sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A política no seu grau zero

Daqui

Fachadas

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. À medida que as cidades crescem, os seus centros tradicionais perdem comércio, actividade, prestígio — em suma: perdem poder. É que o mundo em rede em que vivemos já não precisa de um centro, ou, dito de outra forma, o centro agora está em todo o lado.

Até o poder político é cada vez mais desterritorializado. Já não se trata só de um líder poder comunicar a partir de qualquer lado com os cidadãos, é a própria decisão política que é móvel. Obama assina decretos a voar no Airforce One. O conselho de ministros reúne "electronicamente", mesmo com os ministros espalhados no mundo, como recentemente aconteceu por causa do BES. O próprio António Almeida Henriques tem-se entretido a reunir a câmara de Viseu de freguesia em freguesia.

A este esvaziamento funcional e simbólico do centro das cidades tem correspondido o que Daniel Innerarity, em O Novo Espaço Público, chama a “musealização dos centros históricos”. 

Fotografia Olho de Gato
Estes vão sendo remetidos cada vez mais à condição de cenários nostálgicos para turista ver.

2. A câmara de Viseu acaba de aprovar um incentivo de seis euros por metro quadrado para a recuperação de fachadas. Esta decisão merece aplauso. Décadas de rendas congeladas e de inacção pública e privada deixaram o património edificado cheio de feridas que precisam de ser saradas.

Os vereadores socialistas, embora apoiem a medida, não concordam que ela tanto beneficie proprietários ricos como pobres.

Mas será relevante e desejável diferenciar fachadas de casas conforme os rendimentos dos proprietários? Não creio, neste caso.

Uma boa “musealização” e “cenarização” dos centros impõe que sejam tratadas tanto as feridas “ricas” como as feridas “pobres”. E há um outro factor a ter em conta — quanto mais complexos forem os regulamentos, mais se gasta em burocracia e “custos de verificação”. E mais medra o arbítrio político.

Cinco poemas para a noite invariável (II)

Fotografia de Dominique Issermann



II

Em cada braço uma herança de horizonte

desde o naufrágio de um eco

em cada árvore

trago-me no sol

à hora dos contornos

no sol a voz

é mais difícil

o tempo mais ausente

trago um filho

que parte o caule às estrelas

é louco e sofre

e parte o caule às estrelas

Tragicamente o sol

põe luz nos braços

A morte é uma feira aberta em lua
Luiza Neto Jorge


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Cinco poemas para a noite invariável (I)

Fotografia de Chadwick Tyler


I

Posso estar aqui

eu posso estar aqui perfeitamente pobre

um círio me acendi espora aguda

o vento ritmo negro assassinou-o

posso estar aqui

- o musgo é lento como a sombra -

e sei de cor a voz cega das canções

(viola de silêncio acorda-me)

que eu posso estar aqui perfeitamente pedra

insone

e um longo segredo impessoal

bordando a minha solidão
Luiza Neto Jorge


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pudesse eu

Luis Ricardo Falero — O Sonho de Fausto
Gif de Stefano Tagliafierro


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner Andresen



terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reflexos

Fotografia Olho de Gato

Dispersão

Fotografia de Marie Šechtlové



Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.




Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rasto?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

..........................
..........................

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

..........................
..........................

Mário de Sá Carneiro

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro

Fotografia de Hans Steiner

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem
Mário Cesariny


domingo, 26 de outubro de 2014

Meu corpo, que mais receias?

Fotografia de Alex Prager



— Meu corpo, que mais receias?
— Receio quem não escolhi.

— Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos...
Meu corpo, que mais receias?

— Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.
Jorge de Sena

Outono em Viseu

Avenida da Europa, 23.10.2014
Fotografia de SM

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

#500 *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Este é o quingentésimo "Olho de Gato". Redondo número.


ONG 

Como explica Moisés Naím em "O Fim do Poder", à medida que o activismo político foi perdendo apelo, enredado que está na corrupção, no cinzentismo e na decadência, as Organizações Não Governamentais têm crescido em influência e importância planetária.

Os seus objectivos são mais claros e a sua organização é muito menos hierárquica e mais próxima dos seus membros. Estes sabem se pertencem a uma Ong filantrópica, ou ambiental, ou política, ou sanitária, ou..., e sabem fazer lobby e usar os media e as redes para imporem a sua agenda.

