quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Contra o stress de 2015

Para além de aliviar o stress, também reduz o apetite — em saldo aqui

Uma prenda de agradecimento ao Alforreca por mais um ano tão bom de comentários anónimos idiotas

Daqui




Pinóquios *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 31 de Dezembro de 2004


1. Fernanda Montenegro é uma actriz brasileira, com uma longuíssima e premiada carreira no cinema, no teatro e na televisão. Tem 74 anos de uma vida rica e de uma vida bem aprendida. 

Percebi isso melhor, ao ler uma entrevista dela, numa publicação de Setembro do Teatro Nacional de S. João, do Porto.

A certa altura, perguntaram-lhe: “Entre um bom carácter e um grande artista, que escolha faria?” Fernanda Montenegro respondeu: “Particularmente, o bom carácter. O bom carácter não se trai a si mesmo, não trai o seu amigo, não trai o seu lar. Não trai a sua vida.”

2. Esta resposta de Fernanda Montenegro fez-me lembrar uma história acontecida com Luis Buñuel e Salvador Dali. Para avivar a memória, acabo de a ir reler num texto de João Bénard da Costa, publicado pela Cinemateca Portuguesa:

Luis Buñuel, que nasceu numa família rica, passou pela primeira vez dificuldades económicas em 1940. Tinha 40 anos, mulher e dois filhos. A Guerra Civil espanhola tinha acabado pelo que ele não podia regressar a Espanha onde os franquistas lhe tinham posto a cabeça a prémio. Luis Buñuel conheceu, então, Iris Barry, fundadora da Cinemateca do Museu de Arte Moderna de Nova York, que o convidou para trabalhar lá, com magníficas condições. Assim aconteceu de 1940 a 1943, anos em que Buñuel fez milhares de documentários anti-nazis, em versões inglesas, espanholas e portuguesas.

Salvador Dali conseguiu que ele fosse despedido ao publicar umas memórias em que perguntava como era possível haver uma instituição americana que pagasse a um comunista e a um ateu como Buñuel. Este, nos anos seguintes, passou muitas dificuldades. Acabou por continuar a sua carreira no México, país onde fez filmes geniais e onde se naturalizou em 1949.

Mal vi Fernanda Montenegro dizer que preferia um bom carácter a um grande artista, lembrei-me logo de Salvador Dali e Luis Buñuel.
Salvador Dali, grande artista? Talvez; mas um mau carácter. Prefiro e preferirei sempre Buñuel.

Pinóquio, espectáculo da Acert (2009)
Fotografia de Zé Tavares
3. A Science News, de 31 de Julho, trazia um artigo intitulado “Detecção de enganos – psicólogos tentam perceber como localizar um mentiroso”.

Os investigadores chegaram às seguintes conclusões: os aldrabões tendem a mover menos as mãos, os braços e os dedos; pestanejam menos e têm a voz ligeiramente mais tensa e/ou mais alta. Segundo este estudo, o esforço extra necessário a dar consistência às suas histórias, leva os mentirosos a restringirem os movimentos, a fazerem pausas entre as palavras e a darem menos erros discursivos que as pessoas que estão a dizer a verdade.

O problema é que, como sempre nas Ciências Humanas, o estudo só nos dá tendências estatísticas e há mais incertezas que certezas perante um determinado caso concreto. É que não existe o nariz do Pinóquio, embora haja Pinóquios. Estes, até porque não têm nariz, vão continuar a passar entre os pingos da chuva.

4. A Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMVis) continua dentro do guião aqui antevisto no Olho de Gato, de 26 de Setembro de 2003.

Na cerimónia de constituição da GAMVis, há três meses, em plena crise das portagens das nossas auto-estradas, crise inventada pelo governo de Santana Lopes, não se ouviu uma voz de defesa da região, não se ouviu uma voz na defesa dos interesses das 350 mil pessoas desta Área Metropolitana e que vão ser servidas pelas futuras A25 e A24. Ouvimos, e só, mercearia política.

Em Novembro, formou-se uma Comissão Instaladora, de bloco central, para dirigir a GAMVis.

Finalmente, na semana passada, fez-se a eleição duma lista única para a Assembleia Metropolitana. Esta eleição foi indirecta já que a opinião dos cidadãos, no caso, não conta para nada.

A Grande Área Metropolitana de Viseu continua um zombie político.

Será que vai animar na fase seguinte, a fase das remunerações, dos empregos e dos tachos?

5. Um bom 2005 para todos.

Boo, forever

Fotografia de Laerke Posselt



Spinning like a ghost
on the bottom of a
top,
I'm haunted by all
the space that I
will live without
you.
Richard Brautigan


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dorme, meu amor

Paul Peel - The Rest
Gif de Stefano Tagialfierro



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira


Telhas


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma lição da Grécia a Portugal

Daqui
Na Grécia, o parlamento foi dissolvido hoje e em menos de um mês vão ter eleições legislativas.

Em Portugal, com os seus prazos bizantinos, uma crise política deste tipo só ficaria resolvida lá para a primavera.

Os dias declinando

Fotografia de Erwin Olaf



Tudo o que um dia te foi belo e amplo e prometedor
reúne-o e faz dele forragem e um telhado
para os teus dias inglórios de colmo

porque não haverá um dia um único
que não te aponte as graves falhas do que és
com a lanterna do esplêndido assomo do que foras.

