domingo, 31 de maio de 2015

Os quatro erros de Alexis Tsipras

Fotografia daqui

Desde que tomou posse, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, cometeu quatro erros, três por acção e um por omissão:

1 — apostou no "contágio" ao sul europeu (uma "história de crianças": Hollande, Renzi, Rajoi e Pedro Passos Coelho mandaram Tsipras dar uma volta ao bilhar grande);

2 — deu gás a uma xenofobia anti-germânica (miserável no plano dos valores, foi coisa para consumo interno grego e que, valha a verdade, mesmo em Portugal é produto com muita clientela);

3 — "ameaçou" com uma aproximação a Putin de uma forma que ninguém levou a sério;

4 — não fez um gesto ainda para acabar com a "ordem clientelar" grega, de que não é responsável mas que mantém.

Destes quatro erros, os dois primeiros não têm apelo nem agravo — somam-se ao fogo de artifício fotogénico e à exibição de testosterona de Varoufakis, vão para o arquivo morto, fiascaram.

Já a aproximação a Putin, bem como à China, e a ameaça de mais instabilidade nos Balcãs, são trunfos poderosos e causam alarme em Washington, como explica hoje Jorge Almeida Fernandes no Público num excelente texto em que se baseia este post.

De qualquer forma,  é na solução do quarto erro que reside a esperança e o futuro da Grécia. 

Porque é que o Syriza não começa a reformar o estado, a descapturá-lo dos interesses clientelares e a construir uma máquina fiscal que efectivamente funcione e cobre impostos?

Horácio contra Horácio

Fotografia de Consuelo Kanaga



Ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante a ruína a desmemória.
Haroldo de Campos

sábado, 30 de maio de 2015

A caridadezinha! — um texto de JB*

* JB leu a minha crónica de ontem no Jornal do Centro intitulada  Um pau ao gato e não deixou passar em claro a referência a Isabel Jonet.



Fotografia daqui
«Não sei se há humilhação maior do que ter de estender a mão suja, que salta de um corpo e uma roupa também sujos, pedindo, com o corpo inclinado e o olhar perdido e suplicante: "Qualquer coisinha, tenho fome." Se é uma criança, com uma mãozinha pequenina, um velho, um deficiente, suplicando "por caridade, por caridade", parte-se-me a alma. Sinto-me muito envergonhado por mim e pela sociedade, e dou, numa indizível atrapalhação, pois precisaria de dizer-Ihes que não é por caridade, mas por dever. E desaparecer.»

Anselmo Borges, DN, 04.01.2014




Não atiro pau, pedra ou insulto a Isabel Jonet, mas não simpatizo com a personagem e estou nos antípodas das suas ideias assistencialistas.
O Estado como garante e protector de direitos sociais universais está há muito tempo sob o fogo cerrado dos que aspiram a regressar a um passado de exploração do trabalho, sem limites e sem constrangimentos. Uma parte significativa da população trabalhadora, assalariada e independente, com rendimentos pouco acima do baixo salário mínimo nacional, começou a ser excluída de prestações como o abono de família, apoio social escolar, complemento social do idoso, subsídio social de desemprego, rendimento social de inserção, isenção de taxas moderadoras para desempregados e pensionistas, comparticipação nos medicamentos, no transporte não urgente de doentes, passes sociais nos transportes, entre outros. Esta “obra-prima” social, iniciada no último governo PS, revelam não apenas a apetência dos grandes interesses na transformação do Estado Social em negócio altamente lucrativo, mas ainda uma estratégia de esvaziamento das funções que o Estado hoje assegura nessa área.

E pela Europa, caso recente da Inglaterra, do senhor David Cameron, com a «inovadora» operação da «Big Society», operação de dissimulação humanista que também pede mais sociedade, mais voluntarismo, mais caridade e menos Estado, dando mais um passo, tal como cá, na concretização da desresponsabilização do Estado no cumprimento das suas funções sociais, transformando direitos sociais em esmolas.

