terça-feira, 30 de junho de 2015

caminha pelo sangue

Fotografia de Ellen von Unwerth



caminha pelo sangue, na pele
rugosa do amanhecer,
a tão pequena tosse do outro
lado das palavras: como se
se dividissem os sentidos,
a visão, o tato animal,
o veneno riscado, arrancado
às paredes da luz
e sobre o flanco abrisse
uma doença uma razão
meticulosa de existir,
um sofrimento a cada
instante mais veloz, mais ágil
uma secreta ausência perdoada
António Franco Alexandre


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Em simulacro: os anjos

Gif daqui



Mas como navegar em tempo branco
ou rio de uma só margem?
Não há água possível de apagar o sol,
nem voz capaz de amedrontar
esses anjos maiores

Mas não são eles
que desejo aqui,
não me cantam os anjos de Rilke,
nem os anjos de Klee,
só o resto talvez encantará

Nesse resto te quis,
despojo de anjo, asas cortadas,
rasgado em branco, o branco
transformado em roxo cor de morte,
como o amor e a morte
aí vacilam

Noutra língua recuso-me a falar,
nesta tela recuso-me a pintar,
nestas cores —
nunca esboçando um anjo
pintado a inocência

Na iminência de te ter amado,
sonho-te: asas cortadas,
tudo o mais rasgado
nas dobras do mais alto do poema,
nas dobras da pintura,
fotografia a preto e branco

Rasgar-te-ei a branco,
serás moldura horizontal,
desagregada.
Braços, asas abertas,
algum dourado em torno,
mas gesto e desviada: a cor

Em torno da mudança tornarei,
sem dizer “meu amor”,
que a língua em que falei
vivia em melodia,
mas não esta —

E sob a minha pele,
aí estiveste, anjo desagregado
e sem guitarra,
varrendo lentamente o céu das
outras mãos

Sem corpo agora,
sem asas,
sem o conforto que a poesia traz,
mesmo que na memória,
ou no sonhado, serás:
um anjo condenado ao paraíso,
sem licença nem bênção do inferno

A ti amei:
imagem,
simulacro nem de mim

O resto:
um intervalo —
Ana Luísa Amaral


domingo, 28 de junho de 2015

Cedo ou tarde

Gif daqui


Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.
Albano Martins

sábado, 27 de junho de 2015

todo lo que he aprendido

Gif daqui


todo lo que he aprendido es farragoso
y me da miedo

todo lo que desconozco también

lo que sé y lo que ignoro
me obliga a permanecer en guardia

sólo puedo flotar inmóvil
feliz como si fuera nuevo
en los escasos segundos que transcurren
entre la intuición y el desastre
Íker Biguri




sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poder moderador*

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A dita "lei da cópia privada" foi aprovada na assembleia da república, vetada pelo presidente, mas, depois, o parlamento decidiu reconfirmar o diploma. Cavaco Silva, nos termos constitucionais, mesmo discordando teve que o promulgar.

Num regime semi-presidencial como o nosso, o PR exerce o poder moderador que, nas monarquias constitucionais, é atribuído ao rei. 



O PR/rei pode vetar uma lei, salvando com esse veto a sua face, e essa lei é na mesma aplicada se for essa a vontade do poder legislativo.

2. Cavaco esteve bem no caso das "cópias privadas" e esteve muitíssimo bem no problema mais agudo que teve que resolver nos seus dois mandatos quando recusou a demissão "irrevogável" de Paulo Portas, em Julho de 2013, em pleno programa de resgate. Se esta demissão tivesse sido aceite, Portugal ficava num trilho político parecido com o grego.