Eu sei-o. Vou olhando-os fixamente nos olhos,
mosca aprisionada na cozedura da teia,
como repentino encontro com um velho conhecido
que julgara não se haver perdido de vista.
Daniel Jonas

domingo, 28 de dezembro de 2014

Medo

Fotografia de Mimmo Jodice

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
Reinaldo Ferreira


Teatro rodoviário, parte 2 — comentário de JB *

* Comentário de JB ao post de ontem "Teatro rodoviário"


No fim de ler o post com o título “Teatro rodoviário”, lembrei-me do saudoso programa da Emissora Nacional – “Teatro das Comédias”. Estávamos nos inícios dos anos sessenta e a melhor forma de terminar um domingo (noite) era escutar/imaginar/viajar pelas peças de que Gil Vicente, Molière, Shakespeare, Goldoni e outros. Grandes actores, magníficas dicções e um sorriso gaiteiro e juvenil a escutar a rádio.

No fim de ler o excelente texto do sr. Gato, também não pude deixar de fazer um sorriso, agora já gasto pelo tempo e muito descrente com os actores.


Fotografia Olho de Gato
E nas preocupações do sr. Gato há uma que já está com uma gataria a lamber os beiços: o IP3 vai ser destruído, no todo ou em parte, para lhe fazerem uma auto-estrada portajada em cima. Trigo limpo, Farinha Amparo, como era costume dizer-se. Não tenho fé em nenhuma outra alternativa. Que o tempo se encarregue de me mostrar que estou errado…

Mudam os actores principais mas as ideias são sempre as básicas!

Todas as questões colocadas pelo sr. Gato são um programa político e para uma capital de distrito que deveria auto questionar-se: e agora que caminho tomo? Passados os anos do betão e do cimento, que coordenada devo seguir? Certamente que por omissão minha não tenho estado atento aos inúmeros encontros, debates, sessões, em que esta questão tenha sido estudada e discutida, mas como cidadão ainda não visualizei os efeitos dessas miríficas propostas.

O texto do sr. Gato traduz a sua bondade e inabaláveis convicções na expectativa de um debate e construção de alternativas. Mas, não o posso acompanhar nas suas esperanças, 'limito-me' a acompanhar na decisão de não me vergar. Francamente, já nem tenho grande vontade de ficar muito tempo para assistir à abjecção para onde se caminha, com a cumplicidade ou desejo da maioria das pessoas dirigentes do centrão local.

Já não encontro explicação política para o comportamento mais ou menos generalizado e globalizado da degradação continuada. Perfilho - sou obrigado a fazê-lo - a tese grega das idades em declínio. Já não me servem explicações sobre a alienação, porque os que o são fazem-no por opção. Isto já nem à luz da sociologia, só da antropologia da "involução desta espécie"!

Termino citando o sr. Gato: “Quando chegar o momento, a haver alguma crispação entre as distritais do centrão será unicamente sobre tachos, perdão!, sobre lugares de nomeação política.”

E ainda, mesmo a acabar: "isto vai! isto avança! [...] as pessoas... são burras!" (Beckett, 'Endgame').

Vouzela — Natal'2014

Fotografia Olho de Gato
Fotografia Olho de Gato

Fotografia Olho de Gato

sábado, 27 de dezembro de 2014

O adivinho

Fotografia de Arthur Elgort


Eu moro no princípio do Grande Rio,
Tu moras no fim do Grande Rio.
Todos os dias penso em ti e não te vejo,
Bebemos ambos as águas do Grande Rio.

Quando esgotarão estas águas?
Quando acabarão estes remorsos?
Desejo apenas que o teu coração se assemelhe ao meu,
E certamente não se desiludirá a ânsia do amor.
Li Zhi Yi


Teatro rodoviário

Antes de se atirarem às filhoses e ao bolo-rei, as nomenclaturas de Viseu do PS e do PSD produziram dois comunicados de imprensa (embora o PS-Viseu, embebido em modernidade, tenha designado o seu como "Press Release"). Já depois das filhoses, outro heterónimo do PSD saiu-se ainda com mais um comunicado.

Tema dos três textos: "investimentos rodoviários". O pré-natalício do PS pode ser lido aqui; o pré-natalício do PSD pode ser lido aqui; o pós-natalício do PSD pode ser lido aqui

Pretexto para os três textos: o novo "Plano Estratégico de Transportes e Infraestruturas (PETI3+)".

Estamos perante o costume: os nossos políticos continuam a ter "sonhos húmidos" com o alcatrão.


Pensamento sobre o centralismo que esmaga este distrito do interior, nada!;

pensamento sobre a carga fiscal que esmaga as empresas e as pessoas, isso-é-que-era-bom!;

pensamento sobre a redução da despesa pública, está-quieto-que-isso-tira-me-votos!;

pensamento sobre investimento reprodutivo em bens transaccionáveis, isso-é-problema-das-empresas.

Já quando toca a alcatrão ninguém cala os políticos — os do topo almoçam com as motas-engis, os do meio da tabela não são capazes de pensar fora deste caldo de cultura.

Passado o sufoco maior decorrente da bancarrota de 2011, regressámos à mesma conversa.

Não é difícil de adivinhar o assunto forte das próximas sessões das assembleias e das câmaras municipais e das concelhias partidárias — vamos ter uma overdose de PETI3+.

