sexta-feira, 17 de abril de 2015

17 de Abril de 1969 — uma evocação de JB*

* Comentário de JB ao post Pssssst!!!!!


Memórias, não presidenciais!

Completam-se hoje 46 anos do dia em que a Academia de Coimbra se ergueu contra a Ditadura.

Na manhã de 17 de Abril de 1969, por ocasião da inauguração do Edifício da Matemática. Vieram a Coimbra os Ministros das Obras Públicas, da Educação (o Prof. Hermano Saraiva) e o então Presidente da República, Almirante Américo Tomás. Em determinado momento, Alberto Martins, Presidente da AAC pede a palavra ao Presidente da República, com uma pergunta que calou a sala:
«Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?»

A Associação Académica foi demitida e os seus dirigentes suspensos da UC, houve assembleia Magna, nela compareceram Professores sonantes em apoio aos estudantes pondo a sua carreira em perigo, o Doutor Orlando de Carvalho e o Doutor Paulo Quintela que, com a sua voz que mais parecia vozeirão, disse para os estudantes: "Só quem vos elegeu vos poderá demitir"

Foram dias quentes. Os constantes carros da polícia (os “creme nívea”) a patrulhar a cidade; a polícia de choque por todo o lado; os cavalos da GNR nas escadas monumentais, as paredes pintadas dos prédios (“aqui mora uma traidora”), aluna que tinha furado a greve aos exames, e ainda mais…e mais…

Mas o dia 22 de junho de 1969 ficará para sempre na memória. A Briosa foi à final da Taça de Portugal, no Jamor. A Academia está de luto académico e quis jogar de branco (côr do luto académico) mas não foi autorizada a tal. 
Os jogadores da Académica subiram ao campo de capa ao ombro para defrontarem o Benfica. Imagem inolvidável!

E tudo parecia estar bem encaminhado quando Manuel António fez o 0x1 para a Académica a nove minutos do fim. Quatro minutos depois António Simões repôs a igualdade e obrigou a prolongamento. No tempo extra, os academistas perderam o ritmo e o Benfica, através do inevitável Eusébio, marcou o segundo golo e deitou por terra o sonho dos estudantes. Chorámos de raiva pela derrota futebolística. No campo a Académica perdera, mas fora dele, o resultado seria diferente...

Os cartazes levantados, os panfletos largados, tornaram a final da Taça de Portugal no maior comício de sempre contra a Ditadura. Aliás, o jornalista Carlos Pinhão, anos mais tarde, apelidou mesmo o jogo entre a Briosa e os encarnados como "um dos maiores comícios de sempre contra o regime".

17 de Abril 1969 foi um marco inesquecível é incontornável na luta estudantil e na luta contra o regime fascista que desembocou no também inolvidável dia 25 de Abril.

Foi um confronto com o fascismo no qual se formou toda uma geração de líderes políticos e intelectuais que no pós-25 de Abril viriam a ter papel destacado (Alberto Martins, Barros Moura, Celso Cruzeiro, António Marinho, entre muitos outros). E no qual a dinâmica colectiva gerou um movimento muito mais rico e criativo do que as vanguardas politizadas algumas vez teriam, por si sós, sido capazes de impulsionar.

Com a crise de 1969 aprendemos a escutar as conversas dos irmãos, mais velhos, com os amigos e as suas ideias; aprendemos a participar numa manifestação; aprendemos a sintonizar a rádio “Voz da Liberdade”; aprendemos que há uma palavra única nas nossas vidas: liberdade!

Com a crise académica de 1969,foi o primeiro momento da minha vida juventude em que assisti ao confronto de ideais políticos: de um lado o Futuro, do outro o Passado. De um lado a acção utópica por uma sociedade mais justa. Do outro, o pragmatismo caduco das injustiças totalitárias. De um lado o sonho e do outro a arrogância. O Futuro enfrentando o Passado.

Que resta de nós?

1 comentário:

  1. Muito pouco e um sinal é que na actual "Académica", equipa de futebol da I Liga não haverá um único estudante.

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