domingo, 31 de agosto de 2014

Caro António Almeida Henriques, querer a Feira de S. Mateus "auto-sustentável" é pouco...

Diário de Viseu, edição de 29/8

... a Feira de S. Mateus tem que dar lucro.

Sempre foi assim: a EXPOVIS organizava os seus demais eventos ao longo do ano, todos eles deficitários, com a almofada financeira arrecadada durante a Feira de S. Mateus.  

Toma lá Cinco!

Fotografia de Otto Stupakoff



Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração.
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)
Alexandre O'Neill

sábado, 30 de agosto de 2014

As portas do mundo não sabem

Imagem de Grete Stern



As portas do mundo não sabem
que lá fora a chuva as procura.
As procura. As procura. Paciente
afasta-se, regressa. A luz
não sabe que há chuva. A chuva
não sabe que há luz. As portas,
as portas do mundo estão fechadas:
fechadas para a chuva,
fechadas para a luz.
Sandro Penna


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

As eleições ganham-se com votos ou com dinheiro?

Quando lerem esta notícia, na edição de hoje do Jornal do Centro, reparem em casos ridículos como o de Tabuaço...

Música ambiente*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Imagem não do bar desta história, mas daqui
Num dos primeiros dias do ano, fui a um bar ter com uns amigos. Nunca lá tinha entrado. Achei-o agradável. Balcão bonito, espaço amplo e bem decorado, pessoas, muitas pessoas, em modo de sexta-à-noite. Tudo muito agradável aos olhos.

Atrás do balcão, fitadesivada, uma chalaça numa folha A4: 
NÃO HÁ WI-FI, FALEM UNS COM OS OUTROS.

Lá me sentei à mesa.

Chegado por último, apanhei boleia na conversa que decorria animada. Era uma conversa anti-austeritária nas palavras, sem défice nenhum de argumentos e contra-argumentos, uma conversa sobre o desconcerto deste país a precisar de conserto. Às sextas-à-noite, entre amigos, salva-se o mundo, o país, a cidade. Salva-se a noite. É o melhor que há, desacordos concordados, bem-humorados, os casacos a enfumararem, depois arejam na varanda, muito vento à noite, era inverno naquela sexta-à-noite.

Entretanto, os decibéis da "música ambiente" foram aumentando, aparecera um "dijei", muito pro, muito concentrado nas suas "remixações". O som ficou alto. Muito alto.

O bar continuava agradável ao olhar. Por cima do som agora alto, em todas as mesas, as conversas estavam todas, também elas, mais altas. O "dijei" punha música em cima do ambiente, o ambiente punha conversa em cima da música.

Olhei à volta. Não havia espaço nenhum para dansação. Todas as pessoas, as das mesas e as do balcão, desouviam a "remix". Toda a gente falava com toda a gente, menos a namorada do "dijei", que, melancólica no seu vestido de sexta-à-noite, mexia, com a unha de gel, o gelo da caipirinha.

Um dos meus amigos chamou o dono do bar.

«Desculpe, pode dar-me a palavra-passe?»

«Não viu o aviso?», impacientou-se o homem todo "não-há-wi-fi-conversem-uns-com-os outros".

«Sabe, meu caro», gritou o meu amigo, porque tinha de ser a gritar, «era mesmo para falarmos uns com os outros. No messenger.»

ABC


Fotografia de Alex Prager


Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto
Wyslawa Szymborska


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Meditação anciã — Ruy Belo dito por Guilherme Gomes

Fotografia de Brett Walker


Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus
Ruy Belo

Velas

Fotografia de Tazio Secchiaroli



Temos à frente os dias do futuro
como uma fila de velas acesas
– quentes e vivas e douradas velas.

Ficam atrás os dias passados,
fileira triste de velas sem chama:
ainda sobe fumo das que estão mais perto,
vergadas pelas frias que já se apagaram.

Eu não quero vê-las: tanto me entristece o seu ar de agora
como relembrar o fulgor antigo.
Olho à minha frente as velas acesas.

Não vou voltar-me nem vou ver num arrepio
como cresce tanto a fileira escura,
como é tão veloz o apagar das velas.
Konstandinos Kavafis

Domingo às 19 horas em Lisboa

Gif de Joe Smith

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O salgado mau e a borboleta boa

Fotografia Olho de Gato

Notícias do pântano *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente há quatro anos, em 27 de Agosto de 2010



1. As nossas finanças estão nos cuidados intensivos, a receberem oxigénio do BCE. A dívida externa e o desemprego batem todos os recordes. A subida brutal de impostos do PEC está a ser derretida em mais despesa do estado.

