quinta-feira, 31 de julho de 2014

O meu eu triste

Fotografia de Bruce Gilden


Por vezes quando tenho os olhos vermelhos
subo ao cimo do Edifício RCA
e contemplo o meu mundo, Manhattan —
os meus edifícios, as ruas das minhas proezas,
apartamentos, camas, andares de águas correntes
— a 5ª Avenida em baixo que também recordo
os seus carros como formigas, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham, do tamanho de bolas de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
o pôr-do-sol sobre New Jersey onde nasci
e Paterson onde brinquei com formigas —
os meus amores tardios na Rua 15,
os meus maiores amores no Lower East Side,
as minhas antigas paixões fabulosas no distante
Bronx —
caminhos cruzando-se nestas ruas escondidas,
a minha história resumida, as minhas ausências
e êxtases em Harlem —
— o sol a brilhar em tudo o que possuo
num relance até ao horizonte
na minha última eternidade —
a matéria e a água.

Triste,
apanho o elevador e desço,
ruminando,
e caminho nos passeios questionando as vidraças humanas, caras,
perguntando-me quem ama,
e paro, atónito
em frente da montra de um stand de automóveis
perdido em pensamentos tranquilos,
o tráfico passando pelo edifício da 5ª Avenida, atrás de mim
esperando um momento quando...

São horas de ir para casa e fazer o jantar e ouvir
na rádio as românticas notícias da guerra
... todo o movimento se detém
e eu a caminho na tristeza intemporal da existência,
com ternura a escorrer dos prédios,
com as pontas dos dedos tocando a cara da realidade,
a minha própria cara riscada por lágrimas de vidro
de uma janela — no crepúsculo —
em que não desejo —
bombons — ou possuir os vestidos ou os quebra-luzes
japoneses de compreensão —
Confundido pelo espectáculo à minha volta,
Um homem pela rua acima lutando
com pacotes, jornais,
gravatas, fatos elegantes
em direcção ao seu desejo
Homens, mulheres, jorrando pelos passeios
semáforos marcando o tempo de relógios apressados e
o movimento na berma —

E todas estas ruas que se cruzam,
buzinando, pausadamente,
em avenidas
onde grandes edifícios se erguem ou enquistadas em vielas
pelo tráfico vacilante
carros que guincham e máquinas
tão doloroso para este
campo, este cemitério
esta quietude
em leito de morte ou montanha
que visto uma vez
não se recupera ou deseja
na memória futura
em que todo o Manhattan que vi irá desaparecer
Allen Ginsberg
Trad.: José Alberto Oliveira

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Patrioteirismos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 30 de Julho de 2010


1. Esta crónica ri-se do patrioteirismo de pacotilha que anda por aí à volta dos negócios da PT e recomenda a leitura de “O Império”, dos marxistas Michael Hardt e Toni Negri.

A ideia de nação não é uma ideia natural, é uma construção mental que tem evoluído ao longo dos tempos. Como disse Benedict Anderson: a nação é uma “comunidade imaginada” que, depois, “se tornou a única forma de imaginar a comunidade”.

Foi com o absolutismo e, mais tarde, com a burguesia e o capitalismo que a “nação” se organizou nos estados modernos. A nação definiu o “nós” e o “outros”, a nação declarou a guerra e a paz. Foi até a ideia de nação que acabou com as “nações subalternas” a que se chamava colónias.

O enterro do colonialismo e o derrube do muro de Berlim aceleraram a globalização. Os grandes problemas deixaram de ter soluções à escala dos países, por maiores que eles sejam.


Imagem daqui
Instituições supra-nacionais como as Nações Unidas ou o G-20 têm um papel cada vez maior. O processo globalizador criou muita jurisprudência internacional e fez surgir, até, justiça penal internacional.

Tudo isto teve consequências políticas: há cem anos, as esquerdas eram internacionalistas e cosmopolitas e as direitas eram nacionalistas e paroquiais. Agora, perante a globalização, os papéis inverteram-se.


2. José Sócrates, em dificuldades, vai disparando em todas as direcções. Já Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Manuel Alegre (o mais anacrónico dos três) respondem à actual crise sistémica global com um pensamento nacionalista que só é útil aos nossos grupos económicos que vivem aconichados no estado e são incapazes de criarem riqueza. Ou de pagarem impostos decentes, como se vê na banca.