Contudo, o balanço global dos dois mandatos de Cavaco Silva é negativo porque falhou nas duas funções principais do poder moderador:

(i) um PR deve ser a válvula de escape do "vapor" acumulado pela conflitualidade política; um PR deve ouvir e dar voz aos "perseguidos" e aos "vencidos" pelos governos. Ora, Cavaco ao "mata" de Sócrates disse sempre "esfola" (que o digam os professores no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues); ora, Cavaco ao "mata" de Passos "esfolou" ainda mais depressa;

(ii) um PR deve ser um símbolo e um factor de unidade nacional e Cavaco Silva não o conseguiu ser no seu segundo mandato; tudo começou logo na noite da segunda vitória quando ele não teve grandeza para ultrapassar a campanha sujinha feita pelo poeta Alegre e o tiririca Coelho da Madeira.

3. Estas duas funções presidenciais serão bem exercidas por Marcelo Rebelo de Sousa. O feitio crispado de Rui Rio parece mais à vontade em matéria de unidade nacional do que como "válvula de escape" do regime. Sampaio da Nóvoa, pelo que se tem percebido, nem numa coisa nem noutra.

As mulheres têm uma assombrada roseira

Gif daqui

As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus –
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.

As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois a boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam felicidade no meio da noite,
os dias brilhantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga –
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
Alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais.
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
de depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
Herberto Helder


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Com grandes esperanças já cantei

Fotografia de Pratik Naik— Gif daqui  

Com grandes esperanças já cantei
com que os deuses no Olimpo conquistara;
depois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa-me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pela mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n’alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente.
Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Solstício*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 24 de Junho de 2005


1. Os dias estão grandes e as noites pequenas. O sol, vertical, mingua-nos a sombra. A lua fraqueja por cima dos candeeiros de iluminação pública. As tílias fazem-nos respirar fundo o fundo dos pulmões. No ar, aromas conhecidos.

O calor prenuncia o S. João. Vildemoinhos. Cavalhadas.
Cavalhadas de Vildemoinhos, 2008
Fotografia Olho de Gato


O calor anuncia a festa dos corpos. Repetem-se os rituais dos dias maiores do ano. Aí estão novamente as festas solsticiais. É assim há milénios, desde os tempos pagãos.

Pendurados nos nossos aparatos e na nossa tecnologia, julgamo-nos diferentes dos nossos tetravós. Não somos. Somos só o que verdadeiramente importa: somos humanos.

2. No último Olho de Gato, falei de amnésias, de esquecimentos, de perca de memória. Foi uma ideia que me ocorreu a partir do colapso do disco rígido do meu computador.

Hoje quero falar do contrário. Quero falar das alturas em que a memória funciona bem. Em que nos lembra bem o acontecido. Em que ficam documentos para esbaterem a nossa incerteza e para desafiarem as nossas dúvidas.

3. Está a ser feita a musealização da muralha da Rua Formosa.
Muralha coeva da lista do Bloco de Esquerda por Viseu, disse eu, com ironia, no início deste ano, para escândalo e fúria dos meus amigos bloquistas.

Estas pedras são a prova da ocupação milenar do nosso território. Os nossos avós andaram por aqui e marcaram, com a muralha, um dentro e um fora.

Sempre foi claro, para mim, que aquele achado era muito importante. Tinha que haver uma forma de dar testemunho dele às pessoas. Na altura, não fui meigo aqui, no Olho de Gato, com uma técnica que recomendou o enterramento daquelas pedras.

Politicamente, foi feito com eficácia e na altura própria o que tinha que ser feito. Vai ser colocado vidro por cima da muralha. Espero que, para lá das quadrículas de vidro, das luzes e das máquinas, se saiba mostrar aos passantes e aos visitantes, a singularidade daquele lugar.

Têm a palavra os especialistas. Falem também os criativos, os poetas, os músicos, os artistas. Saiba-se contar a história daquilo. Com aquela nossa memória preservada, faltam agora as histórias daquela história.

4. Anna Larina tinha 16 anos quando se apaixonou por Nikolai Ivanovitch Buckarine, um líder bolchevique de topo, na altura com 42 anos. Casaram algum tempo depois. É uma história de amor sublime e é uma história trágica porque se cruza com o período de terror estalinista.

