quinta-feira, 30 de abril de 2015

Projecto ComUnidade da Zunzum (4ª Edição)


Rogaria eu mia senhor

Gif daqui


Rogaria eu mia senhor,
por Deus, que me fezesse bem;
mais hei dela tam gram pavor
que lhe nom ouso falar rem
          com medo de se m'assanhar
          e me nom querer pois falar.

Diria-lh'-eu, de coraçom,
como me faz perder o sem
o seu bom parecer; mais nom
ous'e tod'aquesto mi avém
          com medo de se mi assanhar
          e me nom querer pois falar.

Pois me Deus tal ventura deu
que m'em tamanha coita tem
amor, já sempre serei seu,
mais non'a rogarei por en
          com medo de se mi assanhar
          e me nom querer pois falar.
João Nunes Camanês

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sáurios*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Abril de 2005


1. Ainda vivíamos nos tempos do fascismo. Jerzy Bauer, fotógrafo do L’Express, levou José Cardoso Pires a um jardim de Londres que está cheio de dinossauros e tirou-lhe lá umas fotografias. Há uma dessas fotografias na contra-capa de “Dinossauro Excelentíssimo”, em que o escritor posa à frente dum destes sáurios do Jardim de Crystal Palace. Tenho uma edição de “Dinossauro Excelentíssimo” que se começou a descolar quando fiz agora uma breve releitura, antes de começar a escrever este Olho de Gato. Este volume, agora meio arruinado, tem ilustrações muito curiosas de João Abel Manta.

Conta José Cardoso Pires que a ideia do livro lhe surgiu quando se pôs “(...) a pensar no fantasma do Tyrannosaurus com os seus dez metros de comprimento e a sua dentadura assanhada lá nas nuvens...”

“Dinossauro Excelentíssimo”, escrito em forma de fábula, é um gozo pegado ao salazarismo.

Salazar, o sáurio da história, foi muito mau para o país. Podia, ao menos, ter caído da cadeira mais cedo. Nem isso fez, infelizmente.
Caricatura de João Abel Manta

José Cardoso Pires publicou o “Dinossauro Excelentíssimo” em 1972, aos 47 anos. Tinha sofrido o longo inverno de Salazar e vivia na chamada primavera marcelista, então já posta no congelador. Desesperou décadas por um 25 de Abril que haveria de chegar dois anos mais tarde. Passar uma vida debaixo da “apagada e vil tristeza” duma ditadura é uma raiva e uma neura.

“Dinossauro Excelentíssimo” não é o melhor livro de José Cardoso Pires; mas é uma desbunda, escrita num português escorreito e chão, que nos lava a alma, e nos mostra que um espírito livre nunca se deixa dominar por ninguém. Nem num regime de “dentadura assanhada” como o que tivemos até 1974.

2. Os políticos, salvo raras excepções, nunca sabem sair a tempo. Eles colam-se ao poder com cola Araldite, mesmo quando já só fazem mais mal do que bem e só servem para dar empregos às suas clientelas.

José Sócrates acaba de propor uma Lei de Limitação de Mandatos que também o inclui, enquanto primeiro-ministro. Sócrates mostra desapego ao poder, o que é muito incomum.

Seria bom que a proposta do governo fosse melhorada agora na Assembleia da República. O limite máximo devia ser de dois mandatos. Se o Presidente da República só pode ter dois mandatos, porque razão é que um autarca dinossauro pode ter três?

Devia haver limites temporais ao exercício de presidentes, ministros, deputados, vereadores, executivos de institutos públicos, direcções de escolas, etc. Em suma: defendo limitação de mandatos para todas as instituições que vivem dos dinheiros públicos.

Não estou nada optimista. Podemos esperar sentados que os deputados tenham a coerência para aplicarem a si próprios a limitação de mandatos.

Esta lei precisa de dois terços para ser aprovada na Assembleia da República. Os sáurios têm a pele muito grossa e escamuda. Os dinossauros do PS, do PSD e do PCP não vão deixar passar a limitação de mandatos.

Para bem do nosso país, gostava muito de estar enganado no que acabo de prever.

3. Sobre a forma como está a ser gerido politicamente o problema do aborto e a marcação do referendo, quero fazer dois comentários:

— a liderança do Grupo Parlamentar do PS tem tratado este assunto com os pés;

— quatro deputados do PSD deram o seu voto favorável à descriminalização do aborto. Foram eles Ana Manso, Arménio Santos, Jaime Soares e o viseense José Cesário. Saúdo a sua moderação e independência de espírito.

