sábado, 31 de janeiro de 2015

Falei de ti com as palavras mais limpas

Fotografia de Lothar Reichel



Falei de ti com as palavras mais limpas

Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,

tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.


Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.


Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.
Fernando Assis Pacheco


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Aranhas *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. No próximo outono vamos ter eleições legislativas. Os partidos parlamentares, que, durante os anos de resgate, não souberam o que era a austeridade e não partilharam os sacrifícios dos portugueses, já se esqueceram do voto de protesto que tiveram nas europeias e preparam-se para uma campanha cara e de mais do mesmo.

O PS, o PSD e o CDS — os “partidos do arco da corrupção” — vão continuar a ter deputados em part-time, a receber do parlamento como deputados e a facturar dos lobbies como consultores. Interpelei, olhos nos olhos, António Costa sobre o assunto “exclusividade dos deputados” mas ele não deu resposta. Foi uma não-resposta eloquente.

Olhemos para os partidos de protesto: o PCP continua a receitar remédios “patrióticos” para problemas supra-nacionais. O bloco, em decadência e hemorragia de quadros, tem agora como guru esse génio da política chamado Luís Fazenda, da UDP.

Ou aparecem novas forças políticas, ou a terceira república fica entalada entre a corrupção dos primeiros e o protesto inconsequente dos segundos. A caminho da quarta bancarrota.

2. O parlamento grego foi dissolvido em 31 de Dezembro. Três semanas e quatro dias depois, a Grécia elegeu um novo primeiro-ministro que formou governo logo a seguir.

Em Portugal, se o parlamento fosse dissolvido no último dia do ano, a coisa só estaria resolvida lá para meio da primavera. Temos prazos bizantinos. Precisamos de novas leis eleitorais com prazos gregos.


3. Em 1 de Fevereiro de 2014, uma assembleia geral no Auditório Mirita Casimiro, depois de ter recusado uma segunda lista, fez eleger uma lista única liderada pela mesma pessoa que há largos anos se revela incapaz de dar vida àquela sala de espectáculos do centro de Viseu.

Passou um ano depois daquela lamentável assembleia geral. Nada aconteceu ali. Caso já não haja aranhas naquele auditório é só porque elas, entretanto, morreram de tédio.

Faz-me o favor

Fotografia de Philip-Lorca di Corcia




Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor — muito melhor! —
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny




quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A uma senhora que o autor conheceu no Rio de Janeiro e viu depois na Europa

Fotografia de Philip-Lorca di Corcia



Na idade em qu'eu brincando entre os pastores
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio a ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu naquela
Fiquei sentindo a dor que n'alma tinha.

Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!...
Basílio da Gama

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bush, Parte II *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 28 de Janeiro de 2005



1. O problema da despenalização do aborto já devia estar resolvido. A situação é uma vergonha para Portugal mas, pior, muito pior do que isso, é uma violência contra as mulheres já que são elas que ficam muitas vezes sozinhas, perante dilemas de consciência esmagadores. Para além do sofrimento físico e moral duma interrupção da gravidez, uma mulher ainda corre o risco de ser perseguida pela justiça.

Não há muito tempo, foi a tribunal uma jovem porque apareceu nas urgências do Hospital de Setúbal com uma hemorragia e um enfermeiro inqualificável decidiu apresentar queixa contra ela.

Em Portugal, a seguir a uma coisa má, o aborto, pode ocorrer outra coisa igualmente má, a ameaça penal a quem vive esse drama.
Este problema deve ser resolvido, de vez, na próxima legislatura.

2. Francisco Louçã acha que, por ter dado eficácia a um espermatozóide, tem vantagens comparativas no debate político sobre a despenalização do aborto. Ele tem uma filha. Paulo Portas não. Louçã, portanto, sabe. Paulo Portas, portanto, deve calar-se.

3. Esta intolerância de Louçã não surpreende. O núcleo dirigente do Bloco de Esquerda é uma mistura de estalinistas, trotskistas, de admiradores do terrorismo basco e de ex-admiradores da Albânia de Enver Hoxha. Esta mistura adquire alguma cor com a inclusão de gente da cultura e alguns alternativos urbanos. Para completar o ramo, é preciso referir os muitos tardo-comunistas que correram para o Bloco, embora só uns largos anos depois da queda do muro de Berlim.

Para mim, é um mistério insondável o facto do Bloco de Esquerda ter sempre uma imprensa reverente e não ser escrutinado como são escrutinados os outros partidos parlamentares.

