domingo, 30 de novembro de 2014

Entulho

Praça D. Duarte — Viseu, Novembro de 2014
Fotografia Olho de Gato 


Fotografia tirada antes da senhora vereadora da cultura da câmara de Viseu ter imaginado, para trás da estátua, uma instalação de trash-art que, decerto, muito abrilhantará o Natal de 2014 na mui nobre cidade de Viseu.

  Este importante marco estético poderá ser apreciado in loco até ao dia de Reis, caso os serviços de recolha de lixo não sigam a sugestão de Miguel Fernandes de A Tribuna de Viseu.

Com o motor desligado

Fotografia de Eve Arnold
Marilyn Monroe e Clark Gable

em Os Inadaptados (1961),  de John Huston


Ao atravessar a fronteira
entre
beleza e banalidade
sobressai um homem
cansado de inventar poemas.

Não tem nada a declarar
com a excepção de alguma
trivialidade inútil.
Daniel Hevier


sábado, 29 de novembro de 2014

Dias estranhos — um texto de JB*

* Comentário de JB ao post deste blogue intitulado "Cabala"



Neil Young, “On the Beach”

Este texto vai colocado neste espaço mas estava a ser escrito quando vi a fotografia e li o poema "Estou nu diante da água imóvel" (em post anterior).

Nessa altura lembrei-me da situação que se passa no PS: todos a tentarem manter a cabeça à tona da água e não serem levados na enxurrada Sócrates.

Estes dias têm sido estranhos e é difícil acompanhar o ritmo das notícias e comentários.


Daqui
Tenho-me cingido aos jornais e internet, pois a televisão há muito abandonei.

Já aqui escrevi que não tenho sentimentos ambivalentes em relação a José Sócrates; pessoalmente não tenho simpatia pela personagem e politicamente estou distante.

No entanto, seria incapaz de escrever essa infâmia intitulada "Aleluia!", no Expresso online, mas também não compreendo quem quer transformar Sócrates num preso político ou fazer de Évora um novo percurso de peregrinação.

Falar de um julgamento político como fez Mário Soares é o mesmo que recuperar a tese da cabala. O desabafo de Mário Soares cria, porém, um problema inesperado e incontrolável (?) ao PS. Será possível não falar de Sócrates no congresso deste fim de semana? Poderá António Costa visitar o camarada na prisão num gesto de amizade e, no momento seguinte, convencer os portugueses de que o "seu" PS não tem nada que ver com aquilo? António Costa recomendou contenção (esteve bem) mas Soares contrapõe que “todo o PS está contra esta bandalheira” (todo?). Declaração de guerra?

Neste contexto a direita tem sido moderada. Mas quanto tempo vai aguentar até iniciar uma campanha que inquine a debate eleitoral do próximo ano? Escorregou Passos com a frase: “os políticos não são todos iguais”. Não são, e nem todos são sócios da Tecnoforma…

No livro "A Razão Populista" (2005), o pensador Ernesto Laclau defende que a ameaça à democracia contemporânea não está no sobressalto plebeu (dito populismo), mas no estreitamento oligárquico da democracia por minorias que escapam ao controlo popular. E neste contexto concordo com Baptista Bastos: "Mais do que a mossa social causada pela exaustão dos factos, a endemia moral que nos assaltou é, de certeza, extremamente gravosa, porque atinge fundo a nossa comum credulidade nas estruturas da nação e na particularidade da sua alma.”

E termino com o que considero ser um factor de inquinamento na vida do PS, e de há muito, a falta de clarificação. Como é possível que durante quatro (ou cinco..?) longos meses dois candidatos; duas listas concorrentes e supostamente dois projectos, logo após as eleições internas, se tenham apressado a negociar lugares, lugarzinhos e escalonamentos no futuro. Afinal por Viseu já estava formada uma lista de “unidade” e “marginalizada” uma lista de proscritos. Ingenuamente, pensei que no Congresso a clarificação seria um tema central. Agora vão discutir “quem é mais socrático do que eu…”.

Tenham vergonha!