4. Os jornais têm, mais uma vez, páginas e páginas cheias com o tema de sempre: a Universidade Pública de Viseu.

É assim há anos a seguir aos anos. São sempre os mesmos a obrarem sentenças sobre o assunto. São sempre os mesmos a dizerem besteiras a ver se nos esquecemos das besteiras que fizeram.

Contabilidad

Fotografia de Marc Riboud



El debe y el haber
doble columna
que el tiempo va asentando
sobre el libro de cuentas de los días
con mano minuciosa
y rigor que no admite apelaciones.
Tarde ves el balance,
las deudas, los desfases,
las pérfidas movidas del contable
que hizo que aquel cruzara muy temprano
y este otro muy tarde por tu vida.
Y está lo que no ves,
lo consignado con miserables tintas invisibles:
la puerta que tocaste diez minutos después
de alguna despedida. La voz que nunca oíste,
la calle no cruzada, el paradero
en que tuviste miedo de bajarte.
Y en un rojo indeleble,
la cadena de tratos y pactos y traiciones,
la irreversible línea que te suma y te resta,
la que te multiplica y te divide.
Piedad Bonnett

terça-feira, 28 de abril de 2015

Tiro ao Cavaco ou a verdade de um não Presidente?* — por JB

* Comentário de JB ao post "Cavacofobias"


1. Memória:

Em 1988, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusou atribuir a Salgueiro Maia uma pensão, que tinha sido pedida pela viúva de Salgueiro Maia, pelos "serviços excepcionais e relevantes prestados ao país" devido à participação no 25 de Abril, por Salgueiro Maia.
A recusa ou a falta de resposta ao pedido só vieram a público três anos depois quando Cavaco Silva concordou com a atribuição de pensões a dois ex-inspectores da PIDE, um dos quais estivera envolvido nos disparos sobre a multidão concentrada à porta da sede daquela polícia política.

Só em 1995, já com António Guterres como primeiro-ministro, Salgueiro Maia viria a receber uma "pensão de sangue".

No entanto, em 2009, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, que decorreram na cidade de Santarém, o Presidente da República depositou uma coroa de flores junto à estátua de Salgueiro Maia. 
Uma tentativa de “branquear” a atitude de vinte anos antes…

Sobre a falta de Cavaco Silva, ao funeral de José Saramago, o conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa desvalorizou a ausência afirmando: «Está presente espiritualmente».

Já em 2013 Cavaco Silva destacou os efeitos positivos da aprovação da sétima avaliação da Troika para Portugal para declarar que se tratou de uma “inspiração de Nossa Senhora de Fátima”.

Carlos do Carmo? Quem é? Um morador no largo do Carmo, não é?
E ainda há mais: etc…etc….etc….

Um Presidente que Abril proporcionou e nunca um cravo vermelho colocou na lapela.

De Cavaco não teremos saudades. Um mau Presidente da República!


2. Realidade:

Uma Assembleia da República sem ideais, um Presidente da República que nos arremeda - o retrato da nossa condição actual.

Está hoje tudo mais claro que nunca : a Democracia é "o conflito, a dialética", como afirmou Eanes. O general Eanes foi o único que fez mais valia teórica, porque ainda gosta de estudar. Foi bom recordar que a democracia é essencialmente crise, como é típico de um Estado que quer ser racionalidade e, portanto, tem de gerir as crises de modo dinâmico.

3. O Futuro:

“Precisamos de um Presidente da República que não venha a ser presidente de outro partido qualquer. Estamos a acabar o segundo mandato de um Presidente que tem sido uma lástima, um desastre, é presidente de uma facção, acabou com aquilo que Eanes, Soares e Sampaio protagonizaram. Uma vez eleitos foram presidentes de todos os portugueses. Não podemos agora correr o risco de ter um presidente que seja o presidente de outro partido qualquer. Agora é do PSD, a seguir é do PS. Não pode ser! Temos de ter um Presidente que seja capaz de ser o Presidente de todos os portugueses.” 
Vasco Lourenço
I online, 27 de Abril de 15

Um novo ciclo para Portugal se aproxima e nós temos a obrigação de lutar por ele.

