz uma; (iv) é ousado: cria uma imagem visual forte.

Fica aqui este contributo. Era bom que houvesse uma boa participação dos viseenses neste debate. Depois, seguir-se-á a não-endossável deliberação e decisão política dos eleitos.

Se houvesse degraus na terra...

Macieira — Gustav Klimt


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Os arquitectos super-estrelas*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 8 de Maio de 2002, há treze anos e meio, e que vai ter o seu #2 amanhã no mesmo jornal


1. Na última Assembleia Municipal de Viseu, António Vicente, do PSD, mostrou preocupação sobre o Mercado 2 de Maio. João Paulo Rebelo, deputado municipal do PS, interrogou com oportunidade se “a montanha não teria parido um rato”.

Há duas questões a resolver naquele espaço: o comércio e a animação. E há uma outra resolvida: a obra da autoria de Siza Vieira.

As duas primeiras são indissolúveis: pôr gente lá dentro, dar vida ao Mercado 2 de Maio, passa pela qualidade dos projectos comerciais a instalar ali e pela qualidade dos projectos de animação. Há necessidade de competência, de técnica, de investimento, de criatividade e de perseverança.

Como é sabido, é bom começar as coisas com o pé direito. Este não começou. Vamos todos fingir que a abertura eleitoralista feita pelo PSD, em Dezembro, não existiu. Essa abertura precipitada contribuiu para os problemas que agora se vivem no Mercado 2 de Maio.

Até eu e a Candidatura do PS, que mais teremos sofrido com esse número eleitoralista, vamos fingir que esquecemos o “passo em falso”.

A questão de Siza Vieira e da qualidade do projecto arquitectónico também já não tem grande interesse. A coisa está lá, feita, com saibro e magnólias; ingratas magnólias chamei-lhes na última crónica. Estão lá as lojas para arrendar e as outras lojas já abertas, a necessitarem de outra dinâmica.

Não vale a pena a reacção do costume perante “o leite derramado”.
Ao trabalho de dar vida àquilo.

2. Mas regressemos ao princípio.

Um autarca, com uma obra destas entre mãos, precisa de fusíveis políticos, não vá ela – a obra – estalar-lhe nos dedos. E há uma solução que nunca falha: o autarca convida um arquitecto de prestígio. Quem resiste a um Siza, a um Souto, a um Salgado, a um Byrne?


Siza Vieira, Alcino Soutinho e Souto Moura
Fotografia daqui

O autarca ganha sempre em todos os tabuleiros. Não corre riscos políticos porque até a oposição se curva em reverência ao mestre. O autarca consegue um nome de peso para a Comissão de Honra da eleição seguinte. Se a coisa correr bem quem não verá, atrás das pedras belas da obra, o génio do autarca, esse Médicis contemporâneo? Se a coisa não correr tão bem, o nosso autarca tem sempre uma saída: atira os problemas para as costas larguíssimas do mestre. Está safo. Nunca falha…

3. Mas andemos mais para trás, para antes do princípio.
Esta forma de fazer as coisas instalou-se no país. Nunca houve tanto dinheiro nas autarquias como nos últimos seis anos. Havendo dinheiro há projectos de prestígio. Logo sai ajuste directo a arquitecto conhecido.

As grandes obras passaram a ser monopolizadas pelos arquitectos super-estrelas. São sempre os mesmos em todo o lado. Têm dezenas de obras em simultâneo. Os arquitectos mais novos não têm hipóteses de mostrarem o seu talento.

Isto está errado.

Uma obra tem dois momentos: a concepção e a execução. A concepção é muito importante, a cada dia de obra normalmente corresponderam antes dois dias de elaboração de projecto.
Quanto à execução não tem havido entorses: faz-se um Concurso, concorrem várias empresas, ganha uma. Há a concorrência, a fiscalização do Tribunal de Contas, etc.

Quanto à fase da concepção, mais importante ainda como ficou explicado, tudo é tratado no silêncio dos gabinetes.

Perdeu-se o hábito de lançar Concursos de Ideias, abertos a todos os arquitectos, nacionais e internacionais, e é pena. É nessa fase que a participação pública democrática, dos especialistas e dos cidadãos, faz o máximo sentido e não quando tudo o que é relevante já está decidido.

4. Se as barreiras comerciais aos produtos agrícolas do terceiro mundo fossem retiradas pelos países desenvolvidos, conforme mostra um estudo do Banco Mundial divulgado por Mike Moore, director-geral da Organização Mundial do Comércio, 320 milhões de pessoas seriam tiradas da pobreza até 2015.

