quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Outono*

*Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 30 de Setembro de 2005


1. Vem aí o frio. Este ano, as árvores dizem-nos mais cedo do Outono. A seca fragilizou prematuramente as folhas. Na paisagem todos os amarelos, todos os vermelhos, todos os castanhos, todos os violetas. 


Fotografia Olho de Gato
O Outono acumula as cores que a alma precisa. O Outono é uma festa para os olhos, mesmo para os olhos dos urbanitas que não querem muito saber quais são as cores da moda para o Outono / Inverno.

O Outono pede um passeio por um bosque, com o telemóvel desligado, e Jorge Palma nuns auscultadores, baixinho, a cantar que se sente frágil. Mas ágil.

2. O Parque Botânico Arbutus do Demo, da Queiriga, Vila Nova de Paiva, vai ocupar os 12 hectares dos antigos viveiros da Junta Autónoma das Estradas; deve estar pronto em meados de 2006 e vai ser de visita obrigatória.

No último sábado, foi feita uma visita guiada para apresentação do projecto. Para além do passeio por entre a beleza outonal das árvores e das plantas do Parque, os duzentos felizardos presentes puderam ouvir textos de Aquilino Ribeiro e música Barroca.

3. O último texto de Aquilino a ser lido, foi um excerto do Malhadinhas que fala assim da neve: “era a neve ladroa, (…) a neve das moscas brancas que voltejam, giram, rodopiam, vêm de trás, de diante, de baixo, dos lados, metem-se por todas as fisgas e grelhas à busca de coiro vivo em que ferrar.”

Durante a leitura destas palavras, soprou um vento vindo do Marão. Senti um calafrio. Lembrei-me da melhor definição de cultura que já vi alguma vez escrita: a cultura é a roupagem da natureza nua.

De regresso, no carro, pus Jorge Palma a cantar.


Fúrias

Gif daqui


Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Poema de amor para chatear o Camões

Edna Purviance and Charlie Chaplin — O Imigrante (1917)
Gif daqui


num dia cinzento
uma amiga colorida
apareceu-me num sonho cor-de-rosa

mas ainda estávamos muito verdes
e nada estava preto no branco
foi na verdade por uma unha negra que não nos demos bem
(entalei-lhe um dedo ao fechar a porta do salão)

nada disso impediu que continuássemos juntos
sempre pela noite dando com a língua nos dentes
depois de ela me dar uma mãozinha
e de eu lhe dar um braço a torcer

descalça a minha bota e depois penduradas as suas
encostava-me a roupa ao pêlo
e eu levava as minhas mãos muito a peito

metíamos os pés pelas mãos em noites de maior excentricidade

punha-me sempre a pau
ela prometia-me mundos e fundos

quando partiu ficou como um negrão na minha vida
eu fiquei na sua como um ponto negro

a verdade é que
estou-me nas tintas
Bruno Santos

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O lugar da ferida

Gif daqui



Eleges o lugar da ferida
onde falamos o nosso silêncio.
Fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.
Alejandra Pizarnik


domingo, 27 de setembro de 2015

O corpo espacejado

Gif daqui


Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos
poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos
contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que,
isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular.
Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que
só por abstracção se chegava à noção de um todo come-
çavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre
elas não tardou que espumejassem as marés e a própria
via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exer-
cia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que
em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de
quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo
brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele
mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas
cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto
detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pe-
quena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de
novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou
pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés,
mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intes-
tinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava
em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído
aterrador.
Luís Miguel Nava


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Desenraizados

Daqui


Chega de mar. Já vimos mar que chegue.
Ao entardecer, quando deslavada a água se estende
e esfuma no nada, o meu amigo olha-a fixamente
e eu fixo o meu amigo e nenhum de nós fala.
Chegada a noite, acabamos por nos fechar nos fundos duma taberna,
perdidos no meio do fumo, e bebemos. O meu amigo tem sonhos
(o bramir do mar torna os sonhos um tanto monótonos)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
que reflecte colinas salpicadas de flores selvagens e cascatas.
Quando bebe, dá-lhe para isso. De olhos postos no copo,
vê-se a erguer colinas verdejantes sobre a planura do mar.
As colinas, a mim agradam-me; e deixo-o falar do mar
porque a água é tão clara que se vêem mesmo as pedras do fundo.