A meu favor

Gif daqui



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos
Alexandre O’Neil


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Cavacofobias

— 1 —

Um dos exercícios mais repetidos no nosso espaço público é o "tiro-ao-cavaco".  A seguir a estas declarações do início de 2012...




... o presidente da república nunca mais recuperou popularidade e passou a ser um "saco de boxe".  Até lhe "malham" pelos tropeções na gramática e pelos problemas de saúde. 

Como não gosto de alcateias, nunca mais o critiquei. É de evitar "bater" em quem está por baixo.

Aliás, desde então, Cavaco Silva só tem sido confrontado com coisas de intendência, nada de muito relevante. Todo o bruááá noticioso e comentadeiro à volta do que o PR tem feito não é mais do que espuma em cima de espuma. 

A única situação não espumosa foi a crise da "demissão irrevogável" de Paulo Portas, em Julho de 2013, que ele resolveu de uma forma exemplar e a merecer elogio. Cavaco Silva tentou até dar a mão a Seguro mas aquilo era demasiada areia para a fraquíssima camioneta do então líder do PS.

Depois deste longo intróito, que ainda não é o balanço dos dois mandatos do presidente da república, devo confessar que também já sofri de "cavacofobia". 

O texto de 2002 que se segue — com o título UMA CAVACADA — que penso ter publicado no Diário Regional de Viseu* (agora Diário de Viseu), é um exemplo de "cavacofobia", coisa que agora é uma "epidemia", mas então não era. 

De qualquer forma, estou curado dessa "maleita" e o texto que se segue corresponde só a um achado quase "arqueológico" no meu computador.



— 2 — 

UMA CAVACADA



“Como é que nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações. Só nos resta esperar que acabem por morrer…”
Cavaco Silva, 
Porto, 27 de Fevereiro de 2002


Este “deles”, de que fala Cavaco Silva, são os funcionários públicos.
Falou assim. Desta forma. Nem mais nem menos.

O doutor Cavaco Silva está preocupado com os funcionários públicos.
Quer-se livrar deles.

São demais. Muitos. Uns chatos. Uma maçada.
Estragam as contas públicas, embora descontem para a Caixa Geral de Aposentações.

São um alerta rápido da Comunidade Europeia, são o fim do Aeroporto da Ota, são a suspensão do Instituto Universitário de Viseu**, são uma incineradora dedicada em qualquer ponto do país à excepção de Coimbra ou Setúbal, são uma descida dos Impostos para os mais ricos.
Em suma: os funcionários públicos são uma página menos brilhante numa qualquer autobiografia política.

E depois, douto doutor Cavaco Silva, há uma outra angústia à volta deste problema: qual será a esperança de vida dos funcionários públicos?
Para não falar das funcionárias.
Será que ultrapassam - pela direita e pela esquerda, naturalmente - a esperança média de vida dos portugueses?

Será que Portugal vai precisar de privatizar a Caixa Geral de Depósitos para lhes pagar?
Será necessário abrir um off-shore nas Berlengas? Claro que seria um off-shore com poucos benefícios fiscais, e depois da necessária autorização do Dr. João Jardim da Madeira, esse expoente social-democrata da governação sem défice.

Como resolver este problema magno tão magnificamente identificado por V. Exa.?
Chegará um cartaz com uma criancinha rabina a fazer uma pergunta inteligente: 
“Vovó, porque é que os funcionários públicos não gostam da eutanásia?
Ou outro cartaz, de 8 metros por 3, com um guri, de olho vivo, perguntando: 
“Mamãiee, o Cavaco e o Durão não eram do mesmo governo?”

Assim como assim, e apesar de tudo, votos de longa vida a V. Exa., doutor Cavaco Silva.
Longa vida mesmo depois de ter deixado de descontar para a Caixa Geral de Aposentações.

* Escrevi-o para o DRV, mas não acho o recorte, pelo que não sei a data exacta da publicação.

