sábado, 17 de janeiro de 2015

Um texto de dúvidas, hesitações e uma certeza — por JB



“If you smile at me, I will understand
'Cause that is something everybody everywhere does
in the same language.”
Crosby, Stills, Nash and Young


Começo com uma premissa de frei Bento Domingues: “uso as palavras dos outros que tento transformar no meu pensamento, já que o poder da palavra é o poder dos sem-poder. Daí, o perigo do seu contágio.”

1.
É bom podermos dizer livremente aquilo em que pensamos.
Assim, vamos às questões incómodas: como reagimos quando soldados dos exércitos nossos aliados entram em casas e matam todos os seus habitantes? Quando uma escola cristã é atacada e as alunas são raptadas? Quando terroristas entram numa escola para matar os alunos? Quando soldados americanos usam civis afegãos para tiro ao alvo? Quando são revelados detalhes sobre a tortura em Guantanamo? Quando jornalistas da Al Jazeera são presos? 


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Quando na Arábia Saudita, Raif Badawi condenado por ter sido o co-criador de um fórum online "Sauditas Liberais Livres" a 10 anos de prisão cumpre a pena “acessória” de mil chicotadas; quando os mentores da invasão do Iraque deveriam ter sido levados a tribunal; quando na Nigéria….

Não posso deixar de pensar que outros atentados, mais graves, não levantaram a comoção que este teve. Talvez por se tratar de uma publicação conhecida e temerária, ou por serem rostos conhecidos. Mas apostaria mais que a razão é por ter sido na Europa, e logo em Paris. Será o mundo inteiro que está comovido, ou apenas o ocidental?

Os países europeus têm tradições e leis que devem ser sagradamente respeitados por todos, inclusivamente pelos imigrantes. A tolerância não pode ser levada ao ponto de aceitar a intolerância dos outros face aos valores europeus no Velho Continente. A civilização europeia baseia-se em princípios judaico-cristãos que devem ser respeitados na Europa, tal como os europeus devem observar as leis e costumes de outros povos.

Não, isto não é uma desculpabilização do que fizeram: o acto de matar é individual, parte de uma escolha. E nem o clérigo mais radical, nem as condicionantes culturais dos assassinos, poderão desculpar este acto. Mas precisamos de saber por que razão o caminho é percorrido, de que modo é que a radicalização destes jovens ocidentais (o ISIS tem conseguido recrutar combatentes de todas as partes do mundo) é feita, o que os leva ali. Importa ainda estratégias mais proactivas e eficientes de minimizar a guetização e "quase total" desocupação de, centenas de milhares de elementos da geração "nem, nem" nem estuda, nem trabalha, em Portugal, França, Noruega, Inglaterra, nos Estados Unidos….. Para esta gente, o futuro passa por onde, por quem e porquê?

2.
Em França não querem presépios, na Alemanha querem que os Mercados de Natal, omitam a palavra Natal porque é ofensiva. O Natal deverá chamar-se isso mesmo (e nunca por mera alegada correcção política uma tal de "festa da família", ou seja lá o que for) -, o som que ouço e com que me identifico, que faz parte da minha formação (de que me orgulho), seja qual for o grau do meu fervor religiosos, é o dos sinos de igreja, e é objectivo civilizacional de primeira ordem que minha mulher seja minha igual em direitos, deveres e oportunidades. Os países de acolhimento não deveriam exigir um compromisso escrito sobre cumprimento das leis e respeito pela cultura do país de acolhimento?

A melhor maneira de combater a ascensão do radicalismo e a multiplicação de terroristas é evitar que os jovens imigrantes ou filhos de imigrantes achem mais aceitáveis os valores medievais e violentos do fundamentalismo islâmico do que os valores das democracias liberais - entre eles, um dos mais sagrados, a liberdade de expressão, e outro, não menos importante, o laicismo do Estado, a separação entre lei e religião. Será uma árdua tarefa que os governos ocidentais têm pela frente.

O multiculturalismo como ideal é isso mesmo: um ideal. Mas, como tudo na vida, a sua materialização impõe o convívio não só com a imperfeição humana como com o respeito por essa mesma condição e dignidade humana: ou seja, a sua limitação. Idealmente sem imposição externa e resultando da simples boa educação, do tacto, da sã convivência.

3.
Se uma religião tiver a pretensão de ser a única verdadeira, ficam todas sob ameaça. O islão não defende o terrorismo, mas o terrorismo islamista constitui um problema que possui uma evidente base religiosa e tem de ser discutido também nesse contexto. O terrorismo islamista não é a emanação natural de uma dada cultura, mas também não é um mero caso de polícia.

Estamos perante indivíduos que não se limitam a combater as liberdades individuais: pretendem implodir a nossa matriz civilizacional e estão dispostos a recorrer a qualquer meio para atingir esse fim. Espalham o pânico com uma facilidade estonteante, fazem do medo um poderoso aliado dos seus desígnios e elegem o terror como senha de identidade.

4.
Numa democracia, as opiniões só existem na medida em que existe igualmente liberdade para as exprimir, divergir e criticar. Em cada momento histórico, há um determinado universo de valores que só é dominante porque os sujeitos sociais os partilham de uma forma comum e plural. Em regimes autoritários, esse consenso é forçado por via de uma estrutura repressiva que se impõe aos cidadãos. Na generalidade dos países islâmicos, uma religião é aliada desse aparelho coercivo.

