sexta-feira, 31 de julho de 2015

Dois a zero*

* Publicado hoje no Jornal do Centro



1. Nos últimos anos, onze mil empresas gregas instalaram-se na Bulgária. Perante um eventual Grexit, elas trataram de se salvaguardar, visto que a cotação do lev búlgaro está alinhada já com o euro, o país tem uma dívida pública inferior a 29% do PIB e vai entrar na eurozona. Este movimento empresarial massivo procura também, claro, salários que são um terço dos gregos.

Como explica o blogue de esquerda “Vias de Facto”, a abordagem nacionalista do Syriza, com o seu referendo da tanga, foi e é desajustada perante a realidade transnacional / supranacional / multinacional (usar prefixo a gosto) em que se movimenta o dinheiro. Perante a mobilidade do capital, a mobilidade do trabalho através da emigração é virtuosa mas insuficiente.

Como se viu neste desgraçado meio ano syrízico, a esquerda patina quando se encerra na crítica paroquial contra o “capital financeiro” ou contra a “sra. Merkel e o sr. Schäuble” (agora mais ele que ela). Uma abordagem “patriótica” a fazer coro com a sra. dona Marine Le Pen não leva a lado nenhum.

Tal como é necessária democracia com a eleição do “sr. Europa”, também as lutas dos trabalhadores têm que se tornar supranacionais, com sindicatos europeus.


2. Taxas moderadoras na interrupção voluntária da gravidez, muito bem. Nem se percebe por que razão elas ainda não são cobradas.

Consultas psicológicas compulsivas, como querem o PSD e o CDS, muito mal. E anti-deontológico. Profissional que as faça contra a vontade da mulher, alegando o clássico “estou a cumprir ordens”, deve ser posto a limpar retretes em Nuremberga.



3. Mal um vip do PS-Viseu publicou no facebook a fotografia dos cabeças-de-lista socialistas das próximas legislativas, levou logo com o seguinte comentário: «não se vê ninguém de Viseu.»

Se for “facebookada” uma fotografia dos cabeças-de-lista da direita, o comentário será: «olha o Leitão Amaro, olha o José Cesário.»

Mota Faria, 2 — António Borges, 0

Álbum japonês

Fotografia de Nobuyoshi Araki


A gueixa dentro de mim
aprova o homem que tu és
Já meu samurai
retesou-se ao máximo
quando a mulher dentro de ti
soltou os cabelos
nuvens douradas sobre os ombros
e ofereceu-me sensualmente
a cabeça para que os prendesse
As minhas mãos
prontas para o vôo
ficaram ao longe de meu corpo
nenhum músculo se mexeu.
Só meu coração
era cavalo bravo
galopando
alucinado
de desejo.
Eliane Pantoja Vaidya

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Pedaladas

1ª etapa da Volta a Portugal'2015 

Foi muito boa a ideia de fazer um contra-relógio no belo centro histórico de Viseu

Fotografia Olho de Gato




Fotografia Olho de Gato


Fotografia Olho de Gato


Fotografia Olho de Gato

As barcas gritam sobre as águas

Gif daqui



As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Herberto Helder


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Em Creta com o Minotauro

Minotauro, bebedor y mujeresCobre, aguafuerte, Pablo Picasso, 1933


I

Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.






II

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da "langue".
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.





III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.




IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.




V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.
Jorge de Sena



terça-feira, 28 de julho de 2015

Não sei quem em vós mais vejo

Banksy. Hell’s Kitchen, New York


Não sei qu'em vós mais vejo; não sei que
mais ouço e sinto ao rir vosso e falar;
não sei qu'entendo mais, té no calar,
nem quando vos não vejo a alma que vê;

Que lhe aparece em qual parte qu'esté,
olhe o céu, olhe a terra, ou olhe o mar;
e, triste aquele vosso suspirar,
em que tanto mais vai, que direi qu'é?