** O Instituto Universitário de Viseu foi criado na fase final do governo de António Guterres mas não avançou por oposição expressa do primeiro-ministro seguinte, Durão Barroso.

eis-me acordado

Fotografia de René Peña


eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo

a luz secou na orla desértica da cidade
escrevo para sobreviver
como quem necessita de partilhar um segredo

este corpo em que me escondi
gastou-se

quantas noites permanecerão intactas
no fundo do mar? o rosto ainda jovem
foi o tesouro de seivas que me entonteceu

pelo corpo condeno-me à vida
de susto em susto à inutilidade da escrita

mas eis-me acordado
muito tempo depois de mim
esperando por alguma fulguração do corpo
esquecido
à porta do meu próprio inferno
Al Berto



domingo, 26 de abril de 2015

Violência urbana (#15)

Fotografia Olho de Gato


Não desisti de habitar a arca azul

Fotografia de Anna Williams

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.
António Ramos Rosa

sábado, 25 de abril de 2015

Estação


Fotografia de Robert Doisneau



Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Mário Cesariny

Exiit qui seminat seminare semen suum

Pintura de Graça Bordalo Pinheiro

Exiit qui seminat seminare semen suum.

     Ermo semeador da liberdade, 
Saí sozinhos, antes da estrela;
Com a mão límpida e sem pecado, 
Nos sulcos da terra escravizados
Lancei o grão vivificante — 
Pena perdida: perdi meu tempo,
Meus bons desígnios e meus cuidados...

     Pastai então, povos mansos, pastai!
Não vos acorda o clamor da honra.
Os dons da liberdade a um rebanho
à matança ou tosquia destinado?
Vossa herança é, por todo o sempre, 
O jugo de chocalhos e a aguilhada.
Aleksandr Púchkin 
[1823]







sexta-feira, 24 de abril de 2015

"Acordos de regime" faralhados

Fotografia de José Sena Goulão daqui


António Costa já fez duas tentativas de "acordos de regime" do PS com a direita:
(i) — em Novembro, o regresso das pensões vitalícias dos políticos;
(ii) — agora em Abril, a censura prévia aos media.

Nada contra "acordos de regime", muito pelo contrário. O PS, o PSD e o CDS deviam entender-se, em sede de rigor orçamental, de forma a impedir a quarta bancarrota.

Mas privilégios de casta?!
Mas fazer de Portugal uma Hungria?!

Estas duas poucas-vergonhas foram abortadas pela reacção violenta da opinião pública. 

Era importante que os socialistas se lembrassem da nulidade cívica que foi o partido nos tempos autoritários de Sócrates onde aconteceu, em todos os patamares da hierarquia, um enorme défice de coluna vertebral.

Sete anos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Um pequeno factóide: depois da sobredose "revolucionária" dos media por alturas do 25 de Abril e do 1º de Maio, as sondagens costumam detectar uma ligeira viragem do eleitorado à direita. Será que este ano se repete?

2. Nenhum dos candidatos presidenciais folclóricos que já apareceram parece capaz de mais do que os cinco minutos de fama já obtidos.

Já tanto Paulo Morais como Henrique Neto vão continuar a ser ouvidos mesmo que não cheguem a reunir as sete mil e quinhentas assinaturas. Eles são dois homens estimáveis que têm denunciado a corrupção e os podres da terceira república. Estranhamente, nem um nem outro põe em causa o equilíbrio constitucional do regime. Paulo Morais declarou até que o PR não precisa de mais poderes.


Sondagem feita a um povo sábio
Artigo completo aqui
Será mesmo assim? Recordemos: todos os quatro presidentes — Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco — tiveram dois mandatos. Os presidentes foram sempre reeleitos e isso não foi por acaso. É que, nos primeiros cinco anos, todos eles foram umas nulidades só preocupadas com uma coisa: a sua reeleição. Recordo os dois casos mais danosos — o presidente Soares aplanou a vida ao primeiro-ministro Cavaco até 1991 e o presidente Cavaco aplanou a vida ao primeiro-ministro Sócrates até 2011.

É por isso que seria desejável um mandato presidencial não renovável de sete anos, para evitar os decorativos cinco anos iniciais da função presidencial.

3. A chegada do "2020", o dinheiro da "Europa", fez regressar o sonho húmido preferido dos nossos políticos — as infra-estruturas.

Ele é a auto-estrada de Viseu para o sul com geografias cada vez mais estranhas. Ele é um comboio novo-em-trinque na estação de Viseu. Ele é um comboio recauchutado na estação de Mangualde. Ele é o PSD — o exacto mesmo que faliu a câmara de Santa Comba Dão — a querer de novo um pouca-terra-pouca-terra no ramal do Dão, com maquinista, pica e passageiros a dizerem adeus-adeus às licras da ecopista.

Não se aprendeu nada com a bancarrota de 2011.

