sábado, 28 de fevereiro de 2015

A direcção do sangue

Fotografia de Brett Walker

Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração
José Tolentino de Mendonça


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Taxas e destaxas *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O parlamento avança para a aprovação da taxa sobre os dispositivos electrónicos com memória (telemóveis, pens, computadores, boxes, ...), taxa que se aplica mesmo a aparelhos onde só vamos ter fotografias e vídeos pessoais.

As receitas obtidas vão ser geridas por uma putativa “Associação para a Gestão da Cópia Privada” que, por sua vez, as vai distribuir pelas associações de gestão de direitos de autor que, por sua vez, dividirão a receita sobrante por autores (40%), intérpretes (30%) e produtores (30% ). O que ultrapassar 15 milhões de euros vai para a fome de fomentar do “Fundo de Fomento Cultural”.

Há sempre um lobby capaz de pôr políticos a tirarem dinheiro aos cidadãos em seu benefício.

Um smartphone novo, com mais esta alcavala, poderá ficar mais caro quinze euros. Isto é uma taxa ou uma taxona, ministro Piiiires de Liiiiima?

Ensaio completo publicado no Guardian aqui
2. Perante isto, há que achar os países sem esta taxa ou com uma menor para fazermos as nossas compras e perceber que a conversa dos “direitos de autor” em tempos de partilha online anda muito mal contada.

Para melhorarmos essa compreensão, nada melhor que procurar na net a notável reflexão feita em 15 de Novembro, no “Melbourne's Face The Music”, por Steve Albini (há décadas músico e engenheiro de som com centenas de discos editados e autor, em 1993, do importante ensaio “The Problem With Music”).

3. Quando um lobby consegue uma isenção, em vez de uma taxa passamos a ter uma destaxa.

Eis um exemplo recente de destaxa: os 1,8 milhões de euros perdoados ao Benfica pela câmara de Lisboa. Isenção que, graças ao alarido público, vai agora ser chumbada na assembleia municipal.

Os políticos não aprenderam nada com a bancarrota de 2011. Não aprenderam eles mas aprendeu a opinião pública que reagiu com violência a esta pouca-vergonha.

O país parece preparado para pregar um susto eleitoral aos partidos do sistema. É só aparecerem protagonistas novos credíveis.

Três haicais brasileiros

Fotografia de Kishin Shinoyama


1
o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer
Alice Ruiz





2
Na poça d'água
o gato lambe
a gota de lua.
Yeda Prates Bernis







3
Me comovem
tuas mãos limpas
e tua cabeça suja.
Eliane Pantoja Vaidya



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Ai Deus! Que grave coita de sofrer

Head Of A Young Girl, de William Adolphe Bouguereau
Gif de Stefano Tagliafierro



Ai Deus! Que grave coita de sofrer:
desejar mort'e haver de viver
com'hoj'eu viv', e mui sem meu prazer,
com esta coita, que me vem tanta!
Desejo mort'e queria morrer,
               porque se foi a rainha franca.*

A esta coita nunca eu par vi:
desejo morte, pero vivo assi,
per bõa fé, a gram pesar de mi;
e direi-vos que me mais quebranta:
desejo morte, que sempre temi,
               porque se foi a rainha franca.

Ai coitado! Com quanto mal me vem,
porque desejo mia mort', e por en
perdi o dormir e perdi o sem,
e choro sempre quand'outrem canta;
e mais desejo morte doutra rem
               porque se foi a rainha franca.
Pero Garcia Burgalês

* Provavelmente o regresso definitivo a França, por volta de 1255, de D. Joana de Poitiers, viúva de D. Fernando III e sua segunda mulher, detalhes aqui

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Inverno

Fotografia de Lakin Ogunbanwo



Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto
Paulo Leminski



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Um VERMELHO escolhido por um sportinguista ...

... por razões que conto explicar em dez minutos... 


... máximo dos máximos em quinze.

Extremadura

Fotografia de Walker Evans

Todos los negocios del mundo
se reducen a uno solo, Antonio,
robar a los pobres.