O PS-Viseu abriu as hostilidades, com o seu "Press Release", apresentando uma lista de "investimentos prioritários" em estradas:
(i) Viseu – Coimbra;
(i) o IC12;
(iii) Viseu — Nelas;
(iv) Viseu — Sátão;
(v) IC 26 — ligação de Lamego, Tarouca, Moimenta da Beira, Sernancelhe e Penedono à A25 e ao IP2;
(vi) ligação S. João da Pesqueira, Tabuaço e Armamar à A24 no nó de Valdigem, incluindo a ligação do nó de Barcos, em Tabuaço, ao IC 26 em Moimenta da Beira;
(vii) o troço Cinfães – Marco da EN211 na ligação à A4;
(viii) a EN 222-2, servindo Resende com ligação à A24 e à A4, com intersecção na Ponte da Ermida.

Com tantos "investimentos prioritários" percebe-se que não há aqui prioridade nenhuma. Não vem daí mal ao mundo, embora, num partido com vocação de poder, cause perplexidade um discurso tão nefelibata.

Há, contudo, uma omissão grave no texto subscrito por António Borges, o presidente da Federação Socialista do PS-Viseu. Não há nenhuma referência ao maior risco que corre o sul do distrito nesta matéria. A saber: que o IP3 seja destruído, no todo ou em parte, para lhe fazerem uma auto-estrada portajada em cima.

Já o PSD pré-natalício na resposta ao PS não foge ao assunto: "a Comissão Política de Secção do PSD de Viseu define como prioritário a manutenção do IP3 como via alternativa segura e de qualidade, devendo-se assegurar a sua manutenção e requalificação, bem como, evitar “o risco de Viseu ficar cercada por portagens”.

E acrescenta: “não devemos reincidir no erro cometido com a IP5, onde depois da duplicação e transformação na actual A25, foram aplicadas portagens”.

Para terminar, resta referir que nestas tomadas de posição política do PS e do PSD há uma "adversariedade" que soa a falso — dá a impressão de estarmos perante um teatro. E fracote.

Como o eleitorado está a fugir dos "partidos do arco da corrupção", é elevada a probabilidade de os subscritores destes textos tão crispados estarem, no próximo outono depois das eleições legislativas que os vai deixar longe da maioria, coligados num governo de bloco central.

Quando chegar o momento, a haver alguma crispação entre as distritais do centrão será unicamente sobre tachos, perdão!, sobre lugares de nomeação política.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Política dita no Jornal do Centro em 2014 *

* Uma tesouradíssima ** "antologia" dos Olhos de Gato publicados no Jornal de Centro este ano (clicar na data caso queira ler a crónica completa)


Fotografia Olho de Gato
[9/Jan] Não é anedota: neste país falido, a assembleia municipal de Viseu aprovou mesmo por unanimidade uma moção a pedir uma ligação ao sul em via com “perfil de auto-estrada” e sem portagens.

[14/Mar] Seguro está obrigado a, no mínimo, deixar a direita a 5% de votos e a eleger mais deputados que a “Aliança Portugal”. Caso contrário, ou António Costa toma conta do assunto, ou Pedro Passos Coelho ganha as próximas legislativas.

[25/Abril] PS, PSD e CDS, os “partidos do arco da corrupção”, acabam de chumbar no parlamento uma proposta para acabar com deputados na folha de pagamentos dos lobbies. Estamos assim. Quarenta anos depois do 25 de Abril.

[20/Jun] Nos seus bons tempos, o sr. Salgado metia no bolso primeiros-ministros, como foi o caso de Barroso e Sócrates. Nos seus bons tempos, ele era tu-cá-tu-lá com a cleptocracia angolana, embora, nesse caso, não se saiba ainda quem é que metia a mão no bolso de quem. Uma coisa se sabe: o bolso estava furado.

[18/Jul] Não se põe um evento com o impacto dos Jardins Efémeros, que não depende da bilheteira, a concorrer com o Tom de Festa que precisa da receita da bilheteira. (…) António Almeida Henriques enche a boca com o slogan "Viseu, cidade-região" para quê? Para secar a região à volta?

[12/Set] No final de Maio, António Borges roeu a corda a António Costa, para espanto deste, e meteu-se num beco sem saída chamado Seguro; como vai fazer o agora líder distrital do PS para que (...) Viseu deixe de ser “um distrito peso pluma no contexto nacional”?

[19/Set] Na nossa terceira república, a selecção dos líderes a submeter a votos pelas várias agremiações partidárias tem sido feita em "petit-comité", em sótãos conspiratórios e missas maçónicas.

[14/Nov] Os eleitorados do sul estão a fugir para partidos novos que, pelo menos, ainda não estão sujos pela corrupção. Para o ano, o PAN e o PDR de Marinho e Pinto devem entrar no parlamento. E se José Gomes Ferreira for a votos, como acaba de “ameaçar”, as coisas levarão mesmo uma grande volta.

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** A primeira leitura de todos os Olhos de Gato de 2014, antes da "tesouração" para caber, resultou nesta "enormidade":


9/1
Não é anedota: neste país falido, a assembleia municipal de Viseu aprovou mesmo por unanimidade uma moção a pedir uma ligação ao sul em via com “perfil de auto-estrada” e sem portagens.

Atenção!: não se trata de uma auto-estrada, trata-se de um “perfil de auto-estrada”.


