quarta-feira, 24 de junho de 2015

Solstício*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 24 de Junho de 2005


1. Os dias estão grandes e as noites pequenas. O sol, vertical, mingua-nos a sombra. A lua fraqueja por cima dos candeeiros de iluminação pública. As tílias fazem-nos respirar fundo o fundo dos pulmões. No ar, aromas conhecidos.

O calor prenuncia o S. João. Vildemoinhos. Cavalhadas.
Cavalhadas de Vildemoinhos, 2008
Fotografia Olho de Gato


O calor anuncia a festa dos corpos. Repetem-se os rituais dos dias maiores do ano. Aí estão novamente as festas solsticiais. É assim há milénios, desde os tempos pagãos.

Pendurados nos nossos aparatos e na nossa tecnologia, julgamo-nos diferentes dos nossos tetravós. Não somos. Somos só o que verdadeiramente importa: somos humanos.

2. No último Olho de Gato, falei de amnésias, de esquecimentos, de perca de memória. Foi uma ideia que me ocorreu a partir do colapso do disco rígido do meu computador.

Hoje quero falar do contrário. Quero falar das alturas em que a memória funciona bem. Em que nos lembra bem o acontecido. Em que ficam documentos para esbaterem a nossa incerteza e para desafiarem as nossas dúvidas.

3. Está a ser feita a musealização da muralha da Rua Formosa.
Muralha coeva da lista do Bloco de Esquerda por Viseu, disse eu, com ironia, no início deste ano, para escândalo e fúria dos meus amigos bloquistas.

Estas pedras são a prova da ocupação milenar do nosso território. Os nossos avós andaram por aqui e marcaram, com a muralha, um dentro e um fora.

Sempre foi claro, para mim, que aquele achado era muito importante. Tinha que haver uma forma de dar testemunho dele às pessoas. Na altura, não fui meigo aqui, no Olho de Gato, com uma técnica que recomendou o enterramento daquelas pedras.

Politicamente, foi feito com eficácia e na altura própria o que tinha que ser feito. Vai ser colocado vidro por cima da muralha. Espero que, para lá das quadrículas de vidro, das luzes e das máquinas, se saiba mostrar aos passantes e aos visitantes, a singularidade daquele lugar.

Têm a palavra os especialistas. Falem também os criativos, os poetas, os músicos, os artistas. Saiba-se contar a história daquilo. Com aquela nossa memória preservada, faltam agora as histórias daquela história.

4. Anna Larina tinha 16 anos quando se apaixonou por Nikolai Ivanovitch Buckarine, um líder bolchevique de topo, na altura com 42 anos. Casaram algum tempo depois. É uma história de amor sublime e é uma história trágica porque se cruza com o período de terror estalinista.

Nikolai Ivanovitch foi preso em Fevereiro de 1937 e executado com um tiro na nuca, depois dum julgamento paranóico em que “confessou” um conjunto de crimes que nunca cometeu, nem nunca poderia ter cometido.

Quanto à bela Anna Larina, foi presa poucos meses depois do seu marido, esteve em vários campos de concentração, sofreu horrores, mas conseguiu sobreviver ao comunismo.

Anna passou a vida empenhada na reabilitação política e histórica do seu amor. Conseguiu-o, de uma forma definitiva, em 1988; governava então, na União Soviética, Mickahil Gorbatchov.

A Terramar acaba de editar “Bukharine, Minha Paixão”, a autobiografia de Anna Larina Buckharina. O preço (31,50 euros) está a pedir que o leitor aproveite os descontos da Feira do Livro.
Um mês antes de ser preso, em Janeiro de 1937, Bukharine, que sabia que ia morrer uma morte desonrada, ajoelhou-se aos pés da sua Anniutchka e fê-la “(…) aprender de cor, como uma oração, o seu testamento, a sua Carta à Geração Futura dos Dirigentes do Partido”. (p. 14/15)

Anna guardou este testamento político na memória. Nunca o pôde escrever em lado nenhum. Um texto assim, apanhado pelos esbirros comunistas, significava a morte. Anna guardou-o na sua cabeça e viveu décadas na obrigação de o não poder esquecer. O texto foi publicado, pela primeira vez na URSS, em 17 de Abril de 1988. Mais de 50 anos depois.

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