Por muchos nombres que le pongan,
por muy bonito que lo vistan,
este es el único negocio que hay en el mundo.

Yo pongo la tierra, las semillas, el agua, el trabajo,
y los beneficios se los llevan los intermediarios.

A mí me están pagando el kilo de tomates
a 20 céntimos,
pero si tú vas a comprarlos a la tienda
te lo cobran a dos euros.

¿Esto como es posible?,
pues porque en el mundo hay listos y tontos,
y a nosotros nos tocó estar entre los tontos.

Los tontos son los que trabajan desde niños,
los que tratan de vivir
haciendo el menor daño posible,
los que cumplen con las leyes, con el fisco;
los tontos son los que se resignan,
los que se conforman,
los que agachan la cabeza,
los que no quieren problemas;
los tontos son los que mueren por una patria
que te compra los tomates a veinte céntimos.

Cada cinco minutos nace un tonto.
Extremadura es uno de los sitios
donde más tontos nacen de toda España,
no lo digo yo, lo dicen las estadísticas.

Pero yo me pregunto,
y un tío que es multimillonario,
que tiene millones y millones,
¿para qué quiere más,
qué necesidad tiene de seguir robando?

¿Es que a la hora de acostarse,
se puede meter en más de una cama?
Antonio Orihuela



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A CULPA (2010), de David Victori — duas curtas-metragens para a mesma história, sendo a segunda uma maquete da primeira


La Culpa
Argumento e realização: David Victori

Com:
Carlus Fábrega
Cesc Gómez 
Mar Ulldemolins
Pol Estadella

Vencedor do Your Film Festival do YouTube para a melhor curta online, 2012, $500000






Crime perfeito

Fotografia de Ralph Crane




O meu gato branco gosta de brincar
com os papéis amachucados
que deito no lixo. Tira-os do caixote
e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos
de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer
muitos poemas que não gostava
assim, sem indícios.
Teresa Jardim


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Reformas avulsas MAS que conduzem ao marasmo total se não se imiscuírem DAS suas responsabilidades

Lúcia Araújo Silva, uma das estrelas do PS-Viseu, costuma(va) entreter-se a mandar spam aos militantes — veja-se o esplendor desta actividade meritória aqui no Rua Direita.

Desta vez, Lúcia Araújo Silva, em vez de spam, decidiu partilhar com o mundo um seu texto intitulado — “Os professores são alvos a abater” pelo governo PSD/CDS, que pode e deve ser lido na sua integralidade aqui no Farol da Nossa Terra.

O texto arranca assim:
"A educação e a democracia são dois pilares fundamentais de uma sociedade moderna e progressista."

Repita-se:
"A educação e a democracia são dois pilares fundamentais de uma sociedade moderna e progressista."

Tanto e tão bom estímulo ao espírito este que nos remete para uma indagação interior muito produtiva:

— estaremos perante dois pilares de uma sociedade só e só se ela for moderna e progressista? E se for só moderna? E se for só progressista? Haverá mais pilares? Quantos mais?
O "plano nacional de vacinas" será, também ele, um pilar de uma sociedade moderna? E de uma sociedade progressista?  

Tentemos o segundo período:
"Nas últimas décadas temos vindo a assistir a um conjunto de reformas avulsas para a educação, mas atualmente essas reformas estão a conduzir a educação a um marasmo total."

Repita-se:
"Nas últimas décadas temos vindo a assistir a um conjunto de reformas avulsas para a educação, mas atualmente essas reformas estão a conduzir a educação a um marasmo total."

Aqui o desafio intelectual é ainda maior e mais estimulante:
— que "últimas décadas"? A da co-educação de Veiga Simão? A da massificação e do eduquês de Roberto Carneiro? A do burocratismo centralista de Maria de Lurdes Rodrigues? A da docimologia austeritária de Nuno Crato?