16/1
Como explicou Baudelaire, a memória é um palimpsesto, a memória é um pergaminho que se vai apagando para tornar a escrever por cima. Sem darmos conta “alteramos a história de cada vez que voltamos a recordá-la”, lembra Nassim Nicholas Taleb em “O Cisne Negro”.

14/2
Qualquer viseense, mesmo que muito distraído, sabe que o Auditório Mirita Casimiro é uma sala sem vida que está, há anos, a coleccionar teias de aranha na Rua Alexandre Lobo. (…) [e] vai continuar cheio de teias de aranha.”

21/2
A cidadania pós-materialista liga menos às querelas esquerda/direita e às questões económicas e mais às questões de identidade, dos estilos de vida e da liberdade enquanto ferramenta da felicidade individual.


28/2
Eis as três condições para a felicidade, segundo Slavoj Žižek: (i) terem-se bens materiais básicos disponíveis mas não em excesso; (ii) ter-se algo em que sonhar não completamente inacessível; (iii) ter alguém a quem imputar tudo o que corre mal.

Repare-se: temos todas as condições para sermos felizes. Até temos o “alguém” culpado de todos os nossos males. Chama-se Angela Merkel.

7/3
Senhores políticos locais, parem com a laracha do “perfil de auto-estrada” sem portagens e não deixem tocar no IP3, a não ser para uma requalificação decente que poupe vidas.


14/3
Seguro está obrigado a, no mínimo, deixar a direita a 5% de votos e a eleger mais deputados que a “Aliança Portugal”.

Caso contrário, ou António Costa toma conta do assunto, ou Pedro Passos Coelho ganha as próximas legislativas.

21/3

No Olho de Gato sempre se usou e vai continuar a usar-se o método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte, depois dessa escolha feita, há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

Um ou outro aparelhista partidário mais encardido e instalado não gosta. Azar o dele.

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Duas câmaras, as de Sernancelhe e Tabuaço, são completamente machas, nem uma vereadora têm. Na câmara de Castro Daire há quatro socialistas de voz grossa — desapareceu, pelo menos, uma vereadora socialista eleita.

Como se vê, a lei dita da “paridade”, afinal, ainda não pariu paridade nenhuma.

11/4
Medeiros Ferreira, com o seu sentido de humor inigualável, chamou a esta nossa especialidade: “drenagem atípica de rendas exógenas”.Nisto somos bons e há muito tempo. Esta experiência acumulada tem agora um novo campo de aplicação: a venda de vistos dourados a milionários chineses.

E as coisas podem não ficar por aqui: a tríade que manda — formada pela advocacia de negócios, pela banca e pela alta burocracia partidária — ainda se vira para o mercado dos milionários russos e faz um rombo na mais proveitosa “indústria” do Chipre.


18/4
Por sua vez, em Portugal, mudam os regimes mas não muda o espírito predador e corrupto das nossas elites: africanista antes de 1974 nos monopólios coloniais, europeísta agora a “executar” (isto é, “matar”) fundos comunitários.

25/4
PS, PSD e CDS, os “partidos do arco da corrupção”, acabam de chumbar no parlamento uma proposta para acabar com deputados na folha de pagamentos doslobbies.

Estamos assim. Quarenta anos depois do 25 de Abril.

2/5
Entendamo-nos: a nova estátua de Viseu não é um caso de "o rei vai nu!". Ela é o contrário disso: em vez de termos um rei sem “roupa”, o que temos é “roupa” sem rei dentro. Aquela armadura envolve o nada, aquele elmo não protege nenhuma cabeça, protege o vazio. Ou, usando uma bem-humorada analogia de um amigo: o que temos ali é uma espécie de "Homem Invisível" que no filme, para ser visto, tinha de estar de fato, de luvas e de chapéu.

Eu gosto desta “não representação” do nosso primeiro rei. Gosto daqueles signos sem nada dentro — da armadura na forma de Portugal sem os Algarves, do escudo, da longa espada, do elmo. Gosto, até, do kitsch daquele coração.

Aquele “nada dentro” é a melhor maneira de se representar a incerteza histórica: D. Tareja no dia 5 de Agosto de 1109, data de nascimento de Afonso, estava mesmo em Viseu?

9/5
Como diz Tony Judt, quando o pensamento não vê mais nada que a economia, fica como um hamster dentro de uma roda giratória.

Mexe-se muito, mas não sai do sítio.

Nestes quatro anos de degradação democrática na Hungria, que fez a “Europa” do "hamster" Barroso?

16/5
Os nossos dois primeiros resgates foram em 1977 (1% do PIB ) e em 1983 (2,8% do PIB). Ambos os empréstimos estão pagos, diz a página oficial do FMI. O país não se sabe governar mas lá vai mantendo o cadastro limpo como pagador.

Agora, a bancarrota socrática foi de 78 mil milhões de euros. Uma enormidade: 45,5% do PIB (!). Apesar de tudo, estes últimos desgraçados anos parecem não ter tido consequências tão más como as do biénio 1983/84. Há trinta anos o pior foi a inflação, desta vez é o desemprego. Mas parece que agora o "estado social" consegue, apesar de tudo, dar melhor resposta.

23/5
É que o Erasmus é bom, o espaço Schengen um descanso, o roaming agora é barato. Mas, e quem não se pode deslocar?

Mas, e as decisões tomadas nas costas do eleitorado? E o autocrata Orbán à solta na Hungria? E o desempoderamento dos jovens? E a imigração? E a incompatibilidade crescente entre as duas “Europas”, a da eurozona e a do eurocepticismo britânico? E a subtracção do poder orçamental aos parlamentos nacionais do euro?