Em Portugal, as posições da economista Isabel Jonet, que há muito se sabe de que lado da barricada é que se situa: o da caridadezinha mais básica. É este caldo de cultura de regresso da compaixão da esmolinha, tornada política oficial e feita de públicas virtudes e subterrâneas crueldades, que está em marcha. Não o disse, mas não é difícil de concluir o seu pensamento: há que forçar o pobre a trabalhar «porque é malandro»! A solidariedade é coisa séria, ela é um dos fundamentos essenciais na construção de uma sociedade mais justa, uma sociedade que não se constrói retirando direitos para oferecer regimes de excepção a pobres.

Dizia D. Manuel Martins que para combater a pobreza se devia «vender o ouro que anda ao pescoço dos santos nas procissões». Não precisamos de chegar a tanto, deixemos os santos em paz.
Bastaria uma outra política económica orientada para o crescimento e a criação de emprego, uma mais justa distribuição da riqueza que valorizasse os salários e as pensões, o reforço da segurança social pública com a valorização das prestações sociais e a promoção de eficazes serviços públicos, assentes numa justa política fiscal e de financiamento da segurança social.


A frase bíblica “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” é amiúde interpretada como louvor dos imbecis.
Tal leitura das Escrituras é mesmo corroborada por estudos levados a cabo por Lisa Simpson (não sabe quem é a Lisa Simpson...?!), que nos asseveram que "as intelligence goes up, happiness goes down".

Bastaria recordar, sempre, as palavras do poeta Manuel da Fonseca (mais um convenientemente silenciado): 


Dona Abastança

«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.
Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»
Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.
O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ela incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.
Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.
Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.
Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.


PS: Já estão em plena acção, os "spinesinhos" a preparar terreno para as eleições. Debater ideias é uma coisa, fazer "spin" outra. Todos os programas políticos falam verdade, e são assertivos, excepto naquelas matérias que cada um de nós conhece a fundo.
Não há pachorra ... não há mesmo !

às vezes convenço-me de que sei tudo sobre os teus olhos

Fotografia de Diane Arbus



às vezes convenço-me de que sei tudo sobre os teus olhos
mas não sei se neles existem marés vivas
e a vontade atlântica das viagens
e não sei
se os teus olhos sou eu
se calhar
que os invento
Afonso de Melo


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Um pau ao gato*

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro


As redes sociais estão sempre à-beira-de-um-ataque-de-nervos, com o pessoal indignado a “malhar” em alguém.


O alvo preferido do nosso Facebook é Isabel Jonet, do Banco Alimentar. 

Ela na logística da comida é boa, mas nas televisões é uma desgraça. É razoável pensar que é melhor assim que ao contrário. Mas ai de quem a defenda no Facebook.

Agora, como toda a gente está a falar com toda a gente sobre toda a gente, acontecem cada vez mais “acidentes reputacionais”. Nenhuma pessoa, empresa, produto ou serviço está livre de um. É verdade que o “formigueiro” cruel das redes, passados poucos dias, arranja outro alvo, mas os estragos ficam nas vítimas.

Um problema de física, num manual do 9º ano, que falava em atirar um gato de uma varanda, pôs as redes no seu costume, isto é, a ferver de indignação. Os autores foram chamados de tudo. Um título sobre o caso no blogue Aventar: “Quando os animais escrevem manuais”.

As pessoas que aprenderam no jardim infantil a cantar o «atirei um pau ao gato» agora não aceitam sequer um "supônhamos" num livro de física. Touradas e casacos de peles, por exemplo, são percepcionados como coisa bárbara por cada vez mais pessoas e isso é bom.

Como ensinou o pioneiro dos direitos dos animais Peter Singer, “a dor é má e quantidades similares de dor são igualmente más, seja quem for aquele que sofre” e “os seres humanos não são os únicos seres capazes de sentir dor.”