Infelizmente, ninguém nas próximas presidenciais parece capaz de agitar este pântano. A esquerda desistiu de as tentar ganhar. E Cavaco não tem rasgo.

Elegia (Saudade)

Fotografia de Stephan Vanfleteren



Hoje é um dia de perfeito Verão. Já nele vejo,
com a dor de não querer ver, coisas de Outono
quedas e melancolias, preparações do fim.
É por vezes em esplendor que as durações terminam
- crepúsculos, vindimas e bem-aventuranças.
Mas hoje ainda é Julho e dia de Verão
não queria ver a água tão limpa deste tanque
tocada pelas folhas que a vide já perdeu.
Não queria ver ainda, mas a alma mesmo cega
por distracções diurnas e brilhos mensageiros
não deixa de guardar em cofre o que não viu
para um momento exacto de silêncio e solidão.

Hoje é dia de Julho mas são coisas de Outubro
que já nele vaticinam melancolia e fim.
Não queria ver ainda este voo de andorinhas
caindo para sul - elas são chamadas a desaparecer.
Também este sossego no pátio das traseiras
ainda não o queria ver - aí já morrem pétalas
dos vasos das hortênsias. Frutos não colhidos
apodrecem pelo chão - ameixas de Julho
lançadas a Novembro. E tu, com a beleza
que o Verão concede ao corpo: não queria ver ainda
essa expressão furtiva de quem se desengana
e entrega ao desamor. E no entanto é isso:
já cedo anoitece em províncias do teu rosto.

Hoje é dia de verão. Pudesse eu percebê-lo
sem os declínios e as forças sombreantes
antes nesse esplendor em que as durações culminam
- crepúsculos, vindimas e bem-aventuranças.
Oh, deixemos a tristeza desta lúcida saudade
e vamos para o sol e os jardins cheios de gente
louvemos as bebidas tão frescas e os risos
o rumor da aragem nas tílias e nas bétulas
e os cortinados leves arfando nas janelas.
As raparigas brilham e os rapazes são de sempre
no perfeito verão do seu dia de calor.
Que importa reparar que a hora já rodou
e o meu corpo lança uma sombra sobre o teu?
Carlos Poças Falcão



terça-feira, 29 de julho de 2014

em folhas de acetato me proteges

Imagem de Katerina Belkina 



em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.
António Franco Alexandre




segunda-feira, 28 de julho de 2014

Lúcia Araújo Silva


A  anterior presidente da concelhia do PS-Viseu tem vindo a destacar-se pelo envio de spam aos militantes socialistas, usando a base de dados do partido.

Em 1 de Junho,  Lúcia Araújo Silva mandou aos militantes um texto anónimo anti-socrático. 

Percebeu-se então que, ao divulgar um texto que caracterizava José Sócrates como um "deliquente compulsivo" que "jogou irresponsavelmente os destinos do país", Lúcia Araújo Silva, afinal, sempre execrara o anterior primeiro-ministro. 


É necessária muita solidariedade e compreensão com o sofrimento interior da ex-presidente da concelhia do PS-Viseu. 

Dá para imaginar, entre 2005 e 2011 durante o consulado socrático, a inquietação ética e as insónias de Lúcia Araújo Silva?  

Felizmente parece tudo bem com ela. Ontem, em comunicado enviado aos militantes, depois de muita e confessada "auscultação", o anti-socratismo de Lúcia Araújo Silva saiu do armário e vai a votos.

Que tenha muitos.

Gosto das mulheres que envelhecem

Fotografia Olho de Gato


Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
Nuno Júdice


domingo, 27 de julho de 2014

Autobiografía

Fotografia de Richard Sandler



No he estado nunca solo. Siempre estuve
rodeado de amor. Tranquilamente
me dejaba querer: quiso la gente,
no sé por qué, tenerme en una nube
muy blanda de cariño. Yo flotaba
de mi madre a un amigo, de mi hermano
al recuerdo de un verso, del verano
a aquel silencio en el que Dios me hablaba.
Pero quise estar solo y ser más hondo.
Crispé los puños, apreté la boca,
y huí de los demás como una roca
que se suelta en un pozo. Y vi, en el fondo,
lo que busqué: a mí mismo, esta mirada
girando en espiral hacia la nada.
Enrique García-Máiquez


sábado, 26 de julho de 2014

George Steiner sobre Ludwig Wittgenstein

"(...) a questão tabu: em que medida terá podido ser Ludwig Wittgenstein o deliberado arquitecto (a arquitectura foi uma sua paixão especializada) da sua própria lenda, do halo dramático que coroava e rodeava a sua presença.