30/5
Portugal precisa de um primeiro-ministro capaz de fazer o que Pedro Passos Coelho não foi capaz: extinguir mesmo as redundâncias do estado, acabar com o sufoco e a ditadura fiscal, ter contas sãs que evitem a quarta bancarrota.

António José Seguro é bom homem mas, como se viu no domingo, não consegue mobilizar as pessoas para esse “suor e lágrimas” necessário. Os portugueses estão agora a olhar para António Costa.

20/6
Nos seus bons tempos, o sr. Salgado metia no bolso primeiros-ministros, como foi o caso de Barroso e Sócrates. Nos seus bons tempos, ele era tu-cá-tu-lá com a cleptocracia angolana, embora, nesse caso, não se saiba ainda quem é que metia a mão no bolso de quem. Uma coisa se sabe: o bolso estava furado.

27/6
Como se sabe, sem uma alternativa confiável "ao que está", as pessoas não mudam. Faulkner explica isso em "Palmeiras Bravas": entre o nada e a dor, as pessoas escolhem a dor. Entre Seguro e Passos Coelho as pessoas escolherão o segundo.

O mesmo acontecerá com António Costa se ele se ficar pela conversa "hollandista" de menos impostos e mais despesa. É que a classe média, ou o que resta dela depois destes desgraçados anos, percebeu que, quando há falência do estado, é ela, classe média, que é levada à ruína.

11/7
as camionetas de gente com que António Borges emoldurou o comício de Seguro em S. Pedro do Sul mostraram, acima de tudo, o músculo mobilizador do ex-presidente da câmara de Resende; prenunciam um chapéu cheiinho de votos em Seguro naquele simpático concelho duriense; mais nada do que isso

18/7
não se põe um evento com o impacto dos Jardins Efémeros, que não depende da bilheteira, a concorrer com o Tom de Festa que precisa da receita da bilheteira.

Mas o pior é político: AAH enche a boca com o slogan "Viseu, cidade-região" para quê? Para secar a região à volta?

25/7
Quem é, de facto, o "dono" dos Centros Escolares de Santa Comba Dão feitos em PPPs? Quem é o verdadeiro "dono" da A25?

Cada vez haverá mais formas imateriais de propriedade a viverem de rendas. E importa não esquecer o imaterial mais decisivo na economia do conhecimento: as ideias, as patentes, os direitos de autor.
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António José Seguro, não contente com a confusão das primárias, marcou, também para Setembro, eleições para líderes distritais do PS.

O homem só é diferente do comandante do Titanic porque quer mesmo bater num iceberg.

1/8
se o PS apresentar em Viseu acartadores das malas dos chefes, sem pensamento próprio nem vida fora da política, tem um dissabor nas urnas. Em 2015, pode dizer adeus ao terceiro deputado.

5/9
As câmaras do distrito com a corda mais apertada à volta do pescoço são as de Santa Comba Dão (248% de endividamento) e Lamego (205%).

Agora todos os dias se ouvem municípios não (tão) endividados a carpirem-se por estarem a ser transformados na Alemanha das câmaras falidas. Uma coisa é certa: alguém tem de cortar aquela corda à volta do pescoço de Santa Comba Dão e de Lamego.

12/9
No final de Maio, António Borges roeu a corda a António Costa, para espanto deste, e meteu-se num beco sem saída chamado Seguro; como vai fazer o agora líder distrital do PS para que — e repito uma expressão da tal carta aberta — Viseu deixe de ser "um distrito peso pluma no contexto nacional"?

19/9
Na nossa terceira república, a selecção dos líderes a submeter a votos pelas várias agremiações partidárias tem sido feita em "petit-comité", em sótãos conspiratórios e missas maçónicas. Só depois de decidido o essencial, é que as coisas são formalizadas, de cima para baixo, nos órgãos estatutários dos partidos.

26/9
A urbanização difusa das últimas décadas fez crescer os subúrbios, multiplicando bairros à volta das cidades, que, estranhamente, continuam ausentes do discurso e das preocupações dos decisores locais e da comunicação social.

Procuremos exemplos disso no concelho de Viseu: não têm conta as proclamações, opiniões, movimentações, planos, para o quase desabitado Bairro da Cadeia, que toda a gente parece querer transformar numa espécie de Portugal dos Pequenitos.

Já quanto aos bairros de Rio de Loba ou de Abraveses, onde vivem milhares e milhares de pessoas a precisarem de melhor qualidade de vida, não há nada. Ninguém quer saber. Estão fora do octógono da propaganda municipal.

3/10
Já o PSD e o CDS, depois de meses a torcerem por Seguro, fazem agora contas de cabeça. A vitória que tinham como certa nas legislativas em 2015 é ainda possível mas é mais difícil. Têm, claro, um trunfo forte: repetir até à exaustão a fórmula «Costa = Sócrates = bancarrota».

10/10
Ora, não há nada debaixo dos céus que seja sempre bom, que seja sempre mau. Até Sísifo pode fazer uma pausa boa enquanto a pedra rola monte abaixo.

Ora, Sísifo, que com tanto sofrimento só pode ser português, depois da bancarrota de 2011 tem estado a acartar às costas o pesado calhau da austeridade monte acima.