Peter Singer, quando começou nos anos 70 do século passado a distribuir folhetos no centro de Londres para melhorar a qualidade de vida dos animais, era olhado como um extra-terrestre. Quarenta anos depois o bem-estar animal é um adquirido civilizacional que vê com maus olhos, até, animais nos circos.

Esta última indignação do Facebook sobre o problema de física que “atirava” um gato abaixo de uma varanda quererá dizer que, no próximo parlamento, vamos ter um deputado do PAN — Partido pelos Animais e pela Natureza?

Considerações de Ovídio acerca do seu desterro





Todos se lembravam bem que ele era o romano, o exilado, o poeta. Onde
estava sepultado? Mas, acaso, há uma lei que obrigue a que se responda
a um estrangeiro se este pergunta pelo paradeiro de outro estrangeiro?
Christoph Ransmayr, O último mundo


Onde está esse homem que veio de Roma, o estrangeiro? Não
o sabemos. Todas as raízes convergem para o mesmo sítio. Talvez seja
o lugar onde esperamos encontrar uma planta que das próprias folhas
recebia a origem. Quem assim ficou sepultado não tem quaisquer
limites, confunde-se com o ar, com a brisa. Reconhecemos
que está para além de si mesmo, finalmente disperso
no seu pólen ou em qualquer reflexo esquecido de outros
olhares. A brisa passou de novo. Há quem se afaste nos caminhos
para encontrar o seu destino; e veremos como se torna maior
esta distância que ficou prometida, só para que se encontre
o que julgamos ser igual à sua ausência. Sempre
foi assim... De que serve este esforço para se ter uma outra espécie
de conhecimento, o que vai dissipar-se no vidro das janelas, espesso
e sem novas imagens? Talvez continue a mesma suspeita, Pode ser ali,
nesta terra revolta, suspensa sobre a noite e destinada
ao exílio, que se levanta um rosto ainda mais simples para ser igual
ao de um homem qualquer. Vemos as suas únicas feições, a curva
imóvel das pálpebras. Se ele era estrangeiro, nós o que seremos?
Fernando Guimarães





Há quem julgue que nos meus versos me refiro aos deuses
e aos homens. Eu próprio contribuí para isso. Mas posso dizer-vos
que sigo outros caminhos. Falo dos seres. Sempre o fiz. As nuvens
chegam de longe e ficam reflectidas na superfície límpida
do mar. Se me perguntas o que é um ser, direi apenas
que tudo o que for trazido pelas ondas delas recebe
uma outra realidade, esse estremecimento que parece ter
origem num ventre materno fecundado pela areia
ou pela luz. Há quem olhe e não o reconheça; por isso tenho
de o escrever. Sento-me à frente de uma mesa circular,
de madeira. Reparo melhor nela. Vejo como são as estrias, algumas
das manchas, os nós, os seus leves desenhos. Toco neles e depois
encontro o relevo do que ficou escrito. Se te aproximares um pouco
ouves a minha voz cansada. A tudo queríamos dar um nome,
e quantas vezes se não pode reconhecer sequer onde se encontram
vestígios tão difíceis. Refiro-me talvez ao calor dos teus olhos e espero
pelas imagens que hão-de finalmente caber neles. Nada
é mais sereno. Vês? Os círculos na água afastam-se.
Fernando Guimarães






quinta-feira, 28 de maio de 2015

Mendiga voz

Fotografia de Leonard Freed


E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.
Alejandra Pizarnik


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Anónimos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Maio de 2005


1. Segundo uma reportagem publicada no Diário de Notícias de 19 de Maio, em anos de eleições aumenta fortemente o número de denúncias anónimas contra Presidentes de Câmaras e autarcas em geral.