Nikolai Ivanovitch foi preso em Fevereiro de 1937 e executado com um tiro na nuca, depois dum julgamento paranóico em que “confessou” um conjunto de crimes que nunca cometeu, nem nunca poderia ter cometido.

Quanto à bela Anna Larina, foi presa poucos meses depois do seu marido, esteve em vários campos de concentração, sofreu horrores, mas conseguiu sobreviver ao comunismo.

Anna passou a vida empenhada na reabilitação política e histórica do seu amor. Conseguiu-o, de uma forma definitiva, em 1988; governava então, na União Soviética, Mickahil Gorbatchov.

A Terramar acaba de editar “Bukharine, Minha Paixão”, a autobiografia de Anna Larina Buckharina. O preço (31,50 euros) está a pedir que o leitor aproveite os descontos da Feira do Livro.
Um mês antes de ser preso, em Janeiro de 1937, Bukharine, que sabia que ia morrer uma morte desonrada, ajoelhou-se aos pés da sua Anniutchka e fê-la “(…) aprender de cor, como uma oração, o seu testamento, a sua Carta à Geração Futura dos Dirigentes do Partido”. (p. 14/15)

Anna guardou este testamento político na memória. Nunca o pôde escrever em lado nenhum. Um texto assim, apanhado pelos esbirros comunistas, significava a morte. Anna guardou-o na sua cabeça e viveu décadas na obrigação de o não poder esquecer. O texto foi publicado, pela primeira vez na URSS, em 17 de Abril de 1988. Mais de 50 anos depois.

Soneto do amor difícil

Fotografia de Mark Seliger


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira

terça-feira, 23 de junho de 2015

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O país das maravilhas

Gif daqui



Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
António Cícero

domingo, 21 de junho de 2015

Verão

Gif daqui



De súbito, na rua, está
outra vez um calor inconcebível,
o matraquear das sandálias de pau, as raparigas
abrem as blusas, não me atrevo
a sair da minha pele hirta
de suor e suspiro pelo Inverno,
que tem o seu lado bom, escuridão eterna,
humidade salgada, botas pesadas como pedras,
e o desejo das blusas abertas,
sandálias de pau e luz.
Hans-Ulrich Treichel

sábado, 20 de junho de 2015

"And Now For Something Completely Different" (#115)

O gato avisa

Lágrimas

Lana del Rey
Gif daqui



Ela chorava muito e muito, aos cantos,
Frenética, com gestos desabridos;
Nos cabelos, em ânsias desprendidos,
Brilhavam como pérolas os prantos.

Ele, o amante, sereno como os santos,
Deitado no sofá, pés aquecidos,
Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
Sorria-se cantando alegres cantos.

E dizia-lhe então, de olhos enxutos;
- "Tu pareces nascida de rajada,
"Tens despeitos raivosos, resolutos;

"Chora, chora, mulher arrenegada;
"Lacrimeja por esses aquedutos...
"Quero um banho tomar d’água salgada".
Cesário Verde

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Asa de mosca*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro




Fernando Figueiredo
1. Fernando Figueiredo e o seu blogue "Viseu, Senhora da Beira" (VSB) foram, até às autárquicas de 2013, protagonistas centrais no panorama mediático local.

Impulsivo, verrinoso, cortante, o desassombro de Fernando Figueiredo foi criando anti-corpos nos políticos da cidade — que são muito palmadinhas-nas-costas, muito pai-nosso-de-avental-posto, muito mais de acordo do que parece a quem os ouve na assembleia municipal.

O VSB às vezes excedia-se, mas tinha um papel importantíssimo:

(i) fixava a agenda — assunto tratado naquele blogue era falado pelo povo (na caixa de comentários e não só) e pelas elites (na caixa de comentários e não só);

(ii) fazia o papel de "asa de mosca" (mão que, no póquer aberto, só ganha num caso: perante a mão máxima, o Royal Straight Flush) — ao usar esta metáfora quero dizer que quem tinha na mão o jogo do poder em Viseu só receava a "asa-de-mosca-VSB"; esta acabava por funcionar como um "moderador" dos poderes: impunha algum cuidado aos poderosos.