O Sena não se vende


Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
Jorge de Sena



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Triste de mim mais triste que a tristeza

Fotografia de William Eggleston



Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores

triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola

triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)

triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes

a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre

triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral
Fernando Assis Pacheco


quarta-feira, 22 de abril de 2015

A terra e o céu

Fotografia de Antanas Sutkus


A Terra é um palácio que olha para cima.





O Céu é um palácio que olha para baixo.
Herberto Helder

terça-feira, 21 de abril de 2015

Destrucciones

Fotografia de Fernand Fonssagrives



en besos, no en razones
Quevedo

Del combate con las palabras ocúltame
y apaga el furor de mi cuerpo elemental.
Alejandra Pizarnik


segunda-feira, 20 de abril de 2015

domingo, 19 de abril de 2015

Era uma vez — uma criação de Daniela Fernandes para a Zunzum



Dias 19, 20 e 21 de abril (a sessão das 18h de hoje está completa, as seguintes sessões ocorrem de 25 em 25 minutos com o máximo de 20 pessoas por grupo).

Rua do Comércio — Viseu, futuro hostel, encontra-se identificado.

A vida não é de abrolhos

Fotografia de Larry Fink


A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos

A vida não é de escolhos,
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas ?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento ?

Serei eu a tua escolha ?

Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti !
Alexandre O'Neil


sábado, 18 de abril de 2015

A última dança

Gif daqui



mais uma vez funk e fox e hitparade
mais uma vez dalli dalli sri lanka e a pé
atravessar
os alpes
mais uma vez lilases lírios e doce de cereja
mais uma vez o último tango
o último metro
mais um livro elucidativo
uma solução do enigma
mais uma inspecção do automóvel
uma vela pelo amor
o requiem à luz do sol
mais um relógio que eternamente dá horas
Eva Christina Zeller


sexta-feira, 17 de abril de 2015

17 de Abril de 1969 — uma evocação de JB*

* Comentário de JB ao post Pssssst!!!!!


Memórias, não presidenciais!

Completam-se hoje 46 anos do dia em que a Academia de Coimbra se ergueu contra a Ditadura.

Na manhã de 17 de Abril de 1969, por ocasião da inauguração do Edifício da Matemática. Vieram a Coimbra os Ministros das Obras Públicas, da Educação (o Prof. Hermano Saraiva) e o então Presidente da República, Almirante Américo Tomás. Em determinado momento, Alberto Martins, Presidente da AAC pede a palavra ao Presidente da República, com uma pergunta que calou a sala:
«Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?»

A Associação Académica foi demitida e os seus dirigentes suspensos da UC, houve assembleia Magna, nela compareceram Professores sonantes em apoio aos estudantes pondo a sua carreira em perigo, o Doutor Orlando de Carvalho e o Doutor Paulo Quintela que, com a sua voz que mais parecia vozeirão, disse para os estudantes: "Só quem vos elegeu vos poderá demitir"

Foram dias quentes. Os constantes carros da polícia (os “creme nívea”) a patrulhar a cidade; a polícia de choque por todo o lado; os cavalos da GNR nas escadas monumentais, as paredes pintadas dos prédios (“aqui mora uma traidora”), aluna que tinha furado a greve aos exames, e ainda mais…e mais…

Mas o dia 22 de junho de 1969 ficará para sempre na memória. A Briosa foi à final da Taça de Portugal, no Jamor. A Academia está de luto académico e quis jogar de branco (côr do luto académico) mas não foi autorizada a tal. 
Os jogadores da Académica subiram ao campo de capa ao ombro para defrontarem o Benfica. Imagem inolvidável!

E tudo parecia estar bem encaminhado quando Manuel António fez o 0x1 para a Académica a nove minutos do fim. Quatro minutos depois António Simões repôs a igualdade e obrigou a prolongamento. No tempo extra, os academistas perderam o ritmo e o Benfica, através do inevitável Eusébio, marcou o segundo golo e deitou por terra o sonho dos estudantes. Chorámos de raiva pela derrota futebolística. No campo a Académica perdera, mas fora dele, o resultado seria diferente...

Os cartazes levantados, os panfletos largados, tornaram a final da Taça de Portugal no maior comício de sempre contra a Ditadura. Aliás, o jornalista Carlos Pinhão, anos mais tarde, apelidou mesmo o jogo entre a Briosa e os encarnados como "um dos maiores comícios de sempre contra o regime".