Rosário Teixeira, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, fez, em Abril, a seguinte previsão: “Não podemos ser ingénuos. Até ao Verão vamos ser inundados com denúncias sobre autarcas.” Ao mesmo tempo, alertou para os riscos do Ministério Público (MP) prestar “fretes políticos”, caso avance com todas as investigações.

O forum da página da Internet da Procuradoria tem trazido forte controvérsia acerca deste problema. Segundo percebi da notícia do DN, há duas posições sobre esta situação: (1) o MP indaga a verosimilhança e consistência da denúncia para ver se abre inquérito ou não; (2) o MP faz sempre abertura de inquérito logo que haja denúncia.

Não há, portanto, uniformidade de procedimentos, embora me pareça que uma boa parte das denúncias deviam levar imediatamente o carimbo de “Arquive-se”, por falta de credibilidade.

2. Não tenho sido atormentado com muitas denúncias anónimas. Acho este tipo de procedimento uma porcaria pelo que – das poucas vezes que recebi coisas dessas - enviei-as para o caixote do lixo imediatamente. 



É que não tenho as responsabilidades do Ministério Público e tenho cada vez menos paciência para aturar faltas de carácter.

3. Quero dizer à pessoa que me mandou duas cartas para o PS (a primeira sem nome e a segunda com pseudónimo) que acho essa atitude uma nulidade cívica.

Já agora digo-lhe mais: sobre o assunto que tratava nas cartas, tomei posição política em 15 de Novembro de 2001, posição em que pus o meu nome, a minha voz e as minhas convicções. Assumo o que penso e pago o respectivo preço, seja ele qual for. Sempre.

Agora é a sua vez?
[Não encontrei outro canal para dizer isto ao autor destas cartas anónimas. Peço a compreensão dos leitores.]

4. Fiquei furioso com o título dum artigo de opinião, que vinha na edição de 14 de Maio do Público, intitulado “A Síndrome de Viseu”, assinado por Miguel Vale de Almeida, activista do movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais e dirigente do Bloco de Esquerda. Devo dizer, para que conste, que acho que deve ser legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, assunto de que tratam os oito parágrafos do artigo, parágrafos que em grande parte me parecem ajustados.

Contudo, não aceito e reprovo esta forma grosseira e insuportável de tratar Viseu. Viseu não tem síndromes. Viseu é uma terra aberta, cosmopolita e tolerante como mostrou a manifestação de 15 de Maio, onde eu também estive, e onde foi reconhecido por vários oradores que homofobia há em todo o lado e em todas as terras. O senhor Miguel Vale de Almeida não nos venha agora querer colar a coisas ruins.

5. Há duas semanas, numa sexta-feira dia 13, houve uma explosão solar de grande magnitude que deu origem a uma tempestade geomagnética de grau 5 (nível máximo). O perigo principal duma tempestade geomagnética é para os equipamentos no espaço (satélites, por exemplo). Os grandes sistemas de distribuição eléctrica podem ser também afectados, podendo até acontecerem apagões maciços. Encontra, se desejar, informação sobre tempestades magnéticas em: http://www.sec.noaa.gov/.

6. Tenho andado deprimido. Só encontro uma explicação para a forma inglória como o Sporting perdeu este campeonato. A culpa foi da explosão solar que aconteceu na véspera do Sporting — Benfica.

Ricardo saltou, ...



... mas a tempestade magnética perturbou-o, e ele não chegou com as mãos onde Luisão, o gigante do Benfica, chegou com a cabeça.

