segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Elites — um #2 por JB*

* Comentário visual de JB à minha última crónica no Jornal do Centro intitulada Elites


Avenida do Brasil, Figueira da Foz, Agosto de 2015
Fotografia de JB 


A drinking song




Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.
W. B. Yeats


domingo, 30 de agosto de 2015

A chave

Fotografia de Richard Sandler




No meio da noite, configura
a fragrância das palavras mágicas
Na chave da noite, a ternura,
pluma que verte enigmas

Nas mãos do tempo,
o arado que rasga os mistérios
do sentimento que define
O homem da meia noite,

em seu caminho de volta
que faz

ao adentrar a meia lua
das unhas dos enigmas.
A mão da noite destrava a chave
da fragrância das palavras mágicas
Alice Spínola


sábado, 29 de agosto de 2015

Vertentes

Fotografia de Erwin Olaf



As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
António Ramos Rosa


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Elites*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Depois dos milhões e milhões da “Europa” e das privatizações, as nossas elites deram-nos três bancarrotas, um estado disfuncional (só funciona o fisco) e endividado (com défices ano após ano); deram-nos um estado capturado (mal a troika saiu, logo os remédios recomeçaram a aumentar) e injusto (Ricardo Salgado destruiu a PT e as poupanças de milhares de pessoas mas continua a apanhar o sabonete no chuveiro de sua casa).

As nossas elites não criam riqueza, vivem aconichadas ao estado e compram a decisão política. E, com Barroso e Sócrates, habituaram-se a consegui-la barata. Veja-se o caso dos submarinos ou das PPP ou da Parque Escolar.

Em matéria de responsabilidade social, basta lembrar que a Pordata, da fundação do Pingo Doce, é só um oásis no deserto da nossa filantropia privada. Como os nossos ricos sempre foram assim, já ninguém estranha.


2. Já nos EUA o falhanço das elites na guerra do Iraque e na actual crise global acendeu um debate intenso. Um dos livros sobre este assunto com mais impacto foi “O Crepúsculo das Elites: a América depois da Meritocracia”, de Christopher Hayes.

Nele, Hayes defende duas teses. A primeira constata algo que sempre se repetiu ao longo da história: também as elites norte-americanas perderam o contacto com a vida real dos “de baixo” e tornaram-se irresponsáveis.

A segunda tese é inesperada: a “meritocracia”, a escolha dos melhores através de provas duras e objectivas, é um avanço que é consensual à direita e à esquerda, mas que tem dois grandes problemas:

(i) leva à “oligarquia” já que só os ricos podem pagar aos seus filhos as ferramentas cognitivas necessárias para superarem as provas de admissão nas melhores escolas;

(ii) o mérito demonstrado e o trabalho árduo são um pretexto moral poderoso para justificar o aumento da desigualdade, mesmo quando esta é cada vez mais insuportável.

3. O que o PS, PSD e CDS querem fazer às receitas da segurança social diz tudo sobre a irresponsabilidade das nossas elites.

Misteriosa

Fotografia de Horst P Horst



— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?

— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.

De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.

Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.

Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.

Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.

Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.

De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...

Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.

É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.

Nada mais sei. Será uma fada? algum génio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogéneo
Da Salammbô e da Gioconda.

Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fora
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.
Filinto de Almeida


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

o primeiro amor

Imagem daqui



com o passar dos anos, o ursinho de peluche foi trocado
por um lego, o lego foi trocado por um livro, o livro foi
trocado por uma consola, a consola foi trocada pelo
primeiro amor, o primeiro amor foi trocado por uma
mulher, a mulher foi trocada pelos filhos, os filhos foram
trocados pelo trabalho, o trabalho foi trocado pela solidão,
a solidão foi trocada pelo ursinho de peluche. um homem
regressa sempre ao seu primeiro amor.
Henrique Manuel Fialho


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A boca

Fotografia de Philip-Lorca diCorcia


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.
Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio de Andrade


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pontos luminosos

Gif daqui



No silêncio basta um sopro e todo o tempo estremece
como se afasta cantando mais para dentro
a própria noite

Guardei para ti relâmpagos inúteis
prata feita de medidas vagas
e inclinada superfície implacável
cordas e alçapões

Do ponto mais alto do céu a 56 milhões de quilómetros
um dia me dirás
«desde a idade do gelo nunca estivemos tão próximos»
José Tolentino Mendonça



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A noite abre meus olhos

Gif daqui




Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só
José Tolentino Mendonça


domingo, 23 de agosto de 2015

Nesta última tarde em que respiro

Gif daqui

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.
António Franco Alexandre


sábado, 22 de agosto de 2015

diz que não sabe

Fotografia de Shomei Tomatsu


diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe
Alejandra Pizarnik


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Duques e cenas tristes*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 29 de Março de 2008, em luzidia cerimónia no nobre concelho de Mortágua, com a augusta presença do primeiro-ministro José Sócrates, foi lançada a concessão da auto-estrada Viseu/Coimbra, mais um troço da “imprescindível” terceira auto-estrada Porto/Lisboa e mais o IC12 entre Mortágua e Mangualde. Um total de 191 quilómetros de novas vias e 740 milhões de euros. No evento, o ministro Mário “Jamé” Lino assegurou que elas estariam “completamente construídas em 2011”. Viu-se...