As "reformas avulsas" terão sido boas e o "atualmente" é que é "
um marasmo total"?
As "reformas avulsas" terão sido más e o "atualmente" ser um "marasmo total" é consequência?
Se em vez de  "reformas avulsas para a educação" tivéssemos tido reformas por atacado e por grosso, essas reformas "atualmente" já não estariam "a conduzir a educação a um marasmo total"?

Avancemos para um e só mais um relance a este interessantíssimo texto.
Pergunta e pergunta-se Lúcia Araújo Silva mais para a frente:
"Estará Nuno Crato e a sua equipa a imiscuir-se das suas verdadeiras responsabilidades?"


Repete-se:
"Estará Nuno Crato e a sua equipa a imiscuir-se das suas verdadeiras responsabilidades?"


Depois do tempo necessário para ficarmos devidamente imiscuídos, tente-se: 
— Nuno Crato e a sua equipa fazem mal em "imiscuir-se DAS suas verdadeiras responsabilidades" ou fazem mal em "imiscuir-se NAS suas verdadeiras responsabilidades"?
Será isto? Não será isto? Imiscuir é bom neste caso? Não é?

Uma coisa é certa: no deserto de ideias em que se transformou o PS-Viseu da dupla Borges/Ginestal, este "pensamento"  é capaz de ir longe.


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Adenda às 21:05 de 23/2/2015
Este tão interessante artigo foi também publicado hoje aqui no ViseuMais.Com


Murmuro o teu nome ao rés da relva

Fotografia de Ralph Crane


Murmuro o teu nome ao rés da relva

Murmuro-o
Em diagonal da terra ao céu azul
Radiante

Felicíssimo
Não entendo nada.
Alberto de Lacerda


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sobrevivências e Subserviências * — por JB

* Comentário que JB deixou à crónica de sexta-feira no Jornal do Centro "Sobrevivências":



1. O texto do sr Gato é muito abrangente e com um humor felino quase letal.

Sobrevivências e subserviências são dois sinais dos tempos terríveis que estamos a atravessar e da ausência de esperança.

Começo por recordar o poema, na versão mais conhecida – «Primeiro levaram os judeus, // mas não falei, por não ser judeu. // Depois, perseguiram os comunistas, // Nada disse então, por não ser comunista. (…)» – publicada em 1933 e da autoria de Martin Niemöller (o pastor luterano alemão antinazi que um dia interpelou pessoalmente Hitler e por isso pagou elevado preço) a que junto:


“… Ser solidário assim tão longe e perto
No coração de mim por mim aberto
Amando a inquietação que permanece
Pr’além da inquietação que me apetece
foi como me lembrei de começar …”
“Ser Solidário” 
José Mário Branco




Até há pouco, a solidariedade parecia corresponder a um irreversível sinal de desenvolvimento. Mas a mudança brutal dos códigos sociais a que temos assistido está a alterar rapidamente a afirmação desse sinal. O sociólogo Émile Durkheim falava da solidariedade como um elo moral capaz de unir os indivíduos do mesmo grupo e de funcionar como factor de coesão. Sem ela, as sociedades dissolver-se-iam e os humanos voltariam a viver em bandos, centrados na sobrevivência e numa interminável guerra de todos contra todos.

Numa notável entrevista ao caderno 2, do Público, (26 de Maio de 2013) António Sampaio da Nóvoa, referia-se numa frase certeira àqueles que, na actual situação de completo aviltamento da vida dos portugueses e da própria independência do país, imposto por políticas cegas e criminosas que estão a empenhar o futuro que é de todos: «em tempos tão duros como os de hoje ninguém tem o direito de ficar em silêncio». Vale a pena sublinhá-la porque é disso mesmo que se trata: quem cala consente, quem nada faz porque pensa que não vale a pena cava a própria sepultura, quem se refugia na vidinha estritamente caseira, pessoal, e esquece o colectivo, pagará por isso.


