sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Greves*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Como se sabe, quando o governo é fraco, os lóbis fazem um festim. E isso já se vê: cheios de pressa, os homeopatas do bloco esganiçam-se no parlamento e os sindicalistas do PCP  convocam greves; já os banqueiros, mulas velhas, fazem as coisas com discrição e eficácia. Enquanto a “Europa” fechar os olhos, a todos o governo atenderá cheio de bondade.

Mal se deu a convocatória da greve do metropolitano de Lisboa, o secretário de estado José Mendes declarou logo que estava aberta uma “janela de diálogo” para derrubar o “muro de silêncio” que não deixa o sindicato “passar a sua mensagem”. Isto é: o governo vai derramar mais dinheiro no fim do mês dos maquinistas.


2. No ano 411 a. C., durante uma guerra entre Esparta e Atenas, Aristófanes escreveu a comédia antibélica “Lisístrata”. Nela, as mulheres decidiram fazer uma greve de sexo até os homens ganharem juízo e assinarem a paz.

Em 2002, durante a segunda guerra civil na Libéria, Leymah Gbowee mobilizou as mulheres de todas as etnias e religiões para que recusassem sexo aos homens enquanto durassem os combates.

Na primavera de 2012, o banco central espanhol bem tentava, em vão, que os fluxos de crédito às famílias e aos negócios funcionassem tão bem como os fluxos da libido dos banqueiros madrilenos. Foi então que as “acompanhantes de luxo” decidiram fazer greve dos seus serviços aos homens do dinheiro.

Nos últimos 15 anos, a violência em Chicago matou 7356 norte-americanos, quase o triplo que no Iraque (2579). Esta emergência deu origem a "Chi-Raq", um filme de Spike Lee, inspirado em Aristófanes, que acaba de estrear nos EUA.



Nele, uma portentosa Lisístrata organiza as mulheres contra a violência entre os dois gangs de Chicago, os Trojans e os Spartans. 


“No peace, no pussy!”, determinam elas.



Quatro greves: duas de ficção, duas reais, em todas vitória abençoada das mulheres. E a enorme Leymah Gbowee ganhou o Nobel da Paz em 2011. 


E, pelo que diz a crítica, a enorme Teyonah “Lisístrata” Parris merece um óscar.

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