Por exemplo, a Argentina, que está em colapso económico, faria mais 5 mil milhões de dólares por ano.

Mas esta medida de defesa de um comércio global mais justo provavelmente ofenderia o poderoso movimento antiglobalização sempre preocupado com o terceiro mundo.

Jardim do Éden

Fotografia de Lisette Model



Descobri que não existo realmente.
Sou apenas fruto da minha imaginação.
Toda a minha vida não é mais que um jogo imaginário.
O meu mundo, escrevi-o ao meu gosto.
Vivo num paraíso particular:
O meu Jardim do Éden.
Sim! Escrevi-o ao meu gosto,
Escrever é a única coisa que me prende,
A única coisa que me liberta,
Aqui, no mundo dos homens…
É a sensação mais lasciva e hipnótica que já vivi.
É arder no fogo da minha imaginação.
Queriam-me um cidadão bem comportado?
Queriam-me aparente, frívolo, domesticado?
Jamais serei rato da gaiola de testes de ninguém.
Renasço sempre que o meu cérebro
Explode como uma granada.
Não temo a insanidade.
A cada dia que passa a folha do calendário cai
Como as folhas das árvores no Outono,
E a cada novo dia que olho o calendário
Sei que posso estar a olhar para a data da minha morte.
Livrem-me da neblina cinzenta do quotidiano,
Da vidinha dos dias insípidos, secos, descolorados…
Na minha vida quero que tudo seja mítico,
Ou que tudo esteja morto.
O meu mundo envergonha o arco-íris,
A realidade é sépia como uma fotografia velha.
Nada é tão decepcionante como viver a realidade.
Basta de pensar nela.
Vou apagar a luz e abrir o portão...
Gonçalo Nuno Martins



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Pássaros*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Outubro de 2005


1. Duma varanda da minha casa observo um bando de aves a voltejar em torno do prédio. Olho para elas. Vão e vêm. Não param de voar.

A minha memória de filmes leva-me até Bodega Bay, a baía da Califórnia onde Alfred Hitchcok pôs os seus pássaros a atacarem Tippi Hedren e a furarem as cabines telefónicas com os bicos. Pássaros maus, de maldade má, pior que o vírus H5N1. “Birds”. “Pássaros”. Um dia destes, um programador de televisão sádico vai passar o filme do velho Hitch para assombrar, ainda mais, o nosso serão.


Olho para a passarada. Continua o seu esvoaçar pelo meu bairro fora. Serão migrantes? Terão vindo da Croácia? Da Roménia?
De hora a hora, as notícias sobre a gripe das aves aumentam o receio das pessoas e monopolizam a atenção do público. 

Veterinários e virologistas são as estrelas do momento. Até a festa de anos de casado do Dr. Cavaco acabou por não ter o impacto devido.

No país há mais inquietação que Tamiflu.

2. O Teatro Viriato pôs um objecto grande e misterioso no Claustro do Lar-Escola de Santo António. É uma caixa de madeira que está cheia de histórias para as nossas crianças inventarem. As escolas podem e devem marcar visita a esta “Caixa Para Guardar o Vazio”.


Imagem daqui
Fernanda Fragateiro, a responsável por este projecto, disse aqui, no Jornal do Centro: “Enchemos demasiado o espaço. É preciso deixarmos um património de vazio para os nossos filhos (…)”

É verdade: falta-nos “espaço vital”. Precisamos também de “vazio de som”. Não há silêncio em lado nenhum.


3. Os pássaros continuam às voltas no meu bairro. Não cantam nem chilreiam. Voam em silêncio. Ao menos eles.

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

Gif daqui



Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cântico dos cântaros

Fotografia de Lin Haring 



Voltando um pouco atrás
à costura das fotografias
àquelas escuridão pulmonar onde te vi
pela primeira vez onde eras
mais que certo quase cavalo
quase branco
a galope nos meus dentes.
Fotografias do tempo em que chamavas
árvore de rapina ao instrumento
que te educava os dedos.
Um dedilhar de amigo
à beira do vinhal.
Um encantar de amigo.
Se te deixasse ficar à sombra
haveria ainda as linhas da tua mão
tão irregulares tão imponderáveis
como a chuva nas boas noites.
Haveria ainda o perfume das grainhas
na primeira curva da manhã.
Era no tempo das fotografias.
Agora, dizes tu, há o orvalho dos murtais
um cesto silencioso e humano.
Nunca saberás que isso a que chamas
silêncio orvalho
eu chamo música
e toco-a.
Catarina Nunes de Almeida


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Go fuck yourself!