Palavras de Jacob depois do sonho

Fotografia de Sylvie Lancrenon


Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
Porquê não sei talvez uma haste balance
talvez sorria alguma criança
Terrível não é o homem sozinho na tarde
como noutro tempo de esplendor cantei
Terrível é este lugar
Terrível porquê?
Não sei bem
Talvez porque o senhor pisa esta terra com os seus pés
(lembro-me até de que mandou tirar as sandálias a moisés)
Levanto os dois braços aos céus
Aqui — mulher terra mar —
Aqui só pode ser a casa de deus
Ruy Belo


terça-feira, 26 de maio de 2015

A minha maneira de amar-te é simples

Fotografia de Weegee


A minha maneira de amar-te é simples:
aperto-te a mim
como se tivesse um pouco de justiça no coração
e ta pudesse dar com o corpo

Quando te revolvo os cabelos
algo de lindo nasce das minhas mãos

E não sei quase mais nada. Aspiro apenas
a estar contigo em paz e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes me pesa também no coração.
Antonio Gamoneda


segunda-feira, 25 de maio de 2015

An Essay on Criticism

Fotograma de The Narrow Frame of Midnight de Tala Adid 

Of all the causes which conspire to blind
Man's erring judgment, and misguide the mind,
What the weak head with strongest bias rules,
Is pride, the never-failing vice of fools.
Whatever Nature has in worth denied,
She gives in large recruits of needful pride;
For as in bodies, thus in souls, we find
What wants in blood and spirits, swell'd with wind;
Pride, where wit fails, steps in to our defence,
And fills up all the mighty void of sense!
If once right reason drives that cloud away,
Truth breaks upon us with resistless day;
Trust not yourself; but your defects to know,
Make use of ev'ry friend—and ev'ry foe.

A little learning is a dang'rous thing;
Drink deep, or taste not the Pierian spring:
There shallow draughts intoxicate the brain,
And drinking largely sobers us again.
Fir'd at first sight with what the Muse imparts,
In fearless youth we tempt the heights of arts,
While from the bounded level of our mind,
Short views we take, nor see the lengths behind,
But more advanc'd, behold with strange surprise
New, distant scenes of endless science rise!
So pleas'd at first, the tow'ring Alps we try,
Mount o'er the vales, and seem to tread the sky;
Th' eternal snows appear already past,
And the first clouds and mountains seem the last;
But those attain'd, we tremble to survey
The growing labours of the lengthen'd way,
Th' increasing prospect tires our wand'ring eyes,
Hills peep o'er hills, and Alps on Alps arise!

A perfect judge will read each work of wit
With the same spirit that its author writ,
Survey the whole, nor seek slight faults to find,
Where nature moves, and rapture warms the mind;
Nor lose, for that malignant dull delight,
The gen'rous pleasure to be charm'd with wit.
But in such lays as neither ebb, nor flow,
Correctly cold, and regularly low,
That shunning faults, one quiet tenour keep;
We cannot blame indeed—but we may sleep.
In wit, as nature, what affects our hearts
Is not th' exactness of peculiar parts;
'Tis not a lip, or eye, we beauty call,
But the joint force and full result of all.
Thus when we view some well-proportion'd dome,
(The world's just wonder, and ev'n thine, O Rome!'
No single parts unequally surprise;
All comes united to th' admiring eyes;
No monstrous height, or breadth, or length appear;
The whole at once is bold, and regular.

Whoever thinks a faultless piece to see,
Thinks what ne'er was, nor is, nor e'er shall be.
In ev'ry work regard the writer's end,
Since none can compass more than they intend;
And if the means be just, the conduct true,
Applause, in spite of trivial faults, is due.
As men of breeding, sometimes men of wit,
T' avoid great errors, must the less commit:
Neglect the rules each verbal critic lays,
For not to know such trifles, is a praise.
Most critics, fond of some subservient art,
Still make the whole depend upon a part:
They talk of principles, but notions prize,
And all to one lov'd folly sacrifice.
Alexander Pope
(1711)




domingo, 24 de maio de 2015

Há sempre uma noite terrível para quem se despede


Fotografia de Bettina Rheims


Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior

da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.
Herberto Helder

sábado, 23 de maio de 2015

Reabilitação urbana


Imagem daqui
António Costa, é de facto preciso recuperar habitação nos centros das cidades, mas:

1. isso não pode ser feito com o dinheiro das pensões dos portugueses;