Ora, pelo que se tem ouvido, no próximo eleiçoeiro ano, Sísifo vai poder folgar as costas. Tal qual como no suave ano de 2009, o calhau vai rolar cheio de facilidades monte abaixo.

17/10
O que a nossa esquerda diz da globalização é centrado no umbigo do ocidente. Os chineses e os indianos têm tanto direito a ter um carro como o professor "alter-mundialista" Boaventura Sousa Santos.

14/11
São retóricas muito úteis para os políticos irem construindo "inimigos". Como se sabe, quanto mais fraco é um político, mais ele precisa de “inimigos”.

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Os eleitorados do sul estão a fugir para partidos novos que, pelo menos, ainda não estão sujos pela corrupção.

Para o ano, o PAN e o PDR de Marinho e Pinto devem entrar no parlamento. E se José Gomes Ferreira for a votos, como acaba de “ameaçar”, as coisas levarão mesmo uma grande volta.

19/12
Juízos sobre o que aconteceu ao Portugal do sr. Salgado e dos seus dois mordomos políticos, o sr. Barroso e o sr. Sócrates, ficam por conta e risco do leitor.

Crawl

Fotografia de Jonathan Leder



Às vezes, entranhando-me num espelho,
consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas.
Luís Miguel Perry Nava



quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Poema em que se fala de caminhos...

Imagem daqui


Andar, andar, andar
é o destino dos amantes
que não têm destino
como nós
nem têm, nem querem
casa para viver.
Por isso há tantos poemas
em que eles vão...
Iremos nós também
e todos os caminhos nos servirão
porque onde tu estiveres comigo
não haverá mais ninguém.
Iremos e se a noite nos surpreender
no meio da jornada
— e é muito natural que sim
porque sendo longe e incerto
o fim que levamos
enquanto não chegamos
estaremos no meio —
se a noite nos surpreender
a única coisa que faremos
é dar-nos as mãos
e caminharemos assim
que o que é principal
é não nos perdermos um do outro.
E se o meu ombro se cansar
de receber a tua cabeça
— e é muito natural que sim
porque é longe e incerto o nosso fim —
se o meu ombro se cansar
— que também os amantes se cansam às vezes-
se o meu ombro se cansar
sempre encontraremos uma pedra
para atapetar com o musgo dos teus cabelos
- que eu não acredito que as pedras sejam duras
e desconfio que a dureza está nas suas cabeças —.
Sempre encontraremos uma pedra...
Era de pedras que faziam o presépio do menino
lá na minha terra
o presépio onde iam dar
todos os caminhos feitos de serradura.
E eu, que no tempo era um rapazinho travesso
mas dado à meditação,
pensava se todos os caminhos acabariam ali
ou se cada um
não seria a continuação de outro.
E às vezes eu
— que no tempo era um rapazinho travesso —
gostava de fazer às escondidas do cura
com serradura
um caminho que não passasse
pelo presépio do menino.
E havia lá,
na arca da sacristia da minha terra,
um boneco de barro que não era um pastor
mas antes parecia um poeta
ou um vagabundo
ou um doutor moderno desempregado.
E era esse desengraçado boneco,
muito simpático por sinal,
que eu punha a encher todo aquele caminho
desviado do presépio do menino.
E sempre ele progredia um bocado todos os dias
— artes mágicas que eu exercia às escondidas do cura —
apesar do ar atarantado que tinha
e passava indiferente
aos coros mudos dos anjos e dos pastores
— lá que eles estavam com a boca aberta, estavam —.
E sabes tu, ó meu amor,
porque é que ele não se perdia
naquele caminho de serradura
que não passava pelo menino
apesar do ar atarantado que tinha?
Era porque a estrela de prata
— nós chamávamos prata àquelas folhas de estanho
que vêm a enrolar os cigarros e os chocolates —
era porque essa estrela de prata
estava pregada com um arame
num ramo de pinheiro
mais alta do que o presépio do menino
e alumiava todos os caminhos
sem distinção.
Assim o meu vagabundo
o meu doutor desempregado
com mais ou menos um empurrão
lá ia chegando à cidade
feita de papelão
que luzia no alto do monte
à sombra do pinheiro
de onde pendia aquela estrela de prata.
É verdade que no fim
ia para a arca como os outros
mas não tinha ficado ali
durante toda a época do natal
a olhar para o presépio
com o seu menino
e os seus animais
como um animal.
Geraldes de Carvalho



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Cartão de Natal de uma prostituta em Minneapolis *

Edward Hopper
Ei Charlie, eu estou grávida
E a viver na 9th Street
Bem em cima de uma livraria suja
Saindo da Euclid Avenue
E eu deixei de fumar erva
E parei de beber uísque
E meu homem toca trombone
E trabalha na estrada

E ele diz que me ama
Mesmo o bebé não sendo dele
E ele diz que vai criá-lo
Como se fosse seu próprio filho
E ele me deu um anel
Que era usado pela mãe dele
E leva-me para dançar
Todos os sábados a noite

Charlie, eu continuo a pensar em você
Toda vez que passo por um posto de gasolina
Por causa de toda aquela brilhantina
Que você costumava usar no cabelo
E eu ainda tenho aquele disco
Do Little Anthony & The Imperials
Mas alguém roubou o meu gira-discos
Agora, o que você acha disso?