Em Portugal, para dar um exemplo, o Banco Alimentar Contra a Fome mantém uma extraordinária capacidade de mobilização. Apesar das asneiras que pendularmente Isabel Jonet expele pela boca fora, as pessoas percebem que o Banco Alimentar faz o que nunca nenhuma burocracia social do estado fará. E procedem em conformidade.


GONGO

As Gongo são "organizações não governamentais organizadas pelos governos", são um "faz-de-conta" usado pelos governos para tirarem partido da popularidade das Ong.

Um exemplo é a “Chiyoda - Associação Geral dos Residentes Coreanos”, sediada no centro de Tóquio, com 150 mil membros, dona de dezenas de escolas, uma universidade, várias empresas (até bancos), e que também... emite passaportes da Coreia do Norte, país que não tem relações diplomáticas com o Japão.


BONGO

Já o "Centro Português Para a Cooperação — CPPC", fundado por Pedro Passos Coelho em 1996 e pago pela Tecnoforma, não foi uma criação da sociedade civil como é uma Ong, nem uma criação de um governo como é uma Gongo.

O CPPC, que não tinha problemas de dinheiro, era, isso é certo, um "faz-de-conta" interessado no "sabor da selva" africana. 

À falta de melhor, chamemos-lhe uma Bongo.

Vão as serenas águas

Fotografia de Alfred Eisenstaedt




Vão as serenas águas
Do Mondego descendo
Mansamente, que até o mar não param;
Por onde minhas mágoas
Pouco a pouco crecendo,
Para nunca acabar se começaram.
Ali se ajuntaram
Neste lugar ameno,
Aonde agora mouro,
Testa de nove e ouro,
Riso brando, suave, olhar sereno,
Um gesto delicado,
Que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente para mim vivia;
Em paz com minha guerra,
Contente com a pena
Que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
O esperar me enganava;
Longo tempo passei,
Com a vida folguei,
Só porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
Que tão fermosos olhos não os há?

Oh quem me ali dissera
Que de amor tão profundo
O fim pudesse ver ind alguma hora!
Oh quem cuidar pudera
Que houvesse aí no mundo
Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
Para que desde agora
Perdesse a esperança,
E o vão pensamento,
Desfeito em um momento,
Sem me poder ficar mais que a lembrança,
Que sempre estará firme
Até o derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
Que daqui levar posso,
Com a qual defender-me triste espero,
É que nunca sentia
No tempo que fui vosso
Quererdes-me vós quanto vos eu quero;
Porque o tormento fero
De vosso apartamento
Não vos dará tal pena
Como a que me condena:
Que mais sentirei vosso sentimento,
Que o que minha alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!

Canção, tu estarás
Aqui acompanhando
Estes campos e estas claras águas,
E por mim ficarás
Chorando e suspirando,
E ao mundo mostrando tantas mágoas,
Que de tão larga história
Minhas lágrimas fiquem por memória.
Luís de Camões


«Marchar sobre São Bento!»

O genial João César Monteiro, sem dúvida e de longe o maior cineasta português, foi fazer gelados para o céu e deixou cá em baixo um vazio no cinema português que ... 






... só João Pedro Rodrigues será, talvez, capaz de preencher. 


Mas ainda tem que esgravatar muito.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

E fazer de Viseu a primeira cidade portuguesa com banda larga a um giga?

Daqui

Azuliante

Fotografia de William Klein

Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho      e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver       no meio do deserto       o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito       eu sei       choverá muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem       sabem tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz       contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
os segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente       meu amor       de oriente a ocidente

Digo não       Eu digo não
digo o teu nome que diz não




No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos
passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite      mil e uma noites de quem espera
Meu amor      países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu       porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase da terra
tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua       eu a tempestade
de coração a coração

Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e      este será o sinal
António José Forte


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A vida

Fotografia de Lilian Brassman

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
Nuno Júdice




terça-feira, 21 de outubro de 2014

A este vilancete velho

Fotografia de Sophie Calle





Saudade minha
quando vos veria?


Por terra já assi,
tudo em tal mudança,
que faz inda aqui
nenhuma esperança?
A minha lembrança,
a minha perfia,
que mais aperfia?

Que faz um desejo
tão desenganado?
Que faz o sobejo
deste meu cuidado,
comigo apartado
quando anoitecia,
quando amanhecia?