Imagem daqui

E aqui chegamos à Grécia, que, nas actuais circunstâncias, é um indicador de futuro para os países e as populações que mais carregam o peso da crise económica e política. O mundo da finança e político europeu (com dois socialistas (!!!) no topo) continua a querer fazer dela um exemplo, e na tentativa de punir o Estado da zona euro que lhe parece mais frágil, continua a fazer uma forte pressão e a colocar o governo numa situação dramática. No entanto, é lá também que se começam a definir as alternativas. Se todos os olhares se voltam para Atenas, é porque se torna urgente escolher a Europa que se quer reerguer. Será um combate pela construção de uma alternativa justa e democrática. A história dos últimos dias e horas obriga-nos a repensar o futuro e os modelos, sem dúvida, mas também nos desafia a olhar a realidade e a procurar soluções.

“Pr’além da inquietação que me apetece”, diz o José Mário Branco e se, por cá, pudéssemos vislumbrar uma alternativa política, uma viragem associada a uma política mais solidária e mais justa, menos cínica e insensível, que propaga uma perigosa indiferença, estaríamos a construir a diferença, assente numa aproximação das esquerdas, assente num programa partilhado de reabilitação do país, de reconquista da dignidade, a contrariar o desânimo e a mobilizar a maioria dos cidadãos para a regeneração da democracia.

Alfredo Barroso (mais um nome convenientemente colocado na prateleira do esquecimento) no seu livro – “A Crise da Esquerda Europeia” - coloca o dedo na ferida: «como explicar que o evidente fracasso do neoliberalismo não tenha provocado uma forte reacção política e um sobressalto ideológico dos partidos da esquerda europeia que alternam no poder com partidos de direita?».

2. Sobre o ponto dois (Mirita Casimiro), apenas e só a constatação local do “atavismo português curto de vistas e instalado no endémico marasmo”, ou seja a minha quinta, o meu quintal e a minha horta…
JB

Falemos de casas

Fotografia Olho de Gato




Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
— Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
- Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
Herberto Helder


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobrevivências *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Passou a sexta-feira 13, passou o S. Valentim, passou o carnaval de peles roxas de frio, passou até o entrudo de Lazarim mai-las suas belas máscaras de amieiro. Sobrevivemos.

A sra. dona Maria Luís Albuquerque deu-nos mais uns dias para registo de facturas. Depois havemos acertar as contas do IRS. E sobreviver.


Fotografia daqui
As ditas "redes sociais" estão sempre à-beira-de-um-ataque-de-nervos: ora é por causa do cachecol Burberry do sr. Varoufakis (comprado há uns anos pela mulher dele por cinco euros), ora é por causa da mala Hermès da sra. Lagarde (que ela comprou por 5750 dólares na Quinta Avenida). Havemos de sobreviver desde que o Facebook continue a ter vídeos cutchi-cutchi de gatinhos e pensamentos de Fernando Pessoa que ele nunca escreveu.

A terceira guerra mundial já começou, alarmou-nos o sr. Günter Grass esta semana, enquanto descascava uma cebola. Relax! Nem a terceira guerra mundial nem o "surto gripal próprio da época" irão pôr problemas à nossa sobrevivência, sossegam-nos as barbas brancas do sr. Francisco George.

A ala ferrista-barra-socrática-barra-iscte do PS prefere a sra. dona Manuela Ferreira Leite à sra. dona "Constança" Vitorino para "presidenta" da república. Problema nenhum: se estamos a conseguir sobreviver ao actual inquilino do Palácio de Belém, também sobreviveremos aos pontapés da sra. dona Manuela na gramática e na lógica.

O presidente do Sporting fez mal em ter acabado com o black out na véspera do Sporting-Benfica. De qualquer forma, os lagartos vão sobreviver ao abrir da boca de Bruno de Carvalho. E para o ano há mais.

2. Luís Filipe, o homem que manda nas teias de aranha do auditório Mirita Casimiro, disse a este jornal, na semana passada, que a «pior verdade» é que «ninguém quer saber daquilo para nada» e que «o auditório está aberto, mas a actividade alguém a tem de ir lá fazer».

Aquela sala de espectáculos do centro de Viseu até a esta forma de pensar há-de sobreviver.