2. isso é um trabalho das câmaras e não do governo central (lembra-se da ladroagem da Parque Escolar?);

À janela do eléctrico

Fotografia de Mobeen Azhar


À janela do eléctrico
acompanho o voo inacessível
das aves

diz-me
há lugar para a revolta
na melancolia das putas?
José Efe




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Falácia do custo irreparável*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro




Rolf Dobelli
1. Tomei pela primeira vez conhecimento do pensamento de Rolf Dobelli num artigo do Guardian em que ele explica por que razão não é bom estar sempre ligado ao fluxo noticioso porque o que agora se chama “notícias” faz ao espírito o que a fast-food faz ao corpo. É um texto libertador, facilmente achável na internet, intitulado “News is bad for you – and giving up reading it will make you happier”.

Em “A Arte de Pensar Com Clareza”, Dobelli recenseia 52 erros comuns de raciocínio e, entre eles, o da “falácia do custo irreparável”: a pulsão que nos faz agarrar às coisas só porque nelas já investimos muito tempo, energia, dinheiro, amor, …

Ficar a ver até ao fim um filme intragável não adianta nada, o dinheiro do bilhete já foi gasto em vão. O avião supersónico Concord nunca seria rentável mas a Inglaterra e a França continuaram, ano após ano após ano, a enterrar dinheiro nele, incapazes de acabarem com o projecto. Não é por acaso que a “falácia do custo irreparável” também é conhecida por “efeito Concord”.

Mais situações: «já percorremos um caminho tão longo....», «já li tantas páginas deste livro...», «já dediquei dois anos a este curso...»
Explica Dobelli: “há bons motivos, e são muitos, para investir na conclusão do que foi iniciado. E há um mau motivo: pensar no que foi investido. (...) O que conta é o presente e a avaliação que somos capazes de fazer quanto ao futuro.”

2. O AO90, o dito “acordo ortográfico”, é um flagrante exemplo de “falácia do custo irreparável”.

No presente o que temos é caos ortográfico e crispação (fervem os insultos entre “acordistas” e “desacordistas”). No futuro vamos continuar a ter uma escrita “à-vontade-do-freguês” e, enquanto todos os outros países lusófonos vão arrastar os pés, Portugal vai ficar no patético papel de lebre “acordista”.

Haverá algum político de topo capaz de perceber o erro e com coragem para fazer abortar o AO90?

As barcas gritam sobre as águas

Dead Can Dance - Song of the Stars — Pina version




As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Herberto Helder

quinta-feira, 21 de maio de 2015

A bõa dona por que eu trobava

Fotografia de Frank Paulin


A bõa dona por que eu trobava,
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.

E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:

por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:

sandec'e morte, que busquei sempr'i,
e seu amor me deu quant'eu buscava!
João Garcia de Guilhade


quarta-feira, 20 de maio de 2015

O que aprendi contigo

Imagem daqui



O desencontro das tardes, uma febre
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.

Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.

E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.
Nuno Júdice



terça-feira, 19 de maio de 2015

Anthem for doomed youth

Fotografia daqui



What passing-bells for these who die as cattle?
          — Only the monstrous anger of the guns.
          Only the stuttering rifles' rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells;
          Nor any voice of mourning save the choirs,—
The shrill, demented choirs of wailing shells;
          And bugles calling for them from sad shires.

