terça-feira, 31 de março de 2015

Nem para limões servem — por JB*

* Dois comentários de JB ao post "Limões *"




Rafael Marques de Morais
No dia do Teatro, na casa da democracia portuguesa houve uma importante votação: apoio ao jornalista angolano Rafael Marques.** 

Este Homem tem denunciado com coragem e risco os negócios ilícitos de governantes angolanos.

Resultado da votação: Bloco de Esquerda e cinco deputados socialistas a favor.
Algum socialista é deputado por Viseu? NÃO!
Resto do Parlamento, contra!

E o povo, pá?
Têm fome? Comam brioche (como respondeu a rainha francesa).
Estávamos nas vésperas da Revolução Francesa.
E passa mal o povo angolano...

Mas em Portugal quem clama pelo povo também tem telhados de vidro. Pois é, PCP...

Nestes dias todos os partidos estão dominados pela miopia das folhas de cálculo e das sondagens.

Sejamos universalistas e plurais na intransigente defesa dos valores da liberdade e da democracia.

E ainda falamos de "limões"!!??

Estes estão podres...

Não há sumo novo no PS VISEU!




Para que não restem dúvidas.
Para que não pensem que o texto pedia "o céu e a terra".

Para que não haja dúbias interpretações.
Para que saibam o que não votaram (TODOS) os deputados de Viseu do PS / PPD e CDS, aqui fica o texto.

"Rafael Marques tem sido frequentemente perseguido por responsáveis do Governo de Angola, como denunciam várias organizações internacionais como a Amnistia Internacional. O julgamento que presentemente enfrenta é apenas resultado do legítimo exercício do direito de liberdade de expressão, reconhecido e garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e, inclusive, pela Constituição de Angola, nos seus artigos 40 e 44, assim como por outros instrumentos jurídicos dos quais Angola é signatária, como são exemplo a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos.

Assim, a Assembleia da República, reunida em plenário:
Reafirma o seu empenho na defesa da liberdade de expressão e dos direitos dos jornalistas em todos os países e a sua oposição à respetiva condenação com fundamentos em delitos de opinião;
Manifesta a sua solidariedade para com Rafael Marques pela coragem demonstrada na defesa da liberdade de expressão em Angola;

Condena a perseguição de que Rafael Marques continua a ser vítima em Angola e apela às autoridades e instâncias judiciais angolanas para que velem no sentido de ser anulado o julgamento."

Recordando, o sr Gaspar: «Que palavras não entenderam?»

Que palavras da luta deste Homem por um país de desenvolvimento, para todos, de liberdade, de democracia, não entenderam?

E depois "somos todos Charlie", não é???

É por essas e por outras que, como dizia o prof Mota Pinto: «Gosto sempre de ter as chaves do carro no bolso.»

Nem para limões servem...
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** Sobre Rafael Marques, neste blogue, aqui e aqui

Engoli

Gif daqui


Engoli
água. Profundamente: a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.
Herberto Helder


segunda-feira, 30 de março de 2015

Honi soit qui mal y pense


Isto não é nenhuma metáfora política ...

Praça D. Duarte, Viseu — 28 de Março de 2015
Fotografia de Margarida Martins



... isto é uma simulação de incêndio no centro histórico de Viseu.

Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos

Gif daqui




Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos,
fica branca de andar encostada à noite,
e respira, respira,

sim respira,
como uma colina tão nua
que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada,
ou água cruel aberta

por ti,
tubarão crepitando pelo Índico,
entre geladas barragens de sal em rama,
com uma garra no ventre,
uma síncope,
um mergulho como uma flor

que se não chama negra,
nem cujo nome pode ser dito assim:
aquilo é a paixão,

mas que,
tremendo,
se pode pronunciar como beleza este espaço,
crime esta paisagem,
ou então:
a lua dança

como um vestido bêbedo
— ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos,
e atira fora esse ramo,
e aí verás como é que eu me movo:

sim,
eu respiro,
estou direita,
deixa-me passar
— aqui vai uma ilha de pés descalços,
aqui é um espelho caminhando como a voz
por onde entram e saem
imagens cambaleantes,