Um desses poderosos, Fernando Ruas, no final do seu mandato, decidiu demandar o VSB em tribunal. Fui testemunha de defesa de Fernando Figueiredo nesse processo. Deixada aqui esta "declaração de interesses", não admirará a ninguém a alegria que senti ao saber que Fernando Figueiredo foi absolvido na Relação e a esperança que tenho no rápido regresso do VSB à boa forma que habituou os seus leitores.

É também bom saber-se que o nosso estado, desta vez, não vai sofrer a costumeira condenação no Tribunal Europeu de Direitos Humanos por desrespeito grosseiro da liberdade de expressão.

2. O PS acaba de apresentar uma proposta de alteração à lei eleitoral para encurtar os prazos eleitorais. É uma alteração mais que necessária e a última coisa útil que este parlamento poderá fazer.

A Grécia consegue ter um novo governo eleito em menos de quatro semanas. Em Portugal gastam-se quatro meses em caracolismos formais.

Are you drinking?


Charles Bukowski

washed-up, on shore, the old yellow notebook
out again
I write from the bed
as I did last
year.
will see the doctor,
Monday.
"yes, doctor, weak legs, vertigo, head-
aches and my back
hurts."
"are you drinking?" he will ask.
"are you getting your
exercise, your
vitamins?"
I think that I am just ill
with life, the same stale yet
fluctuating
factors.
even at the track
I watch the horses run by
and it seems
meaningless.
I leave early after buying tickets on the
remaining races.
"taking off?" asks the motel
clerk.
"yes, it's boring,"
I tell him.
"If you think it's boring
out there," he tells me, "you oughta be
back here."
so here I am
propped up against my pillows
again
just an old guy
just an old writer
with a yellow
notebook.
something is
walking across the
floor
toward
me.
oh, it's just
my cat
this
time.
Charles Bukowski

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Melro em gaiola

Fotografia de SM



I

Contrariamente aos outros pássaros,
o melro não canta: ri-se. O melro
é uma gargalhada semovente
voando entre as moitas,
deixando
farrapos de riso a esvoaçar nos ramos.

II

Pois bem. Alguém que odeia o riso
encerrou o melro na gaiola.
Alguém a quem o riso à solta
fazia espécie
quis ter aquele riso encarcerado,
à mão de semear.

Alguém capturou o melro e o meteu,
embrulhado no negrume da plumagem,
na gaiola, e pôs a gaiola na varanda.
Por maior escárnio, já se vê.




III

Nos primeiros tempos o melro não cantou
- quero dizer, o melro não se riu.
Quem quer perde o sentido de humor
cerrado numa gaiola.

Mas com o tempo, o silêncio foi-lhe pesando
à medida que ímpetos de riso borbulhavam
com crescente intensidade junto ao bico.

Até que o riso explodiu,
saltou fora como a rolha da garrafa
de champanhe, e eis a gaiola cheia
de canto – perdão, de riso.







IV

Nisto, os melros são como as outras aves,
soltam a voz para dizer: este lugar é meu,
quem quiser disputar-mo tem que se haver comigo.
Dizem-no geralmente a propósito de lugares amplos,
onde caibam voos inteiros e que valha
a pena defender de intrometidos.

Mas o melro na gaiola aprende depressa
a proporcionar o voo e a voz ao espaço que tem.
O impulso é maior do que o espaço disponível.
E canta – isto é, ri-se – como se fosse dono
duma fatia de mundo razoável.

Para o melro,
a gaiola é mesmo assim um espaço
que vale bem a pena defender
a gargalhadas.




V

Lição a reter: as expectativas
são um lugar
só aparentemente degradável.
Podem sempre encolher, mas nunca morrem.

VI

E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-se rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
- e eu a defendê-lo a golpes de riso.