No Bloco são sempre os mesmos. O nosso distrito não foge à regra: a lista do Bloco de Esquerda por Viseu, ideologicamente, parece duma era anterior às muralhas da Rua Formosa.

4. Se o eleitorado não der a maioria absoluta ao PS, o Bloco de Esquerda prepara-se para infernizar a vida de um eventual Governo de José Sócrates e entregar alegremente o poder, em 2007 ou 2008, a Marques Mendes e Paulo Portas.

5. George W. Bush tomou posse para o segundo mandato. Acaba de estrear, portanto, a sequela: “Bush, Parte II”. Repetentes neste filme: Dick Cheney, Condoleezza Rice, Karl Rove, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz.

Em “Bush, Parte I” o mundo assistiu a uma guerra errada que transformou o Iraque num santuário do terrorismo internacional, terrorismo que vai pôr em risco em primeiro lugar a Europa, como se viu em Madrid, em Março passado.

Agora, em “Bush, Parte II”, começa-se a ouvir o nome dum país. Para já, o nome é muitas vezes repetido, mas em surdina. A revista New Yorker, de 17 de Janeiro, noticiava movimentos militares suspeitos. O número de 24 de Janeiro da mesma revista tem uma análise de Seymour H. Hersh, intitulada “As guerras que vêm aí – O que o Pentágono pode agora fazer em segredo” que deve ser lida com atenção. Será que eles irão ao Irão?


6. Das muitas dezenas de fotografias que vi da cerimónia da tomada de posse de Bush, houve uma do Los Angeles Times que me impressionou especialmente: nela vê-se o marine Casey Owens, em farda de cerimónia impecável, casaco azul escuro e medalha ao peito, de barrete e luvas brancas, a fazer a continência a Bush. Casey Owens está sentado, numa cadeira de rodas. Ele não tem pernas. As suas pernas ficaram no Iraque. Ao lado e em pé, a sua mãe chora.

As pernas de Casey Owens foram-lhe arrancadas pelas mentiras de destruição maciça do senhor Bush.

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

Fotografia de Joseph Szabo



Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O odor das alfavacas

Gif de Mattis Dovier


Meu pai falava do odor das alfavacas
e eu corria ao dicionário («Planta labiada, semelhante
ao manjericão…»), logo decepcionado
Imaginava uma vaca primordial
depositária de bíblicos segredos
capaz de mudar o curso das coisas
de ser fundamental, talvez, na minha vida
mas nada disso: havia-as de caboclo, de cobra, dos montes,
do campo, de cheiro (certamente as do meu pai)
e nenhuma referência à cornuda que apascentava
a minha imaginação
Aprendi assim a desconfiar das palavras
e da realidade
a ver como ambas nos enganam
sem qualquer piedade
José Manuel de Vasconcelos


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Elogio do Fontelo — por JB


Vou com regularidade ao Parque do Fontelo.


Quem tem um cão encontra nesse espaço um óptimo local para passear, descontrair e espairecer.


Como frequentador posso afirmar que o considero limpo; os caminhos arranjados e uma preocupação de manutenção.


Se fosse desportista, provavelmente diria que a pista de manutenção está um “bocadinho” abandonada…

O que me leva a escrever estas linhas é uma preocupação: há reflorestação do Fontelo? Há plantas novas? Porque o que se vê é tudo muito gasto…


Na entrada do Parque há um cartaz que diz “animais só com trela”, e muito bem. Mas deveria haver mais um ou dois desses cartazes espalhados pelo Parque, pois muito boa gente esquece que o espaço é muito frequentado por crianças, desportistas e visitantes.


O Fontelo é bonito e aprazível como um parque semi-selvagem (desculpem a expressão), e assim deverá ser, mas não se esqueçam de fazer dele um local de árvores vivas, para viseenses vivos!



PS: E POR FAVOR não o “urbanizem” com modernices!