Saudades e suspeitas
a torto e a direito,
não sereis desfeitas,
quando eu for desfeito?
Inda o frio peito,
inda a língua fria
por vós bradaria.
Sá de Miranda



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Tántalo

Suplício de Tântalo, de Gioacchino Assereto


Los dioses determinan su venganza
Con impulso cruel y insensitivo
Haciendo al hombre un mísero cautivo
Sin fe, sin liberdad, sin esperanza.

Tántalo sin cesar la mano avanza
Ya con fera ansiedad, o ardor furtivo;
La sed e el hambre lê consumem vivo,
Pero ni la água ni la fruta alcanza.

El hombre lanza su deseo al viento;
La mujer le recoge e le rechaza.
Se ofrece e se retira en un momento,

Ya la vez se desnuda y se disfraza.
Y el hombre queda solo en su tormento,
Con nada entre los brazos cuando abraza.
Francisco Hidalgo



domingo, 19 de outubro de 2014

Fear — Medo

Fotografia de Leonard Freed


Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.

I've said that.
Raymond Carver






Medo de ver a polícia parar diante da casa.
Medo de adormecer durante a noite.
Medo de não adormecer.
Medo de que o passado regresse.
Medo de que o presente levante voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo das tempestades eléctricas.
Medo da mulher da limpeza que tem uma cicatriz no queixo.
Medo dos cães que me disseram que não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter muito, apesar de ser difícil de acreditar.
Medo dos perfis psicológicos.
Medo de chegar tarde e medo de chegar antes de todos.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de os ver morrer antes de mim e de me sentir culpado.
Medo de ter que viver com a minha mãe, na velhice dela e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine em tristeza.
Medo de acordar e de ver que te foste embora.
Medo de não amar e medo de amar demasiado.
Medo de que o que eu ame seja letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demasiado tempo.
Medo da morte.

Isso já disse.

sábado, 18 de outubro de 2014

O alfabeto da devassa

Fotografia de Kishin Shinoyama


Por mais duro que pareça agora
isso tudo passará.
A tempestade irá embora.

As nuvens pesadas se dissiparão.
Poderemos olhar o céu,
sol poente; novamente

Guardaremos a lição:
para cada azul cintilante
brilhando sob nossas cabeças

existe igual noite de trevas
mosaico invertido,
grafite da escuridão.
Luiz Roberto Nascimento Silva


STAIRWAY TO HEAVEN escrita por Jimmy Page dos Led Zeppelin ou por Randy Craig Wolfe dos Spirit...



«Quando gravas o momento gravas a morte do momento» [3'00]


A seguir a eXistenZ, David Cronenberg 
fez esta reflexão sobre a morte — CAMERA (2000)*




"Todos os jovens fotógrafos que se agitam no mundo, dedicando-se à captação da actualidade, não sabem que são agentes da Morte. É o modo como o nosso tempo assume a Morte: sob o alibi denegador do terrivelmente vivo, de que o fotógrafo é, de certa forma, o profissional. Porque, historicamente, a Fotografia deve ter alguma relação com a «crise da Morte», que começa na segunda metade do século XIX (...)

Porque, numa sociedade, a Morte tem de estar em qualquer lado, se ela já não está (ou está menos) no religioso, deve estar em qualquer outra parte. Talvez nessa imagem que produz a Morte, pretendendo conservar a vida. Contemporânea do recuo dos ritos, a Fotografia corresponderia talvez à intrusão, na nossa sociedade moderna, de uma Morte assimbólica, fora da religião, fora do ritual, uma espécie de mergulho brusco na Morte literal."
in A Câmara Clara,
de Roland Barthes


* Esta curta foi achada no Aventar

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Surdina *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A crise sistémica global estoirou no Outono de 2008 quando faliu o Lehman Brothers. O que aconteceu nestes seis anos é razoavelmente conhecido embora ainda não bem compreendido.

Os Estados Unidos, e não só, estão, desde então, a “tipografar” dinheiro com fartura o que costumava significar inflação. A Alemanha fez isso nos anos de 1920 e foi uma tragédia. Na crise que vivemos, os preços nos países mais endividados estão sob controle. Há duas teorias que tentam explicar isso:
(i) a inflação está a ser exportada para os países emergentes;
(ii) a liquidez chega aos bancos e estes, afogados em activos tóxicos, não a põem a circular.

Se as profecias de hiperinflação falharam, todas as previsões pessimistas sobre o comércio mundial e a globalização falharam ainda mais clamorosamente. Nenhum país relevante na economia mundial se fechou ou aumentou taxas aduaneiras por causa desta crise.