Que poderá ter havido de intencional — e, por momentos, de histriónico — nas suas excentricidades, no seu recurso ao anátema, nos acessórios da sua abstinência, como a célebre cadeira de repouso em que constava que dormia?



Que terá havido de estratégico ou de alegórico na sua confissão de que só o andante do terceiro quarteto para cordas de Brahms o preservara do suicídio?





Trata-se aqui tão-só de sugerir que Wittgenstein foi também o virtuoso de uma «anti-retórica» formidavelmente retórica."
in A POESIA DO PENSAMENTO, 
de George Steiner

Slow food

Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Rendas (#3) *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. No último verão, tratei aqui em dois Olhos de Gato do regresso às rendas que está a acontecer na economia global.

Em vez de tratar de assuntos da silly season, escrevi então aqui: "Está a acontecer um movimento contrário ao início do capitalismo. Na altura, formas de riqueza imóvel (as terras e as suas rendas) foram ultrapassadas por formas móveis de propriedade (o lucro da produção industrial)."

Ao fim e ao cabo, tudo o que o sr. Ricardo Salgado, o rentista-mor da república, e os seus mordomos Barroso e Sócrates, andaram a fazer na década que nos levou à bancarrota ilustra bem esta sede de rendas.

O capitalismo financeiro vai tomando conta do comum (a água, o solo, o subsolo, as estradas, o vento, ...) através de formas cada vez mais complexas de propriedade (vejam-se os nós com que foram atados os contratos das rendas das eólicas, ou das PPPs rodoviárias, ou das águas do sul do distrito, ou...) Esses contratos fazem pingar nos beneficiários generosas rendas durante décadas, retirando futuro aos nossos filhos e aos nossos netos.

Como explica o economista suíço Christian Marazzi, quem gaba as virtudes da "economia real" contrapondo-as às maningâncias da "finança" não percebe o essencial: o combustível económico é, agora, cada vez mais a renda e cada vez menos o lucro. E o controlo da "economia do concreto" é exercido à distância.

Quem é, de facto, o "dono" dos Centros Escolares de Santa Comba Dão feitos em PPPs? Quem é o verdadeiro "dono" da A25?

Cada vez haverá mais formas imateriais de propriedade a viverem de rendas. E importa não esquecer o imaterial mais decisivo na economia do conhecimento: as ideias, as patentes, os direitos de autor.


 A partir de uma fotografia de Enric Vives-Rubio para o Público
2. António José Seguro, não contente com a confusão das primárias, marcou, também para Setembro, eleições para líderes distritais do PS.

O homem só é diferente do comandante do Titanic porque quer mesmo bater num iceberg.

Desde 1955

Fotografia Olho de Gato

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Corujinhas

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Julho de 2010


1. No ano passado, muitas pessoas estavam preocupadas com o licenciamento das captações de água. O prazo imposto pelo Decreto-Lei n° 226-A/2007 queimava em 31 de Maio de 2009.

Era necessário entregar uma “peritagem técnica de captação” feita por um especialista em “hidrogeologia”. Coima mínima para os faltosos: 25 mil euros.

Uma pessoa amiga, radicada na Alemanha, marcou as férias em Maio para “tratar dos papéis” do pequeno poço que tinha no quintal.

É que na Alemanha as leis são para levar a sério. Chegado cá, percebeu que afinal a “licença dos poços” era para esquecer.

Felizmente, esteve bom tempo. O nosso emigrante fez praia em Maio e foi a Fátima no dia 13 acender uma velinha para alumiar os nossos paridores de leis.


Fotografia daqui
Uma família de emigrantes na Alemanha, ao chegar a sua casa em Portugal, percebeu que tinha na chaminé um ninho cheio de corujas e corujinhas que faziam um barulho infernal toda a noite.

Como bons cidadãos preocupados e ecológicos, eles decidiram tratar do assunto “à alemã” e foram apresentar o caso à GNR.

Resultado: durante estas férias não conseguiram dormir uma noite sequer por causa do barulho dos bichos. Estão proibidos de tocar nas corujas. É uma espécie protegida. Não sabem se no próximo verão vão ter o problema resolvido. Já foram avisados que vão ser eles a pagarem todas as despesas.