Texto e fotografias de JB




Tempo fluvial

Fotografia de Radoslaw Pujan



Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.
Nuno Júdice


domingo, 25 de janeiro de 2015

Versões do mundo

Fotografia de Louis Faurer




Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinário ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome
José Tolentino de Mendonça


sábado, 24 de janeiro de 2015

Noite morta

Paragem de autocarro, arquitecto  Smiljan Radic
+
aqui

A paragem de autocarro
embateu-me no peito com toda a força -
carruagem de comboio
em descontrolo amoroso, bancos partidos
com a miséria de um adeus

estava a pensar chocar contra um táxi
engolir o taxímetro com dois ou três dentes
mas a paragem, abrupta,
chocalhou-me o que ia cá dentro
subiu-me à cabeça o que estava em baixo e
desceu-me o que estava em cima
ficaste-me aos pés, assim de repente
lagarta fugidia a engraxar-me os
sapatos

infinitas partículas de vidro sobre a minha
pele,
mas não doeu
doeu-me mais não saber que dia era
odeio as terças e as quartas porque
são indefinidas
doeu-me
não saber se te lembras da última roupa
que trazia vestida antes do embate
que tenho um espaço entre os dentes da frente -
ponte subtil que me liga
da esquerda para a direita
e que os meus olhos são oficialmente tristes

tantas coisas para embaterem em mim
para me lembrarem que durmo pouco
mas foi a paragem de autocarro mais vazia
daquela noite

a garrafa já estava perdida há muito
entre três turistas londrinos que me
cantaram o hino e me levaram em
braços até ao diabo que me
carregou

tenho raça de quem leva com tudo
pragas, gafanhotos, jardins desertos
betão desprovido de tinta em cima,
cascas, caroços, souvenirs

e agora levei com a paragem mais
triste de Lisboa
aquela que fica junto à esquina
do primeiro eléctrico, onde uma
velhinha que passou disse
"puta que lhe pariu os cornos",
e onde, caso te lembres,
o amor era uma anedota
com a qual ainda nos ríamos.
Cláudia R. Sampaio


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ir aos mercados *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro




1. As parcerias público-privadas durante muito tempo foram sigladas aqui com cinco pês: PPPPP — Parcerias-Prejuízos-Públicos-Proveitos-Privados. Se no início isso causou estranheza, agora já toda a gente percebeu aquele roubo de futuro aos nossos filhos, netos e bisnetos. Melhor dizendo, trinetos: há encargos assumidos até 2083.


Fotografia achada aqui
Depois da nossa bancarrota, a Ernst & Young apurou as "taxas internas de rentabilidade - TIR" das PPPs rodoviárias. Eis exemplos próximos: a "nossa" A25 ficou a render ao sr. Mota Coelho Espírito Santo Engil 17,35% ao ano. Repito: 17,35%. A TIR da A23 ficou a pingar 14,51% para a Salvador Caetano. Já a A24, uns "miseráveis" 11,23% para o consórcio liderado pela Eiffage e a Sonae.

Caríssimo leitor, está interessado numa renda garantida de 17,35% durante décadas para as suas poupanças?

Estes contratos das PPPs foram redigidos nos escritórios da grande advocacia de negócios entre governantes e rentistas, com os protagonistas a mudarem de lado da mesa com o maior dos à-vontades.

É certo que, por imposição da Troika, as PPPs foram renegociadas e as TIR depois foram diminuídas. Alguma coisa. Quantas é que ainda estarão nos dois dígitos?

Chegados aqui, fica um aviso e uma proposta:

(i) Caro António Costa, pôr o sr. Paulo Campos numa lista do PS, nem que seja no último lugar dos suplentes, tem uma TIR eleitoral negativa de, pelo menos, 17,35%;

(ii) Portugal acaba de fazer um empréstimo a 30 anos à taxa de 4,1%. A ideia que, em 2011, António Borges apresentou a Pedro Passos Coelho não era então possível mas agora já é: por que razão não se vai aos mercados buscar dinheiro para resgatar, isto é, nacionalizar estas PPPs desastrosas?

2. Uma das melhores ideias surgidas no “orçamento participativo” da câmara de Viseu foi a de associar a cidade às tílias e ao chá de tília.

Ideia barata que faria muito pela imagem de Viseu. Pelo menos tanto como as festas e festinhas de António Almeida Henriques.

O marquês de Chamilly a Mariana Alcoforado

Fotografia de W. Eugene Smith




Minha senhora deve ter
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não perceberam bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior boa vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda
Adília Lopes




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

João Luís Oliva — um testemunho de JB *

* Comentário enviado por JB para o post "Hoje, apresentação em Viseu do livro de João Luís Oliva "ARTES E IDEIAS DA DESCONCENTRAÇÃO — Práticas Culturais de Outros Centros" 



Fotografia de Sara Augusto
Escrever ou falar de João Luís Oliva é igual à dificuldade de começar e preencher uma folha em branco. João Luís é único!

No lugar presente (social, económico e político), cultura é o que vem depois. A cultura está nas margens, pelos imperativos da sua condição ontológica ou pelas necessidades da sua inscrição social, um “quando depois não há mais nada” (para evocar um poema de David Mourão-Ferreira).

