terça-feira, 30 de setembro de 2014

Vida obscura

Fotografia de Annie Leibovitz


Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
João da Cruz e Sousa

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Caro Miguel Fernandes, rogo-lhe desculpa antecipadamente pela ousadia

O seu post "Dez razões para uma nega!", em que lista os agravos que o dr. Ruas agrafa no comportamento do seu sucessor, é de um rigor exemplar pelo qual o cumprimento.

Atrevo-me a sugerir-lhe o post sobre o assunto "Viriato de Ouro" que vai publicar daqui a um ano, no dia 21 de Setembro:


Vestido de cavalo e fina seda

Fotografia de Joseph Szabo


Vestido de cavalo e fina seda
e coberto de escamas luminosas
é como se tivesse uma outra idade
(a verdadeira) e o jovem corpo
capaz de atravessar muros e medo.
Inclinarias sobre a minha boca
um nome arrevezado com sabor
a terras estrangeiras visitadas
secretamente, em noite toda escura,
envolto, nu, em glória impermeável.
Vais-me dobrar em dois como se dobra
um dia que passou sem nada dentro,
o velho ardor de nuvens encardidas;
sem ver a minha voz como cantava
ao telefone a sombra da memória
do desejo que dói como um veneno.
António Franco Alexandre


domingo, 28 de setembro de 2014

Depois de hoje, caros Pedro Passos Coelho e Paulo Portas....

Fotografia daqui

... quando é que vão introduzir primárias nos vossos partidos?

Georges Méliès em dia de primárias socialistas

Terror — 1896




Ficção científica — 1902

Projecto

Imagem de Yves Lecoq


a) Linha de montagem

De tudo um pouco.
Assim se faz um homem.

Cabeça, tronco e membros,
o coração na boca
ou na palma da mão.
Onde apareça e mostre
a que vem e a que não.
Tenha o corpo saúde
bastante para a guerra
e o que não seja corpo
construa sua paz
Meticulosamente
em partes desiguais
receba amor e dor.
Vença a máquina os testes
de resistência mínima
e fantasia máxima.
Alimentos terrestres
e o céu de cada dia
sustentem sua fé
pelos sete sentidos.

Com teoria e prática
assim se faz um homem.
Sem qualquer garantia.






z) Sucata

De tudo um pouco,
que assim se faz um homem.
Com pouco estudo,
que assim se culpa o acaso.
Algum cuidado
é bom, para que dure,
endureça e endurando
diga do pouco
que fique uma palavra
salva do fogo
e da fuga, uma voz,
ressalva do homem,
resíduo desse tudo.
Que fique uma palavra.
Izacyl Guimarães Ferreira


sábado, 27 de setembro de 2014

PS — reflexão


Estas primárias do PS foram feitas de tal forma em cima do joelho que o regulamento, de tão incompetente, nem uma segunda volta prevê. 

Se tivesse aparecido um terceiro candidato, o partido podia estar perante um grande sarilho, com um líder eleito com menos de 50% de votos. 

Neste blogue e nas redes farei como se de uma eleição nacional se tratasse — farei silêncio hoje, dia de reflexão, e amanhã até ao fecho das urnas. 

Resta-me relembrar um artigo que publiquei em 11 de Julho no Jornal do Centro, e apelar que, amanhã à noite depois destes traumáticos e estúpidos meses, o perdedor destas estúpidas primárias tenha juízo.

stand — ficar


Fotografia de Ferdinando Scianna


stand
in
a
street
corner
waiting
for
no
one
is
power
Gregory Corso


‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘‘
ficar
parado
numa
esquina
esperando
por
ninguém
é
poder



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Portugal dos pequenitos *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. A urbanização difusa das últimas décadas fez crescer os subúrbios, multiplicando bairros à volta das cidades, que, estranhamente, continuam ausentes do discurso e das preocupações dos decisores locais e da comunicação social.

Procuremos exemplos disso no concelho de Viseu: não têm conta as proclamações, opiniões, movimentações, planos, para o quase desabitado Bairro da Cadeia, que toda a gente parece querer transformar numa espécie de Portugal dos Pequenitos.