17 de Abril 1969 foi um marco inesquecível é incontornável na luta estudantil e na luta contra o regime fascista que desembocou no também inolvidável dia 25 de Abril.

Foi um confronto com o fascismo no qual se formou toda uma geração de líderes políticos e intelectuais que no pós-25 de Abril viriam a ter papel destacado (Alberto Martins, Barros Moura, Celso Cruzeiro, António Marinho, entre muitos outros). E no qual a dinâmica colectiva gerou um movimento muito mais rico e criativo do que as vanguardas politizadas algumas vez teriam, por si sós, sido capazes de impulsionar.

Com a crise de 1969 aprendemos a escutar as conversas dos irmãos, mais velhos, com os amigos e as suas ideias; aprendemos a participar numa manifestação; aprendemos a sintonizar a rádio “Voz da Liberdade”; aprendemos que há uma palavra única nas nossas vidas: liberdade!

Com a crise académica de 1969,foi o primeiro momento da minha vida juventude em que assisti ao confronto de ideais políticos: de um lado o Futuro, do outro o Passado. De um lado a acção utópica por uma sociedade mais justa. Do outro, o pragmatismo caduco das injustiças totalitárias. De um lado o sonho e do outro a arrogância. O Futuro enfrentando o Passado.

Que resta de nós?

Pssssst!!!!!*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O dramaturgo Botho Strauss imaginou uma cena num restaurante cheio de pessoas, com muito bruáá de conversas e do tilintar de loiças e talheres, em que, de súbito, um indivíduo solta um vigoroso «pssssst!»

O restaurante pára, cai um silêncio, estacam as travessas nas mãos dos empregados, todos os olhares convergem para a criatura que, com o mesmo vigor, passados uns bons segundos, atira: «nada, não é nada!»

O restaurante aos poucos regressa à primeira forma. Risos meio esparvoados nas mesas, a rirem-se do homem, claro. Por breves segundos, ele conseguira organizar aquele caos, conseguira segundos mágicos focados nele.

Daniel Innerarity, logo no início de “O Novo Espaço Público”, um livro imprescindível para quem queira perceber estes tempos, explica que fazer hoje política é como fez o homem do restaurante — um conseguir a atenção à bruta.

Henrique Neto, Paulo Morais, Sampaio da Nóvoa, Paulo Freitas do Amaral e Cândido Ferreira acabam de chegar ao restaurante das presidenciais e disseram «pssssst!» Parámos para os ouvir, e eles: «nada, não é nada!». Já recomeçaram as conversas e os risos.

2. No início de Verão de 2011, logo a seguir à derrota socialista nas legislativas, contei esta história do homem do restaurante a uma sala presidida por António José Seguro e enchusmada de vips socráticos já metamorfoseados em vips seguristas sem o menor sobressalto de alma. Contei a história e soltei um «psssst!» vigoroso. A plateia, viciada em politiquês, arregalou os olhos de estranheza.

Fotografia AFP achada aqui
Já sabia que era em vão, mas, mesmo assim, a seguir dei as razões que aconselhavam a que o PS fizesse um balanço honesto do autoritarismo negocista socrático. 

E acrescentei: «tenho saudades do engenheiro Guterres, do engenheiro Sócrates não tenho nenhumas.»

Guterres, como se acaba de saber, em matéria de saudades não “reciproca”.

Segue-se um presidente da república de direita mais dez anos.

This is the first thing

Fotografia de Anders Petersen



This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.
Philip Larkin


quarta-feira, 15 de abril de 2015

3-D *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 15 de Abril de 2005



1. O título deste Olho de Gato, 3-D, tem a ver com o universo das imagens a três dimensões.

Os écrans têm duas dimensões: largura e altura; dar a ideia da terceira dimensão, dar ideia da profundidade, não é fácil. No tempo dos equipamentos analógicos, usavam-se uns óculos, com uma lente vermelha e outra verde, para ver fotografias e filmes a três dimensões. A ideia era fornecer duas imagens ligeiramente diferentes, uma para cada olho. Olhadas à vista desarmada, as imagens pareciam desfocadas e sem definição. Com os tais óculos, o cérebro do espectador processava as imagens em 3-D.
Fotografia editada
a partir desta da VIP/Impala

Tenho uma velha revista com fotografias 3-D, fotografias estereoscópicas, obtidas por duas máquinas fotográficas, a trabalharem em simultâneo, com uma pequena diferença focal. Nestas fotos “em relevo” é possível perceber a “profundidade de campo” de alguns modelos femininos muito bonitos e topográficos.
Em resumo, para explicar melhor o conceito, diria que, com aqueles óculos, é fácil constatar que uma imagem da Marisa Cruz tem muito mais “profundidade de campo” que uma imagem do João Pinto.