Em verdade não sei; nem isto qu'anda
antre nós: ou se é ar, como parece,
se fogo doutra sorte e doutra lei,

Em que ando, e de que vivo; nunca abranda;
por ventura que à vista resplandece.
Ora o que eu sei tão mal, como o direi?
Sá de Miranda


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Casa mia

Jacqueline Du Pré e Daniel Barenboim



Sorpresa
dopo tanto
d'un amore
Credevo di averlo sparpagliato
per il mondo
Giuseppe Ungaretti





domingo, 26 de julho de 2015

alguma coisa em mim

Gif daqui

alguma coisa em mim
ainda vai longe
alguma coisa em mim
não vai dar pé
alguma coisa em mim
parece que foi ontem
alguma coisa em mim
quer acontecer
alguma coisa em mim
não é mais minha
alguma coisa em mim
saiu da linha
alguma coisa em mim
não disse a que veio
alguma coisa em mim
acerta em cheio
alguma coisa em mim
não tá na cara
alguma coisa em mim
não tá com nada
alguma coisa em mim
não dá desconto
alguma coisa em mim
eu nem te conto
alguma coisa em mim
não tem mais fim
Alice Ruiz

sábado, 25 de julho de 2015

O PS-Viseu não foi 'smart' e ainda compra um — um texto de JB

* Comentário de JB à minha crónica publicada ontem no Jornal do Centro, intitulada "Grupos grandes"

1. Recordemos que o primeiro governo de Alexis Tsipras era formado por um número assinalável de académicos: seis economistas, um professor de Direito, um professor de Relações Internacionais, um matemático e um professor emérito de Filosofia. Era o gabinete com maior formação académica da Europa.

“Entre a desilusão e o festejo vai um caminho enorme. Deste lado pesa a desilusão, claro. Mas nada é a preto e branco, como sempre. A luta continua.” – Marisa Matias.

Todos criticam o Varoufakis, mas quantos já se deram ao trabalho de consultar o impressionante currículum do sr?

Por cá quantos Lusófonos, copy-paste, equivalentes, tecnofórmicos ou impenitentes gabarolas internacionais.

E pelos vistos ainda não passaram da fase “grupos grandes tendem a decidir mal, grupos grandes e com sono é asneira certa.”



2. Quanto a Viseu, um partido que se dá ao ”luxo” de despedir um deputado trabalhador, interveniente, atento e culto como Acácio Pinto, está de malas aviadas para comprar um Smart!

Bem podem tentar negar, jurar que foi tudo um mal-entendido, afirmar que bem tentaram, fazer-se de inocentes, prometer, que agora é que vai ser. Vira o disco e toca o mesmo e eles conseguem não se desmanchar a rir...

Deitaram fora o bebé com a água do banho.

E a liberdade?

Fotografia de Robert Doisneau





E a liberdade? Que pergunta! Não vossa, a pergunta, mas minha. Que a minha liberdade sou eu, e custo-me a sustentar. Entretanto, chegam-me notícias de que é necessário sustentar a liberdade alheia. Mas que faz o alheio, que não faz pelo seu próprio sustento?
Suspeito estar a escrever este pouco para o pouco de mim que ainda se escreve. Se alguém, por coincidência, tocar na minha mão, será decerto porque a noite é populosa. Havendo uma luz, num lugar qualquer, poderemos talvez ter rostos panorâmicos. Coisas do imaginário, onde nos perdemos e achamos.
Esta revolução, módica, tem o preço da vida. E não há outras: nem revolução, nem vida. Nem outro preço. Nem outro teatro do merecimento.
Herberto Helder





sexta-feira, 24 de julho de 2015

Grupos grandes*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. No último Olho de Gato chamei a atenção para a mania que há na “Europa” de decidir tudo em grandes maratonas negociais que se prolongam até altas horas da madrugada. E lembrei: “grupos grandes tendem a decidir mal, grupos grandes e com sono é asneira certa.”