“Ao contrário da matemática, em questões de carácter, 
o produto de dois números negativos raramente dá positivo”
Laura Abreu Cravo

Passageiro frequente

Fotografia de Alberto García—Alix



Ei-lo: tardiamente chegado dos subúrbios
ao coração de tudo, ao centro das coisas,
pária das fábricas e da hulha,
da sua modesta infância
e do seu agregado proletário
arrastado por uma visão tardia,
pelo sorriso familiar da calçada,
não deixando de ser estranho
entre os párias urbanos
como um solipsismo,
como uma velha cabine telefónica
icónica mas não menos divergente
entre a gente.

Ele anseia por um lar
deixadas que foram várias casas bombardeadas
e a sirene infernal de alerta máximo
zumbindo nos corpos calcinados
dos lentos catres
onde as plúmbeas contorções
dos corpos são cubistas e cubistas
os catres sobre eles.

Ele está muito a tempo de alguma coisa
embora as pernas lhe vacilem,
apenas passou de além
para aqui com um fito
indeterminado, um modo de fazer sentido
sem a senha do passado necessário,
sem a cicatriz social,
sem um alinhavo de perfídia.
Este é um passageiro frequente dos faux-pas.
Uma prostituta faria os seus avanços
com mais segurança.
Daniel Jonas

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Ovelhas *

* Publicado hoje no Jornal do Centro



1. Ainda haverá intelectuais cuja voz tenha impacto fora das universidades? Tony Judt, no seu livro "Pensar o Século XX", liga o aparecimento dos “intelectuais públicos” à eliminação do analfabetismo e ao advento dos meios de comunicação.


Até 1940, esses intelectuais eram escritores e a sua palavra era escrita nos jornais — Bernard Shaw, Émile Zola, Stefan Zweig, Jean-Paul Sartre, ...

Depois da segunda guerra mundial e até à década de 1970, lembra Judt, a força da rádio e a expansão do ensino superior fizeram com que os professores universitários, especialmente os cientistas sociais, tomassem o lugar de influência que tinha sido dos escritores. Em Portugal, ninguém ganhou voz por causa da anemia da nossa universidade e da censura salazarista.

De qualquer forma, o público disponível para o debate inteligente e aprofundado foi minguando em todos os países. A partir dos anos de 1980, a palavra com impacto passou a vir das televisões. A solidez académica perdeu para a popularidade. O protagonismo deixou de ser dos intelectuais e passou para “comunicadores” capazes de simplificar e abreviar.

A net só acelerou este processo em que, como diz Judt, se acaba a “identificar intelectuais com comentadores de assuntos contemporâneos.”


Fotografia daqui
2. Os seis anos de autoritarismo negocista de Sócrates fizeram avariar o "departamento de qualidade" do PS.

Um exemplo: em 2011, foi apresentado Paulo Campos, o homem dos pórticos e das PPPs, como cabeça de lista na Guarda, distrito atravessado pela A23 e pela A25. Pior: na altura, quer nos órgãos distritais quer nos órgãos nacionais, não se ouviu uma única voz contra essa candidatura tóxica.

No congresso deste fim-de-semana, o PS precisa mandar embora das primeiras filas a tralha socrática. Mas só isso não chega: o partido precisa, ainda mais, que os seus vários órgãos eleitos não continuem habitados por ovelhas que só sabem balir.

Mulheres correndo, correndo pela noite

Fotografia de Edouard Boubat


Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder




Boas prendas de Natal — mostra de livros para a interculturalidade


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Cabala

A "teoria da cabala" é estúpida e põe o PS em prisão preventiva na mesma cela de José Sócrates.

Será tão difícil de perceber isso?

Pelo que fez na defesa do nosso estado de direito e pelo estado em que está, ao dr. Soares perdoa-se tudo, claro.


Mas só a ele... 

La Loteria (2014), uma curta de Shahir Daud *



Enquanto espera o embarque para os Estados Unidos, Augusto Ramirez lembra os três maiores erros da sua vida...