Eu, o que vejo é só colinas, e enchem-me o céu e a terra
com as linhas nítidas dos seus perfis, distantes ou próximas.
Mas as minhas são agrestes, estriadas de vinhedos
que crescem penosamente num solo calcinado. O meu amigo aceita-as
e quer vesti-las de flores e frutos selvagens
para nelas descobrir, entre risos, raparigas mais nuas que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais agrestes não falta um sorriso.
Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
Cesare Pavese

Fotografia para cinema — masterclass por Leonardo Simões


Amanhã, sábado
IPDJ-Viseu, 15H00

Entrada livre
Inscrição aqui: http://www.cineclubeviseu.pt/FOTOGRAFIA-PARA-CINEMA

O Feitiço de Tsipras*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

É uma analogia pouco original mas repito-a aqui: Alexis Tsipras parece Bill Murray no filme “O Feitiço do Tempo”.



Neste filme, Bill Murray é um meteorologista de televisão que fica encalhado no mesmo dia. O despertador toca à mesma hora, ele toma o mesmo pequeno-almoço, mete a pata na mesma poça, é importunado pelo mesmo vendedor de seguros, faz asneira e a bela Andie MacDowell fica furiosa com ele. O homem vai dormir. Acorda. Continua no mesmo dia e tudo se repete: o despertador toca à mesma hora, toma o mesmo pequeno almoço, por aí fora, ... Até que Bill, à força das repetições, lá aprende a não repetir os disparates e acaba por conseguir subir de cotação junto da sublime Andie e ficar com ela.


Daqui
O primeiro-ministro grego está também encalhado. Não é num dia mas é num ano — 2015. O seu despertador já tocou três vezes: em Janeiro numas legislativas, em Julho num referendo e agora em Setembro em mais umas legislativas. Já teve três oportunidades para acordar e acertar o tiro.

E não têm sido poucos os fiascos de Alexis: apostou no contágio grego ao sul da “Europa”, e Hollande, Renzi, Rajoy e Passos deixaram-no a falar sozinho; apostou na aproximação à Rússia mas Putin pouco mais lhe pôde dar do que umas palmadas amigas nas costas; apostou no confronto com os credores e, quanto mais soltou a sua xenofobia anti-germânica, mais os gregos levaram os euros para debaixo do colchão, até que ele teve que fazer um “corralito” às contas bancárias e aceitar as duras condições de um terceiro resgate.

Mal “acordou” das eleições de domingo, Alexis “Murray” Tsipras reincidiu num erro: fez outra vez coligação com nacionalistas de extrema-direita. Espere-se, contudo, que ele tenha aprendido como aprendeu o protagonista de “O Feitiço do Tempo” e a partir de agora acerte. Se ele descapturar o estado das clientelas e puser o fisco a funcionar, merecerá que os gregos lhe dêem uma quarta oportunidade.

Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico

Daqui


O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.
Peter Meinke
Trad.: Ricardo Castro Ferreira

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

E querem agora o votinho dos viseenses, não é? (#2)

Aqui

Em Junho, foram presos em Luanda 15 activistas cívicos.
Os jovens estavam reunidos numa residência particular com o objectivo de lerem e discutirem um livro sobre técnicas de acção não violenta visando a substituição de regimes ditatoriais.
À meia noite do dia 21 de setembro, Domingos da Cruz, Inocêncio de Brito, Luaty Beirão e Sedrick de Carvalho tomaram a decisão extrema de iniciar uma greve de fome. 
********

No início de Julho, a Assembleia da República chumbou um voto de condenação da "repressão política em Angola". Só o bloco de esquerda, proponente do texto, e o socialista Pedro Delgado Alves votaram a favor.

