domingo, 4 de janeiro de 2015

A fogueira clandestina

Fotografia de Henri Cartier-Bresson



Trouxe aqui a morte para a vermos
à luz deste sol concreto e solícito:
a morte igual a todos nós, irmã mais velha e servil.
Tem uns olhos suaves, e não vivos como é justo,
e as mãos — a barca do rio Letes —
num vaivém de cuidados para nos trazer
naquele asseio pobre de irmãos mais novos,
todos órfãos da vida anterior.
Lá nos abrigaremos, no refúgio das suas mãos,
os variadíssimos náufragos
que sobejamos à vida, à ordem, à finança,
às regalias sociais, às prepotências sagradas
que nos fecham as portas da cidade
e nos expulsam ladrando como cães.
Trouxe aqui a morte para junto
desta nossa fogueira clandestina
para termos ao menos uma razão de estarmos
à volta da fogueira clandestina.
Ela nos vem contar as suas muitas histórias
porque a morte leu todos os livros que se perderam
na frustração de milhões de homens
que nunca souberam uma letra
para exclamar os seus ódios
ou exorcizar os seus medos.
A morte sabe, irmãos, poesias de poetas
cujos versos jamais saíram dos olhos deslumbrados
diante da enorme vitrina do amor inacessível.
A morte sabe, irmãos, as doces poesias
dos pacíficos poetas
calados no holocausto de Hiroshima.
A morte sabe, irmãos, as canções incompletas
dos negros africanos
e de todo o homem que sonhou a liberdade
desde o ano primeiro do pecado original
até hoje, dez de Setembro de 1970, na era de Jesus Cristo.
Trouxe aqui a morte inadiável
que nos sustenta de dia e nos acalenta de noite,
a única certeza para desejarmos
os nossos actos de amor e de sexo
e não desistirmos de crer
nos filhos
nas flores
e na força solidária das nossas mãos desarmadas.
Fernando Melro


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