Já quanto aos bairros de Rio de Loba ou de Abraveses, onde vivem milhares e milhares de pessoas a precisarem de melhor qualidade de vida, não há nada. Ninguém quer saber. Estão fora do octógono da propaganda municipal.

2. Os congressos distritais dos partidos têm sempre pouco impacto fora dos aparelhos e os media costumam ignorá-los olimpicamente. O que lá é dito e aprovado é irrelevante e fica em circuito fechado, para os presentes e com os presentes. Ser assim é da natureza das coisas, como as chuvas no verão prenunciarem míscaros com fartura no outono.

No domingo passado, na sequência da eleição no PS de António Borges como líder distrital, aconteceu no Instituto Politécnico de Viseu o respectivo congresso instalador dos vários órgãos distritais.

Ora, estes "eventos", mesmo sendo como se disse politicamente nulos, têm os seus rituais. Nos congressos, como se sabe, o que se passa designa-se sempre como "trabalhos" e os "trabalhos" iniciam-se com o "discurso de boas-vindas" do anfitrião.


Fotografia achada no Facebook
de António Borges
No domingo, no "novo" PS-Viseu, não houve tal coisa. O recém-eleito líder distrital calou o bico à também eleita presidente da concelhia de Viseu. O segurista António Borges não deixou que a costista Adelaide Modesto dissesse a meia dúzia de palavras habituais de boas-vindas aos congressistas.

Para ilustração da pequenez sectária da "nova" distrital do PS não está mal.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Dias tecnofórmicos

Pedro Passos Coelho está prescrito, respondeu-lhe hoje a PGR.

Rui Rio, em casa, faz contas de cabeça.

António Costa é já daqui a três dias.

António Costa disse em 23 de Agosto:

Fotografia de Mário Cruz, Lusa, daqui



Ode à lua

Fotografia de Pierre Choinière


Detém um pouco, Musa, o largo pranto
que Amor te abre do peito;
e vestida de rico e ledo manto,
dêmos honra e respeito
àquela cujo objeito
todo o mundo alumia,
e quando escuro está é mais que o dia.

Ó Délia, que, apesar da névoa grossa,
cos teus raios de prata
a escura noite fazes, que não possa
encontrar o que trata,
e o que n’alma retrata,
Amor por teu divino
rosto, por que endoudeço e desatino:

Tu, que de fermosíssimas estrelas
coroas e rodeias
teus cabelos d'argento e faces belas,
e os campos fermoseias
co as rosas que semeias,
co as boninas que gera
o teu celeste amor na Primavera:

Pois, Délia, dos teus céus vendo estás quantos
furtos de puridades,
suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
as amantes vontades,
üas por saudades,
outras por crus indícios,
fazem das próprias vidas sacrifícios;

vejo teu Endimião por estes montes,
suspenso o Céu, olhando,
e o teu nome, cos olhos feitos fontes,
embalde e em vão chamando,
pedindo e suspirando,
mercês à tua beldade
sem em ti achar üa hora piedade.

Por ti feito pastor de branco armento,
as selvas solitárias
acompanhado só do pensamento,
conversa as alimárias,
de todo amor contrárias,
mas não como ti duras,
onde lamenta e chora desventuras.

Por ti guarda o sitio fresco d'Ílio
suas sombras fermosas;
para ti, Erimanto e o lindo Epilio
as mais purpúreas rosas;
e as drogas cheirosas
deste nosso Oriente
também Arábia Felix eminente.

De que pantera, tigre, ou leopardo
as ásperas entranhas
não temeram o agudo e fero dardo,
quando pelas montanhas
mui remotas e estranhas
ligeira atravessavas,
tão fermosa que Amor de amor matavas?

Das castas virgens sempre os altos gritos,
clara Lucina, ouviste,
renovando lhe a força e os espritos;
mas os daquele triste
já nunca consentiste
ouvi los um momento,
para ser menos grave seu tormento.

Não fujas de mim assi, nem assi te escondas
dum tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
e como o velho Atlante
o seu colo arrogante
move piadosamente,
ouvindo a minha voz fraca e doente.