Como o melro, tal e qual.
A. M. Pires Cabral


quarta-feira, 17 de junho de 2015

"And Now For Something Completely Different" (#114)

Mini-tanques pessoais russos da primeira guerra mundial 

Recaídas caídas idas

Fotografia de Slim Aarons



De vez em quando uma recaída
na fumarada dos blues,
nos uivos do saxofone
de não sei quem.
De quando em quando um dos livros
que estão em cima do guarda-
-fato. Há dias Camus
caiu-me aos pés. Meu Deus,
que belos tempos, quando tudo
era ainda sem sentido e não
me doíam as cruzes.
Hans-Ulrich Treichel


terça-feira, 16 de junho de 2015

A boca


Fotografia de Chad & Janine Movold 



A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio de Andrade


segunda-feira, 15 de junho de 2015

o teu sorriso é Proust

Fotografia de Joseph Szabo



o teu sorriso é Proust a lembrar
"O único paraíso é o paraíso perdido"
A. Khimm




domingo, 14 de junho de 2015

La vejez es una máscara

Fotografia de Jacob Aue Sobol 



La vejez es una máscara:
Si te la quitas, descubres
El rostro infantil del alma.


La niñez te va siguiendo
Durante toda la vida.
Pero ella va más despacio
Y tú andas siempre de prisa.


Cuando la vejez te llega,
No es que vuelves a la infancia,
Es que moderas el paso
Y al fin la niñez te alcanza.
José Bergamín


sábado, 13 de junho de 2015

As musas cegas

Gif daqui

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
- Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. - Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é húmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.

A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mordomos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 2010, o supremo tribunal americano, no caso "Citizens United versus Federal Election Commision", decidiu que qualquer empresa, sindicato ou associação pode contribuir sem limites para as campanhas políticas, com o fundamento absurdo de que as entidades colectivas devem ter os mesmos direitos que os indivíduos. Onde havia "um-homem-um-voto" passa a haver uma espécie de "um-dólar-um-voto".

Como explica Guy Standing, em "O Precariado A Nova Classe Perigosa", este "acontecimento retrógado" vai chegar a "todo o lado" já que as decisões do supremo americano tornam-se "precedentes globais".




2. Durão Barroso e José Sócrates não precisaram de esperar por este "precedente global" americano para misturarem política com negócios. Eles fizeram o papel de "mordomos" políticos de Ricardo Salgado e a coisa correu mal. Levou-nos à bancarrota de 2011 e tudo quanto é grande empresa, seja ela rentista ou produtiva, foi sendo adquirida por capital estrangeiro.

No trambolhão foram-se os dois mastodontes do regime — a EDP e a PT. Décadas de acumulação patrimonial, proveniente de preços protegidos, estão agora ao serviço de estratégias não portuguesas.

Lembro um negócio de energia e outro de media que ajudaram a esta descida ao inferno:

— a concessão em 2008 das novas barragens à EDP por 700 milhões de euros para "compor" o défice daquele ano foi uma irracionalidade económica e ecológica; ainda por cima, destruiu a beleza única do vale do Tua; poucos anos depois, aquela operação desastrosa — feita por um terço do seu valor de mercado — escorregou pelas três gargantas chinesas abaixo;

— a migração da televisão analógica para a TDT, levada a cabo pela PT, mais bem dito, levada a cabo pelo divino espírito santo que era quem mandava na PT, obrigou os portugueses a gastar dinheiro para ficarem com... os mesmos quatro canais que já tinham. Até a TDT grega tem 17 canais. Foi um golpe inqualificável nos portugueses mais pobres, mais sós e mais velhos.


Boire sans soif et faire l'amour en tout temps


Fotografia de George Krause



Boire sans soif et faire l'amour
en tout temps, madame, il n'y a que ça qui nous distingue des autres
bêtes
Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Arqueologia da bancarrota de 2011

Ao longo do ano de 2010, a república portuguesa viu o seu acesso aos mercados a ficar cada vez mais caro e difícil. O seu rating foi trambolhando enquanto o então primeiro-ministro, José Sócrates, ia fazendo PECs a seguir a PECS, e ia adjudicando obras-públicas à Mota Coelho Espírito Santo Engil e à Lena.

