quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tormar-se o ser criado em criador

Fotografia de Arno Rafaël Minkkinen





A Francesco Petrarca

Justo é saber que cada um já retomou
A falsa-humilde condição de um servidor
E por fim finja não ser ele o criador
De quem afinal fingimos que nos criou

Porque alguém que escreve é também alguém que é lido
Por um outro alguém que se lê como num espelho,
À certeza inquieta do gesto devolvido.

É ténue a linha entre a verdade e a aparência :
E se o estilo é doce é menos novo do que é velho,
Que só pel' efémero se sustenta a permanência.

Nem se sabe por que medida se mede o homem
Sequer de quem nos recebemos por herança
Mais: talvez só sejamos sombra à semelhança
Das demais fábulas absurdas que nos consomem
Rita Taborda Duarte


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