Aquela criatura ir a Vila Velha de Ródão dizer-se um "Luaty" é obsceno.


Desobedeci às minhas paixões



Desobedeci às minhas paixões quando era jovem
mas depois que o tempo me feriu com as cãs e a velhice,
contrariamente ao hábito, obedeci à paixão.
Prouvera a Deus que começasse por velho
para depois me tornar jovem.
Ibne Ayyas Alieburi



domingo, 25 de outubro de 2015

are you drinking?

Gif daqui



washed-up, on shore, the old yellow notebook
out again
I write from the bed
as I did last
year.
will see the doctor,
Monday.
"yes, doctor, weak legs, vertigo, head-
aches and my back
hurts."
"are you drinking?" he will ask.
"are you getting your
exercise, your
vitamins?"
I think that I am just ill
with life, the same stale yet
fluctuating
factors.
even at the track
I watch the horses run by
and it seems
meaningless.
I leave early after buying tickets on the
remaining races.
"taking off?" asks the motel
clerk.
"yes, it's boring,"
I tell him.
"If you think it's boring
out there," he tells me, "you oughta be
back here."
so here I am
propped up against my pillows
again
just an old guy
just an old writer
with a yellow
notebook.
something is
walking across the
floor
toward
me.
oh, it's just
my cat
this
time.
Charles Bukowski



“O whisky é o melhor amigo do homem. 
É o cachorro engarrafado.”
Vinícius de Moraes

sábado, 24 de outubro de 2015

O beijo de Gustav Klimt

Gif daqui



O beijo é só uma palavra
escolhida
ao acaso. O que as tintas
encobrem e descobrem
e os pincéis revelam,
mas não nomeiam,
é a ordem
que se pressente em todas
as nebulosas. Que sempre
a ordem precede
a desordem. E essa
é uma das leis
indeclináveis
do amor. A sua regra
de ouro, que não admite
excepções.
Albano Martins

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Guitarrada*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Há muito tempo que a política portuguesa não andava tão interessante. Pena é ser por más razões: a situação enfatua os políticos, encafua-os em fila nas televisões, arrecua-os em desassossegos, amua-os em teatreirices.

Escrevo este texto na terça-feira, 16 dias depois das eleições. Só hoje o presidente da república começou a receber os partidos. Não há ainda novo parlamento. Dezasseis dias depois.

Entretanto, a coligação de direita já “dá” mais de mil milhões de euros em concessões ao PS. O que Costa está a conceder ao bloco e à CDU para se manter ao de cima da água não se conhece mas adivinha-se.

É o nosso fado: ir de bancarrota em bancarrota.


2. Declaração de interesses — pertenço aos corpos sociais do Cine Clube de Viseu, o que me leva a falar dele aqui menos do que devia.

O CCV foi fundado em 1955 e está um pujante “sexigenário”. A cidade e a região devem muito a este colectivo que tem sabido sobreviver ao duro teste do tempo sem estrelas nem “mentores”. Um só exemplo: toda a actual “movida” estival no centro histórico começou, em 2009, com as sessões de cinema na Praça D. Duarte.


Fotografia daqui
Aproveito o pretexto de o CCV ter passado esta semana “Verdes Anos”, o clássico do “cinema novo” com a música eterna de Carlos Paredes, para lembrar um concerto do mestre da guitarra em Viseu, no final de 1989, organizado pelo CCV e a Acert para o Auditório Mirita Casimiro, no tempo em que esta sala de espectáculos não tinha as teias de aranha de agora.

Carlos Paredes era um génio modesto e tímido. Ele chegou a Viseu muito constipado e foi levado ao Hotel Avenida para descansar antes do concerto. O José Rui Martins, da Acert, pediu na recepção que levassem um chá ao músico e, quando o foi lá buscar, encontrou um Carlos Paredes muito melhor e entusiasmadíssimo.

«Sabe,» contou ele, «são uma simpatia aqui. Até me trouxeram um chá ao quarto. Mandei entrar a senhora e, como não sabia como lhe agradecer, toquei-lhe uma guitarrada...»

Inquietação

Gif daqui

I

Dentro da tarde, de quando em quando,
há um ligeiro rumor de asas frágeis e lentas,
de asas que estão cansadas.