2. Com disse Alberto Gonçalves no DN, o secretário de estado Paulo Campos foi um “firme propagandista dos chips nas matrículas”. O governante tem razões para estar feliz. E o seu ex-assessor, que tem o jackpot da venda dos “chispes” e dos pórticos, também.

Lisboa olha para este Big-Brother com bonomia. Pensa: «se nós pagamos portagens, que pague também a ‘província’.»

É só dar tempo ao tempo. Estes pórticos hão-de dar óptimas portagens à entrada de cidades falidas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nove meses*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia editada

Depois, quando os achar, 
 porei aqui detalhes sobre 
a autoria da fotografia original
1. António Almeida Henriques (AAH) tomou posse a 22 de Outubro. Na próxima terça-feira o seu mandato faz nove meses. É o tempo de gestação de uma criança. Se há, ou não, bebé novo na política concelhia fica para depois. Desta vez olho para a forma como o novo presidente da câmara de Viseu se dá com os outros municípios.

No "eixo da A25", com Aveiro e a Guarda, AAH tem feito lobby pela linha ferroviária Aveiro-Vilar Formoso. É o dossier mais importante que tem em mãos: ou se faz (e AAH fica na história) ou não se faz (e Viseu e AAH sofrem uma derrota terrível). O "plano B" de que se fala - fazer um "ramal" Viseu-Mangualde, para ligação à linha da Beira Alta - não faz sentido. Cem milhões de euros para substituir uma viagem de vinte minutos de carro?

Nas tradicionalmente frias relações entre Viseu e Coimbra, AAH pôs mais gelo em cima do gelo ao defender uma auto-estrada Viseu-Condeixa em que as viagens de e para Lisboa não passam por Coimbra. Esta ideia é boa logo que a nova auto-estrada não estrague o IP3, que deverá ser mantido como alternativa não portajada.

Já no que se refere às relações de Viseu com os concelhos vizinhos, como se viu na CIM Viseu Dão Lafões, estes nove meses foram infecundos, apesar de AAH, em todas as suas intervenções, referir e tornar a referir Viseu como "cidade-região". A esta bengala de linguagem ainda não correspondeu nenhum conteúdo político nem nenhuma alteração relacional com os municípios vizinhos.

2. AAH fez os Jardins Efémeros em cima do calendário do tondelense Tom de Festa, o mais antigo festival português de músicas do mundo.

Em primeiro lugar, não se põe um evento com o impacto dos Jardins Efémeros, que não depende da bilheteira, a concorrer com o Tom de Festa que precisa da receita da bilheteira.

Mas o pior é político: AAH enche a boca com o slogan "Viseu, cidade-região" para quê? Para secar a região à volta?

ÍTACA


Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!

Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:coral e madrepérola,
âmbar e marfim,e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto, para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito, que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Constantine P. Cavafy (Kavafis)
Tradução: Jorge de Sena

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O assobio *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 16 de Julho de 2010


1. Os filmes de Emir Kusturica são únicos e inconfundíveis: têm alegria, fantasia, delírio. E muita bicharada. Os seus filmes são sempre um grande zoo.

Revi há pouco “A Vida É Um Milagre”, um filme que mostra Kusturica em baixa de forma, a repetir-se nas fórmulas e nos processos, mas que, mesmo assim, é muito divertido e recomendável.

Uma das personagens de “A Vida É Um Milagre” é uma burra desgostosa que se pranta em pranto no meio da linha do comboio e não sai, nem puxada, nem empurrada, nem ameaçada, nem batida. 

A burra só se mexe e deixa passar o comboio quando se lhe assobia com jeito às orelhas.

A ala esquerda do PS, nos últimos cinco anos, não foi a consciência crítica que o partido e José Sócrates precisavam.

Em 2009, antes das eleições, a esquerda do PS preocupou-se com lugares e deixou as ideias a cargo de um homem de negócios chamado António Vitorino.

Agora, nas últimas jornadas parlamentares do PS, Ferro, Soares e Pedroso puseram-se no meio da linha a chorarem a falta de debate e de vitalidade no PS, tal qual a burra de “A Vida É Um Milagre”.