* + detalhes aqui
Official Selection at the 2014 NY Shorts Fest (Best Drama Winner), 2014 Seattle International Film Festival, 2014 Dallas International Film Festival, 2014 St Tropez International Film Festival (Best Editing), IndieWorks Best of Fest (Audience Award Winner), 2014 Harlem International Film Festival, 2014 San Diego Latino Film Festival, 2014 Miami Short Film Festival

Sem ti

Fotografia de Annette Pehrsson


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.
Eugénio de Andrade

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Estou nu diante da água imóvel

Fotografia de Philippe Halsman



Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:
chegar à margem e ter medo da quietude da água.
Antonio Gamoneda


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Chegou sem se fazer anunciar a era que teu sorriso inaugurou

Fotografia de Lilian Bassman


Chegou sem se fazer anunciar a era que teu sorriso inaugurou:
só mais tarde comecei a contar os dias, as semanas, os meses,
os anos

antes
e depois de ti.

Eram deste mundo os prodígios que os teus olhos semeavam,
desta dimensão a esguia leveza dos dedos, iniciais do teu
corpo

aquém
e além de mim.

A luz e a matéria em que foste modelada definiu-te as formas
e adoçou-te os relevos. Basta-me fechar os olhos para te ver
agora

dentro
e fora de nós.
António Gil


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

El tango

Imagem daqui

¿Dónde estarán? pregunta la elegía
de quienes ya no son, como si hubiera
una región en que el Ayer, pudiera
ser el Hoy, el Aún, y el Todavía.

¿Dónde estarán? (repito) el malevaje
que fundó en polvorientos callejones
de tierra o en perdidas poblaciones
la secta del cuchillo y del coraje?

¿Dónde estarán aquellos que pasaron,
dejando a la epopeya un episodio,
una fábula al tiempo, y que sin odio,
lucro o pasión de amor se acuchillaron?

Los busco en su leyenda, en la postrera
brasa que, a modo de una vaga rosa,
guarda algo de esa chusma valerosa
de Los Corrales y de Balvanera.

¿Qué oscuros callejones o qué yermo
del otro mundo habitará la dura
sombra de aquel que era una sombra oscura,
Muraña, ese cuchillo de Palermo?

¿Y ese Iberra fatal (de quien los santos
se apiaden) que en un puente de la vía,
mató a su hermano, el Ñato, que debía
más muertes que él, y así igualo los tantos?

Una mitología de puñales
lentamente se anula en el olvido;
Una canción de gesta se ha perdido
entre sórdidas noticias policiales.

Hay otra brasa, otra candente rosa
de la ceniza que los guarda enteros;
ahí están los soberbios cuchilleros
y el peso de la daga silenciosa.

Aunque la daga hostil o esa otra daga,
el tiempo, los perdieron en el fango,
hoy, más allá del tiempo y de la aciaga
muerte, esos muertos viven en el tango.

En la música están, en el cordaje
de la terca guitarra trabajosa,
que trama en la milonga venturosa
la fiesta y la inocencia del coraje.

Gira en el hueco la amarilla rueda
de caballos y leones, y oigo el eco
de esos tangos de Arolas y de Greco
que yo he visto bailar en la vereda,

en un instante que hoy emerge aislado,
sin antes ni después, contra el olvido,
y que tiene el sabor de lo perdido,
de lo perdido y lo recuperado.

En los acordes hay antiguas cosas:
el otro patio y la entrevista parra.
(Detrás de las paredes recelosas
el Sur guarda un puñal y una guitarra.)

Esa ráfaga, el tango, esa diablura,
los atareados años desafía;
hecho de polvo y tiempo, el hombre dura
menos que la liviana melodía,

que solo es tiempo. El Tango crea un turbio
pasado irreal que de algún modo es cierto,
el recuerdo imposible de haber muerto
peleando, en una esquina del suburbio.
Jorge Luis Borges

"SLR", de Stephen Fingleton (2013)* — curta pré-candidata aos óscares/2015


* a história de um voyeur

Realização e argumento: 
Stephen Fingleton

Com
Liam Cunningham
Ryan McParland
 Amy Wren 




domingo, 23 de novembro de 2014

Rosas e cantigas

Fotografia de Hedi Slimane


Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? - Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.
Afonso Duarte

sábado, 22 de novembro de 2014

Presidenciais 2016



Candidatos fortes da direita às presidenciais/2016: 
Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio 