Tratado de la luz

Fotografia de Joan Colom



Hay días en que tus ojos están perdidos para la vida,
para cualquier visión que encierre una esperanza.
Sales a la ventana y miras sin ver el infinito
ocaso que preanuncia una mañana.
Es de mañana y ya ves el ocaso, tus ojos están perdidos,
es mejor que los cierres.
Que los cierres o encuentres una razón poderosa
para recoger la luz que traspasa los párpados.
Tenés escondidas pasiones en las pupilas
que antes se abrían descuidando el ocaso.
Todas son noches: las mañanas son noches y las tardes.
Pero la luz no ha encenderse jamás, sólo hay controles
para la oscuridad.
Pero la luz no ha de apagarse jamás, porque la llevás
sin tregua en el fondo de los ojos.
Cristian Aliaga






quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A colher

Fotografia de Emmet Gowin



Reabro uma
gaveta da infância
e encontro a colher em desuso caída
a sopa lentamente se escoando
no prato fundo:

a vida
em certos dias tinha a forma
daquele objecto antigo
tocando-me nos
lábios com um calor excessivo.
Gastão Cruz


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Religiões *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Fevereiro de 2005


1. Foi numa juke-box da Feira de S. Mateus que descobri – ainda menino e moço - o “Light My Fire”, dos Doors. A partir daí, a minha relação com os Doors nunca mais acabou. Tenho discos pretos deles cheios de estática porque tocaram muito e em gira-discos pouco recomendáveis. Tenho cassetes de ferro, de crómio e de metal. VHS. DVD. MP3. DIVX. Migrei com os Doors por todos os suportes de informação.

Gosto dos Doors e vejo malta de 20 anos que ainda é mais entusiasta que eu.


Foi por isso que não resisti a um daqueles destaques gráficos do Jornal do Centro de cimo de página que bate mesmo nos olhos dos leitores mais distraídos. Eram quatro linhas que anunciavam o lançamento do livro de Rui Pedro Silva, “Contigo Torno-me Real”, na Livraria Polvo. Lá fui eu comprar o livro e pedir um autógrafo ao Rui Pedro. O autor assume-se como o fan primeiro dos Doors em Portugal. O livro é uma antologia de depoimentos sobre a banda, uns com mais interesse, outros com menos.

Esses testemunhos lembram-nos que muita da religiosidade urbana, nos nossos dias, passa pelos rituais da música popular e, provavelmente, o primeiro responsável por isso foi o Sumo Sacerdote, o Shaman, o líder dos Doors, Jim Morrison, quando cantou coisas como o final da canção “Angels and Sailors”: “Nós podíamos planear um crime / Ou iniciar uma religião.”

2. Tenho, no meu computador, um videoclip de três minutos e vinte e dois segundos de propaganda do PSD. A música deste clip - que o PSD usou prolixamente nesta campanha eleitoral - é uma versão portuguesa de “Guerreiro Menino (Um homem também chora)”, de Gonzaga Jr., do disco “Palavra de Amor”. Pode encontrar uma outra versão, poeticamente muito mais estimulante, em http://letras.com/gabriel-pensador/96122/

Este documento audiovisual tem sessenta e um (!) planos de Pedro Santana Lopes, guerreiro menino, guerreiro infeliz lutando contra ventos e marés, guerreiro carente do beijo endossado, do além para o aquém, por Conceição Monteiro, secretária de Sá Carneiro.

Ao longo do clip, vai passando em legenda o poema, pelo que as palavras chegam-nos pelos ouvidos e chegam-nos pelos olhos. Ei-las:




Nesta retórica audiovisual, Pedro Santana Lopes é só já um mártir e o seu caminho mete dó. Ele transporta uma cruz. Com este videoclip, o ego desmedido de Pedro Santana Lopes dá mais um impulso a esta nossa Jangada de Pedra a navegar para o terceiro mundo: ele está pronto para ser o ícone no altar duma nova religião.