Para o que vieram dizer na “rentrée”, mais valia os líderes políticos terem continuado no bronze no All-garve. O PSD cismou numa revisão constitucional que não interessa nem ao Menino Jesus, enquanto o PS ainda quer tirar mais 450 milhões de euros à classe média (agora nas deduções de saúde e educação).

Enquanto isso, não fecha nenhum instituto público, nenhuma direcçãozita-geral. Nada. Cortes só nas prestações sociais dos pobres e nos serviços públicos no interior.


Imagem daqui
2. Por sua vez, a justiça implodiu.

A absolvição do sr. Domingos Névoa da Bragaparques, depois de tudo o que se provou contra ele em tribunal, desalentou os honestos e alentou os corruptos.

É mais eficaz mandar o “Homem do Fraque” atrás de um caloteiro do que o pôr em tribunal.

Pinto Monteiro diz-se uma “rainha da Inglaterra”. Na Procuradoria-Geral da República - o “Palácio de Buckingham” de Lisboa - o número 2 já ultrapassou o limite de idade mas não quer ir para casa tratar dos bisnetos. Está em tramitação no parlamento uma lei vergonhosa do PS para o segurar.


3. Francisco Assis é um bom líder parlamentar mas tem uns vices que só desajudam. Veja-se o caso de Inês de Medeiros.

Não foi só em Viseu que a qualidade política dos deputados do PS caiu muito. O grupo está sem valores nem referências. Tanto vota o Big-Brother dos “chispes” das matrículas como bate palmas ao colega Ricardo “mãos ágeis” Rodrigues.

Palmas mesmo. Não é metáfora. O deputado do PS que se “apropriou” à sorrelfa de dois gravadores foi, numa reunião, recebido com aplausos pelos seus pares.

Biografia

Fotografia de Jan Welters



La vida que murmura. La vida abierta.
La vida sonriente y siempre inquieta.
La vida que huye volviendo la cabeza,
tentadora o quizá, sólo niña traviesa.
La vida sin más. La vida ciega
que quiere ser vivida sin mayores consecuencias,
sin hacer aspavientos, sin históricas histerias,
sin dolores trascendentes ni alegrías triunfales,
ligera, sólo ligera, sencillamente bella
o lo que así solemos llamar en la tierra.
Gabriel Celaya

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma só lua no céu

Fotografias de Sophie Calle



Uma só lua no céu,
uma boca no teu rosto.
Muitas estrelas no céu,
só dois olhos no teu rosto.
Canto azteca
Versão : Herberto Helder


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O céu cairá sobre nós

Fotografia de Steve McCurry

O céu cairá sobre nós
E ainda assim estarei por cá para vos amedrontar.
As nossas barbas deixarão de ser grisalhas
E os nossos ossos regressarão à terra que os deu a nascer
mas ainda assim cá estarei para vos atrapalhar.
Há muito que este solo sagrado deixou de ser fértil
E as nossas mulheres são feias;
Porque quereis então este território?
Canto afegão
Tradução: Manuel João Magalhães


domingo, 24 de agosto de 2014

Entre mim mesmo e mim

Fotografia de Gary Isaacs





Entre mim mesmo e mim
não sei que se ergueu
que tão meu inimigo sou.

Uns tempos com grande engano
vivi eu mesmo comigo,
agora no maior perigo
se me descobre maior dano.
Caro custa um desengano,
embora este não me tenha matado
quão caro que me custou!

De mim me sou feito outro,
entre o cuidado e cuidado
está um mal derramado,
que por mal grande me veio.
Nova dor, novo receio
foi este que me tomou,
assim me tem, assim estou.
Bernardim Ribeiro






sábado, 23 de agosto de 2014

Estátua a D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, Viseu

Fotografia Olho de Gato

Comediazinhas

Fotografia de Man Ray


Se existem anjos
acho que não lêem
nossos romances
sobre esperanças frustradas.

Receio que — infelizmente —
nem os nossos versos
reclamando do mundo.

Os espasmos e os gritos
de nossas peças teatrais
devem — suspeito —
impacientá-los.

No intervalo de seus afazeres
angélicos, isto é, não humanos,
assistem antes
às nossas comediazinhas
do tempo do cinema mudo.

Aos que se lamentam,
rasgam as vestes
e rangem o dentes,
preferem — penso eu —
aquele pobre-diabo
que agarrra o que se afoga pela peruca
ou faminto devora
o cordão do sapato.