Triste de mim, que o pior é queixar-me,
pois minhas queixas digo
a quem já ergue as mãos para matar-me,
como a crue imigo;
mas eu meu fado sigo,
que a isto me destina
e isto só pretende e só me ensina.

Quantos dias há que o Céu me desengana,
e eu sempre porfio
cada vez mais na minha teima insana!
Tendo livre alvedrio,
não fujo o desvario;
e este, que em mim vejo,
para esperança minha e meu desejo.

Oh! quanto milhor fora que dormissem
um sono perenal
estes meus olhos tristes, e não vissem
a causa de seu mal
fugir, a tempo tal,
mais que dantes, por teima,
mais cruel que ussa fera, mais que ema.

Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
com mil mortes ao lado,
e, quando mouro mais, então mais vivo!
Porque assi me há ordenado
meu infelice estado
que, quando mais me convida
a morte, para a morte tenha vida.

Minha secreta amiga, mansa noite,
estas rosas (porquanto
ouviste meus queixumes) ora dou te
este fresco adianto,
húmido ainda do pranto
e lágrimas da esposa
do cioso Titã, branca e fermosa.
Luís Vaz de Camões



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Quatro ou cinco tremoços achados num caderno

Fotografia de Chang Chao-Tang




1
O poeta é o único bombeiro
que apaga o fogo
com um incêndio.

2
A sombra de Argos
desenhou-me no calcanhar
uma elipse
com os caninos
- intuo
que não sou Ulisses?

3
Sempre
que atirava o laço
a corda dava um nó no ar
antes de salpicar
o que quer que fosse.

4
A turquês e o alicate,
um casal inconsútil
dançam um tango
no arco da aorta.

5
Se bem que inestimáveis,
ara do desejo,
aqueles calendários
tinham o ar
do tempo
que já passara.


6
Incoercível
a força com que a corola
impele para o alto
a pélvis azul
do céu.
António Cabrita

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Outono

Fotografia Olho de Gato


Contraluz

A luz do fundo imprime o seu perfil
com a nitidez de um acordar em Setembro,
sentindo o ar frio do outono contra
as faces rosadas. No entanto, é como se
tivesse mil anos na sua alma, mil
gavetas de recordações que não quer
abrir, deixando para outros o trabalho
de descobrirem, num ou noutro papel,
os apontamentos de um tempo em que
foi livre. Agora, deixa para trás de si
o dia, o brilho da manhã, o voo dos
enxames que abandonam o continente,
e que desejaria seguir para onde não
tivesse de voltar. Ficará fechada
na moldura de uma obscura sala, e
lentamente a madeira que a prende ir-se-á
desfazendo. Ela, no entanto, não perde
a altivez, e entrega-se à eternidade efémera
de quem a vê para logo a esquecer.
Nuno Júdice


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Selectorado (parte II, escrita por JB*)

* Segue-se o comentário deixado pelo leitor JB ao último Olho de Gato publicado no Jornal do Centro:


Este texto merecia um bom debate.
Abre uma discussão interessante e levanta questões políticas.

Assim:

1. Será que o futuro próximo do Partido Socialista será influenciado pelo significativo número de cidadãos inscritos como militantes ou simpatizantes que estão em condições de votar nas primárias do dia 28 de Setembro?

2. Independentemente do resultado (líder, programa…) o PS voltará a ser o mesmo? Ou seja o equilíbrio entre as várias facções (liberais, republicanos, sindicalistas, maçónicos…) continuará a existir? Dificilmente…. pois camaradagem é palavra que deixou o léxico socialista.




3. Que representam esses cerca de 250.000 simpatizantes? Sindicatos de voto? Pessoas de livre e boa vontade? Fidelidades pessoais?

4. E o que vai mudar? Mais intervenção dos militantes, mais empenho na discussão das propostas ou o habitual silêncio e missa com o vencedor.... Os sinais de carreirismo e clientelismo dos "“habituais” senadores não têm sido um bom indicador. Nada como uma “boa moral de defesa” das classes trabalhadoras, como tem sido tão evidenciado pela política da UGT.

