quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Caras*

* Texto publicado no Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 9 de Dezembro de 2005


Isabel Dinoire, numa conferência de imprensa, 
em Fevereiro de 2006fotografia de Pascal Rossignol
1. No final de Novembro, foi feito, em Amiens, cidade do norte de França, o primeiro transplante de cara. Foi um transplante parcial, com a substituição do queixo, da boca e do nariz duma mulher de 38 anos que tinha sido completamente desfigurada pelo seu cão.

A mulher, depois do ataque do cão, ficou também com graves dificuldades em comer, beber e falar. 
A operação durou 15 horas e correu bem. Foi usada a cara duma dadora que estava ligada às máquinas, em morte cerebral. A família da dadora, que vai ficar anónima, deu o seu assentimento.

Já correu mundo a fotografia do novo rosto da doente, publicada no Daily Telegraph, em 3 de Dezembro. O seu nome também já foi revelado em alguns jornais. Foram conhecidos ainda pormenores da sua vida privada e das circunstâncias do ataque do cão. Há sempre alguém a falar demais.

2. Ter uma cara nova não é o mesmo que ter um rim novo. A nossa cara não é só o somatório das suas funções orgânicas. É a nossa imagem, é a nossa identidade. A nossa cara é o nosso “eu”, como nós o vemos e como os outros o vêem.

É por isso que, para além do risco de rejeição dos tecidos, também há, neste transplante, um grande risco de rejeição psicológica.

3. Mudar de cara, neste caso, foi necessário. Muitas vezes não o é mas as pessoas querem outra cara à força. Nos tempos que correm, ninguém parece estar satisfeito com o corpo que tem.

As pessoas gostam, e sempre gostaram, de criar novas personagens. Não é preciso lembrar que persona quer dizer máscara. É por isso que as máscaras são muito procuradas. E o botox e as plásticas.

Uma cara conta uma história. A de Michael Jackson, por exemplo, é uma história de racismo desvariado. Já esta nova cara híbrida de Amiens conta-nos uma história de tragédia e de esperança.

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