Agora, em 7 de Agosto de 2015, ...



... em luzidia cerimónia noutro local do nobre concelho de Mortágua, com a augusta presença do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, foi lançada a “previsão do lançamento” do concurso para a “Via dos Duques” (novo nome da ligação Viseu/Coimbra), num investimento global de 399 milhões de capital privado e que lhe deverá render 456 milhões de portagens, nos 30 anos da concessão. Foi soprado, ainda, um “início de obras no segundo semestre de 2016”.

Para o governo Sócrates, passavam 11 mil veículos por dia no IP3; agora, para o governo Passos, passam lá 18 mil. Em sete anos, com uma bancarrota no meio, um “incremento” de tráfego de 64%. Coisas de verão eleitoral para esquecer logo que chegue a 'gravitas' do poder, lá mais para o outono.

Mais: nesta apresentação saíram “duques” no nome mas “cenas tristes” no conteúdo. Pretende-se dar 9 km do IP3 aos privados na zona da Aguieira. Toda a gente percebe que um concessionário, para meter dinheiro na ligação Viseu/Coimbra, tem que impedir o trânsito no IP3 fazendo-lhe a auto-estrada por cima. Começa-se por 9 km e, a seguir, vai querer-se “duplicar” todo ou uma parte substancial do IP3.

A região tem que evitar este pesadelo. Mais uma “cena” como a do IP5 estragado pela A25 é inaceitável.

2. Já há dois militantes socialistas candidatos à presidência da república: Henrique Neto e Maria de Belém.

Com que cara é que o PS vai apoiar Sampaio da Nóvoa, candidato do Livre?

Dentro da Vida

Fotografia de Herbert List


Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer
Gastão Cruz


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

José Sócrates, o senhor não é um preso político

Daqui

1 - Independentemente da melhor ou pior qualidade da investigação do ministério público — para já, recorde-se, todos os recursos da defesa foram recusados pelos tribunais superiores —, ela, a investigação do ministério público, não vai "condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS", nem está a ser feita para isso ou por isso;

2 - Independentemente dos longos meses que o ministério público já gastou sem ainda ter formalizado a acusação — prazo longuíssimo que, sendo iníquo, já vem do tempo em que o senhor era primeiro-ministro e não fez nada para alterar — esses longos meses não vão "condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS", nem estão a ser gastos para isso ou por isso;


3 - O que pode eventualmente "condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS" é se o partido socialista não deixar claro ao eleitorado que nunca mais repetirá o autoritarismo negocista dos seus governos, movido a PPPs e endividamento insano e que levou o país à bancarrota.

O amor em visita

Fotografia de Bill Brandt


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.


Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.




Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.


Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.


Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.




Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.


Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.




Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Secas*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Agosto de 2005


1. Estamos em seca aguda. Este ano ainda não houve um dia de chuva a sério. Há torneiras secas em muitos concelhos do país. Há povoações a serem abastecidas por camiões cisternas.

Já se começa a falar em projectos de dessalinização da água do mar (!).


Imagem daqui


As imagens que nos chegam das nossas explorações pecuárias, com o gado pasmado, magro e cheio de sede, deixam-nos com um nó na garganta.

Era bom que chovesse. Era bom que a chuva, uma chuva que se visse, nos estragasse as férias.

Era bom que chovesse e que a chuva apagasse os fogos.

2. A seca é má para as nossas vidas mas é boa para o trabalho dos empreiteiros. Um Inverno sem chuva fez com que as obras públicas avançassem mais rapidamente.

Para além da eficácia da Lusoscut e da Mota & Companhia, o avanço na construção da A25 deve-se também às condições climatéricas deste ano.

Na edição de sábado do jornal Público afirma-se que a A25 está pronta desde o nó de Vouzela até ao mar. Para quem circula naquela estrada não parece. É ainda preciso fazer uns quilómetros junto ao nó de Vouzela. Mas, de certeza absoluta, pelo menos a partir do nó de Oliveira de Frades para oeste, a A25 está mais que pronta.

Temos horas e horas de filas compactas de trânsito a circularem em meia auto-estrada e a outra meia auto-estrada sem nada, vazia, a acumular pó e fagulhas dos incêndios.