5. E em termos ideológicos? A descaracterização ideológica, iniciada e acelerada, com Sócrates não parece ter fim. Está cada vez mais claro que há muita gente no PS que alinha e defende as teses da direita conservadora.

6. E a esquerda está preparada para optar por uma nova forma de fazer política e de exercer o poder? Neste contexto torna-se cada vez mais difícil entender as posições intransigentes do PC e Bloco face a um entendimento mínimo para a construção de uma solução de governabilidade à esquerda. Recuso acordar um dia sem alma, sem convicções, sem sonhos e, sobretudo, sem país.

Resta-nos esta ideia (fascinante) de recuperar o "Perdoa-me"!!!!

Li num jornal uma adaptação do poema do António Aleixo, que transcrevo:


Uma Mosca sem valor
pousa com a mesma alegria
nas desculpas de um ministro
como em qualquer Porcaria

Conclusão: Estejam as hostes descansadas, se isto correr bem no PS, o pessoal do PPD e CDS vão poder “botar” num líder ungido, não num sótão ou missa, mas na democracia electrónica…

Atenção aos próximos capítulos.

Três variações sobre o escuro anterior


Fotografia de Gillian Wearing



1
o olho intrusivo
pouco
o que vês na paisagem
se houvesse

e
dizes a palavra muda

há uma savana anjo
que te redime

ela
pietá
a invisível árvore

e tu
filho de nada
no seu colo

Fotografia de Gillian Wearing


2
Alta noite
depois do escuro anterior
eu vi a máquina

a máquina prótese
epigramática

e meu canto tinha a tensão de um arco
e cada grito era uma seta


Fotografia de Gillian Wearing


3
Coração neuronal sanguínea pulsante fonte
de que mar beber-te a inteligência
que a voz pergunta

um chuço passou
e a cabeça larvar corre adiante
oscilando sob a Lua

As adagas flanqueiam a Carne
orgiásticas
subindo até à transcendência
do Gesto

o que dança
e explode da lava e a isso chamamos Mãe
e rasgamo-la!

Ei-lo! O cavaleiro mongol degolando
a última estrela

Um pescoço de nuvem onde
pasmam as gazelas cúbicas
sossegadas
Luís Carlos Patraquim




domingo, 21 de setembro de 2014

O nosso mundo é este

Vila Nova de Paiva, Abril de 2010
Fotografia Olho de Gato



O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

(Mas há-de ser outro.)
José Gomes Ferreira


sábado, 20 de setembro de 2014

Vive o homem a vida numa tigela de poeira

Fotografia de Alex Timmermans


Vive o homem a vida numa tigela de poeira
É como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro.
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.
Han-Shan
Trad.: Gil de Carvalho

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

As dores do meu corpo face a uma esquerda moribunda.... — por JB*

Que me desculpe o padre poeta e pensador Tolentino de Mendonça, mas vou adaptar o tema do poema para escrever um texto sobre as "dores do meu corpo face a uma esquerda moribunda"....

Constatar o estado em que se encontra o nosso país é penoso. Ter que enfrentar as mesmas caras, os mesmos discursos, a mesma ausência de esperança é mentalmente devastador. Políticos secos de ideias novas que apenas têm como objectivo preservar os seus privilégios.

A última “proposta” de Tó Zé Nulo é o epíteto do seu perfil de mau político. Seguro quer que a Assembleia da República disponibilize assentos apenas para os partidos do centrão. A esquerda do lado esquerdo incomoda-o…

Depois da ideia genial: “se tiver que aumentar os impostos demito-me”, temos agora esta populista proposta. Ainda haverá quem confie num "primeiro-ministro" destes?

Os protagonistas das nossas elites revelam, a um ritmo quase diário, a mediocridade que os enforma. 


Gif de Mattis Dovier
É confrangedor verificar que a discussão política, protagonizada por Costa e Seguro, se resume a saber quem atraiçoa mais ou menos, quem se apropria ou não apropria das ideias de outros e muito pouco mais. Muito honestamente tenho dificuldade em entender como há quem se inscreveu com o desígnio de poder votar numa destas duas opções. 