No cinema também houve incursões ao universo da 3-D, exactamente usando os tais óculos bicolores. Um exemplo clássico, é “A Criatura da Lagoa Negra”, um filme de 1954. Da experiência as pessoas não guardaram grande ideia: o uso dos óculos é difícil e uma maçada. Ainda por cima, o filme era de meter medo ao susto, não por ser um filme de terror, mas por ser mau.

2. Agora é possível tratar mais massa de informação. As pessoas têm acesso a câmaras de vídeo e a máquinas fotográficas que produzem imagem digitais, de duas dimensões, com boa definição e qualidade.

A capacidade desses equipamentos é aferida pelo número de pixels. Por exemplo, a minha máquina fotográfica tem 3,2 megapixels.
Dentro de algum tempo, em vez de pixels, estaremos a falar de voxels, unidade de informação volumétrica. A Light Space Technologies, tem um Depth Cube, com tecnologia de cristais líquidos, que já consegue converter 15,3 milhões de voxels (1024x748x20) em mais de 465 milhões (1024x748x608). Dá para perceber da qualidade das imagens produzidas e que são trabalháveis com a mesma intuitividade com que se trabalha em gráficos 3-D.

Para já, estas tecnologias serão limitadas a usos profissionais. Cirurgiões vão poder seguir, numa televisão 3-D, o percurso de um cateter num coração a pulsar. Não será ficção científica a ideia duma imobiliária, em Nova Iorque, poder proporcionar uma visita realista a um apartamento em Los Angeles ou em Lisboa.

Resta-nos esperar pela descida dos preços e por o que o pessoal vai fazer com imagens tão tácteis.

3. No dia 30 de Março, William Cristoll, um neo-conservador, editor da Weekly Standard, fazia um discurso sobre política externa no Earlham College, quando levou com uma tarte na cara. Cristol não deu parte de fraco. Limpou a cara com uma toalha de papel, e disse: «Deixem-me acabar este ponto.» Prosseguiu o seu discurso, respondeu a perguntas da audiência, e ficou ainda mais meia hora a conversar, nos bastidores, com alguns estudantes.

Dois dias depois, na Western Michigan University, Pat Buchanan, ex-candidato presidencial e também das direitas, quando já estava no período de perguntas e respostas, levou com maionese na cara. O atirador gritou: “Abaixo o fanatismo!”. Pat Buchanan acabou logo ali a sessão com um: «Obrigado por terem vindo mas eu vou ter que ir lavar a cabeça.»


Deve dizer-se que nem as tartes nem a maionese são grande coisa como argumento e não são defensáveis como ferramenta de debate.
Contudo, reconheça-se: uma dose de maionese é mais fulminante que uma tarte.

falhámos tudo

Fotografia de Yasuhito Wakabayashi

falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor

demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.

já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.
Renata Correia Botelho


terça-feira, 14 de abril de 2015

A política de Pedro Passos Coelho em doze segundos*

Gif de Joe Smith

 * Um filme com o alto patrocínio dos esquerdistas 
Freitas do Amaral, Manuela Ferreira Leite, 
Bagão Félix e José Pacheco Pereira

Vejo o teu rosto quotidiano

Fotografia Joseph Szabo




Vejo o teu rosto quotidiano
como se a penumbra
tivesse olhos
ou como se as raízes pudessem ver
através da sombra

Estou no húmus da casa
no húmus do silêncio
e vejo através das vértebras
de uma luz subterrânea
o teu rosto de terra

Há sempre muros e muros
e o nevoeiro dos dias
mas tu és a chama
sobre a mesa posta

Vem a noite e as serpentes
envolvem as lâmpadas
e reduzem o espaço
Cada um procura
na palma das mãos
os grãos verdes do mar
O monstro vago da noite
desfoca o nosso olhar
e os joelhos vacilam
O teu rosto persiste
como se o teu torso fosse
o tronco de uma árvore
António Ramos Rosa


segunda-feira, 13 de abril de 2015

O Professor Sampaio da Nóvoa não merecia ser ultrajado por gentalha — um texto de JB*

* Comentário de JB ao post "Para uma segunda volta decente nas presidenciais — Vieira versus Branco"


Portugal está a precisar de um sobressalto cívico !