Candidato folclórico da direita às presidenciais/2016: 
Pedro Santana Lopes

Candidato tóxico da direita às presidenciais/2016: 
Durão Barroso 

--------------

Candidato forte da esquerda às presidenciais/2016:
António Guterres 

Candidato folclórico da esquerda às presidenciais/2016: 
António Sampaio da Nóvoa

Candidatos tóxicos da esquerda às presidenciais/2016: 

Os Amantes de Novembro

Fotografia de Elina Brotherus



Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.
Alexandre O'Neill


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Abaixo-de-cão *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Na semana passada aqui no Jornal do Centro, Manuela Barreto Nunes contou uma experiência levada a cabo por Doris Lessing quando já era uma escritora muito conhecida e decidiu escrever com pseudónimo “Os Diários de Jane Somers”.

Doris queria saber o que acontece a “uma nova escritora, sem o benefício de um nome”? Muito mal comparado, tipo Paris Hilton a perguntar ao espelho: «sou amada pelo meu corpo ou pela minha fama?»

Sem surpresa, “Jane Somers” vendeu pouco e recebeu críticas frias. O “hermeneuta” do Los Angeles Times, por exemplo, carimbou-lhe a prosa de “críptica”, e acrescentou que era “um pouco como uma linda camisola tricotada por uma mulher com artrite”. Os críticos costumam ser assim cruéis com os “underdogs”.



Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007, hora de ponta. Junto a uma escada do metropolitano de Washington, um homem de jeans e t-shirt pega no seu violino, coloca um saco aberto com algumas moedas à sua frente, e começa a tocar "Chacone" de Bach. Durante quarenta e três minutos, ele toca seis peças. Passam 1070 pessoas. Sete param para o ouvir. Trinta e sete dão dinheiro. Ao todo 32 dólares.

O violinista era Joshua Bell, um dos melhores do mundo, a tocar num Stradivarius de 1713 que valia mais de três milhões de dólares. Há vídeo disto no YouTube.



Quer Doris Lessing quer Joshua Bell provam que para se ser bem sucedido dá jeito ser conhecido. Que o “sucesso faz sucesso”. Aqueles livros depois, já sem pseudónimo, venderam milhões; três dias depois daquele seu número “abaixo-de-cão” no metro, Bell esgotou um enorme auditório, a cem dólares o bilhete.


Ao contrário, os casos em que um “underdog” se torna numa celebridade são mais inspiradores. Um exemplo: Susan Boyle.




2. Somada ao absentismo de Hélder Amaral na câmara, a saída agora de Fernando Figueiredo da assembleia municipal deixa o CDS-Viseu muito mal perante o seu eleitorado.

para onde é que nós vamos quando a música não dói

Fotografia de Paul Fusco


para onde é que nós vamos quando a música não dói
cega de unhas
no urro dos pulsos

a faca de costas para o espanto da cigarra
e um grilo algemado
entre o lábio e a terra

eu queria dizer-te que o fim é quase mudo,
como a tília
Emanuel Jorge Botelho


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Confraria do tintol


Caro António Almeida Henriques, muitas felicidades neste projecto de engenharia social que quer afastar as nossas crianças dos malefícios do fast-food e aproximá-las dos benefícios dos — como se diz em politiquês local — nossos "produtos endógenos".

Um pequeno reparo, caro António Almeida Henriques  — uma "confraria" é um "produto" da sociedade civil, uma "confraria" nunca pode ser um "produto" de políticas municipais.  

A caminho da quarta bancarrota

Aqui

Daqui

O que diz a Morte

Ivan Shishkin — Rain in an oak forest
Gif de Stefano Tagliafierri

"Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem." -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das coisas invisíveis, muda e fria.

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
Antero de Quental

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Traumas *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 10 anos, em 19 de Novembro de 2004


1. Há 30 anos, conheci, em Cinfães, um professor que tinha sido ferido em combate, na Guiné. Em Dezembro de 1973, a sua companhia sofreu ataques quase diários. Naquele ano, ele teve um péssimo Natal, acabou ferido no esterno e no maxilar inferior e foi evacuado para a metrópole, como se dizia na altura.