A última decisão sobre a Grécia não foi grande coisa, mas já houve muito pior saído daquelas cabeças insones. Em Março de 2013, os crânios do Eurogrupo, perante o colapso bancário do Chipre, saíram-se com a ideia de taxar todos os depósitos, os dos ricos e os dos pobres — uma bomba atómica na confiança das pessoas no sistema bancário. No dia seguinte, houve recuo e as coisas foram acertadas: perdas só em depósitos acima de cem mil euros, o valor garantido para todos os depósitos da eurozona. Os gregos, à cautela, levaram os seus para debaixo do colchão, mas isso é outra história.

Regressemos ao tema: porque é que grupos grandes tendem a decidir mal? Rolf Dobelli, em 'A Arte de Pensar Com Clareza' chama a este fenómeno “preguiça social”. Acontece em grupos em que o esforço individual possa ficar diluído no colectivo. Quanto maior o grupo, mais ronha tenderá a fazer cada elemento. Se os resultados forem bons — “por acaso foi ideia minha”. Se forem maus — “por acaso foi ideia do grupo”; a isto os especialistas chamam «difusão de responsabilidade».

A decisão do terceiro resgate grego não deve ter sido má de todo já que há dois “por-acaso-foi-ideia-minha”: do nosso Pedro Passos Coelho e do primeiro-ministro holandês.

Já quanto àquela decisão idiota, e felizmente abortada, de esfaquear todos os depósitos cipriotas a culpa há-de morrer celibatária.


António Borges (#2 na lista do PS)
e Marisabel Moutela (#4)
2. A comissão política distrital do PS deve ser um grupo mesmo muito grande. 

É que aprovou uma lista de candidatos a deputados com criaturas como Marisabel Moutela e Lúcia Araújo Silva que não têm vida política fora do aparelho partidário mais encardido.

Já se sabe: grupos grandes tendem a...

Bayazid

Imagem daqui



Libertei-me de Bayazid
como uma cobra de sua pele...
Apercebi-me então
que o amor a amada e o amante
se confunde... Eu sou o vinho
o bebedor e o escanção...
Pérsia — Séc. IX — autor desconhecido
Trad.: Jorge Sousa Braga

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A mulher e a casa

Fotografia de Nobuyoshi Araki


A casa é viva
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio

Planos brancos
e cores lisas

Dorme no vidro
tranquilo

Dorme viva

A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores

A própria cidade é branca

A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco

O puro nó
do silêncio

Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo

A casa é ela
em espiral
rodando
branca

É fino o ar
quase sem pó
uma árvore dá
uma curta sombra

Uma brisa lava
a casa fresca

A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar

A caranda é nua
a mulher é nua

Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu
mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul

Uma vela branca
de minúcia fresca

dá ao olhar a brisa

dá ao silêncio o mar

A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio
António Ramos Rosa

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Verão* — Ele e ela (#0)**

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Julho de 2005
** Série que pode ser lida toda nesta etiqueta: Ele e Ela 


Verão

Estava ainda calor, apesar do sol há muito se ter escondido debaixo do mar, para os lados de Aveiro.
Ele e ela iam na Avenida da Europa, a pé, lado a lado.
Eles tinham-se habituado àquela hora de caminhar. Era diária aquela rotina de Verão. Sem pressa, mas também sem paragens, entendiam aquele passeio como uma terapêutica. Era uma hora a gastar energia; um substituto dos ginásios, cansativos demais, caros demais.
Todas as noites de Verão, aquela era a hora de caminhar. Primeira etapa: de casa até ao relógio do Polis. A seguir, Avenida da Europa para cima e para baixo. Cinco quilómetros, mais coisa menos coisa.
A casa ficava, de janelas abertas, à espera da brisa da meia-noite.




— Afinal, sabes, tudo o que nos está a acontecer é porque Portugal é pobre.
— De espírito.
— Lá estás tu. Sempre a mangar. Sempre são seis vírgula oitenta e três de défice, disse o Constâncio.
— Vírgula setenta e dois. Contas erradas. É um problema, a matemática. A matemática dele, do Constâncio.