e tu chamas-te então:
como eu vi o tempo,
era uma maneira cega de haver junquilhos
que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos

e viverem como crianças ondulantes,
esquecidas do seu texto,
num exílio de espanto e beleza brusca,
de fazer pensar,
súbito,
na morte prometida a todas as coisas

que se aproximam demasiado do nosso amor,
e é então que tu dizes:
há casas desabitadas,
eu estou nessas casas

que tremem quando movo as mãos,
a minha cabeleira palpita:
é o sangue que sobe do coração apavorado
e se faz dócil,
quando o pente arrefece um a um os cabelos,

e então o meu nome é:
pimenta,
areia sentada,
abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,

ah, deixa-me passar,
digo-te baixo como hoje me chamo
e como nunca mais me chamarei:
loucura,

loucura unida à rítmica matéria das coisas,
e se abrires o teu sono,
dessa vez única verás o que sou:
uma figura

impelida pela vertigem,
a inclinação do teu próprio conhecimento
sobre a morte iluminada por todos os
lados,

depois terei um só nome:
revelação,
até que os dias arquejantes me sufoquem e,
no terror que te atravessa como água dolorosa,

eu seja a tua ilha a prumo,
onde habitas,
tu próprio uma ilha desabitada,

entre a lua
como uma rosa infrene e os peixes frios
e selvagens.
Herberto Helder



domingo, 29 de março de 2015

Cruz de Lorena *

Viseu, Rua do Hospital
Fotografia Olho de Gato

Viseu, Rua do Hospital
Fotografia Olho de Gato

Viseu, Rua do Hospital
Fotografia Olho de Gato



* Desde 1902, símbolo da luta contra a tuberculose.

(simília similibus)

Gif daqui


Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas - e logo o meu dedo se põe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração - toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta — o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida



— porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma - a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.
Herberto Helder


sábado, 28 de março de 2015

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

Gif daqui




Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.
Herberto Helder





sexta-feira, 27 de março de 2015

Limões *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 1970, o economista George Akerlof publicou o seu ensaio "Mercado dos limões: incerteza da qualidade e mecanismo do mercado". Nele explica-se que, nos casos em que existe uma grande assimetria de informação entre o vendedor e o comprador e em que não é fácil avaliar a qualidade do produto, as pessoas reduzem o risco de serem enganadas se pensarem que toda a gente as quer enganar.


Imagem daqui
É claro que estes “limões” não são os frutos dos limoeiros. “Limões”, aqui, é o calão norte-americano correspondente ao nosso “charutos”. Refere-se a carros usados em mau estado. “Charutos” pelo fumo malcheiroso, "limões" pela amargueza que trazem à vida do comprador.

Ora, explicou Akerlof, a “dúvida metódica” do comprador perante a conversa do vendedor — que diz sempre que o carro está óptimo — faz com que as pessoas tendam a atribuir aos carros um valor médio. Os automóveis de boa qualidade, conhecidos como “ameixas” nos EUA e como “vitelinhas” entre nós, são avaliados para baixo e os de má qualidade para cima. Como explicou o prémio nobel Akerlof, o resultado é as “ameixas” saírem do mercado que fica entregue aos “limões”.

O mau expulsa o bom. Na lei de Gresham, “a má moeda” expulsa “a boa moeda”. Nesta lei de Akerlof, “o limão” expulsa “a ameixa”.

2. Há umas semanas, o sempre bem informado director deste jornal descreveu aqui o “nervoso miudinho” que vai no PS por um lugarito na lista de deputados.

O jornalista António Figueiredo contou-nos que o líder distrital António Borges, em vez das prometidas primárias, prefere agora precaver-se de problemas produzindo prudentemente uma lista deputacional em “pequeno comité”.


Fotografia do FB de António Borges
E que, na corrida, a seguir a António Borges, alinham-se acartadores da pasta do chefe, gente bem posicionada dentro do partido mas que, fora dele, quando abre a boca faz perder votos. Alguns nomes: Miguel Ginestal, José Rui Cruz, Lúcia Silva, Marisabel Moutela.