Sócrates, um cinéfilo atento, resolveu aquilo com facilidade. Só precisou de lhes assobiar com jeito às orelhas o seu novo discurso “anti-neoliberal”.



2. Caras vereadoras e caros vereadores da oposição de todas as câmaras do país, deixo-vos aqui um conselho de amigo: mesmo perante uma proposta de deliberação com parecer favorável do técnico responsável, mesmo que a decisão em causa seja adequada para o interesse público, mesmo assim votem sempre contra. Sempre.

Podem deixar a seguinte declaração de voto nas deliberações: «Apesar de concordar, voto contra porque não estou disponível para, daqui a uns anos, ser multado.»

Desta forma simples, evitam futuros processos kafkianos em tribunal. Quem vos avisa…

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Tu estás aqui



Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo

domingo, 13 de julho de 2014

En los labios de una puta

Fotografia daqui



A los verdugos, decía Jean Paul Sartre,
es fácil reconocerlos: tienen cara de miedo.
A los funcionarios el reloj, pasadas las tres,
les chorrea por la muñeca como Blandi-blub.
El miedo, los funcionarios, los artistas:
el mismo material de construcción.

Nietzsche mató a Dios,
Lou Andreas Salomé, después del clímax,
acabó con Nietzsche y de paso con Rilke.
Fausto devoró a Goethe,
pero ahí siguen la Pepsi y la Cocacola.

Vivimos rodeados de ventanas:
hablamos con ciberfontaneros australianos
y nos comemos los huevos sin sal
porque no conocemos al vecino de enfrente.

A los artistas es fácil reconocerlos,
tienen cara de verdugo…
Cuantos más conozco
más entiendo a las putas:
al menos ellas no se dejan besar
en los labios; guardan ahí su “pan de higos”,
su salvación, su pureza de oficio antiguo.

En los labios de una puta duerme el Fuego,
descansa tu Dignidad.
Angel Petisme


sábado, 12 de julho de 2014

Não olhem para trás, meus filhos

Fotografia de Joseph Szabo


Não olhem para trás, meus filhos.
Um mar viscoso e ardente fica lá em baixo.
O ar áspero fere como se fosse areia

e aqui, por estes pilares salgados,
estão os que não perdoam. Segurem-se
ao rebordo da montanha, mesmo que

se desfaça em pó. Caminhem ou rastejam,
deixem que as rochas firam os pés sem piedade.
E esqueçam a cidade fumegante. Deus castiga os que se arrependem.
Elaine Feinstein


sexta-feira, 11 de julho de 2014

Uma pergunta a António Almeida Henriques, José António Jesus, Sandra Oliveira e José Rui Martins...

... não têm o número de telefone uns dos outros?

Jornal do Centro, edição de hoje, página 45

JE *

* Texto publicado hoje num suplemento do Jornal do Centro dedicado aos Jardins Efémeros


1. Os Jardins Efémeros (JE) não são efémeros. Efémero está fechado no presente. Efémero não tem passado nem futuro.


"Whatever Works”, de Woody Allen, Julho de 2010, CCV
Ora, os JE têm passado: são credores directos do Cine Clube de Viseu quando este, a partir de 2009, passou a pôr gente, muita gente, na Praça D. Duarte, a ver cinema.

Ora, os JE são futuro: mostram que há sempre uma ponta para pegar num problema, seja a Rua Direita, seja a divulgação do vinho do Dão, seja o que vier.

2. Cultura é "roupagem da natureza". Cultura é humano a revestir o bruto.

Ora, os JE põem plantas em cima do granito bruto. Fazem da natureza roupagem. Naturalizam a cultura que vai acontecer.

3. Décadas de rendas congeladas e desleixo político tiraram dos centros das cidades pessoas, prestígio, comércio, lazer. Em suma: poder.

Ora, os JE têm sinalizado o que vai acontecer no país e em Viseu — o regresso de vida aos centros das cidades.

4. Durante décadas, uma casta corrupta executou (isto é, matou) milhares de milhões de euros comunitários. Essa casta está agora a encher a boca com as palavras “regeneração urbana”.

Durante a provável gentrificação que vai acontecer no centro de Viseu, importa impedir “uma extensão do espaço privadamente organizado à custa do espaço público” (para citar Innerarity).