Acima da cintura peitilho e pretensão,
abaixo um camundongo assustado
na perna da calça.
Ó sim,
isso é que é diversão de verdade.

A perseguição em círculos
vira fuga à frente do que foge.
A luz no fim do túnel
se transforma num olho de tigre.
Cem catástrofes
são cem alegres piruetas
sobre cem precipícios.

Se existem anjos,
deveriam - assim espero -
estar convencidos
dessa alegria que oscila no terror
e nem sequer grita socorro socorro
porque tudo se passa em silêncio.

Ouso até imaginar
que aplaudem com as asas
e que de seus olhos caem lágrimas
pelo menos de riso.
Wislawa Szymborska


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Eleições para a distrital do PS-Viseu — "Ganha quem tem mais dinheiro"

A marcação da eleição para presidentes das federações distritais é estúpida (para o ano serão necessárias novas eleições), é incendiária e uma vergonha para quem tal fez.

Até em Viseu estão a acontecer prodígios no pagamento das cotas:
Jornal do Centro, edição de hoje, página 10

Eupátridas *

* Texto publicado hoje no Jornal de Centro



No seu livro "Superclasse — a elite do poder global e o mundo que ela está a construir", David Rothkopf descreve a elite poderosa que influencia a vida de milhares de milhões de pessoas, constituída pelos chefes dos maiores estados, os líderes das maiores empresas mundiais, os barões dos media, os gigamilionários que tratam eles próprios dos seus investimentos (George Soros, por exemplo), os empresários de tecnologias, as altas patentes militares, os gestores de fundos soberanos, de investimento e do petróleo, alguns líderes religiosos, uns poucos artistas, escritores e cientistas, além, claro, dos chefes das maiores organizações terroristas e criminosas.

Rothkopf fez uma lista de seis mil nomes que não divulga porque, diz ele, isso seria "uma futilidade". No dia a seguir à sua publicação, a lista estaria obsoleta. O poder desta "supergente" é, por definição, transitório, e não se herda nem se dá em herança.

Esta semana um extenso texto do Washington Post, reproduzido no Público, descrevia o cuidado com que muitos multimilionários americanos (membros da superclasse da globalização) estão a tratar do futuro dos filhos.


Aportuguesada, a conversa sobre esta segunda geração com mais dinheiro que juízo seria assim: em vez de deixarem uma "pipa de massa" para ser derretida pelos "filhinhos-do-papá" em "putas-e-vinho-verde", a maior parte das fortunas é entregue a fundações com fins filantrópicos. Por exemplo, os três filhos de Bill Gates levam 10 milhões de dólares cada um, mas o grosso da fortuna de 76 mil milhões vai para beneficência.

Durão Barroso, o único português da superclasse está quase a sair dela. Não será por isso que o seu filho Luís — que entrou agora sem concurso no Banco de Portugal — deixará de ser um "eupátrida".

Os "eupátridas" — isto é, "pessoas com bons pais" — governaram Atenas durante muito tempo. Ainda faltavam dois milénios e meio para a globalização.

A vida inteira

Fotografia de Eve Arnold


A vida inteira esperei por ti.

Mesmo que ainda não se tenha passado
a vida inteira.
Jorge Reis-Sá



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Todo caminho da gente é resvaloso

Fotografia de Youichi Shidomoto





Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!...
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza...
João Guimarães Rosa



O Atalante – Jean Vigo (1934)

Imagem do filme


No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
José Miguel Silva



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Inventário

Fotografia de Eduardo Gageiro


Um dente douro
a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante
A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno
Um revolver
já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria
Um conde que
cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa
O desertor
cantando no coreto
Um malandrão que vem pe-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé
Um sujeito
enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza
Um octogenário
divertido
Um menino colecionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas
Alexandre O'Neill


Dez segundos *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 20 de Agosto de 2010


1. Os semáforos com contagem decrescente organizam de uma forma ideal o pequeno mundo de um cruzamento. É dada a toda a gente ao mesmo tempo a informação necessária, nem a mais, nem a menos. Todos recebem em tempo real a informação pertinente para que possam fazer o que mais lhes convém: acelerar, abrandar, travar, estugar o passo, ficar a ver uma montra.

Não há muito exemplos assim. Não é nada comum, perante um problema, estarmos todos - ricos, remediados, pobres, novos, velhos, bonitos, feios – todos neste paraíso de igualdade democrática. Cada um pode organizar-se como quiser até chegar a sua luz verde.