Era uma pessoa culta e inteligente com quem gostava de dar longos passeios a pé. Num fim de tarde, logo no início de um dos nossos passeios, ao longe, ouviram-se foguetes a anunciar uma festa de Verão. Imediatamente, o meu amigo mudou de comportamento. O barulho dos foguetes fez-lhe mal. As explosões dos foguetes implodiram-lhe na cabeça. Perdeu a calma e a racionalidade. Os seus olhos mostraram medo. Acompanhei-o a casa. Dei-lhe conforto. Para além das feridas no corpo, a guerra tinha-lhe deixado feridas na alma. Não sei como era na altura, mas essas feridas agora têm nome: chamam-se stress pós-traumático.

2.  Há circunstâncias excepcionais que tiram as pessoas do seu “viver habitualmente” e a guerra é uma dessas circunstâncias.

É por isso que a guerra é uma coisa grave.

De que lado há mais heróis na Guerra do Iraque, do lado dos ocupantes americanos ou dos lados dos insurgentes de Bagdad?

Esta pergunta faz mais sentido do que parece. É que esse criar de heróis é também uma guerra: é a guerra pelos imaginários. O fabrico de heróis da Guerra do Iraque, vai ter tanta importância como as operações de limpeza em Fallujah. E, nas narrativas islâmicas, quantas dessas histórias futuras de heróis não serão hagiografias de mártires para semear novos mártires?

Mas a maior parte das vezes, não há heróis. Depois dos combates, fica só a “carne para canhão”, ficam os “soldadinhos de chumbo”, que os generais esqueceram, com feridas no corpo e na alma, como o meu amigo de Cinfães, que não vejo há muito tempo, mas que sei que conseguiu recuperar dos traumas da guerra colonial.

3.  O Los Angeles Times, do último domingo, citou especialistas que calculam que um em cada seis soldados americanos regressados da Guerra do Iraque sofre de stress pós-traumático. São milhares e milhares de pessoas. Aquele jornal da Califórnia, num artigo intitulado “Estas feridas invisíveis cortam fundo”, contou a história dalguns desses homens:


Matt LaBranche, um sargento de 40 anos, carregou uma metralhadora no Iraque durante nove meses. Antes da guerra vivia normalmente com a sua mulher e o seu filho. Depois da missão em Bangor, no Iraque, regressou uma pessoa diferente.


Ameaçou seriamente a vida da mulher (agora ex), pelo que corre o risco de ser condenado a uma pena de prisão num julgamento já marcado para o próximo mês.


Daqui
Por agora, Matt LaBranche passa as noites no sofá dum irmão, onde tenta dormir um dormir químico e cheio de pesadelos. Neles revive permanentemente a morte duma iraquiana nos seus braços depois de a ter baleado a ela e aos filhos. Avariou e só diz obscenidades. Mandou tatuar-se nas costas com uma espada ao longo de toda a coluna vertebral e com a seguinte frase: “Eu vim para vos trazer o inferno”. Diz que se sente morto por dentro.

Por sua vez, o tenente Julian Philip Godrum procura agora a solidão dos cinemas e o bálsamo dos amigos. Evita o tráfego pois o barulho dos carros e o fumo dos motores fazem-no ter flash-backs para a guerra e imagina atiradores em todo o lado, a manterem-no debaixo de mira.

“Treinei-me, era um soldado excelente e de carácter forte. Como pôde a minha cabeça avariar?” – pergunta ele ao repórter do Los Angeles Times, enquanto toma mais uma pílula.

Matt LaBranche e Julian Philip Godrum não são heróis. São traumas para varrer para debaixo do tapete da américa de Bush.

Há palavras que nos beijam

Fotografia de Nobuyoshi Araki


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Já dei a volta ao mundo

Fotografia Olho de Gato


Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais desertas ilhas.
Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na areia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.
Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.
Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.





Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.
António Franco Alexandre


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O centrão

Daqui

O Universo não é uma ideia minha

Fotografia Olho de Gato



O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
Alberto Caeiro


domingo, 16 de novembro de 2014

Visita ao quarto-de-banho de Henry Miller guiada por ele próprio

Ludwig da Baviera; Junichiro Tanizaki 
Keigo Kimura; Frederico Fellini; Hoki
Tonoyama San; Blaise Cendrars
Roshi Bobo — Master of Fuck; Experiência de Sartori
Herman Hesse; Carl Gustav Jung



Lao Tse; Mao Tse Tung
Trópico de Câncer — Ohne Eros sind wir alle Nullen
George Ivanovich Gurdjieff
Florian Steiner; Emil White
Buda; Jesus Cristo
Paul Gauguin
New York

sábado, 15 de novembro de 2014

Porque é que Paulo Portas não se lembrou destes "vistos dourados fiscais"?

Aqui e aqui

O eco de mil sinos de prata



O eco de mil sinos de prata
emudece
ante o labor da aranha

O tempo emudece
na cegueira do ar
na sua geografia nula

Que queres de mim
matéria insensível?

Nas coisas conhecidas
o verbo ser
emudece
Ana Hatherly

Um pendão, um hino, um slogan sectário, um inimigo imaginado


"Somos bípedes capazes de sadismo indizível, ferocidade territorial, ganância, vulgaridade e todo o tipo de torpeza. A nossa inclinação para o massacre...


Dharamveer, uma curta realizada por Pravin Mishra


... para a superstição, para o materialismo e o egotismo carnívoro pouco se alterou durante a breve história da nossa estada na Terra.

No entanto, este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (na qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento)."
in A IDEIA DA EUROPA, 
de George Steiner

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Camisa-de-forças dourada

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



A crise sistémica global começou nos EUA mas fixou-se no velho continente, criando uma fractura entre a Europa protestante e a Europa católica. Parece que regressámos ao século XVI, aos tempos da Reforma e da Contra-Reforma.


Imagem daqui
O sul tatuou cruzes gamadas em Angela Merkel. De lá, a resposta é: "levantem-se mais cedo, trabalhem mais!" São retóricas que, como agora se diz, estão sempre a "incendiar as redes sociais". A última foi sobre os “demasiados” canudos licenciateiros dos portugueses.

São retóricas muito úteis para os políticos irem construindo "inimigos". Como se sabe, quanto mais fraco é um político, mais ele precisa de “inimigos”.

A guerra norte/sul na "Europa" é um biombo que esconde a impotência das políticas nacionais perante a economia global, perante aquilo a que Thomas Friedman, no seu livro "O Lexus e a Oliveira", chama de «camisa-de-forças dourada».

O capitalismo financeiro impõe aos estados que o sector privado seja o motor do crescimento; inflação baixa e orçamentos equilibrados; eliminação ou abaixamento das tarifas sobre as importações; privatização dos serviços públicos e concorrência na banca, energia e telecomunicações; uma moeda convertível e um mercado de capitais aberto e desregulado; por aí fora...

Os partidos no governo — sejam eles conservadores, liberais ou sociais-democratas — se quiserem aplicar políticas muito diferentes desta "camisa-de-forças", vêem os investidores a fugir, os juros a subir e as bolsas a desmoronarem-se.

As coisas estão assim: mais política é igual a menos economia. Perante esta impotência que torna os partidos instalados todos iguais, os eleitorados do sul estão a fugir para partidos novos que, pelo menos, ainda não estão sujos pela corrupção.

Para o ano, o PAN e o PDR de Marinho e Pinto devem entrar no parlamento. E se José Gomes Ferreira for a votos, como acaba de “ameaçar”, as coisas levarão mesmo uma grande volta.

Queda no real

Gif de Mattis Dovier



entre o real e o irreal
está a ambiguidade do imaginário

entre o real e o imaginário
está a ambiguidade dupla da invenção

entre o imaginário e o irreal
está a duplicidade ambígua da fantasia

entre o real e a invenção
está a ambiguidade tripla do rigoroso

entre o irreal e a fantasia
está a triplicidade bi-ambígua do sonho

entre o rigoroso e o real
está a quádrupla ambiguidade da ciência

entre o sonho e o irreal
está a quíntupla multi-ambiguidade da alucinação

entre a ciência e a alucinação
está a exponencial simplicidade
da dupla real e irreal

em gravidade zero
E. M. de Melo e Castro

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Dizia uma vez Aquilino...