— Isto está mal. Nós somos pobres.
— O problema não é sermos pobres. O problema é termos cada vez menos gente nas aldeias.
— Não percebo.
— Pois.
— Explicas?

— Há um livro agora que se vende muito que diz que o mal dos portugueses é a inveja. Eu não li. Ouvi falar nele. É de um filósofo. Qualquer coisa Gil.
— Não conheço. Filósofos só conheço o pai do Dinis.
— Esse? Vai ter uma vitória bárbara. Tem muitas ideias num documento, no computador; mais de trinta mil vezes bateu ele no teclado.
— Achas que ele ganha?
— De Caras.
— Ao menos isso… Mas não percebi a das aldeias.
— Pois.
— Explicas?
Fotografia Olho de Gato

— Gosto de caminhar por esta Avenida da Europa abaixo. É a descer. Cansa menos.
— Estás cada vez mais preguiçoso, mais langão.
— Pois. Põe-me defeitos, que eu gosto…
— Olha para a tua barriga…

— Gosto de ver a Sé daqui. Gosto de ver o prédio da caixa.
— Dizem que é para deitar abaixo. Pelo menos cinco andares.
— Vai ser tudo no mesmo ano. Eles prometeram. Em 2015, implodem o prédio e inauguram o TGV. O Barroso e o Aznar vão ser os maquinistas e o Ruas vai ser o pica-bilhetes.

— Pois. Mas ainda não explicaste o problema de haver menos gente nas aldeias.
— É como te digo. Isto é um país de invejosos. É o que diz o qualquer coisa Gil. O filósofo. No tal livro que te falei.
— Já disseste isso. Também acho. Há muita inveja.
— Muita. Há mais inveja que Porsches. Viste aquele? Ia a mais de cem. Lindo!
— Em Viseu há gente com muita guita.
— Deve ser empreiteiro.
— Futebolista, talvez.
— Estás pior da cabeça! Então não sabes que o Académico está de rastos?
— Tá bem. É verdade. Mas podia ser aquele rapaz do Boavista que namora a Marisa Cruz. Ela vem cá muito a Viseu. É de cá. Ouvi dizer.
— Também ouvi dizer que ela é de cá…

— A Marisa podia dar-nos o Euromilhões. Isso é que nos dava jeito.
— Fazíamos uma vivenda na Quinta do Bosque…
— Do Lago…
— Do Bosque. Uma casa com piscina.
— Então não íamos viver para o Algarve?
— Não. Eu gosto da minha terra. Vai tu para o Algarve, se quiseres.
— Mas eu sempre quis uma casa à beira-mar…

— “A minha alegre casinha tão modesta à beira-mar”. Tivesses ido ao IberRock. Ouvir os Xutos.
— Com o bilhete a dezoito euros?
— Pois é. Não dá. A culpa do défice é dos professores…
— Tens razão.
— Foram os professores que puseram o país de tanga. Seis vírgula setenta e dois de défice!
— Mais ou menos isso.
— Depende se as contas estiverem bem. Os professores nem as contas ensinaram a fazer ao Constâncio. Os professores fazem muita sorna e reformam-se cedo. Foram eles que desgraçaram o país.

— Há quem diga que foram os polícias.
— Viste? Não multaram o gajo do Porsche.
— Uns calões! Não explicaste ainda aquela das aldeias…
— Fica para outra vez.

— Menina, dê-me um Cornetto de morango, por favor.
— Para mim um Magnum branco…

Disseste: o sol nasceu

No eternal reward will forgive us for waisting the dawn
Jim Morrison 

Disseste: o sol nasceu
Foi verdadeiramente então que o sol nasceu
e que nos habituámos todos a dizer
que o sol nasceu.

