sexta-feira, 13 de março de 2015

Oh, como se me alonga de ano em ano

Fotografia de Gérard Castello-Lopes



Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.
Luís Vaz de Camões


3 comentários:

  1. Alexandre, poucos há que consigam trazer à letra escrita sentimentos mundanos em igual talento. Camões não foi apenas um poeta. Ele foi e é a poesia.
    Cresce exponencialmente a crise das Humanidades, ao lado da qual a económica e financeira é mera comichão na alma.
    O soneto do príncipe dos poetas beliscou o estro de Pessoa que se viu levado a dizer «Mas nós vivemos realmente? Viver sem saber o que é a vida será viver?». Sim, Fernando Pessoa, esse mesmo, o da aguardente, pois que Bernardo Soares não tinha estofo para subtrair o Eu empírico destes versos.

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    1. Alcídio,
      Excelente e profundo este teu comentário a um modesto post que, depois das tuas palavras, deixou de ser mera coisa de sexta-feira 13.
      Grande abraço

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  2. Preciso interpretar estrofe por estrofe desse poema me ajudem

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