Isso é bom: em 1980, a classe média mundial era de mil milhões de pessoas; em 2012, já era de dois mil milhões; em 2020, prevê Homi Kharas do Brookings Institute, chegará aos três mil milhões. Isso deve-se ao comércio livre e a uma cada vez maior circulação de pessoas, ideias, capitais e bens.

O que a nossa esquerda diz da globalização é centrado no umbigo do ocidente. Os chineses e os indianos têm tanto direito a ter um carro como o professor "alter-mundialista" Boaventura Sousa Santos.

2. Na última assembleia municipal, um António Almeida Henriques vago e enigmático queixou-se de “alguma oposição” (sic) que, em “aparente surdina” (sic) e “má-fé” (sic), espalha “boatos” (sic) e alimenta "rumores" (sic).


Fotografia Olho de Gato
Ora, José Junqueiro, desde o seu fundíssimo 13º lugar na lista das europeias, não tem dito nada audível. Hélder Amaral ainda menos: vai-se fazendo substituir no Rossio por um vereador sobresselente anódino.

Quem será aquela rumorejante “oposição” cuja “surdina” tanto incomoda o presidente da câmara de Viseu?

Mujeres

Fotografia de Bruce Gilden



La mujer imposible,
La mujer de dos metros de estatura,
La señora de mármol de Carrara
Que no fuma ni bebe,
La mujer que no quiere desnudarse
Por temor a quedar embarazada,
La vestal intocable
Que no quiere ser madre de familia,
La mujer que respira por la boca,
La mujer que camina
Virgen hacia la cámara nupcial
Pero que reacciona como hombre,
La que se desnudó por simpatía
(Porque le encanta la música clásica),
La pelirroja que se fue de bruces,
La que sólo se entrega por amor,
La doncella que mira con un ojo,
La que sólo se deja poseer
En el diván, al borde del abismo,
La que odia los órganos sexuales,
La que se une sólo con su perro,
La mujer que se hace la dormida
(El marido la alumbra con un fósforo),
La mujer que se entrega porque sí
Porque la soledad, porque el olvido…
La que llegó doncella a la vejez,
La profesora miope,
La secretaria de gafas oscuras,
La señorita pálida de lentes
(Ella no quiere nada con el falo),
Todas estas walkirias
Todas estas matronas respetables
Con sus labios mayores y menores
Terminarán sacándome de quicio.
Nicanor Parra


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Quem dá €99,76 de prémio a um aluno não é um político é um dono de uma boutique na época de saldos

1. 



O valor dos prémios lembram uma loja de roupa, no período de saldos. 




2.
Nos idos de mil novecentos e noventa e muitos, propus a criação em Viseu do "prémio para os melhores alunos" das escolas do concelho de Viseu.

Estava a "vereador da oposição" na altura, presidia à câmara o dr. Ruas; a proposta foi chumbada sem apelo nem agravo, como eram todas as propostas da oposição.

No caso o argumento da recusa foi o seguinte verbalizado pelo dr. Américo Nunes: os prémios iam ser ganhos pelos "filhos dos senhores professores / filhos dos ricos".

Um cronista das esquerdas, num jornal da terra, criticou a minha proposta ainda mais acerbamente. Argumento:  os socialistas estavam a ultrapassar o PSD pela direita e queriam promover o "elitismo" nas escolas.

Tanto o PSD camarário como aquele cronista tinham o mesmo quadro mental — não passava por aquelas cabeças que pudesse haver um pobre inteligente. 

La luz araña los cristales

Fotografia de Mayumi Terada

La luz araña los cristales
y cubre de pavas la mesilla.
Suenan muelles, toses, cañerias.
La peña, de un portazo, se embarca
hacia el talego. Afuera el autobús
cierra sus hojas.

Es la vida
que vuelve como un preso a su cadena.
Violeta C. Rangel


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A maçã do pagador de impostos em Portugal


"O futuro vem nos livros!", um texto de JB *

* Comentário de JB ao post "Sísifo" deste blogue, publicado na sexta-feira 


Seguro já se apagou e será recordado pelo seu discurso estereotipado e pela “abstenção violenta", que ficará como uma página de vergonha para o PS. Esteve bem o autor deste blog quando recordou que a paciência tem limites, apontando que Maria de Belém não cumpriu na sua qualidade de presidente do partido socialista. O caminho da saída, é óbvio!