Às vezes pensamos que acontece várias vezes
mas é ilusão de óptica que não nos deixa ver
o grande círculo azul em cujo centro
tu dizes eternamente:
o sol nasceu.
Pedro Tamen

terça-feira, 21 de julho de 2015

Athens — Street Art

«Some people don't like the city, and they paint it... to change it»




Direction: George Fiorakis
Editing: Alexander Haritakis
Graphics: Afroditi Bitzouni- Indivisuals Design Collective
Music selection: Manolis Fiorakis
Proofreading: Lila Tzamousi, Nana Kanakaki
English subs: Dimitra Fasfali

A espiga

Fotografia de Miron Zownir


Dir-te-ia: o verão ainda
não findou: Vem
e colhe
a última
espiga. Porque
nela colhes
todo o verão.
Albano Martins

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Há um rio e o outro lado do rio

Fotografia de Ismail Atiev

Há um rio e o outro lado do rio.
Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho
e sem saber ao certo
se o que entra é a cor de um certo tempo antigo
ou o licor de um outro tempo novo.
E verifico então de olhos molhados
que não há que saber
nem distinções na paisagem
— que é uma só no largo coração.
Pedro Tamen

domingo, 19 de julho de 2015

Oracion

Ftoografia de Jacob Aue Sobol



Líbranos, Señor,
de encontrarnos
años después,
con nuestros grandes amores.
Cristina Peri Rossi

sábado, 18 de julho de 2015

Pára-quedistas — por JB *

* O segundo ponto da minha crónica de ontem no Jornal do Centro — Pára-quedistas — suscitou este trabalho de JB


Não tenho vontade, inspiração, pachorra para escrever sobre a nova modalidade do PS/Viseu: o paraquedismo.

Digo o que penso por imagens roubadas no Porto, este mês, nessa “horrorosa” e “desprestigiante” forma de arte chamada street art (bem haja aos artistas).



Com este cabeça de lista…



Antes…



Porque no PS VISEU…


Em conclusão, só resta acreditar…




JB

* Acrescentada às 19H30 mais informação fornecida pelo JB sobre as imagens — "no Porto, este mês".

Cámbiame tus certezas

Fotografia de Shomei Tomatsu



Cámbiame tus certezas por mis dudas,
tus sólidas verdades
por mis incertidumbres gaseosas.
Tu razón absoluta
por mis contradicciones relativas,
tus frases lapidarias
por cualquier verso suelto que me sobre.

Tus ciegas convicciones
por una gota de mi escepticismo,
tu seguro de vida
por alguna sorpresa en mi futuro,
tu rígida coraza
por el amor a pecho descubierto,
tu aparente alegría
por mis noches reales de tristeza,
tu inflexible moral
quizá por el final de mis principios,
tu existencia perfecta
por lo que no aprendí de mis errores.

Pero ya me conoces
así que no lo pienses demasiado;
yo no tengo palabra
y tal vez me arrepienta del negocio.
Ana Montojo Micó




sexta-feira, 17 de julho de 2015

Pára-quedistas*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro 


1. As coisas na “Europa” não andam bem e isso não admira: é difícil ter pedal para aguentar reuniões atrás de reuniões madrugada dentro. Grupos grandes tendem a decidir mal, grupos grandes e com sono é asneira certa.

A Grécia está a ser governada por uma coligação de nacionalistas de extrema-esquerda e de extrema-direita. Ora, como não gostam da decisão supra-nacional, os nacionalistas vão pondo paus o mais que podem na engrenagem europeia. Em poucos meses, a dupla Tsipras-Kamménos conseguiu duas coisas: secar os bancos gregos e duplicar o número de eurocépticos e anti-europeus.


Fotografia daqui
Marine Le Pen, Nigel Farage, Pablo Iglésias, e demais nacionalistas europeus, aplaudem os seus congéneres de Atenas. 

O sr. Putin esfrega as mãos. 

A máquina de simplificação populista que ele teleguia está mais eficaz do que nunca.