Segundo revela o Público, o Instituto das Estradas de Portugal (IEP) não autoriza a abertura ao trânsito do troço, cujo calendário de conclusão apontava para o fim do ano.

A abertura imediata daqueles quilómetros de auto-estrada era, ainda por cima, um bónus de quatro meses e meio. O Estado só vai começar a pagar as portagens virtuais em Janeiro, conforme prescreve o contrato.

A Lusoscut foi ameaçada pelo IEP com uma multa de 30 mil euros quando, em Novembro de 2003, sem autorização da tutela, antecipou quatro meses a abertura entre a Guarda e Vilar Formoso. Agora não quer, compreensivelmente, que se repita o mesmo filme.

Deva-se dizer que, em negócios desta escala, uma multa de 30 mil euros “não aquenta nem arrefenta” para a contabilidade da concessionária, mas que chateia, lá isso chateia.

Continuemos, portanto, a secar, a 60 à hora, atrás dos camiões.

3. Parece uma maldição matemática: de 8 em 8 anos, as eleições autárquicas são uma seca.

Em 93 e 2001, houve luta política forte e as eleições autárquicas foram interessantes. Em 93, anunciava-se o descalabro cavaquista e, em Viseu, José Junqueiro interpretou bravamente esses tempos heróicos. Em 2001, as autárquicas foram duríssimas e levaram ao fim do guterrismo. Os candidatos socialistas levaram um valente cartão amarelo (em muitos casos, vermelho). Em Viseu, eu levei um amarelo e os boys socialistas levaram um vermelho.

As autárquicas de 1997 foram politicamente fracas. Oito anos depois, em 2005, está a acontecer o mesmo. As eleições de 9 de Outubro parecem a feijões.

Em Viseu, tanto o CDS, como o Bloco, como o PC, ainda não saíram da toca. Está tudo tépido. Só não se pode dizer gelado porque as rotundas já estão devidamente ornamentadas pelos cartazes do PS e do PSD.

4. No dia em que escrevo este Olho de Gato, o Cândido Barbosa não conseguiu ganhar a Volta a Portugal, nem o contra relógio de Viseu.

Até no ciclismo isto está uma seca!

5. Era bom que chovesse na cabeça da Ministra da Educação a ver se ela refresca. Há risco elevado de tempestade nas nossas escolas, no próximo ano-lectivo.

6. O senhor Armando Mões disse ao jornal Público, de 13 de Agosto, que, se as coisas correrem mal para o Académico de Viseu, ele vai “perfilhar” um clube da primeira distrital para que este “(…) também aproveite as belíssimas instalações do Fontelo”.

O Fontelo já não é da Câmara?

Nota: Já depois de enviado este Olho de Gato para o jornal, foi aberto o trânsito no troço da A25 entre Oliveira de Frades e Talhadas. Pelo menos o último parágrafo do ponto 2 desta crónica ficou obsoleto. Só falta a chuva para toda esta prosa ficar completamente desactualizada. Oxalá!

Rock maoísta












terça-feira, 18 de agosto de 2015

A vida em espiral

Gif daqui

O amor é um orgasmo entre duas lágrimas
A lágrima é um lago rodeado de estertores
O estertor é um vulcão de vento
O vento é o caminho dos cantos
O canto é um mistério da boca
A boca é um abismo antes do peito
O peito é outro abismo entre dois sangues
O sangue é o motor que nutre o acto
O acto é uma dança contra o tempo
O tempo é o que mede espaços até então não numerados
A cabeça é um nó sobre o pescoço
O pescoço é como um istmo entre duas selvas
A selva é o ancestral do deserto
O deserto é um corpo já bebido
Beber não apaga o fogo na consciência
A consciência é outro relógio de areia
A areia faz do cactos um rei antigo
O antigo nos modela como a uma criança
Uma criança é o passado dos corpos
E o corpo é um combate que se perde
A vida é um espaço exacto entre duas mortes
A morte é um espaço exacto entre dois fogos
O fogo é um espaço exacto entre dois frios
O frio é uma chama abaixo de zero
O zero é o silêncio antes do número
O número é o verbo matemático
A matemática é o calculo da realidade
A realidade é o único incrível
O incrível é o que não podemos
E o que não podemos é o que queremos.
Patricio Manns


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tempo bifurcado

Fotografia de Xavier Miserachs 



I
Um só dia durando o corpo
no labirinto do homem entrando
no assombro das palavras amando
como morangos na boca das carpas




II
Só com a noite
a tua cabeça tomba
derradeira
na mão do remador que desvenda
a inicial clausura dos rios





III
Um só dia durando a voz
subterrânea ranhura na cortina
verde de teu coração florindo
puro na tensa atenção do amor





IV
Só com a noite
a pupila partilha a cor
exacta
extraindo mel no espelho rasurado
arduamente pelo medo






V

Só com a noite
maníaco voraz vislumbro
amor
dormindo por entre o espinho
por entre as mãos secretas
Glória Martins




domingo, 16 de agosto de 2015

Cantiga

Fotografia Olho de Gato



É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus lábios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram.
Nuno Júdice





sábado, 15 de agosto de 2015

As fadas

Gif daqui


As fadas… eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar…

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer…
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder…

O vestir… são tais riquezas,
Que rainhas, nem princesas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu…

Quando a noite é clara e amena
E a lua vai mais serena,
Qualquer as pode espreitar,
Fazendo roda, ocupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores
Ficam-se horas sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes de algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos batizados reais.