Por que será que aquelas asas me comovem?

Dentro da noite, de quando em quando,
esse mesmo rumor continua, lá fora,
rumor de asas que estão cansadas.

Por que será que aquelas asa me inquietam?




II

Alma, errante,
eu vi a sombra traiçoeira
descer, rápido, e cair pesadamente sobre as grandes arvores retorcidas.

Oh, o rufar aflito das asas
mergulhadas na sombra.

Alma errante, alma errante:
eu ouvi o choro da terra.
O frio, o desesperado
choro da terra

- Oh, a voz milenária do vento
que ulula na sombra.

Alma errante:
tu não vês, não ouves?
É a grande sombra, há qualquer coisa na sombra.

- Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.




III

Nesta noite tão cheia de rumores vagos,
(o vento brame, lá fora, agita-se... Que terá o vento?)
como esta voz, cá dentro, é profética e triste.
Vento frio da noite,
vento inquieto da noite!

Pensar que todas as raízes serão arrancadas, algum dia,
E que então não haverá mais desejo sobre desejo,
Numa noite que será também cheia de rumores vagos.
Emílio Moura




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Liberdade para Angola — até amanhã!

Rossio — Viseu

Petição pela intervenção do Governo português na libertação de Luaty Beirão, assinar aqui

Eu apresento a página branca




Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.
Arnaldo Antunes

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Ainda o Fontelo! — texto e fotografias de JB

1. Realizou-se no dia 10 de Outubro a actividade “Indo EU BTT | Viseu”, prova de resistência de 6 horas, entre o Centro Histórico da Cidade de Viseu e a Mata do Fontelo.

Não sendo praticante desta modalidade fico satisfeito com a iniciativa e faço votos que tenha sido um êxito.

No entanto, penso que no acordo firmado entre a entidade promotora e a Câmara Municipal de Viseu constará uma alínea que dirá qualquer coisa como “devolver o Parque do Fontelo, limpo e em bom estado de conservação”. Julgo eu….

Ora o que se verifica é que passado mais de uma semana, o Parque do Fontelo continua pejado de fitas de plástico e outros apetrechos resultantes da prova. Quem e quando limpa?





2. O Inverno aproxima-se e os estragos nas árvores não dão descanso.

Desta vez foi um grande e pesado ramo que desabou sobre a cerca que divide o antigo parque de campismo (hoje ocupado por escuteiros) do parque.

O ramo já foi cortado e retirado. A cerca está danificada. As árvores continuam a lenta agonia…





Numa outra ocasião testemunhámos que até já os bombeiros são chamados para “aparar” ou “controlar” os eventuais prejuízos.




3. Os caminhos continuam a ser reparados e mantidos e a limpeza é feita, o que quer dizer que os funcionários conhecem o seu “conteúdo funcional”. Mas o que continuo a questionar é se no largo do Rossio quem tem o Parque do Fontelo à sua guarda faz a mínima ideia do seu estado? Há algum programa de reflorestação?


4. Termino com a reparação de um lapso. Desde Junho/Julho que está refeito o muro que separa a Estação Agrária do Parque do Fontelo. Ficou muito bem e saúdo os responsáveis por esta obra. Mas há mais “buracos” ao longo do parque…

Na sequência da recuperação (finalmente… ufff!) do Pavilhão Desportivo, o muro que separa o dito pavilhão do parque, foi todo refeito.

Agora veremos como se irá conjugar o aumento de utentes com a dificuldade de estacionamento, pois…!




O tempo acaba o ano, o mês e a hora

Fotografia de Jean François Lepage



O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
Luís de Camões

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Antes de um lugar há o seu nome

Fotografia de André Kertész

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

Lembro-me

do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.

Íamos ou vínhamos?»
Maria Do Rosário Pedreira

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Bílis negra

Fotografia de Gillian Wearing



aqui morro muitos anos convosco
estremecendo à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
solene
peçam-se óculos para ver melhor, peçam-se janelas
para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo, não tenho nada
preparado, tenho um telegrama visual e chamo
alto e chego para provar que este mote é só um meio
de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz como um animal deslumbrado
que atravessou
Raquel Nobre Guerra

domingo, 18 de outubro de 2015

Poema de amor para uso tópico

Foto de Ikko Narahara

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
Nuno Júdice

sábado, 17 de outubro de 2015

Melro sem Descartes

Gif daqui



Canta um melro triste
pelo mato denso;
triste porque o penso,
canta, logo existe.
Quem dera soltar-se
da Filosofia,
melro sem Descartes,
pura melodia!
António Leitão

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Legislativas (#4)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Os costumes da república, os resultados e as declarações dos vencedores e perdedores na noite eleitoral fizeram-nos pensar que tudo ia começar pelo escrutínio no parlamento de um governo minoritário de Pedro Passos Coelho. O PSD tinha o maior número de deputados, a que iria somar ainda os deputados “emigrantes”. Quando fomos dormir a 4 de Outubro, ninguém duvidava que competia a Passos o primeiro movimento para tentar formar governo.