A conversa dos papagaios das televisões, durante todo aquele ano, não passou nunca de variações em dó menor acerca dos maus fígados das empresas de rating que se tinham mancomunado com os senhores do universo para fazer mal ao país. Isto é, o país não estava informado de que já não havia dinheiro para pagar os défices que, então, atingiam dois dígitos. 

Ao mesmo tempo, e em desespero, o chefe do governo de então corria a pedir dinheiro, em vão, aos kadhafis deste mundo.

O país estava bloqueado politicamente, com um governo minoritário em negação e cheio de pensamento mágico, com o primeiro-ministro, tal qual a Maya, a apelar às "energias positivas" e um presidente da república, sempre timorato, a assistir a toda esta degradação e bloqueio apenas preocupado com a sua reeleição.

Depois de uma das campanhas eleitorais mais lamentáveis da história da terceira república, Cavaco lá foi reeleito no início de 2011.

Fernando Teixeira dos Santos, em Abril, não aguentou mais e pediu o resgate, quando os cofres públicos já só tinham 300 milhões de euros. 

Pela terceira vez em 40 anos,  Portugal ficou sob tutela, uma nada discreta tutela dos credores que nos emprestaram 78 mil milhões, 40% do PIB (!).

Este acto em 25ª hora de Fernando Teixeira dos Santos valeu-lhe ontem, no 10 de Junho comemorado em Lamego, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Fotografia de Paulo Novais/Lusa (daqui)


Disse ele ontem aos jornalistas:  “O sr. Presidente veio reconhecer o mérito dessa decisão [de pedir auxílio à troika] que foi um serviço prestado ao país. Teve o privilégio de o reconhecer na minha pessoa o que me deixa muito honrado.” 

Teixeira dos Santos devia ter batido o pé mais cedo a José Sócrates? Claro que sim e ele já o reconheceu.

Mas a responsabilidade não foi só dele. Isso competia, em primeira linha, a Cavaco e ao PS. Cavaco não esteve  à altura das suas responsabilidades e o partido socialista deixou-se anular pelo autoritarismo negocista socrático, tendo-se transformado numa máquina de poder caudilhista e sem valores. 

(Um parêntesis: a última convenção socialista com uma votação "albanesa", com um só voto contra de Maria Rosário Gama , deve inquietar quem julgava que o PS já recuperara dos anos socráticos de demissão cívica dos seus dirigentes e quadros).

Regressando-se ao tópico: o pedido do resgate devia ter sido na segunda metade de 2010. O meio ano de atraso custou ao país mais "suor e lágrimas" do que teria sido necessário. 

Contudo, como já detalhado, esse ónus não pode nem deve ficar só sobre o peito de Teixeira dos Santos. Que lhe fique ao peito antes, porque é justa, esta condecoração.

O paraíso terrestre é uma flor verde

Gif daqui

O paraíso terrestre é uma flor verde.
As árvores abrem-se ao meio.
O que é sucessivo perde-se.
Se o tempo modifica os seres e os objectos
eu sinto a diferença e gasto-me.
O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada
uma folha branca à transparência da lâmpada.
Soam então os barulhos. Soam
de dentro das janelas,
de dentro das caixas fechadas há mais tempo,
de dentro das chávenas meias de café.
É tarde e és tu,
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar.
Nuno Júdice


quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Carlos Drummond de Andrade

Fotografia daqui



Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
João Cabral de Melo Neto




terça-feira, 9 de junho de 2015

O outdoor de Lamego não foi mandado pôr por Santos Silva, foi uma "senhora de Lisboa"

Fotografia Jornal do Centro, que conta os detalhes do caso aqui


Para, como bem diz António Costa, "despoluir" a política, convém lembrar duas coisas básicas:

1 - José Sócrates tinha um padrão de vida muito alto e, para o conseguir manter, recebia do seu amigo Carlos Santos Silva, com regularidade, avultadas quantias em dinheiro vivo porque, como diz o seu advogado de defesa, o homem confia mais no seu motorista que no sistema bancário;

2 - José Sócrates não é um prisioneiro político, em democracia não há disso.