Por exemplo, posso perfeitamente parar o carro e, no meu “Magalhães”, dar seguimento à escrita deste Olho de Gato enquanto espero que esverdeça a entrada para a subida de Vildemoinhos, a meio da Avenida Cidade de Aveiro. 

Em 67 longos segundos de vermelho, rápido como sou no teclado, consigo escrever muita prosa.

Depois, conseguir entrar na avenida é que é mais difícil: os cronometristas do dr. Ruas programaram os semáforos para ficarem só dez segundos no verde. É preciso um arranque à Schumacher e, logo a seguir, muita prudência nas passadeiras da avenida.

«Está quase... 4, 3, 2, 1... verde!»

Ups... o carro da frente, um carro de uma escola de condução, foi abaixo...
«Anda lá, anda lá, pá!...»

Não deu... escoaram-se os dez verdes segundos dos cronometristas do dr. Ruas e não entrou nenhum carro.... mais 67 segundos de seca...
Ainda dá para acabar esta crónica.

2. Em Agosto, nas nossas ruas, nota-se bem: os emigrantes têm dinheiro para gastar e gastam-no. Ao menos eles. Abençoados sejam!

3. Com a venda da Vivo, a PT não paga imposto de mais-valias. Os grandes accionistas também não. Os pequenos pagam. Com língua de palmo.
Porreiro, pá!

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Não são apenas os relógios

Fotografia de Gaël Turine


Também se pode
regressar sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes
é o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.
Albano Martins


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

apontamento

Fotografia de Oleksandr Hnatenko




conjuguemos o tempo
no futuro
o condicional não terá projectos
quando o presente é de termos mãos
e sermos nós
vamos conjugar a história do homem
no plural
empurrar estes minutos
que param
e crescer
entre a sombra e para a frente
José Manuel Mendes

domingo, 17 de agosto de 2014

Para Pirra

Fotografia de Alexia Sinclair


Quem, Pirra
agora
se lava em rosas
(pluma e latex)
na rosicama do
teu duplex?
Quem,
onda a onda,
do teu cabelo
desfaz a trança
platino-blonda?
Pobre coitado
inocente inútil
vai lamentar-se
para toda a vida.
Um deus volúvel
mais do que a brisa
muda em mar negro
seu lago azul.
Pensava que eras
dócil-macia
toda ouro mel.
Não és. Varias.
(Ah quem se fia
no fútil brilho
desse ouropel!)
Eu, por meu turno,
todo ex-aluno,
esta oferenda
ao deus Netuno
padripotente
no teu vestíbulo
deixo suspensa
(vide a legenda):
VMIDA AINDA
A TVNICA
Haroldo de Campos



sábado, 16 de agosto de 2014

A RTP?!



A partir de uma fotografia de
Enric Vives-Rubio para o Público

António José Seguro apresentou esta semana o seu programa para as primárias de 28 de Setembro. 

É mais um documento solipsista do ainda líder socialista. 

Tudo naquelas sete páginas é eu, eu, eu...

É caso para perguntar: 
Seguro julga que o PS é ele, ele, ele...?


O eu, eu, eu de António José Seguro, no subcapítulo "condições de governabilidade", em que são definidas as condições para a participação socialista num eventual governo de coligação, escreve o seguinte:

«Excluem-se dos acordos de incidência governamental os partidos que defendam a destruição do Estado Social, a saída de Portugal da União Europeia e do Euro e que advoguem uma política de privatização de empresas públicas em sectores-chave para o país, como as águas, a CGD ou a RTP.»


Embora Seguro mude mais vezes de opinião do que de camisa — recorde-se o que ele dizia das primárias abertas até há dois meses — mesmo assim, parta-se do princípio do que o aqui está dito é para levar a sério e pergunte-se: será que as águas, a CGD e a RTP estão no mesmo plano político? Todos os três são mesmo "sectores-chave para os país"? 

Vejamos:
— A água é um bem de primeira necessidade, desperta um enorme apetite aos rentistas, que se querem apropriar desse bem comum. 
Nenhuma dúvida. Há que dizer: não à privatização das águas! 

— A CGD, depois do acontecido com o BPN e agora o BES, é um refúgio e uma segurança. É um porto de abrigo perante um negócio imprescindível mas que anda a ser feito com práticas delinquentes. Precisamos de uma CGD pública, que não seja um coito de boys e que seja gerida com prudência.
Nenhuma dúvida. Há que dizer: não à privatização da CGD! 