Ainda fiz um esforço para entender e perscrutar o que de substancial os dividia, mas só constatei dois candidatos incapazes de convencer quem quer que seja das suas reais preocupações. 

O PS transformou-se num ringue de wrestling!

Até que o PS volte a ter um secretário geral Socialista prefiro desligar…

Do “fascismo de sacristia” do Estado Novo ao “estado a que isto chegou” – Alexandre O´Neill


* JB, o atento leitor do Olho de Gato,
em comentário ao post Isto é o meu corpo 

Selectorado *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Selectorado é um termo da ciência política, cunhado por Bruce Bueno de Mesquita, que designa o conjunto de pessoas que têm influência na selecção de um líder político. A teoria do selectorado, desenvolvida em “The Logic Of Political Survival”, merece estudo. O enxame de "politólogos" que papagueia todas as noites nas televisões fazia bem em ler este livro.

Na nossa terceira república, a selecção dos líderes a submeter a votos pelas várias agremiações partidárias tem sido feita em "petit-comité", em sótãos conspiratórios e missas maçónicas. Só depois de decidido o essencial, é que as coisas são formalizadas, de cima para baixo, nos órgãos estatutários dos partidos.

Nos partidos de esquerda nunca houve selectorados numerosos. Houve um recente, em Paris, em que três ou quatro íntimos de Louçã e ele próprio decidiram a desastrosa "solução" bicéfala para liderar o bloco. Que foi acatada a seguir pelo rebanho.

A cultura organizacional dos partidos da direita portuguesa é tão leninista como a da esquerda. Contudo, têm na sua história pelo menos dois momentos de algum fôlego de baixo para cima capaz de derrubar poderes instalados: a eleição de Cavaco no congresso da Figueira da Foz, em 1985, e a de Paulo Portas em Braga, doze anos depois. Nestes casos, o selectorado não cabia num sótão ou numa loja.

Chegados aqui, resta-nos olhar para o actual processo de primárias do PS. Segundo números do início desta semana, ainda não definitivos, vão poder participar na escolha do candidato socialista a primeiro-ministro quase 240 mil pessoas (93 mil militantes e 146 mil simpatizantes). Estes números estão muito longe dos das primárias recentes do centro-esquerda em França e Itália mas, mesmo assim, impõem respeito. Nunca houve um selectorado tão grande em Portugal.

Caso as coisas corram bem ...
... não se vê como o PSD e o CDS possam escolher os seus futuros chefes de maneira diferente desta.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Isto é o meu corpo

Fotografia de Edward Hartwig



O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar
José Tolentino Mendonça


Botas

Fotografia Olho de Gato


Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.
Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...
Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.
Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?
A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...
Tem de se arrumar muito depressa.
Há felizmente o estilo.
Não calcula o que seja?
Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender?
Não?
Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.
Herberto Helder


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Palavra o açoite

Fotografia de Elmo Tide

Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filho
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
Emanuel Félix



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pequena elegia de Setembro

Fotografia de Jane Evelyn Atwwod


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Cultura, tertúlia na sexta à noite *

* O nome sportinguista enfim...
o que vale é que o Jorge Adolfo Meneses e o Luis Calheiros garantem uma noite interessante.
Apareça!

A greve dos controladores de voo in o poeta nu

Fotografia de Ralph Simpson


Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e explo-
raram cuidadosamente todas as naturezas mortas com flores, não
tendo deixado um único grão de pólen.

Um homem que se passeava nu na Praça de S. Marcos em Veneza foi
salvo no último momento de ser preso por atentado ao pudor, por
um bando de pombas que o vestiram completamente de branco.
Jorge Sousa Braga


domingo, 14 de setembro de 2014

Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas


Fotografia de Gérard Castello-Lopes



Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.
Cristovam Pavia

A cousa mai´linda da Feira de S. Mateus'2014

Branca de Neve num "carrossel" infantil

Fotografia Olho de Gato

sábado, 13 de setembro de 2014

Justiça




Não escute

Fotografia de Yan Ming



Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar

Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar

Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar
Elizabeth Hazin

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

António Borges *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Faz hoje exactamente seis anos, em 12 de Setembro de 2008, publiquei aqui no Olho de Gato uma carta aberta dirigida a António Borges (na altura presidente da câmara de Resende), João Paulo Rebelo (na altura presidente da concelhia do PS em Viseu) e Miguel Ginestal (na altura vereador na oposição a Fernando Ruas).