Ora, os JE têm feito o movimento contrário — têm trazido espaços privados para a fruição pública. Como nada de estimulante sobre estes assuntos foi dito nas últimas autárquicas, pede-se aos eleitos locais, aos da situação e aos da oposição, para porem os olhos neste modo de fazer.


Selfie de Liliana Rodrigues

5. O ícone dos JE deste ano é “O CORAÇÃO DA CIDADE” criado por Liliana Rodrigues para uma empena na Rua Alexandre Herculano. 

Também ele não é nem pode ser efémero.

Sandra Oliveira, há que pensar nos JE'2015.

A voz de quem perde*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


As primárias do PS são “o” assunto político deste Verão.

Vão ser aqui tratadas respeitando, como sempre, os princípios de Norberto Bobbio: devemos tomar partido, isto é, escolher uma parte (escolhi António Costa), e, depois, devemos exercer o sentido crítico com severidade, especialmente com a nossa parte. Isto não é usual na nossa esfera pública onde há mais pensamento de rebanho do que pensamento livre.

Esta semana foram muito mediatizados dois episódios destas primárias, um do lado segurista cá no distrito, outro do lado costista na capital:


A partir de uma fotografia de Adriano Miranda 

para o jornal Público (aqui)
— as camionetas de gente com que António Borges emoldurou o comício de Seguro em S. Pedro do Sul mostraram, acima de tudo, o músculo mobilizador do ex-presidente da câmara de Resende; prenunciam um chapéu cheiinho de votos em Seguro naquele simpático concelho duriense; mais nada do que isso;

— António Costa prometeu um ministério da cultura a centenas de personalidades da área; no evento, enfileirada, uma clientela vip e luzidia; fabricar um ministro da cultura é fácil e não vem daí mal ao mundo; mau, muito mau, é os zombies socráticos não desalaparem nem serem enxotados.

Nem o comício de Seguro nem o “evento cultural” de Costa, na sua banalidade, puseram ou põem problemas ao PS. Mas o PS está com problemas. Todos os actos eleitorais precisam de regras claras, aceites por todos. Não é o caso. O caderno eleitoral vai estar em obras até quase às eleições. Vai haver adesão espontânea de simpatizantes mas vai também haver arrebanhamento caciqueiro.

A voz mais importante numas eleições, especialmente numas eleições problemáticas, não é a do vencedor mas sim do vencido. Se, na noite de 28 de Setembro, o vencido não aceitar os resultados, cenário que não se pode afastar atendendo à forma como as coisas estão a ser organizadas, então o PS corre sérios riscos de se estilhaçar.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Promessa

Fotografia de Wiiliam Klein



Talvez fossem melhores
os nossos corações quando eram frágeis
e um golpe de mar, ou a noite de Julho
puderam abrir as caladas feridas
que agora, e para sempre, chamaremos saudades.
Talvez fossem melhores quando eram
como regatos ligeiros ou chuvosas tardes
que molhavam a infância e partiam
um domingo qualquer; um vale aberto,
areais imensos, aquela varanda
parada diante de polidos gerânios.
Não escolheram barcos para ir para longe;
nem a brisa leve de um verão
que os apagasse, com seu fogo insubmisso.
Semelhantes aos homens, desejaram
as árvores antigas desta terra.
Ramiro Fonte

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Padeira de Aljubarrota

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 9 de Julho de 2010

1. No caso PT/Telefónica todos os políticos fizeram de “padeira de Aljubarrota”, de Portas a Louçã, passando por Cavaco. Até o “liberal” Passos Coelho tartamudeou um “nim” a medo.

Mas afaste-se a espuma política e olhe-se para o assunto.

Fotografia daqui
Zeinal Bava não se cansou de dizer: o mercado brasileiro representa 72% dos clientes da PT, 45% das suas receitas e 40% dos lucros. Ora, como explica o blogue The Portuguese Economy, esses números querem dizer duas coisas:
i) são os clientes domésticos da PT (28%) que geram 55% das receitas e 60% dos lucros da empresa;
ii) são, portanto, os clientes portugueses que estão a financiar a expansão da PT no Brasil.

Para os clientes da PT não era mau que os espanhóis levassem a Vivo. Podiam levar até o sr. Rui Pedro Soares de brinde.

É o filme do costume: o estado exerce o seu direito de pernada na PT. Isso dá prazer aos boys. Mas só a eles.