— Quanto à RTP importa perguntar: ela faz mais serviço público que a SIC ou a TVI? Em quê? O eu, eu, eu de António José Seguro já ouviu falar da net de banda larga e das centenas de canais no cabo?
A RTP é assim tão importante para o futuro do país que possa impedir a formação de um governo?

Pôr as águas, a CGD e a RTP no mesmo plano, é como uma família pôr no mesmo plano a casa, o carro e o leitor de CDs. O leitor de CDs toca, há lá por casa uns CDs maravilhosos, mas...

O eu, eu, eu de António José Seguro parece que não vive neste mundo: em Maio, enquanto o país andava focado nas políticas europeias, decidiu apresentar 80 compromissos para... o governo do país.

Pior: dos tais 80 compromissos, 32 aumentavam o défice, 44 talvez-sim-talvez-não, e só 4 o diminuíam.

Este tipo de propostas, logo a seguir ao trauma da bancarrota de 2011, são eleitoralmente tóxicas e um susto para o futuro. A classe média que nestes três anos foi tão fustigada não vota neste tipo de delírios.

O PS, com o eu, eu, eu de António José Seguro, repete em legislativas os 31% das europeias. Mais coisa menos coisa.

O eu, eu, eu de António José Seguro é candidato a vice-primeiro-ministro de Pedro Passos Coelho. E só.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Será civilizado agrafar cartazes nas árvores? Fazer isso é boa publicidade?


Histórias “cinéphilas” *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

São três histórias, as duas primeiras achadas nas divertidas crónicas de Mário Augusto neste jornal.



Daqui
História #1 de Mário Augusto 

— que Sarah Jessica Parker, além do jeito para andar no alto dos seus sapatos altos, também se ajeita a cantar, em português, o "Atirei o pau ao gato!"

Este factóide zanga esta coluna. Como vingança, o Olho de Gato atira um pau às duas versões longas para cinema de “O Sexo e a Cidade”. São dois filmes chatos. Nem a bulimia sexual de Samantha, nem o dar-a-dar das pestanas de Carrie evitam um bocejo.

«Vai atirar o pau a outro, ó Sarah!».



História #2 de Mário Augusto 

— que as ideias ocorrem a Woody Allen em qualquer lado, que depois ele as desenvolve a passear pelo seu bairro e vai apontando tudo num papel (que por isso não cumprimenta os vizinhos), que depois as escreve com uma máquina de escrever Olympia, que usa essa Olympia desde o seu primeiro filme, vai para cinquenta anos.

Está explicado: os vizinhos não cumprimentam Woody Alllen por ele passar as noites a martelar nas teclas. Não é por ele ter catrapiscado a enteada.


História #3 esta do Olho de Gato

Daqui
— que a actriz Gloria Grahame também catrapiscou um enteado, filho do seu segundo marido, logo aos 13 anos dizem as más línguas, depois no devido tempo casou-se com ele, foi o seu quarto esposo.

Que ela é desconhecida de 99,999% dos leitores, mas que 99,998% destes conhecem casos azarosos de botox, que no tempo de Gloria não havia disso, que ela achava a sua boca imperfeita, que ela metia algodão debaixo do lábio superior para o altear.

Que a voz dela nos filmes, por isso, saía mais empastelada que algodoada, que num beijo “cinéphilo” o algodão foi parar à boca do seu contraparte, e que não se reproduz aqui o que ele disse.

Esta crónica é silly, mas nem tanto.

Reservado ao veneno

Fotografia de Ramón Masats


Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sexta-feira 13 *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 13 de Agosto de 2010


1. Este Olho de Gato vai sair numa sexta-feira 13. O que não é bom. Vou tentar fazer uma crónica sem azares.

Bem basta o azar da semana passada quando tratei aqui da operação “omo-lava-mais-branco” feita pelo sr. António Mexia na revista do Expresso em que ele carimbou como preguiçosos e invejosos os críticos do seu bónus de 3,1 milhões.

O problema é que chamei ao homem “conde de Anadia” quando ele é “conde de Arganil”. Foi um azar pior que uma sexta-feira 13. Uma leitora atenta chamou-me logo a atenção. Agradeço. Fica a correcção.

2. Como Celso Neto não se cansa de dizer nos jornais da região, as obras na N229, entre Viseu e o Sátão, transformaram numa rua a única via de ligação de Viseu ao norte, a Sátão, Vila Nova de Paiva, Moimenta, Aguiar da Beira, Sernancelhe, Penedono.