Cartaz das Festas de Coimbra, 2010


Dizia uma vez Aquilino que em Portugal
os filósofos se exilavam ainda em seu país
(v.g. Spinoza). O curioso porém
é que também ninguém foi santo lá:
os nascidos em Portugal foram todos sê-lo noutra parte
(St. António, S. João de Deus, etc.)
e outros santos portugueses, se o foram,
terá sido, porque, estrangeiros que eram e em Portugal
vivendo, não tiveram outro remédio
(v.g. Rainha Santa) senão ser santos,
à falta de melhor. Oh país danado.
Porque os heróis também nunca tiveram melhor sorte
(Albuquerque e outros que o digam) a menos que
tivessem participado de revoluções feitas
"em vez de" (v.g. o Condestável que fez
fortuna e a casa de Bragança e acabou só Santo quase).
Jorge de Sena


"ARTES E IDEIAS DA DESCONCENTRAÇÃO — PRÁTICAS CULTURAIS DE OUTROS CENTROS", de João Luís Oliva *


Tondela — Novo Ciclo Acert
Sábado —15 de Novembro —18h00

Apresentação
João Maria André
(Director do Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
e
Carlos Santiago
(Dramaturgo — Santiago de Compostela)

Leitura de textos
Maria do Céu Guerra
(Actriz)

* A apresentação deste livro está inserida no FINTA — 20º Festival Internacional de Teatro Acert, na noite de sábado estreia CASA VERDE, de Teatro O Bando, às 21H45M

Programação integral do FINTA aqui

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nostalgia da rádio — um texto de JB*

* Comentário de JB ao post Concerto dos Tindersticks


Não sei porquê mas este post é nostálgico….

Os Tinderstick fazem parte daquele pequeno grupo “religioso” que está sempre presente em qualquer selecção de música que faça para trabalhar, viajar ou fazer companhia.

Este post é nostálgico porque me faz recuar ao tempo em que eu ouvia rádio. Ao tempo em que “pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir” era um lema de descoberta de novos sons e de puro prazer no “Marlboro Country”…

Há muito que deixei de acreditar na “Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida. (Sam Shepard). 
  1. Imagem daqui

Raramente me sintonizo e quando o faço é quase sempre na Antena 2.

O silêncio retemperador, reequilibrador, está banido da rádio. Não faz parte. É olhado com desconfiança. É visto como aberração. A música instrumental não tem lugar na rádio. O espectro está saturado de vozes que vociferam e dizem graçolas, de playlists, de rádios automatizadas sem coração (nem alma!), da rádio interactiva (horas de suposta democracia popular). A rádio portuguesa é quase toda igual. Mesmo a TSF (virada para a produção de informação) baixou muito o nível de preenchimento musical.

Tudo afasta quem procura novos sons e só ficam as memórias de programas da RÁDIO, como “Morrison Hotel” de Rui Morrisson; “Íntima Fracção” de Francisco Amaral; “Em Órbita” de João David Nunes, Jorge Gil e Pedro Soares Albergaria e onde também colaborou o Cândido Mota; os programas do José Nuno Martins; o programa "Página Um" na Rádio Renascença, com o indicativo dessa (fantástica) música “Page One” do grupo portuense Pop Five Music Incorporated; e a constante pergunta - o que é feito de nomes como José Manuel Nunes; Luís Paixão Martins; Ana Luz; Amílcar Fidélis; Ana Maria Delgado; Mafalda Lopes da Costa; Rui Neves (uma enciclopédia); António Curvelo (um senhor do jazz); Adelino Gonçalves (e a música de discoteca); António Macedo (Gitanes, for ever…)…..??

E onde anda a fantástica Sílvia Alves autora do saudoso “Sete Mares” na Antena1, na segunda metade dos anos 80. O indicativo do programa era o tema instrumental "Saudade" dos Love And Rockets, que nos deu a conhecer tantos e tantos bons sons, como os Tinderstick? Resta ainda a Inês Meneses na Radar FM, para nossa sorte.

No fim, o grande e eterno António Sérgio! Tantas horas de boa companhia…

Take care.
Stay tuned!

E SEMPRE, como lema, a frase do Neil Young: “Keep on Rockin In The Free World!”