Morgana é muito enganosa;
Às vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir…
Ora festiva, ora grave,
E voa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja glória
Enche as páginas da história
Dos reinos de el-rei Merlim?

Umas têm mando nos ares;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquela vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha de condão.

O que elas querem, num pronto,
Fez-se ali! parece um conto…
Mesmo de fadas… eu sei!
São condões, que dão à gente
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre criancinha
Se quis ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palácios, num momento…
Beleza, que é um portento…
Riqueza, que nem se diz…


Ou então, prendas, talento,
Ciência, discernimento,
Graças, chiste, discrição…
Vê-se o pobre inocentinho
Feito um sábio, um adivinho,
Que aos mais sábios vai à mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não há de rir,
Querem elas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes há de mentir.

Quem as ofende cautela!
A mais risonha, a mais bela,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga agressiva,
É serpente que ali está!

E têm vinganças terríveis!
Semeiam coisas horríveis,
Que nascem logo no chão…
Línguas de fogo, que estalam!
Sapos com asas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente…
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer…
É-se morcego ou veado…
E anda-se assim encantado,
Enquanto a fada quiser!

Por isso quem por estradas
For, de noite, e vir as fadas
Nos altos, mirando o céu,
Deve com jeito falar-lhes,
Muito cortês e tirar-lhes
Até ao chão o chapéu.

Porque a fortuna da gente
Está às vezes somente
Numa palavra que diz.
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes já deitado,
Mas sem sono, inda acordado
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um belo dia,
Me quisesse a mim fadar…

O que seria? Um tesoiro?
Um reino? Um vestido de oiro?
Ou um leito de marfim?
¿Ou um palácio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quisesse,
Pedir também que me desse
Um condão, para falar
A língua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos…
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Comigo (podia ser?)
Me tocasse co’a varinha
E fosse minha madrinha,
Mesmo a dormir, sem a ver…

E que amanhã acordasse
E me achasse… eu sei! me achasse
Feito um príncipe, um emir!…
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando…
Deixa-me já, já dormir!
Antero de Quental



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Know-how light*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Estes dias de chanatos e calções pedem crónicas light. Dias descomplicados, dias de fartura com os nossos queridos emigrantes a comerem farturas, e nós com eles, nas festas das nossas aldeias. Dias de Feira de S. Mateus com um rancho no palco e outro no prato mas com parágrafos sem colesterol. Nem do bom nem do mau.

Este Olho de Gato devia ser light como este querido mês de Agosto mas não é fácil já que trata de um assunto pesado: o (des)acordo ortográfico.

Num texto publicado no início do mês no jornal Público, o ministro da cultura brasileiro, Juca Ferreira, perante o evidente desentusiasmo que o acordo ortográfico suscitou e suscita nos países lusófonos, tenta agora o número dos números. Que a língua portuguesa tem um grande potencial económico, que os países lusofalantes juntos estão "entre as cinco maiores economias do planeta" , que correrá leite e mel quando houver uma "ortografia uniformizada" em toda a CPLP, que é preciso convocar para esse combate “os intelectuais, os sociolinguistas, os midialivristas”, que...

O simpático governante brasileiro tanto desejou acentuar o lado material da nossa querida língua que até escreveu que ela “deposita know how" [sic].

Caro Juca Ferreira, é tão bom quando cê escreve "midialivrista". Quando escreve "know-how" não é tanto, acredite, embora não faça mal nenhum. A gente por cá, embora menos tecno-anglicista, alcança tudo. Percebe todo os imeios que nos enviar, acredite. Não tenha medo da diferença lexical, sintáCtica e ortográfica, homem. Acredite: quanto mais diversas e mais criativas forem as várias variantes da nossa língua comum, mais impacto ela terá no, como diz, "contexto global".

Mermão, repare na língua de negócios do mundo: o inglês tem dezoito grafias diferentes. Vê alguém a querer que os australianos escrevam da mesma maneira que os canadianos? Sabe porque é que eles não perdem tempo com esse tipo de projeCtos, meu caro? Porque eles têm know-how.