What candles may be held to speed them all?
          Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes.
          The pallor of girls' brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.
Wilfred Owen


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Número dois

Imagem daqui


Beethoven, concerto número dois para piano.
Com um canivete corta-me devagar por dentro
a parte da alma mais encostada à carne.
O prazer que a Camões também doía e as palavras
de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina
o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu-
merar: como quem coloca cada som depois do outro
e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me
por dentro das próprias veias no meu corpo
desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que
existem e é delas que se extrai
a revolta com que vou nascendo para
ver-me de pé enquanto reaprendo
a não esquecer que um dia finalmente
tudo terá passado. E esta aventura
de estar aqui hoje há-de perder-se
no tempo que consome tudo e nos consome
a nós o uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu
corpo cada dia mais definitivamente à imagem
da pequena morte que nos chega que toca
os olhos na retina os ouvidos na membrana
do tímpano e passa a circular no sangue com a
embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo,
Claudio Arrau pianista chileno vai
pontuando o tactear da lâmina
no meu corpo e eu sentado contemplo as cores
dos objectos à minha volta e vou dando pelo
espanto de assistir à passagem de mim
mesmo pelo que me rodeia.
João Camilo



domingo, 17 de maio de 2015

O tempo, esse patife

Fotografia Olho de Gato

Fotografia Olho de Gato

Fotografia Olho de Gato

Recado aos corvos

Fotografia de Marcus Ohlsson


Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.
A. M. Pires Cabral


sábado, 16 de maio de 2015

Nóvoa "ratoeirou" o PS?* — um texto de JB *

* Comentário de JB ao texto "Ligeirezas", publicado ontem no Jornal do Centro 

Não sei que te diga, caro amigo.

Não é de estranhar que as sondagens sejam embaraçosas para Costa. O eleitorado começa a preferir o original (Passos) à cópia e, para os que preferem esquecer, há sempre os Blocos, os Livres, o PCP e essa figurinha Chavez/português, de nome Marinho. Há vida na esquerda para além do Bloco e do PC, e acresce que estes dois, são simplesmente de protesto e nada adiantam às nossas vidas. Como diz o anúncio: ”E se de repente o “povo” lhes oferecer (à coligação) a maioria?”

Estamos irremediavelmente prisioneiros de teias de interesses obscuros, de classe e de família, que só um cataclismo social virá, mais tarde ou mais cedo, destruir. O eleitorado tem dúvidas quando: “Mário Centeno, o coordenador do programa macroeconómico do PS, vai ser mesmo orador convidado na Conferência Internacional sobre os Jovens, organizada pela Presidência, no âmbito dos Roteiros do Futuro”. Começa a ficar provado que Centeno é uma carta do mesmo baralho. Está já a fazer o tirocínio para ser o Vítor Gaspar do PS, numa versão recauchutada. Bem vindos ao neo-neo-realismo pós 25 de Abril...

Quanto a Sampaio da Nóvoa tem boas hipóteses de ir à segunda volta. Mas quanto a ser eleito Presidente já as perspetivas são bem diferentes. Nóvoa tem que concitar mais apoios e o entusiasmo. Somam-se indícios de que a candidatura em causa se está deixar envolver em algumas ambiguidades estruturais. Por exemplo, afirma-se como impulso regenerador da vida política e sente-se confortável com o apoio do PS, mesmo que ele não seja resultado de primárias; afixa uma imagem de independência, mas coloca-se na fila dos ex-presidentes que são militantes do PS como se fizesse parte dela; tenta sugerir-se como fator de congregação das esquerdas, mas revela-se cético quanto à perenidade da clivagem esquerda/direita; omite no seu discurso qualquer tonalidade crítica do sistema capitalista, mas assume objetivos que entram em colisão com a perenidade desse sistema; afixa uma independência altaneira em face dos partidos, mas esforça-se por sugerir o apoio tácito do PS.

Podendo parecer subtil, o PS parece ter-se deixado apanhar numa ratoeira. Deixa que pareça ter tido que engolir um candidato que veio de fora e não pode assumir o ónus de suscitar outro. Tudo isto faz recear que uma opção pelo candidato Nóvoa, tomada por uma decisão formal do PS, daqui a algum tempo, não seja seguida por uma parte do seu eleitorado, incomodada pelo método autocrático da escolha e pouco identificada afetivamente com ela. Se isso acontecer, fica à mostra o erro político cometido. Enquanto eleitor preciso de ver por completo apagada a dúvida, criada por Nóvoa, quanto ao seu próprio desígnio.