É caso para perguntar: no PS-Viseu já só há “limões”?

A paixão grega

Herberto Helder

23.11.1930 — 23.03.2015
 



Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega
Herberto Helder


quinta-feira, 26 de março de 2015

No sorriso louco das mães


Herberto Helder
23.11.1930 — 23.03.2015 





No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Helder


quarta-feira, 25 de março de 2015

daqui a uns tempos acho que vou arvoar

Herberto Helder
23 .11.1930 — 23.3.2015 



daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma, contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas, pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
¿Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
Herberto Helder

terça-feira, 24 de março de 2015

fábula dos livros das ondas

Fotografia de Robert Doisneau



bom é quando os salpicos do mar tornam o teu corpo branco como a cal
e as marés se amontoam em nós nas páginas de um diário escrito a sal
e eu fecho os olhos e leio-me nesses livros das ondas que sulcamos afinal


(que o teu barco seja a pele desta vela que desfraldo em ti
que a tua vela seja o barco desta pele que navega em mim
que a tua pele seja a vela deste barco que naufraga em nós)
José Luís

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The song laments the departure of the bride, leaving her family, and being given off to marriage so young:

Words of Advice For Young People — William S. Burroughs

William S. Burroughs
Fotografia de Brion Gysin


People often ask me if I have any words of advice for young people.
Well… here are a few simple admonitions for young and old:

Never interfere in a boy-and-girl fight.

Beware of whores who say they don’t want money. The hell they don’t. What they mean is they want MORE MONEY, much more.

If you’re doing business with a religious son of a bitch, get it in writing. His word isn’t worth shit, not with the good Lord telling him how to fuck you on the deal.
Avoid fuck-ups. You all know the type. Anything they have anything to do with, no matter how good it sounds, turns into a disaster.

Do not offer sympathy to the mentally ill. Tell them firmly, ‘I am not paid to listen to this drivel. You are a terminal fool.’

Now some of you may encounter the devil’s bargain if you get that far. Any old soul is worth saving at least to a priest, but not every soul is worth buying. So you can take the offer as a compliment. They charge the easy ones first, you know, like money, all the money there is. But who wants to be the richest guy in some cemetery? Not much to spend it on, eh, Gramps? Getting too old to cut the mustard. Have you forgotten something, Gramps? In order to feel something, you have to be there. You have to be 18. You’re not 18, you are 78. Old fool sold his soul for a strap-on.

How about an honorable bargain? ‘You always wanted to become a doctor. Now’s your chance. Why, you could have become a great healer and benefit humanity. What’s wrong with that?’ Just about everything. There are no honorable bargains involving exchange of qualitative merchandise like souls. Just quantitative merchandise like time and money. So piss off, Satan, and don’t take me for dumber than I look. As an old junk pusher told me, ‘Watch whose money you pick up.
William S. Burroughs

segunda-feira, 23 de março de 2015

Eu amei-te…

Gif daqui


Eu amei-te; mesmo agora devo confessar,
Algumas brasas desse amor estão ainda a arder;
Mas não deixes que isso te faça sofrer,
Não quero que nada te possa inquietar.
O meu amor por ti era um amor desesperado,
Tímido, por vezes, e ciumento por fim.
Tão terna, tão sinceramente te amei,
Que peço a Deus que outro te ame assim.
Aleksandr Púchkin

domingo, 22 de março de 2015

Queima o sangue um fogo de desejo

Gif daqui e feito a partir de "Choros”,
um filme experimental de 
Michael Langan and Terah Maher



Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna.
Aleksandr Púchkin




Amor a Matilde

Junto à Escola João de Barros (Amarelinha) — Viseu
Fotografia Olho de Gato

sábado, 21 de março de 2015

Dente cor-de-laranja

Junto à Escola João de Barros (Amarelinha) — Viseu
Fotografia Olho de Gato
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Adenda em 22/3, às 15:00

1. Quando publiquei esta fotografia não sabia que este graf é uma homenagem, uma lindíssima homenagem ao Fábio que nos deixou recentemente;