Perante a brutalidade do regime angolano, os nossos eleitos puseram-se de cócoras, vácuos de valores, prenhes de uma "realpolitik" de pacotilha.

De Viseu, nem um dos nove deputados eleitos no distrito condenou Angola por prender pessoas que estão em sua casa a... ler um livro.  Um que fosse. Zero.

Os viseenses elegeram nove zeros em matéria de direitos humanos.

E querem agora o nosso votinho, não é?

Advertencias

Gif daqui



No vengas otra vez con tus historias
tan siglo diecinueve de tristezas.
No jures y perjures que perdiste
tu zapato en mi casa, Cenicienta,
pues bien sabes que perdiste otras cosas:
la cabeza tal vez, algo de pasta, un par de bragas
que voy probando a todas
las que prueban mi cama
sin dar con la que vuela.
Que ni yo soy azul ni tú princesa,
así que apaga y vámonos, y vuelve
a ser mi perra callejera, mi musa en celo,
mi luna de dormir la borrachera,
mi billete de avión a la locura,
mi Blancanieves puta y harapienta,
mi vino y la resaca; el frío y mis palabras.

Y déjate de cuentos y dame mucho sexo
y poco poquito poco
abominable falso esclavo imbécil
desvergonzado amor.
Pedro Andreu

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

E querem agora o votinho dos viseenses, não é? (#1)




De Viseu, em nenhuma das muitas vezes que os pórticos foram a votos, nunca, nem um, unzinho que fosse, nem um nunca dos nove deputados eleitos no distrito votou contra este big-brother posto nas "nossas" auto-estradas. 

Os viseenses elegeram nove zeros em matéria de direitos, liberdades e garantias.

E querem agora o nosso votinho, não é?

Mas que sei eu

Gif daqui



Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Não há-de voltar o verão

Fotografia Olho de Gato


Nós

Não há-de voltar o verão em que ouvi
cair os ramos naquele bosque de fetos
e eucaliptos; nem o pássaro que por
um instante apagou o sol voltará a
cantar antes de se perder no horizonte.

Mas voltarei a sentir o que o teu
corpo me fez sentir quando um vento
abstracto nos envolveu de luz, e
depois a sombra caiu, de novo,
com o calor seco daquela tarde.

Mudam-se os tempos, é verdade,
mas não mudamos quando o tempo
corre por entre nós com a sua lenta
música, e num abraço o perdemos
para que o tempo corra sem tempo.

Assim, os nós que o tempo desata
com os seus dedos são os nós que
nos prendem, e com os dedos do verão
os fazemos atar-nos mais ainda,
soltos nós que nesse nó nos solta a voz.»
Nuno Júdice




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

115



E se o PàF ou o PS ficam nos 115 deputados?


Uma coisa é certa: não há ainda um número ímpar de assentos no parlamento porque a dieta dos deputados é muito rica em:

"Carta a Mariana"

Daqui

¿Qué película te gustaría ver?
¿Qué canción te gustaría oír?
Esta noche no tengo a nadie
A quien hacerle estas preguntas.

Me escribes desde una ciudad que odias
A las nueve y media de la noche.
Cierto, yo estaba bebiendo,
Mientras tú oías Bach y pensabas volar.

No creí que iba a recordarte
Ni creí que te acordarías de mí.
¿Por qué me escribiste esa carta?
Ya no podré ir solo al cine.

Es cierto que haremos el amor
Y lo haremos como me gusta a mí:
Todo un día de persianas cerradas
Hasta que tu cuerpo reemplace al sol.

Acuérdate que mi signo es Cáncer,
Pequeña Acuario, sauce llorón.
Leeremos libros de astrología
Para inventar nuevas supersticiones.

Me escribes que tendremos una casa
Aunque yo he perdido tantas casas.
Aunque tú piensas tanto en volar
Y yo con los amigos tomo demasiado.