A direita anda nervosa, com a suposta ameaça de avançar com Rui Rio armado em 7º de cavalaria, com o "meio caminho andado", Marcelo Rebelo de Sousa ou a “reserva moral”, Mota Amaral, são sintomáticos que Nóvoa incomoda. Neste ponto considero que Marcelo Rebelo de Sousa não se candidatará, pois por muito popular que seja colou-se à imagem de comentador do regime e esse é o lugar que gosta de ocupar.

Neste contexto, e como já aqui escrevi, o meu candidato, seria Manuel Carvalho da Silva. Um candidato digno do lugar, que ilustraria com honra, competência, integridade, que procede do mundo do trabalho, é culto e representaria uma esquerda que não deslustraria o mais alto cargo da nação. Mas, aparentemente desistiu.

A candidatura de Guilherme d'Oliveira Martins encontra eco no texto de Joaquim Alexandre e, embora não fosse o meu primeiro candidato, reconheço que é um homem culto, honrado, sério, sensato, tem experiência política e ocupa uma posição mais ou menos central no espectro político. Sabe o valor da Língua Portuguesa, da Economia, do rigor, do combate à mediocridade e ao facilitismo, da solidariedade e da importância da tolerância e da preservação dos laços sociais e do bem comum, da igualdade e do acesso ao conhecimento.

António Costa, falta um ano para as presidenciais e faltam, só, seis meses para as legislativas. Falta “construir o futuro”!

Quels doux supplices

Gif daqui


Quels doux supplices
Quelles délices,
De brusler dans les flammes
De la beauté des Dammes
Antoine Boesset


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Ligeirezas*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. António Costa, mal assumiu a liderança socialista, pôs o partido a reabilitar a herança e a figura de José Sócrates. Esta estratégia só foi autoclismada quando aconteceu a prisão do ex-primeiro-ministro.

Se não estivesse onde está, Sócrates neste momento era candidato à presidência da república e António Costa teria feito o papel de “idiota útil” ou, pior ainda, de cúmplice dessa candidatura.

Agora, com Sócrates detido e Guterres, Gama e Vitorino “desistidos”, António Costa não diz nada sobre presidenciais. Mas há sinais que ele se prepara para passar um cheque-em-branco a António Sampaio da Nóvoa, um candidato de quem, apesar de já ter 60 anos, não se conhece pensamento ou acção política, tenha sido ela partidária ou cívica. Um enigma que, nos seus bem escritos e bem lidos discursos, não tem ido além de umas amenidades polvilhadas de citações de Zeca Afonso e Sérgio Godinho e Sophia.

António Costa ainda está a tempo de evitar tamanha ligeireza para não dizer irresponsabilidade. Na área socialista há um homem capaz de disputar as eleições a Rio e Marcelo. E, mais importante ainda, um homem que, se chegar a Belém, dá a certeza aos portugueses de que irá ser um presidente moderado, competente e responsável. Chama-se ele Guilherme d'Oliveira Martins e é o actual presidente do Tribunal de Contas, uma das poucas instituições do estado que merece o reconhecimento dos cidadãos.

2. Tremam, editores da Visão
Arreceiem, jornalistas da Sábado
Paniquem, homens da The New Yorker

António Almeida Henriques vai entrar no negócio. Vai editar uma revista municipal.

E registe-se: esta revista trimestral de distribuição gratuita vai só custar mais sete mil euros que o último orçamento participativo. Uma ninharia. Vão ser 82 mil euros supimpamente aplicados.

Perante tanta ligeireza, tanta festa e festinha a que agora se vem acrescentar o "papel-couché" revisteiro, o dr. Ruas só pode andar muito divertido.

I am in need of music

Fotografia de Edouard Boubat


I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling fingertips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.
Elizabeth Bishop