2. Segundo os jornais, o PS e o PSD andam a congeminar uma política de “discriminação positiva” para as SCUT. Uma “discriminação positiva” que, evidentemente, depois há-de ser anulada no PEC de 2013 ou de 2014. Para já, entretém as tropas.

Depois de terem andado a dormir e terem deixado passar os “chispes das matrículas” e os pórticos de portagens electrónicas, os políticos locais engoliram também este anzol. Até já fazem conferências de imprensa a dizer que “a minha ‘discriminação positiva’ é melhor que a tua”.

Ora tudo isto é um engodo e - muito pior – é um insulto. Nós não somos índios nem devemos deixar que nos tratem como tal. O que pagar um minhoto, ou um alentejano, ou um espanhol deve ser o que nós pagamos.

Para começo de conversa, devia ser dito com firmeza ao governo: só aceitamos portagens na A25 quando nos devolverem o IP5, a excelente alternativa que a A25 nos tirou.

As musas cegas (VIII)

Fotografia de Leonard Freed



Ignoro quem dorme, a minha boca ressoa.
Despedir-se dos meses é uma nova tarefa, um ofício
inquieto. Às vezes na noite
veja as casas pequenas, as rosas que se voltam
para o subterrâneo e subtil
ruído da seiva. Penso nas mulheres
de pálpebras descidas, no seu espírito
expansivo que repousa. Nas crianças que enlouquecem
silenciosamente dentro da sua inocência.
Às vezes na noite ainda jovem, mas
que principia a engolfar-se no seu doce
hermetismo - tantas vezes
penso na chuva, e nos corpos, e nas pontes onde
se encontra alguém
com as cegas mãos escorrendo para o fundo
o sangue de uma imensa
inspiração. Eu sei: despedir-se dos meses
é um ofício inquieto.
As luzes, as mesas, as armas antigas, os jardins debruçados
nas violas paradas. Não sei o que há
tão veloz e tão firme
na base de um homem. Às vezes vejo
que é uma invencível doçura, um espanto
colorido em redor de uma casa, uma raiva
generosa nas mãos iluminadas.
Mas no fundo, no fundo,
é a boca desmanchada que sangra devagar.
Ignoro quem dorme, é um ofício novo e louco,
uma tarefa perene do coração
sobre quanto se ignora. Minha boca ressoa.
Os próprios meses ressoam com espelhos ardentes,
como telhados, cúpulas, livros,
como objectos ardentes.
Sobre um rosto eu diria: é um rosto? Sobre
uma vida eu perguntaria se era
a força de uma vida. Porque os ossos e as veias
vão de corpo para corpo,
e despedir-se de tudo é um ofício inquieto.
Tudo isto é uma musa, um poder, uma pungente
sabedoria. As rosas que há
nas palavras, as palavras que estão
no alto como fungos luminosos, as palavras
que gravitam em baixo
no instável momento que avança e recua
ao pé da eternidade - as mãos
rodeando uma lâmpada, essas mãos
docemente cobertas de sangue - tudo isso
disposto para a inquietação de um ofício.
Eu sei: as vigas da cabeça estremecem um pouco.
Partem-se, aqui e ali,
alguns arcos secundários. Uma vida pode tremer
do princípio ao fim. É instantâneo,
eterno. Mas é o homem
que recebe a inspiração violenta.
Ignore quem dorme, a minha boca está no fundo,
móvel, coberta de sangue, a minha
boca ressoa como as cavernas de um barco,
a minha boca da minha vida
é um ofício. O meu ofício de despedir-me
um pouco engolfado na loucura.
A minha tarefa inquieta de pôr a vida
na sua oculta loucura.
Tudo isto canta na galeria dos meses
ornados de delgados mastros
acesos. E despedir-se dia a dia
desta torrente de pequenas imagens alucinadas e mansas
é um mester ainda jovem,
algo que se aprende lentamente com as mãos
e a garganta e a testa
e o marulho das águas que correm profundamente
em lugares inacessíveis,
sem nomes nem janelas por onde surja a cabeça
coroada de violinos.
É um violento ofício, e no fundo desse ofício
violento e puro,
a boca está coberta de um perturbado sangue
masculino.
Herberto Helder



terça-feira, 8 de julho de 2014

O Sul

Fotografia de William Klein



De um dos teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
e do banco da sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que a minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
- essas coisas talvez sejam o poema.
Jorge Luís Borges

segunda-feira, 7 de julho de 2014

VistaCurta 2014 — Festival de Curtas de Viseu (Cine Clube de Viseu e Projecto Património)