Escrita quando Sócrates governava o país e o PS com mão de ferro e antes de umas eleições para as distritais socialistas, a carta aberta detalhava as razões que aconselhavam o fim, logo naquele ano, da longa liderança de José Junqueiro no distrito — ele não tinha peso político nenhum junto de Sócrates e tinha arranjado um telhado de vidro: estava, como consultor, na folha de pagamentos dos colégios privados do grupo GPS.

A carta, implicitamente, sugeria a António Borges, sem dúvida o socialista viseense mais influente e mais próximo de José Sócrates, para avançar para a distrital, e citava Peter Singer: «Somos responsáveis não só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido.»

Como é sabido, nada na altura foi impedido.



2. Entretanto passou muita água debaixo das pontes. Com seis anos de atraso e sem surpresa, António Borges acaba de ser eleito presidente da federação distrital socialista. Os concludentes 71% de António Borges confrontam-no agora com dois problemas:

(i) escolheu para lhe suceder em Resende uma figura muito fraca que, em menos de um ano, conseguiu deitar ao rio Douro toda a dinâmica política do concelho; como vai fazer o agora líder distrital do PS para não perder Resende em 2017?

(ii) no final de Maio, António Borges roeu a corda a António Costa, para espanto deste, e meteu-se num beco sem saída chamado Seguro; como vai fazer o agora líder distrital do PS para que — e repito uma expressão da tal carta aberta — Viseu deixe de ser "um distrito peso pluma no contexto nacional"?

Intimates

Fotografia de Herbert List



Don't you care for my love? she said bitterly.

I handed her the mirror, and said:
Please address these questions to the proper person!
Please make all request to head-quarters!
In all matters of emotional importance
please approach the supreme authority direct! —
So I handed her the mirror.

And she would have borken it over my head,
but she caught sight of her own refection
and that held her spellbound for two seconds
while I fled.
D. H. Lawrence




Amigos íntimos

Não te importas com o meu amor? — disse-me ela asperamente.

Entreguei-lhe o espelho e disse:
Dirige, por favor, essas perguntas à pessoa indicada!
Faz as tuas consultas ao quartel-general!
Em todos os assuntos de importância emocional
Contacta directamente com a suprema autoridade! —
— E entreguei-lhe o espelho.

Ela devia tê-lo partido na minha cabeça
mas recebeu dele a sua própria imagem
e manteve-se suspensa dois segundos
enquanto eu fugia.
D. H. Lawrence
Trad.: Fernando Guedes


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Nostalgia do Presente

Fotografia de Jindřich Štreit



Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.
Jorge Luis Borges


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Citröen 2 CV

Fotografia de Henri Cartier-Bresson
(que está reflectido no vidro da esquerda)



Na descida de Monsanto
para o viaduto Duarte
Pacheco, o ponteiro
da velocidade desaparecia
completamente, perdido
para lá da marca laranja
dos 120 quilómetros por hora.
O carro trepidava e tudo à nossa
volta — o motor em alta rotação,
as estrelas através da capota aberta,
a silhueta de Lisboa, as infinitas
bifurcações da juventude - tudo
à nossa volta era uma vertigem.
José Mário Silva

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Ó António Spam Seguro, achas mesmo que todos os votos de Viseu em António Borges vão para ti? Achas mesmo isso?




Achas mesmo que, no Porto, onde houve uma lista única do segurista José Luís Carneiro para a distrital, António Costa vai ter zero votos?

Desconcerto

Fotografia de Dave MacKean



Ao descascar a palavra esperança encontrei polpa de maçã
e caroço de pedra.

Ao descascar a palavra amor achei pele de pêssego
e carne de cinza.

Ao descascar a palavra verdade, encheu as minhas mãos
e ao chegar à minha boca não existia
Josefina Plá