Entretanto, surpresa! A esquerda de protesto, que sempre preferiu ser virgem a sujar as mãos no poder, decidiu pela primeira vez arriscar a sua virtude nuns preliminares.


Editada a partir daqui
Repito a metáfora da última crónica: António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins estão numa sala de cinema, a pipocar do mesmo balde, enquanto vêem “Jules e Jim”. 

Se, quando acabarem de ver a obra-prima de Truffaut, aquilo resulta como no filme num “ménage-à-trois” ainda não se sabe.

O sr. Costa está feliz com os “rendez-vous” que vai fazendo à esquerda, até o “tête-à-tête” com Heloísa Apolónia o entusiasmou. Por sua vez, a direita, em pânico, tem medo que Cavaco lhe falhe, sonha com uma cisão entre os deputados socialistas, ameaça com a “rua”.

2. Como já aqui escrevi, numa noite eleitoral a voz mais importante não é a de quem ganha mas sim a de quem perde. É contra-intuitivo mas é assim nas democracias saudáveis. Quem perdeu cumprimenta o vencedor e, ao “conceder” a vitória, está a dizer que, embora não concorde com as políticas, concorda com as regras.

Nunca na nossa terceira república houve querela sobre regras ou sobre quem ganhou e quem perdeu umas eleições. Mas agora há: se ficar a governar a direita, a esquerda achará ilegítimo; se ficar a governar a esquerda, a direita achará ilegítimo.

Este sarilho enfraquece o próximo governo e vai levar a eleições antecipadas. Quanto mais elas demorarem mais o país vai apodrecer. Podem ser já na próxima primavera, professor Marcelo Rebelo de Sousa?

Outra gata

Gif daqui



para Haroldo, felinófilo

Embora seja tão
minúscula, está viva
a gata que se esquiva
enquanto minha mão,
com mais de um arranhão,
conclui a tentativa
inútil e, à deriva,
afaga o nada em vão.
Fruindo em paz de sete
vidas, no entanto, a gata
faz sua toilette
e assim não se constata
que esconde um canivete
suíço em cada pata.
Nelson Ascher


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Não sei o que há entre Dvisnsk e Nova Iorque

Number 207 — Red over dark blue on dark grey (1961)
Mark Rothko




Não sei o que há entre Dvisnsk
e Nova Iorque,

e mesmo que soubesse
proporia que tudo fosse silenciado,

que nada se dissesse,

e só o avassalador silêncio
pudesse dizer quem fui e o que fiz.

As palavras enredam-nos em armadilhas
mortais
e nada há mais mortal
que a vida,

por isso,
as minhas telas
são o silêncio que são,

onde as cores se demoram
para que a exaltação do silêncio
permaneça e se guarde

e só quem as contemple reconheça
o que lá está:

a dor,
o sofrimento,
a vida em estado puro.

Se alguma coisa tenho para dizer,
direi, apenas, que há emoções
desconhecidas no que faço,

e que é pela claridade que confronto
o público
com as telas

que, com elas,
deve gritar e chorar,

porque foi exactamente aos gritos e a chorar
que as pintei,

rangendo os dentes
e insuflando-lhes vida.

Vejam:

alio este vermelho a este azul,

as cores conjugam-se,
mesmo repelindo-se,

e, olhando bem,
não é o só o vermelho e o azul o que se vê,
aqui, em frente à tela,
mas tudo o que nos toca o coração,

e se encontra latente na memória

e, pelo confronto,
chega.

O azul, por exemplo:

sente-se que oscila,

sente-se que nos leva para trás,
sente-se que nos arrasta pela nuca

e nos coloca
perante obsessões
que nos envenenam.

E, levando-nos para trás,
os nossos olhos fecham-se,

e entramos num quarto muito escuro,
e, no escuro, reconhecemos
o azul do brilho de uma lâmina,

e os nossos dedos,
azuis,
tocam a lâmina,
e a lâmina,
azul néon e mate,
impele-nos a confrontar a morte,

até que não podemos mais
e, a correr, saímos.