Depois do espalhanço syrízico, os papagaios nas televisões repetem agora um novo mantra: «a 'Europa' morreu». Claro que a UE não morreu, mas precisa de ser retirada do seu labirinto antidemocrático e autoritário.

Os cidadãos têm que poder eleger directamente o “sr. Europa" ou a "sra. Europa", um eleito que trate do interesse europeu pelo menos tão bem como Angela Merkel trata do interesse alemão.**


2. Em 2011, António Almeida Henriques, José Junqueiro e Hélder Amaral livraram o distrito de Viseu de cabeças-de-lista pára-quedistas. Este ano esse pleno já não é possível. Já foi anunciado: o PS vai ter uma pára-quedista. Pior ainda: vai ser uma figura política de meio da tabela.

O pára-quedismo político costuma ser visto como uma humilhação a quem tem de acomodar o "migrante". É, de facto, uma humilhação, especialmente para António Borges. Junqueiro tinha estatura para cabeça de lista, ele não.

Mas a humilhação não é só para quem recebe. A humilhação também é para quem é recebido. A primeira pergunta a fazer à cabeça de lista do PS é esta: «Maria Manuel Leitão Marques, por que razão o PS-Coimbra não a quis?»

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** Leitura complementar aqui

Possibilidades

Fotografia de Javier Valhonrat



Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
em vez de amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
Wislawa Szymborska




quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sem recurso

Daqui





De meu e teu que resta
entre os ramos e o voo
das andorinhas?
Podes
convocar as palavras, adicionar
à voz o espanto, a ira, esgrimir
com as mais ásperas
vogais. Da morte
e seus juízos imutáveis
não há recurso
Albano Martins


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Do Tempo ao Coração

Gif daqui



E volto a murmurar         Do cântico de amor
gerado na Suméria         às novas europutas
Do muito que me dás ao muito que não dou
mas que sempre conservo entre as coisas mais puras

De uma genebra a mais num bar de Amsterdão
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas         tantas mãos         que nos passam pelas mãos
a tão poucas que são as que nunca se esquecem

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que não aparecem no mapa
De outros muros que só aparecem aqui

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

Da pertinaz presença         E da longevidade
do corvo         do chacal         do louco         do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

Do que foi noutro tempo a saúde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo         ao coração minado pelo cancro
Dos rins         ao infinito incubado na cólera

Do tempo ao coração         mas com pausa na pele
como «Roma by night» entre dois aviões
como passar o Verão numa vogal aberta
como dizer que não         que já não somos dois

Dos rins ao infinito         A este que não outro
Ao que rola dos rins         Ao que vai rebentar-te
na câmara blindada e nocturna do útero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

Da curva de entretanto         à entrada do poço
De soletrar em mim         a ler         nas tuas mãos
como é rápido         e lento         e recto         e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.
David Mourão-Ferreira





Jardins Efémeros — 2015 (#3)

Esta é, sem dúvida, "A" imagem dos Jardins Efémeros deste ano:
Fotografia Olho de Gato

Detalhes aqui e aqui

terça-feira, 14 de julho de 2015

Ninguém sabe

Gif daqui

Apagaram-se as luzes azuis da ambulância
e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue.
No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa,
na cama, no trabalho, o que vi deixou-me
descansado: humano, demasiado humano.
Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode
dizer qualquer um, e mesmo que quase não
haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira
do precipício, levanta a garganta e berra
para aí até já não haver quem te oiça.
Da missa metade não soube em tua história
e também não é preciso, todos nós já corremos
para um hospital e viemos de lá a cheirar
a doença e a morte. Por nós ou por outros,
nessa grande casa da tristeza e do alívio,
democracia total o acaso que dispara
e acerta ou não acerta em quem vai a passar.
Alguém te segura à beira da derrocada
e te pergunta saberás se lá no fundo há
algo que valha a pena? Pode ser que sim,
pode ser que não, ninguém sabe.
Helder Moura Pereira