3. Como foi possível o PSD, um dos pilares da nossa democracia, ter-se deixado chegar a este grau de acossamento?

Marques Mendes vai ter muito trabalho pela frente para compor o que a deserção de Barroso e a inanidade de Santana estragaram. Desejo-lhe sucesso porque Portugal precisa dum PSD responsável e com sentido de Estado.

A ferida

Gif de Mattis Dovier


Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?
Manuel António Pina




terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Dia mundial do gato *

Tudo bem com os felinos em todo o lado,
 incluindo em Campia — Vouzela **

* Obrigado pela lembrança, caro Letras e Conteúdos
** A notícia é de 2008 mas, em 2015, nenhum gato ficou com razão de queixa do Carnaval de Campia

Moda do entrudo

Lazarim 2008
Fotografia Olho de Gato

Ó entrudo, ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Que no monte é que eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém,
Que no monte é que eu estou bem

Estas casas são caiadas
Estas casas são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com o ramo de laranjeira,
Quem seria a caiadeira

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Worst

Fotografia de Hans Feuer



no prison
worse
than perfection

no crime
worse
than time

no mendicancy
worse
than money

and, oh, nothing
sort of,
worse than love.
Noemi Jaffe

domingo, 15 de fevereiro de 2015

les roses

Fotografia de Eve Arnold



les roses
sont-elles rouges
dans l’obscurité?
on peut penser aux
roses rouges
dans l’obscurité
Olivier Cadiot

sábado, 14 de fevereiro de 2015

um tempo para tudo

Fotografia de Duane Michals



escreve:
no alto da manhã
prepara-se o sol
para uma chávena de chá quente.

caderno e lírios surgem mais tarde

entra,
fecha a porta.

agora precisamos de paz
Maria Azenha



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Circunstâncias (da vida) * — um texto de JB

* Comentário de JB ao post "Circunstâncias":



“Há uma voz antiga atrás da minha”
Luís Filipe Castro Mendes


Circunstâncias da vida levam-me a recordar o 13 de fevereiro de 1965, 50 anos depois do assassinato do General Humberto Delgado.

Circunstâncias da vida levam-me a recordar o meu avô paterno e o seu espírito republicano, de luta e camaradagem.

Fotografia daqui
Circunstâncias da vida levam-me a recordar a caixa (seria de sapatos?) onde ele guardava (nunca consegui descobrir o local) material da campanha de Humberto Delgado. Levam-me a recordar os momentos em que abria a caixa e ia retirando um papel de cada vez e contava o contexto em que cada um tinha sido produzido, colado, distribuído ou lido. Para um miúdo de onze, doze anos eram momentos que superavam qualquer leitura do “Sandokan”….

Circunstâncias de vida que permitiram que tivesse assistido a episódios da crise académica de 69 (Coimbra) e que, já um jovem de quinze anos, me fizessem perguntar, questionar, indagar dos porquês do que via, lia e ouvia (rádio Voz da Liberdade/Argel).

Fotografia daqui
Circunstâncias da vida que permitiram, já adulto, tivesse tido a sorte e o privilégio de conhecer e falar com pessoas que estiveram na organização da passagem de Humberto Delgado por Viseu (campanha de 58), de ter acesso a fotografias (fantásticas) do apoio popular no Rossio, do célebre discurso que proferiu da varanda do Hotel Avenida (Viseu) e do comício nocturno.

Circunstâncias da vida que coincidiram, no feliz acaso, de ter travado conhecimento com a Drª Iva Delgado, filha do general.

Circunstâncias da vida que me levam a louvar a decisão da Câmara Municipal de Lisboa que, por unanimidade, decidiu baptizar o aeroporto de Lisboa com o nome do general Humberto Delgado.