2. Não sabia, tão pouco, que o graf tinha sido estragado/sabotado por uns "engraçadinhos" sem graça nenhuma;

3. Quero crer que também eles não conheciam as circunstâncias e o sentido deste graf;


4. Um abraço forte solidário aos pais do Fábio e aos seus queridos amigos que lhe prestaram esta homenagem.


"Cataplanas" que tocam, bolas que levitam — poesia hoje não, nos outros dias

sexta-feira, 20 de março de 2015

Quando vier a primavera


Gif daqui

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro


Entalados *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Imagem daqui
O estado vai reunindo informação de toda a natureza sobre os cidadãos. Uma, legítima e incontornável, outra, nem por isso.

No que toca a impostos, não há volta a dar-lhe. A “autoridade tributária” tem mesmo que recolher informação o mais exacta possível sobre os rendimentos, as despesas e o património dos ditos “sujeitos passivos”. Essa informação é organizada em bases de dados gigantescas que são acedidas por muita gente.

Quando o histórico fiscal de Pedro Passos Coelho chegou aos jornais, percebeu-se que os estados-maiores dos partidos trataram a situação com pinças, cheios de medo.

Um sindicato referiu a existência de uma putativa “lista VIP” de contribuintes, lista negada pelo governo. Soube-se também que foram abertos inquéritos aos trabalhadores do fisco que andaram a espreitar a situação fiscal de figuras públicas.

Há muito nevoeiro e muita “cautela e caldos de galinha” neste caso. O fisco é o segmento do estado que melhor funciona: é uma máquina cada vez mais eficaz, implacável e sequiosa. Este “fascismo” fiscal é usado pelos governos para tudo. Até para cobrar receitas privadas como, por exemplo, as portagens para os rentistas das auto-estradas.

Uma coisa é certa: nesta matéria todos os contribuintes têm que ser “VIP”. O sistema informático do fisco tem que estar preparado para registar o “quem”, o “a quem”, o “quando” e o “quê” de todas as pesquisas. Se um funcionário de Arronches de Baixo, no dia 20 de Março, pelas 11H15, espreitar a situação fiscal do sr. António Costa de Lisboa, ou da sra. Antonieta Francisca de Portimão, esse funcionário tem de estar preparado para explicar porque fez isso.

E, se essa informação for parar a um órgão de comunicação social, o mínimo que se espera é que lhe seja levantado um inquérito e demais arsenal disciplinar da função pública.

Não se ouviu nenhum político falar com clareza nisto, o que quer dizer, em bom português, que há muitos “rabos entalados” por aí.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A porta aporta

Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo


a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússola enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
Luiza Neto Jorge




quarta-feira, 18 de março de 2015

Diplomacias *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Março de 2005


1. Contrariamente ao que se passa na Europa, o pensamento político da direita é muito forte e influente nos Estados Unidos. A política musculada de Bush resulta muito do trabalho ideológico da tropa neo-conservadora.

No Olho de Gato de 25 de Abril de 2003, chamei a atenção dos leitores para a Weekly Standard, a revista política americana mais influente na Casa Branca. Na altura dizia-se que só o Gabinete do Vice-presidente, Dick Cheney, mandava comprar 37 exemplares desta revista.

Já está disponível, em edição online, a Weekly Standard de 21 de Março. Aí pode ler-se um artigo chamado “Não uso cenouras”, assinado por Stephen F. Hayes, e que se debruça sobre a nomeação de John Bolton para futuro embaixador americano nas Nações Unidas.

O título deste texto cita a resposta dada por John Bolton, então Sub-Secretário de Estado para o Controle de Armamento e Segurança Internacional, quando foi interrogado acerca da continuação da “política de pau e cenoura” para a Coreia do Norte. “Não uso cenouras”, respondeu ele, com secura.

Quanto às Nações Unidas, John Bolton disse, em 1994: “Não existe essa tal coisa chamada Nações Unidas.” Já agora, mais uma pérola: “O edifício da ONU tem 38 andares; se perdesse 10, não faria a mínima diferença.”