João Luís é um verdadeiro operador de metamorfoses e de todo o pensamento, herdeiro desobediente e feito de transgressões. Um trabalhador de inclusão da cultura, nas suas mais diversas concepções e manifestações, com uma espacialidade própria e de acordo com o conceito em que "as condições em que a cultura surge transformada em ingrediente de renovação potencial da vida social nas sociedades contemporâneas". (Carlos Fortuna)

Reconhecer pluralidades (amador/profissional; popular/elite; local/global) é um imperativo político – subjacente, quer às estratégias de fortalecimento da malha cultural quer aos planos de qualificação dos equipamentos. Reconhecer a cultura como área chave de uma estratégia de desenvolvimento – educação, economia, coesão social – é decisivo. Percebemos então a imensa responsabilidade de uma política de cultura coerente num país em que cultura nem Ministério tem.....?

Na cidade ideal João Luís Oliva seria o vereador da cultura e no país ideal José Tolentino de Mendonça o ministro da cultura. 

Na utopia….!

JB

Desencontro

Fotografia de Lillian Violet Bassman



Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.
Jorge de Sena


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Conversação com um melro

Desenho achado aqui



"Fazes favor, fazes favor, fazes favor"
começa ele, e eu espero o resto
que vem, indistinto e sem ênfase.
"Afasta-te", creio compreender,
ou "deixa andar", posso ter ouvido ou não:
as vogais são confusas,
as consoantes faltam.
Oh, e o ritmo é livre
depois desse cortês pedido.

Traduzido, o meu assobio de resposta diz:
"Sê mais explícito. A nossa espécie não suporta
coisas incertas, canções com o fim em aberto.
Ser deixado a adivinhar é mais
do que aguentamos muito tempo."

Ri-se? "Por favor, por favor, por favor"
é a resposta. E então coloratura, e nela estas frases:
"Eu repito, o fim não cito.
São mistérios, mistérios de cantor.
Improviso, o tempo aviso.
Ora subo, e ora piso.
E volito. Não hesito
se o indefinido imito.
E ora fito, chilrozito. Ora saltito."
Michael Hamburger
Trad.: Vasco Graça Moura

Hoje, apresentação em Viseu do livro de João Luís Oliva "ARTES E IDEIAS DA DESCONCENTRAÇÃO — Práticas Culturais de Outros Centros"


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Outra noite

Fotografia de Werner Bischof



Neste escuro
com as mãos
geladas
distingo
o meu rosto

Vejo-me
abandonado no infinito.
Giuseppe Ungaretti



Homenagem ao Alfredo

Alfred Hitchcok

escadas — telhados — facas — olhos 
— lábios — sombras 
— ralos — cortinas — tesouras 
— buracos-de-fechaduras 
— óculos — cadáveres — tele-objectivas 
— binóculos — sangue — corrimões 
— janelas — beijos — néons 
— charutos — jornais — copos — carapitos — quadros 
— espelhos — máquinas-fotográficas




The Hitchcock Gallery from Steven Benedict on Vimeo.



A partir de:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

The Follow — uma curta-metragem de Wong Kar-Wai (2001)

Realizador: Kar Wai Wong
Argumento: Andrew Kevin Walker
Com: Clive Owen, Mickey Rourke, Adriana Lima

Por vezes, um bom profissional não leva o seu trabalho até ao fim...



Wong Kar-Wai


Como se perguntasse o teu
nome, e um eco de mim
respondesse
que não existes

e me apetecesse morrer
mesmo assim à tua porta.

Como se no banco de trás de um táxi
não seguisses comigo para a morte,
nem tivesses no meu colo pousada
a tua cabeça,
no teu rosto branco o baton aceso,
e o azul dos olhos como um espelho
debruçado sobre a noite
ou luz de navio perguntando por terra
mas passando ao largo.
Rui Lage





domingo, 18 de janeiro de 2015

Rio Pavia — Viseu, Janeiro de 2015

Fotografia Olho de Gato
Fotografia Olho de Gato

Se

Fotografia de Weegee

— Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.

— Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.

— Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.

— Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.
Luísa Ducla Soares

sábado, 17 de janeiro de 2015

Um texto de dúvidas, hesitações e uma certeza — por JB



“If you smile at me, I will understand
'Cause that is something everybody everywhere does
in the same language.”
Crosby, Stills, Nash and Young


Começo com uma premissa de frei Bento Domingues: “uso as palavras dos outros que tento transformar no meu pensamento, já que o poder da palavra é o poder dos sem-poder. Daí, o perigo do seu contágio.”