1. A autodestruição da esquerda é uma vitória inesperada para as forças políticas neoliberais mais retrógradas. Estas forças têm procurado destruir o sistema de previdência social, impor o seu domínio através de funcionários não eleitos, alargar e aprofundar desigualdades, minar os direitos dos trabalhadores, privatizar e desnacionalizar os setores mais lucrativos da economia. Quando vejo Moscovici ou Djesslbloem obrigarem a Grécia a incluir a liberalização de despedimentos ou mais privatizações no seu programa, não me esqueço de que ambos são socialistas. E que os socialistas alemães fazem parte do governo de Merkel….

A Presidência da República precisa de recuperar a influência positiva e o prestígio perdidos na desastrosa magistratura de Cavaco Silva.

Uma eleição presidencial ganha-se se houver empatia entre o eleitorado e o candidato. Para ganhar as eleições presidenciais, a esquerda não precisa de um candidato com forte imagem de esquerda: precisa de um candidato que, defendendo os seus valores essenciais, abra espaços nos eleitores do centro.

2. Mas a esquerda quase aparenta uma genuína vontade de perder as presidenciais, na verdade Sérgio Sousa Pinto no seu afã redondo de auto presunção de importância não tem é o direito de apoucar Nóvoa com considerações soezes e desconchavadas. Por muito que se esforce, nunca conseguirá proferir um discurso tão desassombrado, revigorante e inspirador como o de Mujica na ONU. Já antes Santos Silva, Lellos & compª. se tinham referido a H. Neto de forma inadmissível.

Se à esquerda existir um candidato presidencial que seja uma referência, que levante os cidadãos deprimidos, que seja alguém de quem nos possamos orgulhar, esse candidato ajudará o PS a fazer-se ouvir e a ganhar espaço de manobra. 


Fotografia daqui
A candidatura do Reitor Honorário da Universidade de Lisboa será absolutamente transversal sem deixar equívocos quanto à margem ideológica do rio das ideias a que pertence: humanista acima de tudo. Não estão em causa as qualidades de Sampaio da Nóvoa mas sim a capacidade de envolver e motivar à participação cívica nas eleições, para empolgar e fazer renascer a esperança dos cidadãos, para conseguir retirar a cada um de nós o melhor que temos para dar, enquanto membros de uma sociedade que está exausta e deslaçada.


Ainda não chegou a hora de revelar qual irá ser o meu Candidato Presidencial. Mas já chegou a hora de declarar que é vergonhosa a atitude dos que julgam poder escoucinhar quem fez a sua imagem honrada com muito trabalho, muita dignidade e muita doação ao seu País. O Professor Sampaio da Nóvoa não merecia ser ultrajado por gentalha. Sampaio da Nóvoa está claramente de fora do manobrismo partidário que hoje passa por política em Portugal e em grande parte do mundo; mas precisamente por isso é que está na política, isto é, no que interessa - vitalmente - à "polis".

3. Os sinais de degenerescência e apagamento do PS são evidentes. À sua incapacidade em assumir um consistente programa político, que o diferencie da direita, soma-se também a ausência de um candidato presidencial de peso, que seja o catalisador do descontentamento popular.

A divergência só tem lógica quando for inteligível e inteligente. A democracia faz-se exactamente com alternativas e com coragem política. Aguardemos que outras personalidades sintam também esse apelo de cidadania, seja qual for o seu espaço político. É mais que tempo de se delinearem as propostas para o novo ciclo político.

No meio desta lama a voz sensata (como é habitual) de João Cravinho: "A grande batalha do PS agora é realmente preparar-se, combater, difundir, procurar mobilizar para as legislativas.”

Os grandes êxitos da política do centro-direita na Europa e no Mundo, com toda a “Paz e Bem-Estar” proporcionada, são a medida da exactidão das teorias científicas em que tal política se ancora.

E queremos continuar no TINA (There Is No Alternative)?
De certeza que não há alternativa?


JB

I am in the need of music

Gif daqui

I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling fingertips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!



There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep.
Elizabeth Bishop