Fotografia Olho de Gato
2. Esta última afirmação de John Bolton a “querer” tirar andares ao Edifício da ONU, fez-me recordar o “projecto” da demolição de cinco pisos ao Edifício da Segurança Social, em Viseu. Este gambozino foi inventado em 2001 pelo Presidente da Câmara e desapareceu do mapa mediático enquanto o PSD e o PP estiveram no poder.

Será que a ideia de deitar abaixo parcial ou totalmente o Edifício da Segurança Social vai regressar agora para encher os nossos jornais? Será que vamos ter outra vez o mesmo blá-blá-blá, agora que temos um governo de cor partidária distinta do da Câmara Municipal de Viseu?

3. Regressando ao “Não uso cenouras”, é interessante perceber-se que o contencioso entre os americanos e a ONU não é só num sentido. Os americanos têm boas razões de queixa das Nações Unidas. Basta lembrar que a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas tem como membros países como Cuba e o Zimbawe. Fidel e Mugabe são, desta forma obscena, promovidos à categoria de democratas.

Mas também é verdade que a ONU tem também um capital de queixa do unilateralismo e arrogância dos Estados Unidos. Em Setembro do ano passado, Boutros Boutros-Ghali, anterior Secretário Geral da ONU, numa entrevista a uma TV egípcia disse que os Estados Unidos são um “regime totalitário”, já que “fora da América, a política americana não é democrática”. Estas são afirmações dum diplomata de topo; são palavras dum ex-número um mundial.

4. Freitas do Amaral foi, sem dúvida, o mais criticado dos novos ministros do Governo de José Sócrates. Muita gente lembrou as palavras duras do nosso novo Ministro dos Negócios Estrangeiros dirigidas a George Bush e à Guerra do Iraque. Por exemplo, Paulo Portas, que pôs Portugal de gatas na Guerra do Iraque, veio agora criticar, com severidade, a escolha de Freitas do Amaral para o Palácio das Necessidades e – como um rapazinho birrento e mal-educado – tratou de tirar o retrato de Freitas da sede do CDS.
Deu para ver que a direita não esconde uma grande “dor de cotovelo” por Sócrates ter conseguido a colaboração dum ministro da qualidade de Freitas do Amaral.

Sócrates tem Freitas. Durão Barroso, há 3 anos, não conseguiu melhor que um Ministro dos Negócios Estrangeiros que, se ficar na história, vai ser por ter posto o nome da filha nas páginas dos jornais por razões bem tristes.

5. “Nem o homem mais rico do mundo consegue comprar um passado.” Disse isto, uma vez, Óscar Wilde.

Quando vier da minha terra que é no mundo

Fotografias de Lee Jeffries 

(clicar para ver maior)



Quando vier da minha terra que é no mundo
prá minha terra que é do coração,
usarei as minhas ferramentas
para arrasar vulcões estéreis
e conhecer os frutos que nos são negados.

Furos, nascentes, pás e picaretas,
agrónomos, hidráulicos, correcção, levadas,
estas serão as minhas ferramentas
para combater as secas prolongadas
e colher os frutos que nos são negados.

O resto, é história antiga: não interessa
senão para ilustrar a condição
que moveu os braços musculados
e aos filhos futuros nossos consentiu
colher os frutos que nos são negados.
Ruy Cinatti


terça-feira, 17 de março de 2015

A ciascun'alma presa e gentil core

Fotografia de Burt Glinn


          A ciascun'alma presa e gentil core
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente,
salute in lor segnor, cioè Amore.

          Già eran quasi che atterzate l'ore
del tempo che onne stella n'è lucente,
quando m'apparve Amor subitamente,
cui essenza membrar mi dà orrore.

          Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in una drappo dormendo.

          Poi la svegliava, e d'esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo.
Dante Alighieri


«Procuro a pobreza na linguagem» — o último filme do Godard no Cine Clube de Viseu esta terça-feira



«Procuro a pobreza na linguagem» — diz uma personagem do último filme de Jean-Luc Godard que o Cine Clube de Viseu exibe, nesta terça-feira, no IPDJ da cidade.