1.
É bom podermos dizer livremente aquilo em que pensamos.
Assim, vamos às questões incómodas: como reagimos quando soldados dos exércitos nossos aliados entram em casas e matam todos os seus habitantes? Quando uma escola cristã é atacada e as alunas são raptadas? Quando terroristas entram numa escola para matar os alunos? Quando soldados americanos usam civis afegãos para tiro ao alvo? Quando são revelados detalhes sobre a tortura em Guantanamo? Quando jornalistas da Al Jazeera são presos? 


Assinar petição aqui
Quando na Arábia Saudita, Raif Badawi condenado por ter sido o co-criador de um fórum online "Sauditas Liberais Livres" a 10 anos de prisão cumpre a pena “acessória” de mil chicotadas; quando os mentores da invasão do Iraque deveriam ter sido levados a tribunal; quando na Nigéria….

Não posso deixar de pensar que outros atentados, mais graves, não levantaram a comoção que este teve. Talvez por se tratar de uma publicação conhecida e temerária, ou por serem rostos conhecidos. Mas apostaria mais que a razão é por ter sido na Europa, e logo em Paris. Será o mundo inteiro que está comovido, ou apenas o ocidental?

Os países europeus têm tradições e leis que devem ser sagradamente respeitados por todos, inclusivamente pelos imigrantes. A tolerância não pode ser levada ao ponto de aceitar a intolerância dos outros face aos valores europeus no Velho Continente. A civilização europeia baseia-se em princípios judaico-cristãos que devem ser respeitados na Europa, tal como os europeus devem observar as leis e costumes de outros povos.

Não, isto não é uma desculpabilização do que fizeram: o acto de matar é individual, parte de uma escolha. E nem o clérigo mais radical, nem as condicionantes culturais dos assassinos, poderão desculpar este acto. Mas precisamos de saber por que razão o caminho é percorrido, de que modo é que a radicalização destes jovens ocidentais (o ISIS tem conseguido recrutar combatentes de todas as partes do mundo) é feita, o que os leva ali. Importa ainda estratégias mais proactivas e eficientes de minimizar a guetização e "quase total" desocupação de, centenas de milhares de elementos da geração "nem, nem" nem estuda, nem trabalha, em Portugal, França, Noruega, Inglaterra, nos Estados Unidos….. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e porquê?

2.
Em França não querem presépios, na Alemanha querem que os Mercados de Natal, omitam a palavra Natal porque é ofensiva. O Natal deverá chamar-se isso mesmo (e nunca por mera alegada correcção política uma tal de "festa da família", ou seja lá o que for) -, o som que ouço e com que me identifico, que faz parte da minha formação (de que me orgulho), seja qual for o grau do meu fervor religiosos, é o dos sinos de igreja, e é objectivo civilizacional de primeira ordem que minha mulher seja minha igual em direitos, deveres e oportunidades. Os países de acolhimento não deveriam exigir um compromisso escrito sobre cumprimento das leis e respeito pela cultura do país de acolhimento?

A melhor maneira de combater a ascensão do radicalismo e a multiplicação de terroristas é evitar que os jovens imigrantes ou filhos de imigrantes achem mais aceitáveis os valores medievais e violentos do fundamentalismo islâmico do que os valores das democracias liberais - entre eles, um dos mais sagrados, a liberdade de expressão, e outro, não menos importante, o laicismo do Estado, a separação entre lei e religião. Será uma árdua tarefa que os governos ocidentais têm pela frente.

O multiculturalismo como ideal é isso mesmo: um ideal. Mas, como tudo na vida, a sua materialização impõe o convívio não só com a imperfeição humana como com o respeito por essa mesma condição e dignidade humana: ou seja, a sua limitação. Idealmente sem imposição externa e resultando da simples boa educação, do tacto, da sã convivência.

3.
Se uma religião tiver a pretensão de ser a única verdadeira, ficam todas sob ameaça. O islão não defende o terrorismo, mas o terrorismo islamista constitui um problema que possui uma evidente base religiosa e tem de ser discutido também nesse contexto. O terrorismo islamista não é a emanação natural de uma dada cultura, mas também não é um mero caso de polícia.

Estamos perante indivíduos que não se limitam a combater as liberdades individuais: pretendem implodir a nossa matriz civilizacional e estão dispostos a recorrer a qualquer meio para atingir esse fim. Espalham o pânico com uma facilidade estonteante, fazem do medo um poderoso aliado dos seus desígnios e elegem o terror como senha de identidade.