Pero tú no vuelves de la ciudad que odias
Y estás con quien sabe qué malas compañías,
Mientras aquí hay tan pocas personas
A quien hacerles estas simples preguntas:

“Qué canción te gustaría oír,
Qué película te gustaría ver?
Y con quién te gustaría que soñáramos
Después de las nueve y media de la noche?”.
Jorge Teillier


domingo, 20 de setembro de 2015

É o último domingo deste Verão e o tempo vai estar bom e...

Gif daqui


«... é melhor usar um biquíni num dia ensolarado que uma capa de chuva quando está chovendo.»
David D. Friedman,
in "Socialismo, governo limitado, anarquia e biquínis"



sábado, 19 de setembro de 2015

Costa e Passos sintonizados

17 de Setembro:
Daqui


18 de Setembro:
Daqui


Daqui
Estes dois factos políticos mostram Pedro Passos Coelho e António Costa em sintonia: ambos estão com "tremeliques nas pernas".

Pela primeira vez numa campanha, os candidatos a primeiro-ministro teorizam cenários de derrota. 

Primeiro foi Pedro Passos Coelho, no debate nas rádios. No dia seguinte Costa. 

Feito pela positiva para obter um consenso alargado na segurança social, este "tremer de pernas" do líder da direita beneficiou-o mais do que o prejudicou no único público-alvo para quem os políticos ainda precisam de falar — os indecisos.

Feito na negativa e, ainda por cima, a não "viabilizar" um documento de que não conhece nada porque ainda não foi feito, o "tremer de pernas" de António Costa prejudicou-o muito mais do que o beneficiou junto dos indecisos. 

Até aqui tudo trivial, estes "tremeliques", embora inéditos, não mereciam um post. 


Há outra sintonia entre Pedro Passos Coelho e António Costa menos óbvia: eles acham que podem determinar o que os seus partidos vão fazer depois de uma derrota. Tanto Passos como Costa pensam que, mesmo que percam, ficam à frente dos seus partidos.

Ora, isso não faz parte dos usos e costumes da nossa terceira república — candidato a primeiro-ministro derrotado ou se demite ou é corrido pelo seu partido. Tem sido sempre assim. Há condições para deixar de ser assim?

Para Pedro Passos Coelho talvez. Ele é capaz de ir à luta contra Rangel e não é certo que perca. 

Já António Costa tem um cadastro complicado — como é que ele poderá sobreviver a uma derrota depois do que fez ao vitorioso António José Seguro em Maio do ano passado?

Fontelo — um texto de JB

Este texto tem apenas e só um objectivo: alertar!

Como já aqui referi (em anterior post) considero o Parque do Fontelo um local magnífico e sou habitual utilizador.

Neste contexto, a minha principal preocupação é a preservação e manutenção do espaço. Reconheço que o local é limpo, os caminhos são cuidados e mantidos com bom piso.

No entanto, no aspecto da renovação florestal é notório que não há novas árvores. Bastou um dia de Inverno (antecipado) e mais árvores tombaram. Estão gastas e como dizia Palmira Bastos "Morreram de pé"!
Fotografia de JB

Fotografia de JB

Há que prestar atenção e planear a reflorestação do Parque do Fontelo.

Por favor não ocupem o Fontelo com "modernices", deixem o espaço ser aquilo em que é belo: selvagem!

Fotografia de JB

Fotografia de JB


Obrigado.
JB

O verão novo

Imagem de Vincent Bourilhon



O verão que perdemos
Não poderá fazer-nos
Perder o verão novo

Há-de voltar o corpo
E o mar será o mundo
Revolto que já foi

O Outono o inverno
Serão se nós quisermos
O verão que perdemos
Gastão Cruz




sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Pastagem na garagem*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


O livro “A arte de pensar com clareza”, de Rolf Dobelli, descreve dezenas de erros de pensamento em que cai muito boa e distinta gente com púlpito académico ou mediático ou político. Esses erros são constantes e em campanha eleitoral, como a que estamos a viver, eles multiplicam-se, mas não tratemos hoje de eleições.