"Adeus à Linguagem" é uma "experiência visual" que recebeu o prémio do júri do Festival de Cannes, em 2014, "ex-aequo" com "Mamã", de Xavier Dolan.

Não vi o filme, mas pelo trailer...



... dá para perceber que ele não tem a radicalidade de A Máscara, de Ingmar Bergman, em que a protagonista consuma literalmente o adeus à linguagem, recusando-se a falar.

Ver Jean-Luc Godard é sempre um desafio.


Listo os quatro factores que mais causam erosão à linguagem enunciados por George Steiner, e que vou procurar no filme de Godard:

1 — Dada: "no interior da própria literatura apareceu um movimento anti-linguagem";

2 —  Lógica formal de Wittgenstein e positivismo lógico: "a confiança no meio através do qual se comunica (...) torna-se-nos simplesmente inacessível";

3 — Expansão da matemática e ciências exactas: "diminuiu o campo para a linguagem descrever o real, os 'factos naturais'";

4 — Distorção das palavras: "pelos meios de comunicação de massas e pelas mentiras da barbárie política moderna. 
Esta brutalização e profanação da palavra é muito provavelmente uma das principais causas da vaga de autodestruição (...) "

«Na minha boca», diz Ionesco, «as palavras morreram.»

segunda-feira, 16 de março de 2015

If Hands Could Free You, Heart

Fotografia de Robert Frank



If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate? Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?

I would not lift the latch;
For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun—
Still end in loss:
I should find no bent arm, no bed
To rest my head.
Philip Larkin

domingo, 15 de março de 2015

O Elevador do Viriato

Viseu, 15.9.2014
Fotografia Olho de Gato


A verdade cabia nos teus olhos

Fotografia de Sam Massooleh,
inspirada em Albert Watson


A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?
Fernando Guimarães


sábado, 14 de março de 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

Populismo *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Quando há crises sociais mais agudas lá reaparece o populismo, à esquerda e à direita, à procura de apoio popular. Está a ter muito.

Cas Mudde, no seu livro de 2004 "The Populist Zeitgeist", define o populismo como uma ideologia que vê dois campos antagónicos e homogéneos na sociedade: a “elite corrupta” e o “povo puro”.

O populismo ignora ou finge ignorar a complexidade das sociedades contemporâneas. Acima de tudo, ele ilude o facto de, cada vez mais, os problemas já não terem soluções nacionais mas só supranacionais.

O populismo é, por definição, paroquial e nacionalista e trata sempre de construir um inimigo. Para mobilizar o seu endogrupo, o populismo precisa de diabolizar um exogrupo, seja ele o “estrangeiro”, o “imigrante”, o “preguiçoso do rendimento mínimo”, o “neoliberal”, o ...

Na Grécia, o Syriza assumiu, com sucesso eleitoral, uma campanha antigermânica que tinha que acabar, como acabou, em delírios sobre reparações de guerra e numa coligação com um partido da direita nacionalista.

2. Esta política está a contaminar até os partidos tradicionais. Entre nós, a retórica da “voz grossa” contra a “Europa” e contra o “bom-aluno” totó que aceita tudo de Bruxelas é um clássico da política portuguesa. É por aqui que anda António Costa.

Contudo, desde o resgate de 2011, o tom geral tem-se tornado mais agressivo. Mais à esquerda, suspira-se cada vez mais por alguém que “bata o pé” à “senhora” Merkel. Esta escalada populista vai ser interessante de acompanhar.

O bloco vai imitar o linguajar do Podemos batendo na corrupção da “casta” que nos governa. Não se sabe se Luís Fazenda vai deixar crescer um rabo-de-cavalo como Pablo Iglesias.


Daqui (editada)
Quanto a Jerónimo de Sousa, tudo indica, vai ser ainda mais “patriótico e de esquerda”, muito mais “anti-euro” e muito mais eficaz. 

Será que ele, tal como Marinho e Pinto, pode ambicionar eleger um deputado no distrito de Viseu?

Oh, como se me alonga de ano em ano

Fotografia de Gérard Castello-Lopes



Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Luís Vaz de Camões