Todos os dias nos deparamos na imprensa com opiniões ofensivas e/ou despropositadas. Por isso é que são opiniões. Por isso é que  são publicadas em páginas de jornais. Por isso é que lhes podemos contrapor argumentos sem medo. E é tudo isso que nos enriquece enquanto membros de uma comunidade democrática, com opiniões que são tantas vezes execráveis mas nunca atentatórias da integridade de quem delas discorda.

Em 1689, John Locke escrevia na sua Carta sobre a Tolerância que «a tolerância […] aplica-se ao exercício da liberdade, que não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza».

Qualquer vírgula colocada na liberdade de imprensa será um silêncio a mais. Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo.

Porque tudo isso nos une na herança de um processo histórico que aparece agora criminalizado pela susceptibilidade  de um dogma impositivo, incapaz de olhar o outro. Do mesmo modo que tudo isso nos separa daqueles que, sem concessões, reclamam uma superioridade civilizacional para a sua civilização. Qualquer que ela seja.

Posto isto eu defendo a liberdade de expressão, eu defendo o direito à indignação contra qualquer manifestação de intolerância.

5.
Gostei de ler a questão colocada por João Quadros, no artigo «Não somos todos Charlie» : "Aos jornais, televisões, etc., que aparecem a dizer-se Charlie, pergunto: quantas semanas durava o Charlie Hebdo em Portugal antes de ser cancelado por causa de chatices com a Igreja, Angola ou o Governo? Força, Charlie. Quantos jornais portugueses teriam coragem ou vontade de publicar os "cartoons" do Charlie? Espero que estes jornais que se dizem Charlie, durante a semana toda publiquem os "cartoons" na capa."

"Vivemos num país em que o Presidente da República, como representante de todos os portugueses, não vai ao enterro de um escritor (Nobel) porque não gosta dele, ou que não dá os parabéns a outro que canta fado porque não canta o que ele gosta, e que deve estar a deitar cá para fora um comunicado sobre a importância de aceitar a liberdade de expressão e a diferença." 

Questão que coloco: já pensaram o que seria o recluso nº 44 nas mãos daquela malta?

6.
A Europa iniciará a sua desagregação onde todos serão vítimas e culpados, sem coesão, sem projecto, sem utopia. A Europa está com um grave problema: não tem conselho estratégico. O perigo seria o de se estar a criar uma Europa alemã, hierárquica. 

Justamente aquilo que não é agregador, por isso a multiplicação de partidos reaccionários. Está a crescer o desamor à Europa, visível em toda a parte. A minha conclusão é que o imprevisível está à espera de uma oportunidade.

A Europa está tão impotente para se defender de ataques terríveis, como aquele a que agora reagimos, para viver o quotidiano com a complexidade das comunidades que a compõem, como para lutar contra a prepotência dos mercados ou para manter o estado social que com tanto esforço conseguiu construir durante décadas.

7.
Je Suis Charlie significa apenas que se está do lado certo, mais nada.

E cito Nicolau Santos: ”… é preciso continuar a dizer, a escrever, a gritar, a mostrar: os nossos valores, os valores das sociedades ocidentais, assentes na tolerância, no reconhecimento da diferença, na não-discriminação por sexo, credos ou raças, assente no Estado do direito, são incomparavelmente superiores aos dos fundamentalismos islâmicos, que baseiam todo o funcionamento das suas organizações no terror (externo mas também interno) e no ódio às nossas sociedades, ao nosso modo de viver, às nossas culturas, à nossa capacidade integradora.

O politicamente correto evita dizer isto. Quer encontrar justificações nas diferenças culturais. Mas que diferença cultural justifica que as mulheres sejam tratadas como infra-humanas em certas sociedades? Que diferença cultural justifica que sejam lapidadas até á morte por supostos crimes de infidelidade, por tribunais populares? Que diferença cultural justifica a burka?

Os crimes contra a liberdade de imprensa e de expressão são tão importantes no Ocidente como em todos os pontos do globo - e temos de os denunciar e batermo-nos contra as suas vítimas todos os dias. . Raef Badawi não é um qualquer. Ganhou em 2014 o prémio Repórteres Sem Fronteiras e é o cofundador do site Rede Liberal Saudita, juntamente com a ativista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari, onde defendeu o fim da influência da religião na vida pública daquele país. Não é isto precisamente que acontece nas nossas sociedades? Não somos estados laicos? Não separamos a vida política da religião? Alguma vez Badawi seria condenado pelo que escreveu no Ocidente?

São estas sociedades fechadas, obscurantistas que são o caldo de cultura onde medra o fundamentalismo islâmico. Abrir estas sociedades à modernidade, ao contraditório, à crítica violenta, a par do desenvolvimento económico e da democratização da educação são as chaves para acabar com os assassinos que tentaram matar o Charlie Hebdo.”

8.
As últimas palavras são para mostrar a minha (certeza) na concordância com o Sr Gato quando afirma: “saibamos não nos desconcentrar do essencial: a defesa da democracia”.


A terminar, como aconselhava o grande Manuel António Pina: 
“Ainda não é o fim, nem o
princípio do mundo. Calma, é apenas um pouco tarde.”

E mesmo a acabar, a ironia cruel: 
“Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a box……”


JB

PS.: Este texto foi difícil de escrever. Aceito críticas ou eventuais incompreensões sobre o que quis transmitir.



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