quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sáurios*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Abril de 2005


1. Ainda vivíamos nos tempos do fascismo. Jerzy Bauer, fotógrafo do L’Express, levou José Cardoso Pires a um jardim de Londres que está cheio de dinossauros e tirou-lhe lá umas fotografias. Há uma dessas fotografias na contra-capa de “Dinossauro Excelentíssimo”, em que o escritor posa à frente dum destes sáurios do Jardim de Crystal Palace. Tenho uma edição de “Dinossauro Excelentíssimo” que se começou a descolar quando fiz agora uma breve releitura, antes de começar a escrever este Olho de Gato. Este volume, agora meio arruinado, tem ilustrações muito curiosas de João Abel Manta.

Conta José Cardoso Pires que a ideia do livro lhe surgiu quando se pôs “(...) a pensar no fantasma do Tyrannosaurus com os seus dez metros de comprimento e a sua dentadura assanhada lá nas nuvens...”

“Dinossauro Excelentíssimo”, escrito em forma de fábula, é um gozo pegado ao salazarismo.

Salazar, o sáurio da história, foi muito mau para o país. Podia, ao menos, ter caído da cadeira mais cedo. Nem isso fez, infelizmente.
Caricatura de João Abel Manta

José Cardoso Pires publicou o “Dinossauro Excelentíssimo” em 1972, aos 47 anos. Tinha sofrido o longo inverno de Salazar e vivia na chamada primavera marcelista, então já posta no congelador. Desesperou décadas por um 25 de Abril que haveria de chegar dois anos mais tarde. Passar uma vida debaixo da “apagada e vil tristeza” duma ditadura é uma raiva e uma neura.

“Dinossauro Excelentíssimo” não é o melhor livro de José Cardoso Pires; mas é uma desbunda, escrita num português escorreito e chão, que nos lava a alma, e nos mostra que um espírito livre nunca se deixa dominar por ninguém. Nem num regime de “dentadura assanhada” como o que tivemos até 1974.

2. Os políticos, salvo raras excepções, nunca sabem sair a tempo. Eles colam-se ao poder com cola Araldite, mesmo quando já só fazem mais mal do que bem e só servem para dar empregos às suas clientelas.

José Sócrates acaba de propor uma Lei de Limitação de Mandatos que também o inclui, enquanto primeiro-ministro. Sócrates mostra desapego ao poder, o que é muito incomum.

Seria bom que a proposta do governo fosse melhorada agora na Assembleia da República. O limite máximo devia ser de dois mandatos. Se o Presidente da República só pode ter dois mandatos, porque razão é que um autarca dinossauro pode ter três?

Devia haver limites temporais ao exercício de presidentes, ministros, deputados, vereadores, executivos de institutos públicos, direcções de escolas, etc. Em suma: defendo limitação de mandatos para todas as instituições que vivem dos dinheiros públicos.

Não estou nada optimista. Podemos esperar sentados que os deputados tenham a coerência para aplicarem a si próprios a limitação de mandatos.

Esta lei precisa de dois terços para ser aprovada na Assembleia da República. Os sáurios têm a pele muito grossa e escamuda. Os dinossauros do PS, do PSD e do PCP não vão deixar passar a limitação de mandatos.

Para bem do nosso país, gostava muito de estar enganado no que acabo de prever.

3. Sobre a forma como está a ser gerido politicamente o problema do aborto e a marcação do referendo, quero fazer dois comentários:

— a liderança do Grupo Parlamentar do PS tem tratado este assunto com os pés;

— quatro deputados do PSD deram o seu voto favorável à descriminalização do aborto. Foram eles Ana Manso, Arménio Santos, Jaime Soares e o viseense José Cesário. Saúdo a sua moderação e independência de espírito.

4. Os jornais têm, mais uma vez, páginas e páginas cheias com o tema de sempre: a Universidade Pública de Viseu.

É assim há anos a seguir aos anos. São sempre os mesmos a obrarem sentenças sobre o assunto. São sempre os mesmos a dizerem besteiras a ver se nos esquecemos das besteiras que fizeram.

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