Em Maio escrevi aqui sobre a “falácia do custo irreparável” que nos faz teimar num erro só porque já investimos nele dinheiro e/ou tempo. Hoje é a vez da “tragédia da pastagem comunitária”. Dobelli começa este capítulo assim: “imagine um terreno fértil que está à disposição de todos os agricultores de uma povoação. É de esperar que cada agricultor leve para esse prado o maior número possível de vacas.”

Tudo bem, desde que a ervinha fresca não se esgote. Mas cada agricultor vai pensar no seu benefício individual, em mais uma vaca que vai poder vender gordinha e nédia, e mais uma, e mais uma, até que o pasto acaba. Ele olhará para o +1 individual e não para o -1 colectivo.

Até aqui ainda não há erro nenhum de pensamento. O erro aparece quando se julga que este problema se pode “resolver por meio da educação, do esclarecimento, das campanhas informativas, dos apelos à «consciência social», das bulas papais ou das prédicas das estrelas pop”, goza Dobelli.

Todos os dias encontramos estes raciocínios ingénuos que acreditam que a “responsabilidade individual” funciona sem dispositivos que a ponham nos trilhos. E só há duas maneiras de evitar a rapadura total do prado: ou privatização ou gestão. Há que regular o acesso ao prado: através de uma taxa, uma limitação temporal, uma priorização qualquer.

Foi o que o Palácio de Gelo fez no seu parque de estacionamento. Acabou por perceber que a “sensibilização” não resultava. 

Imagem daqui
As vaquinhas com rodas que faziam ali garagem de manhã à noite somadas às dos funcionários não deixavam lugares para os clientes.

Rotina

Gif daqui


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Reservado ao veneno

Gif daqui



Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Energia*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Setembro de 2005



1. Depois de amanhã faz um ano que foi assinada, no Teatro Viriato, com pompa e circunstância, a escritura da Grande Área Metropolitana de Viseu. Passou um ano. Nada se passou. A Grande Área Metropolitana de Viseu foi varrida para debaixo do tapete.

Quem sopra a vela do primeiro aniversário?
Editada a partir daqui

2. No último fim-de-semana, Correia de Campos esteve num evento político, em Viseu. Aí proferiu um discurso sintonizado com os tempos pós-modernos que se vivem.

Do alto dos seus 62 anos, Correia de Campos defendeu os candidatos jovens e atacou os candidatos de idade. Foram largos minutos à volta desta dicotomia: na política, juventude é bom, velhice não. Cheio de energia, disse ele: “À alternativa do reumático eu prefiro a juventude, naturalmente.”

Mário Soares acabou de perder um apoiante. É de esperar, em coerência com esta lógica, que Correia de Campos prefira Francisco Louçã para a Presidência da República.

3. No Reino Unido, a Autoridade para a Fertilização Humana e Embriologia acaba de autorizar a equipa de Doug Turnbull e Mary Herbert, da Universidade de Newcastle, a fazer experiências que poderão criar um embrião com material genético de duas mães e de um pai.

O procedimento é o seguinte: 



pega-se num óvulo da mulher que tem defeitos mitocondriais e fertiliza-se com o esperma do dador; a seguir, do ovo resultante, retira-se o núcleo do material genético do pai e da mãe e injecta-se num óvulo de outra mulher de que se retirou o núcleo.

Os cientistas não vêem problemas éticos no facto da criança ter duas mães e um pai. Dizem que o que está em causa é a energia; o que se vai fazer é como substituir a bateria duma máquina fotográfica digital. A máquina fotográfica continua a mesma, com as mesmas funções e a mesma informação guardada na memória. Só passou a ter uma nova bateria.

Te estoy llamando

Gif de DarkAngel0ne


Amor
desde la sombra
desde el dolor
amor
te estoy llamando
desde el pozo asfixiante del recuerdo
sin nada que me sirva
ni te espere.
Te estoy llamando
amor
como al destino
como al sueño
a la paz
te estoy llamando
con la voz
con el cuerpo
con la vida
con todo lo que tengo
y que no tengo
con desesperación
con sed
con llanto
como si fueras aire
y yo me ahogara
como si fueras luz
y me muriera.
Desde una noche ciega
desde olvido
desde horas cerradas
a la paz
en lo solo
sin lágrimas ni amor
te estoy llamando
como a la muerte
amor
como a la muerte.
Idea Vilariño

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As mãos

Fotografia de Javier Valhonrat


Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever — eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito — eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.
Bernardo Pinto de Almeida


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

RETOMA há só uma, a do sexigenário e mais nenhuma!