4.
Numa democracia, as opiniões só existem na medida em que existe igualmente liberdade para as exprimir, divergir e criticar. Em cada momento histórico, há um determinado universo de valores que só é dominante porque os sujeitos sociais os partilham de uma forma comum e plural. Em regimes autoritários, esse consenso é forçado por via de uma estrutura repressiva que se impõe aos cidadãos. Na generalidade dos países islâmicos, uma religião é aliada desse aparelho coercivo.

Todos os dias nos deparamos na imprensa com opiniões ofensivas e/ou despropositadas. Por isso é que são opiniões. Por isso é que  são publicadas em páginas de jornais. Por isso é que lhes podemos contrapor argumentos sem medo. E é tudo isso que nos enriquece enquanto membros de uma comunidade democrática, com opiniões que são tantas vezes execráveis mas nunca atentatórias da integridade de quem delas discorda.

Em 1689, John Locke escrevia na sua Carta sobre a Tolerância que «a tolerância […] aplica-se ao exercício da liberdade, que não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza».

Qualquer vírgula colocada na liberdade de imprensa será um silêncio a mais. Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo.

Porque tudo isso nos une na herança de um processo histórico que aparece agora criminalizado pela susceptibilidade  de um dogma impositivo, incapaz de olhar o outro. Do mesmo modo que tudo isso nos separa daqueles que, sem concessões, reclamam uma superioridade civilizacional para a sua civilização. Qualquer que ela seja.

Posto isto eu defendo a liberdade de expressão, eu defendo o direito à indignação contra qualquer manifestação de intolerância.

5.
Gostei de ler a questão colocada por João Quadros, no artigo «Não somos todos Charlie» : "Aos jornais, televisões, etc., que aparecem a dizer-se Charlie, pergunto: quantas semanas durava o Charlie Hebdo em Portugal antes de ser cancelado por causa de chatices com a Igreja, Angola ou o Governo? Força, Charlie. Quantos jornais portugueses teriam coragem ou vontade de publicar os "cartoons" do Charlie? Espero que estes jornais que se dizem Charlie, durante a semana toda publiquem os "cartoons" na capa."

"Vivemos num país em que o Presidente da República, como representante de todos os portugueses, não vai ao enterro de um escritor (Nobel) porque não gosta dele, ou que não dá os parabéns a outro que canta fado porque não canta o que ele gosta, e que deve estar a deitar cá para fora um comunicado sobre a importância de aceitar a liberdade de expressão e a diferença." 

Questão que coloco: já pensaram o que seria o recluso nº 44 nas mãos daquela malta?

6.
A Europa iniciará a sua desagregação onde todos serão vítimas e culpados, sem coesão, sem projecto, sem utopia. A Europa está com um grave problema: não tem conselho estratégico. O perigo seria o de se estar a criar uma Europa alemã, hierárquica. 

Justamente aquilo que não é agregador, por isso a multiplicação de partidos reaccionários. Está a crescer o desamor à Europa, visível em toda a parte. A minha conclusão é que o imprevisível está à espera de uma oportunidade.

A Europa está tão impotente para se defender de ataques terríveis, como aquele a que agora reagimos, para viver o quotidiano com a complexidade das comunidades que a compõem, como para lutar contra a prepotência dos mercados ou para manter o estado social que com tanto esforço conseguiu construir durante décadas.

7.
Je Suis Charlie significa apenas que se está do lado certo, mais nada.

E cito Nicolau Santos: ”… é preciso continuar a dizer, a escrever, a gritar, a mostrar: os nossos valores, os valores das sociedades ocidentais, assentes na tolerância, no reconhecimento da diferença, na não-discriminação por sexo, credos ou raças, assente no Estado do direito, são incomparavelmente superiores aos dos fundamentalismos islâmicos, que baseiam todo o funcionamento das suas organizações no terror (externo mas também interno) e no ódio às nossas sociedades, ao nosso modo de viver, às nossas culturas, à nossa capacidade integradora.

O politicamente correto evita dizer isto. Quer encontrar justificações nas diferenças culturais. Mas que diferença cultural justifica que as mulheres sejam tratadas como infra-humanas em certas sociedades? Que diferença cultural justifica que sejam lapidadas até á morte por supostos crimes de infidelidade, por tribunais populares? Que diferença cultural justifica a burka?

