quarta-feira, 15 de julho de 2015

Do Tempo ao Coração

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E volto a murmurar         Do cântico de amor
gerado na Suméria         às novas europutas
Do muito que me dás ao muito que não dou
mas que sempre conservo entre as coisas mais puras

De uma genebra a mais num bar de Amsterdão
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas         tantas mãos         que nos passam pelas mãos
a tão poucas que são as que nunca se esquecem

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que não aparecem no mapa
De outros muros que só aparecem aqui

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

Da pertinaz presença         E da longevidade
do corvo         do chacal         do louco         do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

Do que foi noutro tempo a saúde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo         ao coração minado pelo cancro
Dos rins         ao infinito incubado na cólera

Do tempo ao coração         mas com pausa na pele
como «Roma by night» entre dois aviões
como passar o Verão numa vogal aberta
como dizer que não         que já não somos dois

Dos rins ao infinito         A este que não outro
Ao que rola dos rins         Ao que vai rebentar-te
na câmara blindada e nocturna do útero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

Da curva de entretanto         à entrada do poço
De soletrar em mim         a ler         nas tuas mãos
como é rápido         e lento         e recto         e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.
David Mourão-Ferreira





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