SETEMBRO NO CCV
TERÇAS 21H30 — IPDJ—Viseu

Ver detalhes sobre os três dias de VISTACURTA'2015 aqui
´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´
15 SET . SUSANA
De Luis Buñuel, México, 1950, 85´

SUSANA, DEMONIO Y CARNE, uma das obras mexicanas de Buñuel, é um dos seus mais delirantes filmes, talvez o primeiro em que se manifesta a sua capacidade de filmar fielmente um melodrama e ao mesmo tempo subvertê-lo completamente. SUSANA foge de uma prisão numa noite de tempestade e refugia-se numa grande propriedade rural, despertando a paixão de todos os homens da casa: primeiro o capataz, depois o filho e finalmente o pai.



22 SET . GÜEROS
De Alonso Ruiz Palacios, México, 2014, 102'

GÜEROS, um dos filmes marcantes do cinema mexicano recente, filma uma juventude à deriva num ambiente em que a crónica social se combina com o retrato das ilusões e desilusões do quotidiano. Um "road movie" que empreende uma viagem por todo o México em busca do ídolo do pai dos dois jovens protagonistas: o lendário Epigmenio Cruz, estrela de rock que fez sucesso algumas décadas antes.



24 > 26 SET . VISTACURTA 2015
Três dias de programa, com a projecção de todos os filmes seleccionados, masterclass, e momentos em que a divulgação e estudo do Cinema, como arte e cultura, nos seus múltiplos aspectos, são pensados.


29 SET . O PRESIDENTE
De Mohsen Makhmalbaf, Irão, 2014, 115'

O mais recente filme de um dos grandes mestres do cinema iraniano, Mohsen Makhmalbaf, é O PRESIDENTE - um dos acontecimentos cinematográficos do ano. Depois de um golpe de estado derrubar a ditadura, o Presidente fica para trás com o neto e é obrigado a fugir, iniciando uma perigosa jornada, fingindo ser um músico de rua, rumo a um navio que os levará para um destino seguro.
O filme obteve honras de abertura 71.ª Edição do Festival de Veneza.

Coração

Fotografia de Brassaï



Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...


Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...


Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhes queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...


São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas são mulheres!
Francisco Roíz Lobo

sábado, 12 de setembro de 2015

O beco sem saída, ou em resumo...

Subida à grande pirâmide
Émile Béchard
Egipto, 1875

I
As mulheres são visceralmente burras.
Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronologicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.
Claro que há as excepções honrosas.


II

As pedras não são humanas.
Os animais não são humanos.
As plantas não são humanas.
Os humanos é que têm algo deles todos:
o que não justifica o panteísmo,
nem a chamada «Criação».


III

Humanamente feitas são as coisas,
e as ideias, as obras de arte, etc.
mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada
ou no Viet-Nam?





IV

Há por certo os poetas, os santos, e gente semelhante
(os heróis, que os leve o diabo)
- mas desde sempre, em qualquer língua,
qualquer das religiões (ilustres ou do manipanso),
fizeram o mesmo, disseram o mesmo, morreram igual,
e os outros que nascem e vivem e morrem
continuam a ser a mesma maioria triunfal
de filhos da mãe.


V

Que haja Deus ou não
e a humanidade venha a ser ou não
e os astros sejam conquistados (ou não)
apenas terá como resultado o que tem tido:
uma expansão gloriosa do cretino humano
até ao mais limite.


VI

A vida é bela, sem dúvida:
sobretudo por não termos outra,
e sempre supormos que amanhã se entrega
o corpo que já ontem desejávamos.