E o vermelho

– é, tão-só, vermelho,

ou atrai-nos para um poço?

O poço é escarlate,

e escarlate sendo, o que se vê?

Uma mulher deitada numa cama,
com um roupão vermelho,

e as unhas pintadas de vermelho,

e a boca vermelha,

e a cabeça caída sobre uma almofada,
também vermelha,

de um vermelho vivo,
tão brilhante,

que sabemos
que há um crime oculto no vermelho
que nós observámos na infância.

Vejamos o conjunto:

o azul está por baixo e, por cima,
o vermelho primário a transformar-se
em lábios,
corais,
crepúsculos,

e um sortilégio avassalador
que nos leva a um monte com um túnel.

Atravessando o túnel
vemos as cidades,
e, por cima das cidades,
o demónio,

e o demónio blasfema,

e lembra-nos a indiferença
com que os nossos pais nos abandonaram,

e é medonha a noite,
e é medonha a sensação de termos sido
abandonados.

No fim, há só silêncio.

Mas o milagre já aconteceu,

já cada um de nós foi confrontado
com o que não queria ver
pela selvajaria da serenidade

e pode, depois disso,
voltar para casa.

De novo vem a nós
o silêncio:

estamos em casa
e as cores, de tão amenas,
são já frenéticas,

e os nossos dedos rasgam-nos
a carne,
e supliciamos o corpo,

e percebemos que há pouco sentido
na vida que levamos.

Tem cor a nossa vida?

E a resposta chega-nos,
certeira e inequívoca,
enquanto nos lembramos
dos gritos e do choro
que, em frente ao quadro,
produzimos,

e da força que há na nossa natureza,

e dos milagres possíveis
que em cada coisa há.

Coube-nos viver num tempo de assassinos,
mas é a claridade que almejamos,

não a que veio ao quadro convocar-nos,
mas a que, pelo poder da pintura,
se instala em nós,
a modular a noite
e a apaziguar-nos.

É essa claridade que procuro,
– e o silêncio.

O silêncio das cores e o seu apelo
irrevogável,

de que nada há a temer,
mesmo que atemorize.

A vida é isso mesmo:

o medo à nossa frente,
imóvel
Amadeu Baptista




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Autárquicas*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Outubro de 2005


Depois de umas horas a consultar e interpretar estatística eleitoral, vou deixar aqui a minha leitura das Eleições Autárquicas do último domingo:

1. O PSD ganhou as eleições autárquicas. O PS perdeu-as a nível nacional, distrital e concelhio.


Fotografia Olho de Gato

2. Nas grandes cidades, os candidatos do PS foram afectados por algum voto de protesto contra o governo de José Sócrates mas não se detectam evidências desse voto de protesto no distrito ou no concelho de Viseu.

3. O PS, no distrito de Viseu, subiu em 14 concelhos e desceu em 10. O aumento de 3% da votação distrital não impediu a perda de metade das câmaras socialistas. Eram 8 em 2001; são agora 4. Um trambolhão.

4. No concelho de Viseu, Fernando Ruas e o PSD seguraram posições. O PSD continuou a aproveitar o definhamento do CDS e não perdeu votos para a esquerda. Os que perdeu foram para a abstenção.

5. Os resultados do PS para a Câmara de Viseu são muito idênticos aos de 1993 e de 1997. O eleitorado “natural” do PS no concelho de Viseu vale 3 vereadores. Miguel Ginestal fez um bom trabalho. A sua campanha teve qualidade e meios mas falhou o eleitorado central.

6. Tive uma grande surpresa na noite das eleições: o PS ganhou a Junta de Freguesia de Ribafeita, uma das freguesias mais conservadoras do concelho. Merece pesquisa jornalística. Algo de extraordinário aconteceu.

7. A partir do muito que ouvi e li nestes meses, escolho a frase mais descabida desta campanha: 
“O Fórum Viseu é um mamarracho.” 
Carlos Vieira, Candidato do Bloco


E, já agora, a frase campeã do politiquês: 
“O concelho de Viseu assume hoje uma relevante centralidade física no contexto territorial português.” 
João Pedro Barros, Mandatário de Fernando Ruas

As mãos pressentem a leveza rubra do lume

Imagem daqui



As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
Al Berto

terça-feira, 13 de outubro de 2015