Charlie, eu quase fiquei maluca
Depois que o Mário foi preso
Então eu voltei para o Omaha
Para viver com o meu pessoal
Mas todo a gente que eu conhecia
Estava ou morto ou na prisão
Então eu voltei para Minneapolis
E dessa vez eu acho que vou ficar

Charlie querido, acho que estou feliz agora
Pela primeira vez desde o meu acidente
Quem me dera ter todo o dinheiro
Que nós costumávamos gastar em erva
Eu comprava uma loja de carros usados
E não vendia nenhum dele
Dirigia um carro diferente
Todo os dias, dependendo de como
Eu me sentisse.

Charlie, pelo amor de Deus
Você quer saber a verdade?
Eu não tenho um marido
Ele não toca trombone
E eu preciso de dinheiro emprestado
Para pagar o advogado
E Charlie, a propósito,
Talvez eu consiga a condicional
No próximo dia dos namorados



* Post reeditado

Feliz Natal

... deseja este modesto estabelecimento
a todos os clientes e amigos.

Daqui

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A caminho da quarta bancarrota

A  terceira república não aprendeu nada com a bancarrota de 1977 e não aprendeu nada com a de 1983. 

Até o acontecido em 2011 parece já ter esquecido:


Depois de milhares de milhões de euros de privatizações derretidos, depois de milhares de milhões de euros de fundos comunitários "executados", a dez longos meses das eleições legislativas, os "partidos do arco da corrupção" preparam-se para jogar o jogo do costume:

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ardis

Fotografia de Metin Demiralay



A incompreendida figura do amor
a céu descoberto sem que se exprima
rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis
e enchemos os livros da ardente ausência
de nós próprios.

Ao entardecer corremos
ao pontão sobre o mar
e a vida só se parece
com alguma coisa que sabemos.
José Tolentino de Mendonça


domingo, 21 de dezembro de 2014

Inverno

Fotografia de Herb Ritts


Apagou-se a fogueira.
Que frio na lareira
Do coração!
Neva
Na solidão
Da vida.
E o vento traz e leva
Um recado de eterna despedida.

Amor! Amor!
Sei ainda o teu nome redentor,
Chamo ainda por ti a cada hora!
Arde outra vez em mim
Como ardias outrora,
Os dias de ventura.
Não me deixes assim
Nesta algidez de morte prematura.
Miguel Torga


Um!

Conforme prometido aqui em Outubro de 2011, eis o primeiro carro que vi a usar destas coisas tão profusamente espalhadas pelas cidades:

Fotografia Olho de Gato

sábado, 20 de dezembro de 2014

Regressar

Fotografia de Leonid Tishkov


Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar
Carlos Poças Falcão





sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Há corrupção boa?

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia Olho de Gato
1. Os "presépios" de verdura que a câmara de Viseu espalhou na cidade fizeram-me ir reler “Maus Samaritanos, o Mito do Livre-Comércio e a História Secreta do Capitalismo”, de Ha-Joon Chang.

Este livro conta a história económica “não oficial” dos países desenvolvidos (os tais "Maus Samaritanos"), países que se fartaram de plagiar e roubar invenções uns aos outros, mas que não aceitam agora que o mesmo seja feito pelos países em vias de desenvolvimento.

Os "Maus Samaritanos" agora tanto patenteiam o que é original como o que não o é. Chegam a patentear até saber tradicional e secular. E mais: estão a alargar os prazos de protecção dos direitos de autor e de patente para além do tolerável.

Nos tempos que correm, uma boa ideia não precisa só de uma boa equipa de engenheiros, precisa também de um exército de advogados especialistas em propriedade intelectual.

Volto ao ponto de partida: será que os “apontamentos de verdura anatalados” da câmara de Viseu são um plágio dos Jardins Efémeros? Respondo usando a relutante doutrina deste livro nesta matéria: não, não são plágio.

2. Como explica Ha-Joon Chang, “um suborno é a transferência de riqueza de uma pessoa para outra. Ela não tem necessariamente efeitos negativos sobre a eficiência e o crescimento económico.”

O autor exemplifica com os casos de Mobutu e Suharto. Mobutu governou 32 anos e roubou entre quatro a cinco vezes o PIB zairense. Já nos 32 anos de Suharto o roubo foi bem superior a cinco vezes o PIB indonésio e foi investido pelos filhos do ditador, que ficaram riquíssimos.

A Indonésia ainda foi mais corrupta que o Zaire, mas, “enquanto o padrão de vida do Zaire caiu três vezes durante o governo de Mobutu, o da Indonésia aumentou três vezes durante o governo de Suharto.”

Juízos sobre o que aconteceu ao Portugal do sr. Salgado e dos seus dois mordomos políticos, o sr. Barroso e o sr. Sócrates, ficam por conta e risco do leitor.

Ao tempo, esse patife

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A pressão dos mercados

Fotografia de Antanas Sutkus 

Emprestem-me palavras para o poema; ou dêem-me
sílabas a crédito, para que as ponha a render
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?

É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.

E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba – o ar –
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.
Nuno Júdice


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Força *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Dezembro de 2004

Fraga
Fotografia de João Manuel Barros
1. Fui ver Twister, uma peça de teatro com texto e direcção de Jorge Fraga. O espectáculo foi em Torredeita, na Metalúrgica Ministros. Quando as pessoas compravam o bilhete recebiam, ao mesmo tempo, um cobertor para aguentarem os zero graus da “sala”. O frio não assustou dezenas e dezenas de felizardos que lotaram completamente o espaço.