Amnésias*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 9 de Junho de 2005



1. Morreu o disco rígido do meu computador. O meu computador ficou amnésico. Desmemoriou. Manteve a ram, a memória volátil, mas perdeu o arquivo. Num segundo perdi o conforto dos “meus” sites favoritos, dos “meus” blogues de visita diária, das minhas fotografias, das minhas músicas, dos meus documentos, os da política e os outros.

Apesar de tudo, esta avaria podia ter sido uma catástrofe muito pior. É que “só” perdi dois meses de trabalho, já que tinha feito uma cópia de segurança, em finais de Março. Consegui recuperar o grosso da informação.

O mais grave foi ter perdido os meus contactos de e-mail. Foram largas centenas. Amnésia total. Que raiva! Não tinha feito cópia de segurança dos endereços electrónicos.

O Olho de Gato tem sido interactivo. Muitos leitores têm-me, ao longo destes anos, contactado via e-mail. Sempre lhes respondi e vou continuar a responder. Só que, agora, não tenho o contacto de nenhum deles. Resolvam isso, por favor.

2. A história é muito conhecida: a 7 de Abril, apareceu em Sheerness, uma cidade costeira inglesa, um homem aparentando 30 anos, vestido de fato e gravata, completamente encharcado e que não dizia uma palavra.

O homem não era, e continua a não ser, identificável. Existe no caso alguma premeditação já que as etiquetas da roupa que usava estavam todas cortadas. Quando lhe puseram um papel à frente, ele desenhou um piano com todos os pormenores. Levado junto de um, tocou horas seguidas, revelando-se um bom pianista. Passou a ser conhecido como “O Homem do Piano”.

“Vulnerável”; “assustado”; “traumatizado”; “em perigo”: são as expressões usadas pelos especialistas do hospital em que ele foi recolhido.

Algures qualquer coisa na ram ou no disco rígido do “Homem do Piano” estalou. Isto se a sua amnésia for real. Porque pode não ser.

3. A amnésia é um bom tema para histórias.

Um dos melhores filmes que vi ultimamente sobre este assunto é Memento. Conta a história de Leonard Shelby, que perdeu a memória quando lhe assassinaram a mulher. Leonard deixou de poder guardar informação a partir de então. Lembra-se bem da sua vida anterior mas a sua memória agora não processa informação de curto prazo. Só sabe que se tem de vingar, embora não consiga fixar o nome de ninguém, nem nenhuma circunstância da sua vida actual.

Usa uma polaróide para guardar a imagem visual das coisas. Chega a um parque de estacionamento e só pela fotografia é que consegue saber que o seu carro é um Jaguar. Quando entra nele, nunca se lembra que o vidro da janela esquerda está partido, mas guia perfeitamente porque aprendeu isso antes do trauma.

Tem que escrever as informações mais importantes no corpo para não as perder. No fim do filme, o corpo tatuado de Leonard parece um mapa das estradas.

A história é genial e a maneira como é contada tira-nos a respiração.




4. «E o senhor, como se chama?»
«Espere, tenho-o debaixo da língua.”
“Assim começa o último romance de Umberto Eco, um exercício de reconstrução do passado de Yambo, alfarrabista de profissão, a quem um acidente neurológico implausível apaga (delete!) a biografia.”

Acabo de transcrever o início duma recensão magnífica que João Lobo Antunes publicou no suplemento literário do Público, do último sábado, sobre “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”.

O livro de Eco, mais do que sobre o esquecimento, preocupa-se é com o processo de recuperação dos dados perdidos no nosso disco rígido. É, evidentemente, o que importa em matéria de amnésias. Vai ser uma das minhas leituras para este Verão.

5. Em 2002, a subida do IVA de 17 para 19% foi um erro. Em 2005, a subida do IVA de 19 para 21% é mais do que um erro: é amnésia política.