Curtas visionáveis aqui

Levanta-te, não chores

Fotografia de Marc Riboud



Levanta-te, não chores.
Tens de saber que às vezes é difícil
matar o que nos mata,
ir aguçando o gume do cutelo
e movê-lo depois, logo em relâmpago,
até que o monstro seja degolado
e não fique sequer uma gota de sangue,
da cicuta voraz que lhe corria
plas veias tão geladas, sob a pele
que terias beijado quase a medo
em busca de um sabor que fosse o fogo
e o ar e a água,
mas era só veneno adocicado,
daquele que vicia sem parecer viciar
e nos deixa sem cura a vida inteira.

Levanta-te, bem sabes,
desde o tempo dos contos infantis,
que todo o mal procura disfarçar-se
em rostos como aquele,
na perfeição volátil desse abismo
a que chamam beleza e vai ardendo
em lânguidos sorrisos e olhares
feitos de pura seda, seduzindo
espíritos como o teu,
demasiado inocentes ou perversos
para desconfiar da eternidade
ou para resistir à luz fosforescente
que, obedecendo às leis da natureza,
sempre soube atrair até à morte
o alucinado voo das borboletas.

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo
de apertar o gatilho as vezes necessárias
para que tudo morra - os estertores
da tua alma ou do teu corpo
mesmo assim doem menos, acredita,
que o travo torvo dos piores remorsos.
E se vires que é preciso
rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,
os mil e um poemas
que haverias de ler, talvez sem esforço,
à flor daquela face, não hesites,
porque a felicidade tem um preço
e os versos, quaisquer versos, são apenas
a memória infiel deste vento que move
as árvores lá fora enquanto é noite,
mas que às primeiras horas da manhã
deixará elevar-se um nevoeiro
tão espesso e esbranquiçado, que o amor
será nesse momento uma palavra baça
que nada te dirá, a ti ou a ninguém.
Fernando Pinto do Amaral


domingo, 6 de julho de 2014

A apertar O CORAÇÃO DA CIDADE

Criação de Liliana Rodrigues
Fotografia Olho de Gato

Únicos e raros

Fotografia de Marc Riboud



Mas sente agora a minha crueldade
sem defesa,
porque to confesso e confesso em verdade
e com verdade: se de alguma coisa tive medo
foi do teu riso trémulo
e poroso como um
desmaio,
do recorte dos ombros,
da tua camisola verde — de um poema
de Byron.
E, sobretudo, sim, da tua grande, da tua imensa
tristeza.
E só por isso
me doeu o deserto que te (e me) arrastava; tantas as mágoas,
as afinidades,
as cumplicidades.
Porque nós somos únicos
e raros.
Juro.
Eduarda Chiote

sábado, 5 de julho de 2014

Mota Faria

Mota Faria
Ontem, no seu blogue "Viseu, Senhora da Beira",  Fernando Figueiredo  interpelou o blogue "A Tribuna de Viseu" e  este modesto estabelecimento.

"Tomem lá a bola!" — foi a expressão que ele usou, expressão muito sintonizada com o campeonato do mundo de futebol que está a decorrer.

O assunto a ser tratado é este:


Miguel Fernandes, em A Tribuna de Viseu, de chuteiras bem atadas, driblou dois adversários, correu para a área e rematou, como se costuma dizer, com conta peso e medida, marcando golo: "uma campanha de lista única não é uma campanha é uma tomada de posse."

Tendo ficado tudo dito, resta-me fazer um pequeno zoom a Mota Faria, o líder distrital do PSD, que, com este acto eleitoral de lista única, consegue, com o seu jeito suave, fazer esquecer a derrota copiosa que levou no sul do distrito, nas últimas autárquicas. 

É natural esta amnésia laranja: para além da conhecida habilidade estratégica e tática de Mota Faria, convém não esquecer que a massa de água enorme da barragem da Aguieira causa com frequência um imenso nevoeiro, nevoeiro especialmente gravoso nos concelhos de Carregal do Sal, de Nelas e de Santa Comba Dão. 

Mas, se me permites uma pequena ironia, Fernando, dir-te-ia para acabar: a sorte de Mota Faria foi o concelho mais a sul do distrito ter virado para o Norte.