Os crimes contra a liberdade de imprensa e de expressão são tão importantes no Ocidente como em todos os pontos do globo - e temos de os denunciar e batermo-nos contra as suas vítimas todos os dias. . Raef Badawi não é um qualquer. Ganhou em 2014 o prémio Repórteres Sem Fronteiras e é o cofundador do site Rede Liberal Saudita, juntamente com a ativista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari, onde defendeu o fim da influência da religião na vida pública daquele país. Não é isto precisamente que acontece nas nossas sociedades? Não somos estados laicos? Não separamos a vida política da religião? Alguma vez Badawi seria condenado pelo que escreveu no Ocidente?

São estas sociedades fechadas, obscurantistas que são o caldo de cultura onde medra o fundamentalismo islâmico. Abrir estas sociedades à modernidade, ao contraditório, à crítica violenta, a par do desenvolvimento económico e da democratização da educação são as chaves para acabar com os assassinos que tentaram matar o Charlie Hebdo.”

8.
As últimas palavras são para mostrar a minha (certeza) na concordância com o Sr Gato quando afirma: “saibamos não nos desconcentrar do essencial: a defesa da democracia”.


A terminar, como aconselhava o grande Manuel António Pina: 
“Ainda não é o fim, nem o
princípio do mundo. Calma, é apenas um pouco tarde.”

E mesmo a acabar, a ironia cruel: 
“Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a box……”


JB

PS.: Este texto foi difícil de escrever. Aceito críticas ou eventuais incompreensões sobre o que quis transmitir.



Um calculador de improbabilidades

William Adolphe Bouguereau - Head Of A Young Girl
Gif de Stefano Tagliafierro


Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me
Ana Hatherly

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mérito *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Em meados dos anos de 1990, David M. Kotz e Fred Weir tentaram perceber por que razão o império soviético tinha implodido tão rápida e pacificamente. Para isso, eles entrevistaram centenas de altos responsáveis da ex-URSS e publicaram as suas conclusões em 1997, numa obra intitulada "Revolução de Cima: O Fim da União Soviética".

A tese principal deste livro é simples de explicar: o fim da União Soviética não aconteceu por ter havido uma revolta dos de baixo contra os de cima. Se tivesse sido assim, ao novo regime teriam correspondido novos dirigentes, e não, como aconteceu, comunistas recauchutados.

Gorbatchov queria reformar a URSS mas as elites soviéticas perceberam que eram elas que iam ficar com os despojos quando o regime desmoronasse e trataram do assunto. Os actuais plutocratas russos estavam próximos da cúpula soviética e conseguiram assegurar os favores do estado ou roubaram-no directamente.

Vladimir Putin, um ex-KGB, é só o vértice deste sistema cleptocrata e mafioso que tem, nos seus cromossomas, o autoritarismo anti-democrático das velhas elites soviéticas.


in Jornal do Centro, edição de 9.1.2015
2. O socialista João Ribeiro ganhou a câmara de Tabuaço em 2009 e perdeu-a logo nas eleições seguintes. Aquele município, no final de 2013, tinha a maior dívida por habitante do distrito (2119 euros) e era o terceiro com maior grau de endividamento (174%).

No actual mandato, como vereador da oposição, ele faltou a 19 das 32 sessões da câmara. Esteve presente em 1 de Julho e, a seguir, baldou-se a todas as outras sessões do segundo semestre de 2014.

Ora, nessa mesma metade do ano passado, João Ribeiro foi escolhido para o secretariado da federação do PS-Viseu e foi ainda indicado, pela cúpula distrital, como um dos "felizes poucos" da Comissão Nacional do PS.

Como se vê, ter um lugar de topo no PS-Viseu não depende do mérito eleitoral, nem do mérito gestionário, nem tão pouco da assiduidade ao cargo para que se foi eleito.

De que dependerá então?

A uma ausência

Fotografia de Frances Pellegrini


Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado;

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado;

Coro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.
António Barbosa Bacelar


"No Deal" — uma curta-metragem de Joe Burke

A história de um "estraga-foras"



No Deal — USA (2010)
Realizador: Joe Burke
Argumento: Joe Burke, Michael Stahl-David
Com: Ari Graynor, Keir O'Donnell, Michael Stahl-David

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Venho dormir junto de ti

Fotografia de Noell S. Oszvald


Venho dormir junto de ti 
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.
António Franco Alexandre


L'Accordeur — O Afinador de Pianos, uma curta-metragem de Olivier Treiner (2010)


Um pianista de topo falha quando está quase a chegar ao topo.
Acaba a afinar pianos.
Mas não é fácil.