VII

O poeta Rimbaud anunciava o tempo dos assassinos.
Sempre foi o tempo dos assassinos
- e até ele era mesmo um deles.


VIII

Gloriosos, virtuosos, geniais,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Ignorados, viciosos ou medíocres,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Do primeiro, do segundo, do terceiro ou quarto sexo:
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter
- burros, sacanas, surdos, parvos.


IX

Canção, se te culparem
de infame e malcriada,
subversiva ou não,
ou de, mais que imoral, desesperada;
se te disserem má, mal inventada,
responde que te orgulhas:
humano é mais que pulhas
e mais que humanidade mal lavada.
Jorge de Sena



THE CAT PIANO



Curta de animação feita a partir de um poema de Eddie White, com narração de Nick Cave


Realização: Eddie White & Ari Gibson
Produção: Jessica Brentnall

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Long ago my city's luminous heart, beat with the song of four thousand cats.
Crooners who shone in the moonlight mimicry of the spotlight.
Jazz singers. Hip cats that went 'Scat!'
Buskers with open-mouthed hats hungry for a feed.
Parlours paraded purring glamorous songstresses.
Smoky hookahs and smoking hookers.
Strays strummed string and sung a cocktail of cat's tails.
A decadent party of meowing sound.
A bohemian behemoth, post-midnight soiree.

Amongst the chorale 'o tuneful ones was one fair queen who drew me from o'er the way.
Her fur, an amorous white and a voice that made all the angels of eternity sound tone deaf.
Blind with love at first sight, touched by the taste of her sound,
I longed to be the microphone she cradled near her breast.

'Twas our Shang-ri-la of sound,
A paradise found where nothin' could stop us.
Or so it seemed.

Singers began to vanish like sailors lost at sea.
Snatched from stage alley way
Shanghai'd from behind scarlet curtain.
Into thin air they disappeared without a single cry.
Police study the clues.
Foot-prints from human shoes.

So you've heard of every instrument but?
Torn from your history books is this pianola,
This harpsichord of harm.
The cruellest instrument to spawn from man's grey cerebral soup.
The Cat Piano.

Confined were the cats in a row of cages.
With each note struck upon it's ivory tusks,
A sharpened nail would pierce each cat's tail,
Forcing a note from each pitch on the scale.

I ran my cursed writer's run to tell her beware.
She wasn't there.
My soul capsized.
Like a fish, paralysed.
On a chopping board, its spinal cord ripped forth from its body,
Her vocals the last the thief had needed,
A rare celestial pitch that would complete his collection.

The city in unrest.
Fights broke out in its sleep.
I couldn't dream anymore.
There was a hole in my heart and everything fell out of it.
All music forbidden.
Keep your lullabies hidden.
And your A and E minors off the street after dark.

My town grew cold and bitter.
In icy hibernation was the once thumping heart.
Now seizing up.
Freezing up.

Katzenklavier.
The torturous worm of sound burrowed deep into my ears.
Le Piano du chat
I thought of Van Gogh.
Neko Piano.
I'd put an end to this incessant, inescapable drone.
Mao Gang Qin

I enlisted an army of the brave and I their general declared war.
Poised with tooth and fire in paw.
We would finally settle this musical score.
Eyes with fierce intent that glowed.
Through tempestuous waters we rowed.
Storming the shores,
Swarming in scores,
Scaling its walls with well-sharpened claws,
We invaded the tower through all its doors.

Up the winding stairs,
To meet him with blinding stares.
There he sat.

The organ grinder.

He turned, we pounced, we scratched and bit.
He stumbled.
Fell through the window.
Screaming into the indigo waters below.

We freed the chain gang from their jail.
Cremated the piano.
And for home we set sail.

The city had reclaimed its vestal muse.
It would live again.
Beat again.
Cats would sing in the street again.
And I in anonymity as I had been long before this soliloquy,
Could sit and listen from afar.
The Cat Piano, now a healed over wound.
And this ode its fading scar.
Eddie White
Narrated by Nick Cave