Jorge Fraga continua a debruçar-se sobre os seus temas preferidos: o “homem lobo do homem” e o destino. Destino marcado pelos dados a rolar no chão de cimento ou pela leitura de sina na planta dos pés. Jorge Fraga continua em boa forma; André Cardoso e Zé Pedro Ramos, as duas vozes e os dois corpos deste carrossel, são nomes a seguir com atenção.

Saí com os pés e as mãos quentes de debaixo do cobertor, neste espectáculo cujo dispositivo de cumplicidade entre o “palco” e o público fica como uma das minhas experiências culturais mais singulares de 2004. Em Torredeita. Numa oficina.

2. José Barroso deu o poder dinasticamente a Pedro Santana Lopes. Em democracia o poder conquista-se através dos votos; não se herda nem se dá de herança. Não era preciso ser nenhuma águia para perceber que a coisa ia correr mal. Tivemos quatro meses e treze dias de circo, com um primeiro-ministro patético, atofegado pelos seus, numa incubadora. Foi ele próprio que o afirmou.

Depois da obscena demonstração da sua incompetência, Pedro Santana Lopes quer-nos agora convencer que é um Calimero, injustiçado por imaginárias centrais de intoxicação e por conspiradores avulsos dirigidos a partir de Boliqueime. E o mais extraordinário é que o aparelho do PSD parece que vai engolir, sem pestanejar, este isco estragado e este anzol tosco.
Como sempre, “um rei fraco faz fraca a forte gente.”

3. Estamos agora ainda em mais apuros que estávamos em Julho. Não podemos embarcar em discursos da tanga. Não devemos dar crédito aos cínicos, por mais inteligentes que nos pareçam. Chega de negrume. Basta de desdém.

Imponhamos uma dieta às nossas elites que engordam com os dinheiros europeus e nem se dão à decência de pagar impostos. Já chega de festim. Queiramos políticos que não se ajoelhem perante as corporações e os interesses.

Achemos força juntos. Queiramos clareza e carácter nos nossos líderes. Que sejam gente sem medo de perder porque só assim merecem ganhar. E nós com eles.

Digam-nos que os tempos que vêm são difíceis, porque é a verdade. Mas não se esqueçam de nos dizer que temos futuro. Que merecemos esperança. Que temos força.

E se não souberem dizê-lo, ponham, ao menos, a música dos Da Weasel a tocar nos comícios:


Força (Uma Página De História)
(...)
(Respiro fundo)
E lembro-me da força
(Guardo dentro do meu corpo)
Espero que ela ouça

Todo o amor deste mundo
Perdido num segundo
Todo o riso transformado
Num olhar apagado
Toda a fúria de viver
Afastada do meu ser
Até que um dia acordei
E vi que estava a perder
Toda a força que cresceu
Na vida que Deus me deu



A vontade de gritar bem alto:
"O meu amor morreu"
Todo o mundo há-de ouvir
Todo o mundo há-de sentir
Tenho a força de mil homens
Para o que há de vir
Vai haver um outro alguém
Que me ame e trate bem
Vai haver um outro alguém
Que me ouça também
Vai haver um outro alguém
Que faça valer a pena
Vai haver um outro alguém
Que me cante este poema

acordar, mexer nos búzios, elucidar

Fotografia de Donigan Cumming



acordar, mexer nos búzios, elucidar
o coração: são as mais dóceis
tarefas.
andamos enganados nestas portas
de veludo, ou nos velhos tapetes
das ombreiras.
quando dormes, há um búzio que mexe
no teu coração.
António Franco Alexandre


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Cine Clube de Viseu faz hoje 59 anos e exibe um filme de um grande cineasta e cineclubista —Satiajit Ray

A primeira sessão do CCV foi em 16 de Dezembro de 1955, com o filme "Passaporte Para o Paraíso", teve que levar o ok prévio "A Bem da Nação"


Hoje às 21H30: O COBARDE
Kapurush, de Satyajit Ray, Índia, 1965, 74'




O COBARDE era um dos filmes preferidos de Satyajit Ray, realizador incontornável do cinema indiano, um dos grandes mestres da História do Cinema. Natural de Calcutá, Satyajit Ray realizou quase quatro dezenas de obras, entre ficção, documentário e curtas-metragens. Em 1992 venceu um Oscar honorário entregue pela Academia de Cinema dos Estados Unidos da América.

Neste filme, um argumentista é surpreendido ao encontrar uma antiga namorada. Recordando a sua incapacidade para se comprometer e o consequente fim da relação, vai tentar acertar contas com o passado mas descobre que o tempo ainda não sarou as feridas.

Dormir um pouco...

Fotografia de Lisette Model




Homenagem a Federico García Lorca

Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.
Albano Martins


Rio Pavia — Viseu

7.12.2014
Fotografia Olho de Gato

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os ouvidos de Aquilino

Fotografia Olho de Gato

As pessoas civilizadas quando querem ouvir música na rua ouvem-na com auscultadores, sem incomodarem os outros. 

Uma cidade civilizada evita o ruído e valoriza o silêncio.

Terem posto "música ambiente" nas ruas de Viseu foi uma ideia terceiro-mundista.

Aquela coluna pendurada num ferro, a debitar "jingle-bells" para a estátua de Aquilino Ribeiro, é uma tortura que o mestre não merecia.