Um filme escrito e realizado por Olivier Treiner

Com: 
Grégoire Leprince-Ringuet (Adrien); 
Danièle Lebrun (a mulher); 
Grégory Gadebois (Simon); 
Emeline Gue (a dançarina)



From Raphaël Treiner / SHERIFF on Vimeo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Publicidades *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 14 de Janeiro de 2005.


O meu era o BI-97-16
1. Nos finais dos anos 70, princípios dos anos 80, tive um Ford Escort GT, um lindo carro vermelho com motor generoso. Não era um BMW 2002 (um dos carros de sonho de então) mas, mesmo assim, era um carro muito bom, tão bom como os Datsun 1200 e os Toyotas Corolla que povoavam então as nossas estradas.

Na altura, os percursores do actual tunning usavam os Minis 1275 GT, que submetiam a intervenções mecânicas exotéricas. Esses simpáticos carros eram, depois, dotados com uns pneus impressionantes que se esparramavam bem para fora dos guarda-lamas.

Uma vez, um 1275 GT destes meteu-se comigo na N 16, no troço Viseu – S. Pedro do Sul. Ele ultrapassou-me e imediatamente se pôs à minha frente, a andar a 20 à hora. A seguir, naturalmente, eu passei-o para tentar viajar a uma velocidade adequada. Foi então a vez dele me passar outra vez e ficar a caracolear-se à minha frente. Estas manobras repetiram-se por vários quilómetros.

Finalmente, na estrita obediência ao Código da Estrada, lá o passei a grande velocidade num sítio seleccionado, ganhei-lhe alguma distância graças ao trânsito e às curvas que conhecia muito bem, e escondi-me logo a seguir, fora da estrada. Segundos depois, a assobiar como um avião, passou o 1275 GT.

O condutor deve ter ficado impressionado com o potencial do meu Escort GT. Nunca mais me viu. Ele ficou frustrado e eu fiquei com uma história para contar. 

2. Na mesma estrada e na mesma altura, quem viesse de S. Pedro do Sul para Viseu, passada que era a passagem de nível de Abraveses e os seus solavancos no alcatrão, via do lado direito uma placa publicitária fascinante. Dizia ela: “Fazemos Antiguidades”.

“Fazemos Antiguidades” é publicidade honesta. Publicidade que não esconde nada na manga. Mensagens assim põem directamente em causa a ideia de John Lukacs de que a hipocrisia é o cimento da sociedade.

Tenho uma pena muito grande de não ter fotografado aquelas letras garrafais.

Agora, mais de 20 anos depois, no cruzamento para o Aeródromo de Viseu, na N2, há um outdoor castanho que anuncia, a letras brancas, uma Fábrica de Arte Antiga. Repito: Fábrica de Arte Antiga. Gosto desta transparência. Ninguém mais me apanha desprevenido em casos destes: já lá fui tirar cinco fotografias.









3. E agora uma pequena visita ao pequeno mundo da nossa intelectualidade:

Facto 1: Maria Filomena Mónica (MFM), no Público de 4 de Dezembro, numa recensão intitulada “O sociólogo-poeta Boaventura Sousa Santos”, criticou fortemente a poesia titilante daquele intelectual de Coimbra. Eu – confesso - gostei tanto da prosa de MFM que até guardei o recorte.

Facto 2: No dia 8 de Janeiro, surgiu no mesmo jornal um texto violento de resposta a MFM, assinado por 24 (!) intelectuais. Neste grupo entrevê-se o Bloco de Esquerda, adivinham-se vários dos seus companheiros de estrada e figuram também, imagino, alguns espontâneos. Eis três nomes mais conhecidos para se perceber do que estou a falar: Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Miguel Vale de Almeida.

Conclusão: quem se meter com intocáveis, leva. Eles respondem logo. Em alcateia. Às dúzias.

4. Acabar com a agonia do Governo de Pedro Santana Lopes foi uma obra de misericórdia que Jorge Sampaio fez, embora com quatro meses e treze dias de atraso.

O conselheiro de Belém e socialista influente, Correia de Campos, acha que: “(...) para os trabalhadores, prolongar Santana Lopes não teria sido mau, quanto pior melhor; para os patrões, quanto pior, pior, por isso activamente trabalharam para que o despautério cessasse.” [Público, 31 de Dezembro/2004]

Correia de Campos, com esta espécie de luta de classes ao contrário, não faz sentido nenhum. Já nem os patrões mais encardidos têm esta visão caricatural dos trabalhadores portugueses.