Circunstâncias da vida, através de leituras e conversas, levam-me a pensar que se Humberto Delgado não era um estratego político, com objectivos difusos e até controverso, continua a incomodar. Incomodou as forças da situação (Salazar) e uma oposição que o apelidou de “General Coca-Cola” (recordar a sua passagem pelo Canadá e EUA em funções profissionais). Hoje continuaria a incomodar os "politicamente correctos" com o seu espírito de homem corajoso e, certamente, apontaria o dedo a muitos políticos dizendo-lhes: ”Demito-o, obviamente!”

Circunstâncias da vida levam-me a que no dia 13 de Fevereiro de 2015 preste homenagem a um homem corajoso!

JB

Contos de crianças *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Vi, no Facebook de um amigo, um cartaz com quatro putos africanos de costas a olharam para a vastidão da savana. Diz um deles para o do lado:

«Sabias que os miúdos norte-americanos são obrigados a estar sentados numa sala de aula todo o dia? E se se mexem, ficam excitados ou fazem demasiado barulho, dão-lhes drogas para os manterem quietos? E que o maior exercício que fazem é jogos de vídeo e que a comida deles é cheia de químicos perigosos?»

«Isso é horrível! Devíamos fazer peditórios para eles!», responde o outro.

Este palavroso cartaz tem um olhar não muito comum sobre o nosso modo de vida, mas, como é produzido por uma organização de Vancouver, ele é ainda o ocidente a olhar para o ocidente, é uma “selfie”.

Umberto Eco tem um texto muito engraçado sobre a “transcultura”, uma “antropologia alternativa” que crie condições para que “os outros” estudem “os usos e os costumes do ocidente.” Dito curto e grosso: que ponha o ocidental no lugar do “indígena”.

Refere Eco, quando puseram “estudiosos africanos que nunca tinham estado no Ocidente a descrever a província francesa”, houve dois costumes que os deixaram muito surpreendidos: passearmos os cães pelas ruas e passearmos à beira-mar.

Foi com este trabalho, diz Eco, que a “observação recíproca começou verdadeiramente a funcionar.”

2. Como é sabido, a seguir à Grécia quem está debaixo dos holofotes dos mercados é Portugal.

Ora, o Syriza apostou tudo num dominó negativo que nos arrastasse com o sul da “Europa”. Esse dominó foi teorizado assim por Yanis Varoufakis, no seu blogue, em 11 de Dezembro: “Se isto também significar que, durante essas negociações, os juros da dívida pública de Portugal, Espanha e Itália sobem, tanto melhor.”

A este “se-eu-cair-cais-comigo”, ripostou Pedro Passos Coelho com um pedido aos gregos para se deixarem de “contos de crianças”.

Os juros gregos subiram, os portugueses não. Era, de facto, um “conto de crianças”.

Circunstâncias

Fotografia de Lee Friedlander


Há uma voz antiga atrás da minha
e outra mão se prende na cortina

e afasta os reposteiros dessa luz
que ao puro esplendor logo conduz.

Se a voz que aqui retenho se faz presa
da própria escuridão que viu acesa,

é que outra voz se perde sem saber
que a minha voz a busca para morrer.
Luís Filipe Castro Mendes



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A tua mão

Fotografia de Horst P. Horst


Reconheço a tua mão nesse abandono
visível não sei se pela escuridão
ou pela luz
quase sinto a natureza da tua vida
uma linha de fogo em enormes proporções
nesta mão
elegante, íntima, delicada
os dedos com inclinação muito leve
nem chega a ser um gesto

tanto se parece a uma despedida
José Tolentino Mendonça


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Carpe Diem

Fotografia de Arno Rafael Minkkinen




Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilónicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.
Horácio
Trad. Haroldo de Campos


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Orden del día

Fotografia de Emmet Gowin



No desatiendas nunca ni la tierra ni el cielo.
Cuida de tus principios, educa tus finales.
En un cuaderno limpio mantén al día siempre
tus sentimientos. Llora, para limpiar la atmósfera
de malas emociones. Y si algún día tiemblas
sin remedio, convéncete de que tú sólo vibras.
José Alcaraz



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Alzheimer? — um texto de JB

* Comentário de JB no post "El escondite":

Tengo miedo de aborrecer os leitores e prometo não voltar tão depressa.
Mas não resisto….