A escolha de Ferro Rodrigues para liderar os deputados socialistas é um bom sinal para um início de mandato, mas Sérgio Sousa Pinto foi demolidor no seu facebook quando afirmou: 
”Está visto que mais depressa passa um camelo por um buraco da agulha que um rico sobe ao céu ou o PS se liberta da sua cultura do unanimismo. É uma coisa pré-democrática, de quem acha que as diferenças devem ser niveladas, as ideias fundidas como uma bola de plasticina e a unidade construída numa espécie de comunhão de missa, onde os salmos cedem lugar a bandeiras e punhos erguidos. Lamento a autenticidade perdida do passado”. 
Mas clamam os interessados, apelam os poderosos que o tempo é de unir o que esteve desavindo dentro do PS.

Com um governo a entrar na fase do descalabro, a chamada pré-implosão, sendo a justiça e a educação dois casos flagrantes. Em ambos, não há inocentes, mas uma ideia política de destruição do bem público. No caso da educação, a imagem de descrédito montada por Lurdes Rodrigues e continuada por Crato (curiosamente dois ex “muito à esquerda”) é muito dolorosa de assistir e vai ter efeitos inimagináveis. A náusea persiste mas o governo resiste a todos os empurrões. E como cenário, há um senhor em Belém que diz sempre: “eu avisei”!

O verdadeiro desafio está no PS e nas suas futuras práticas políticas. Que orientação política? Um parceiro confiável do PSD e do CDS e um parceiro de referência dos detentores do poder económico e financeiro ou um PS fiel ao seu ideário social-democrata e socialista? Ao fazer uma Santa Aliança com os seguristas (que se irá refletir na elaboração de listas, blá, blá), Costa abre espaço ao temor de que se possa caminhar para uma Sagrada Aliança com o CDS ou uma Suprema Aliança com Rui Rio, num futuro breve, perto de si. E esse cenário de um PS no governo, a aplicar o Pacto Orçamental com cortes, privatizações a preço de saldo, desregulação, despedimentos, desemprego, desigualdade, caridade, miséria e a andar de braço dado com os impiedosos e desumanos “mercados” (numa economia de casino) será fatal para o sistema político e benéfico para os “marinhos salvadores pintos”.

Costa não precisa de prometer muito (até porque não tem espaço) mas uma imagem e prática de credibilidade será fundamental. Se Costa tiver o firme objetivo de aprofundar e dar um sentido de justiça e ética à democracia, se tiver a coragem de fazer uma política que ponha a justiça à frente da finança, de construir na União as alianças necessárias para inverter as políticas desastrosas que nos afundam, de pôr em causa o Tratado Orçamental, de impor aos credores uma renegociação justa da dívida, então teremos um PS mais mobilizado e empenhado numa trajetória politicamente mais ambiciosa e socialmente mais justa. As pessoas estão descrentes e uma vaga esperança, nada de radical, já é alguma coisa. Obama provou que mais importante que políticas concretas é mudar o estado de espírito das pessoas.

E só o tempo dirá como se vai relacionar Costa com a esquerda à esquerda do PS e vice-versa. Mas a mirífica unidade de esquerda não tem grandes hipóteses de vingar com a mentalidade dos atuais donos (e herdeiros) da esquerda toda, ainda muito tocados pelo “síndrome de 1975”.

Não participei nas primárias do PS e não comungo de grandes esperanças num António Costa socialista (embora lhe reconheça maior capacidade de diálogo à esquerda e com a sociedade civil e os movimentos sociais), mas não perco a capacidade de me indignar e sobretudo não me demito de opinar, de me interrogar e de desafiar os outros para me acompanharem nas inquietações, dúvidas e enganos mas sempre primando pela defesa dos valores da liberdade, da democracia, do Estado social, da igualdade e do cosmopolitismo.



Bem que precisámos de um Moretti a gritar: 

"Digam alguma coisa de esquerda!"

Esta é a melhor altura do ano

Fotografia de Elliott Erwitt

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo – profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin –
acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.
Golgona Anghel


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mon rêve familier

Fotografia de Klavdij Sluban



Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D'une femme inconnue, et que j'aime, et qui m'aime
Et qui n'est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m'aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur, transparent
Pour elle seule, hélas ! cesse d'être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse ? - Je l'ignore.
Son nom ? Je me souviens qu'il est doux et sonore
Comme ceux des aimés que la Vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L'inflexion des voix chères qui se sont tues.
Paul Verlaine