É especialmente chocante não terem sido feitas duas faixas ascendentes nas subidas do Fojo e do Mundão. A empresa Estradas de Portugal pensou: “para quem é, bacalhau basta!”.

Oxalá os pastéis de bacalhau que vão ser servidos na tenda Vip da luzidia inauguração sejam uma sexta-feira 13 para os responsáveis desta sovinice. Uma diarreia. Só para eles.

3. Depois do desastre da África do Sul, o sr. Madail, o eterno presidente da federação, o eterno perdedor, o eterno sexta-feira 13, em vez de assumir as suas responsabilidades, escondeu-se atrás do vernáculo do sr. Queiroz.

E toda a gente caiu no engodo. Toda a gente bateu no seleccionador, ninguém mandou o dinossauro embora.

4. A sra. Cândida Almeida negociou com os procuradores do caso Freeport a inclusão no processo de 27 perguntas que não foram feitas a Sócrates. Uma coisa tipo Bill Clinton quando fumou um charro mas não inalou.

A Procuradoria-Geral da República é uma sexta-feira 13 todos os dias.

fotografo contigo

Fotografia de Freek Bekaert



fotografo contigo.
a figueira, a porta
que se abre
depois da muralha.

fotografo tudo –
a ingenuidade dos olhos
de quem segura
as asas (o espírito)
desta terra.

acompanho o corpo presente,
um algarismo na pedra
− sinais resguardando a casa.

o rosto desaparece com o tempo.
Os braços abrem
entre a tinta e a madeira.

o vento nasce
− no interior
do mundo
Ruy Ventura


terça-feira, 12 de agosto de 2014

En pie — Perfilados de medo

Fotografia de Saul Leiter



Sigo en pie
por latido
por costumbre
por no abrir la ventana decisiva
y mirar de una vez a la insolente
muerte
esa mansa
dueña de la espera

sigo en pie
por pereza en los adioses
cierre y demolición
de la memoria

no es un mérito
otros desafían
la claridad
el caos
o la tortura

seguir en pie
quiere decir coraje

o no tener
donde caerse
muerto.
Mario Benedetti






Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos,do que não seremos.

Perfilados de medo,sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
Alexandre O'Neill

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Power

Fotografia de Bruno Barbey

To some power is guns
To some power is knifes
To some power is the ability to read, and write.
To some power is control
To some power is a fist
To some like Dr. Martin Luther King Jr. power was words.




To some power is like a trapped animal trying to get out of a cage. 
To some power is love 
To some power is art 
To some power is money 
To me power is knowledge 
So what is power to you?
Edwina Matthews


sábado, 9 de agosto de 2014

A imprensa de direita bem puxa por António José Seguro



Esta "reclamação" de vitória de António José Seguro é ridícula. 

Veja-se:

1 — estas eleições nas distritais são para eleger presidentes de federações transitórios já que para o ano, no respeito pelo estatutos do partido aprovados já durante o segurismo, terá que haver nova eleição; não são "primárias de primárias" nenhumas;

2 - estas eleições nas distritais são incendiárias,
 foram tiradas de dentro da cartola pelo líder António "Nero" Seguro quando o PS já estava em ebulição com o processo de primárias, são gasolina deitada em cima do fogo;

3 — uma coisa são as eleições distritais outra a escolha do candidato socialista a primeiro-ministro; os propósitos são diferentes, até os cadernos eleitorais são diferentes: nas primeiras votam só militantes com as cotas em dia, nas segundas militantes com ou sem as cotas em dia e simpatizantes;

4 — dando o exemplo de Viseu: António Borges, que é segurista, vai receber votos de apoiantes de Costa; Acácio Pinto, que é costista, vai receber votos de apoiantes de Seguro;

5 — mais: é evidente que, quer seja António Borges a ganhar, quer seja Acácio Pinto a ganhar, a federação distrital de Viseu do PS fica bem entregue;

6 — já não se pode dizer que esteja bem entregue uma organização que tem um líder que lhe faz o descrito no ponto 2;

7 — os socialistas sensatos, que não embandeiram em arco com a espuma das manchetes dos jornais, vão suspirando um «nunca mais chega o dia de S. Miguel...»

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* o ponto sete foi reescrito às 18:20

Da dureza

Fotografia de Pedro Luis Raota



A veces la vida viene como la carta más baja
rozamos con otros transeúntes
la suciedad en las aceras
habitamos los árboles, los pájaros
pedimos el pan como los pobres.
A veces
la vida viene como la vileza.
Entonces nos aferramos a la suerte
frenéticamente.
Martha Kornblith