Imagem daqui
1. Sinais de ALZHEIMER ??

Que mais irá acontecer?...

"O Parlamento perdeu a petição subscrita por 10 mil pessoas a pedir a reabertura da comissão de inquérito aos submarinos.

Foi entregue há 15 dias, mas os serviços de Assunção Esteves não a encontram..."


2. O PCP nunca me desilude

Assunto a que gostaria de me ter referido no tempo certo (6 de Fevereiro).

PCP aliou-se à direita. Novidade? Desta vez para chumbar projecto de lei que alargava a procriação médica assistida a todas as mulheres. As bancadas da maioria e a comunista votaram contra o projeto socialista e o bloquista. Mulheres, deputadas e jovens do CDS, PPD e PCP votaram contra. Para que conste.

Com este chumbo, só as mulheres [em casamentos heterossexuais] com problemas de fertilidade ou doenças relacionadas podem recorrer a estas técnicas de procriação. 

De fora ficam as mulheres solteiras ou casadas com outras mulheres mesmo que sejam inférteis. Maioria diz que continua a acompanhar debate, "Infertilidade é doença" dizem.

No entretanto, quem tem dinheiro, vai a Espanha concretizar o direito de ser mãe…


JB

El escondite

Fotografia de Peter Lindbergh



Tengo miedo.

Jugábamos al escondite.
Yo me ocultaba
y tú me perseguías.
Pasaron largas horas
y tú no me encontrabas.
Pasó la primavera,
se esfumaron los largos días de verano
y vino el otoño con su crujir de madera seca
y vino el invierno con su dolor de corazón sepultado en la nieve.
Te espero en mi rincón
y tengo miedo.
Irene Sánchez Carrón


domingo, 8 de fevereiro de 2015

O sr. Silva da UGT — um texto de JB *

* Comentário de JB ao post "Do tempo"


“Deus nos pede do tempo estreita conta!
É forçoso dar conta a Deus do tempo.”
Frei Castelo Branco


Este post tem duas descobertas muito gratificantes: o fotógrafo e o poeta.
No meu Liceu do "fassismo" não me recordo de ter falado em Frei Castelo Branco; nas boas e estimulantes aulas de Literatura, onde efectivamente líamos, comentávamos e estudávamos as obras literárias e não os resumos, os resumos dos blogs ou os resumos dos explicadores (e já agora uma nota de rodapé: devia haver na cidade um ranking de escolas secundárias para explicadores. Talvez isso explicasse muita coisa…).

Mas quando temos um Presidente que não presta homenagem a Saramago ou não reconhece o mérito a Carlos do Carmo, o que esperar? Um fadinho da Cátia Guerreiro ou uma “obra prima” da Joana Vasconcelos, óbvio!

Imagem de Paulo Araújo,
in Dinheiro Vivo
Mas vem este já longo e viperino intróito a propósito de uma entrevista dada, na edição 6ª feira, ao semanário SOL pelo secretário geral da UGT, um tal de “douto” Carlos Silva, que vale a pena ler. No mesmo dia em que o poderoso sindicato alemão IGMetal apoia a luta do governo grego e dos trabalhadores gregos o secretário geral da UGT demonstra a sua pequenez e a sua mediocridade.

Frases como: "Com o salário mínimo à grega metade das empresas fecham" ou "Paulo Portas tem uma postura mais positiva com o FMI do que o Syriza", são um pequeno exemplo de um “líder” dos trabalhadores com pensamento no mínimo retrógrado. Ao defender como positiva a acção do governo e que a relação do PS deve ser com a direita, a UGT vai por um caminho que só pode terminar com o regresso deste senhor ao BES… (Novo Banco).

É que quando chegamos a isto está tudo dito. Nem vale a pena fazer comentários. A entrevista é "exemplar ".

No fim um conselho ao Sr. Silva, dado por Frei Castelo Branco:
“Ó vós que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis, sem conta, em passa-tempo”